O que fazem membros do PCP no "Congresso das Alternativas"?

por Américo Nunes

Segundo o Público (de 5/10 p. 8) Manuel Carvalho da Silva, até há poucos meses secretário-geral da CGTP-IN, um dos organizadores e porta-vozes do auto-designado congresso das alternativas, assumindo-se como membro do partido, afirma: "há na organização militantes do BE, do PS e do PCP – do PCP não somos assim tão poucos". É no mínimo surpreendente que alguém que há bastante tempo e de forma metódica, em declarações sucessivas à comunicação social tem feito questão de se distanciar do seu partido, venha agora assumir a sua condição de militante na organização deste congresso para enfatizar a participação de "não poucos" militantes do PCP.

Se esta afirmação é verdadeira, das duas uma: ou há camaradas que andam distraídos, e em vez de discutirem nas reuniões partidárias ou na tribuna do Avante!, as propostas de resolução política, de alterações ao programa e estatutos do Partido, em discussão para a aprovação no XIX Congresso, defendendo aí as suas posições, nomeadamente quanto a alianças sociais, políticas, a plataformas de unidade, alternativas ou convergências, para que sejam aprovadas e levadas à prática pelos seus órgãos legítimos com toda a força e coesão, ou então, desconhecem as regras, natureza e características do Partido. Senão não constituiriam nem integrariam organização paralela para discutir, enquanto militantes do PCP e à revelia da sua direcção, com outros cidadãos e membros de outros partidos, propostas de alternativa política próprias.

Sempre ouvi dizer que aqueles que têm problemas com a mulher e começam a discuti-los com os vizinhos em vez de os resolverem com ela em casa, já estão é a pensar no divórcio (e litigioso) e o que procuram é arregimentar testemunhas para a sua causa. Por mim penso que é muito mais civilizado, democrático e corajoso resolverem-se as coisas pela discussão clara e frontal, e a bem, por mútuo acordo, do que criarem-se pretextos para armar em vítima.

Sou dos que pensam que a democraticidade do Partido (bem como de qualquer outra associação) passa pelo cumprimento das suas regras e, no caso, pela disciplina partidária. Admitindo que alguns dos camaradas contabilizados pelo acima citado porta-voz do congresso das alternativas as possam desconhecer, para seu governo e ilustração permito-me citar uma das que em minha opinião se aplicam à situação em causa.

Se dúvidas houvesse sobre esta leitura, os organizadores do congresso da Aula Magna encarregaram-se de as eliminar ao decidirem aprovar um programa político e manter-se organizados para o levar à prática. Ora veja-se:

"Artigo 16.º 2. São princípios orgânicos fundamentais: (do PCP) (…) h) o cumprimento das disposições estatutárias por todos os membros do Partido e a não admissão de fracções – entendidas como a formação de grupos ou tendências organizadas – que desenvolvam actividades em torno de iniciativas, propostas ou plataformas politicas próprias".

Não proponho que esta regra seja revogada pelo XIX Congresso do Partido. Antes proponho que os órgãos dirigentes que vierem a ser eleitos incluam nos conteúdos para a formação dos quadros, o estudo, divulgação e interpretação dos estatutos. E que os organismos de base e intermédios do Partido, nas suas reuniões regulares, contemplem um ponto prévio em que seja discutido um artigo em cada reunião.

O original encontra-se em http://www.avante.pt/pt/2029/pcp/122285/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
19/Out/12