Guerra e compras um extremismo que nunca diz o seu nome
por John Pilger
Procurando uma livraria que já lá não estava, entrei num
labirinto desenhado como uma verdadeira armadilha. Sair dali tornou-se uma
ilusão distante, tal como Alice quando passou para o outro lado do
espelho. As paredes de vidro curvavam-se em círculos concêntricos
enquanto uma "loja" se fundia com outra: a Armani tornava-se a Dinki
Di Pies. As "saídas" desembocavam num sem número de
novas "ofertas" e "oportunidades únicas". Ao
procurar direcções acabei por comprar um par de óculos de
sol: qualquer coisa para sair dali. Era uma visão do inferno. Trata-se
do mega centro comercial de Westfield.
Isto passou-se em Sidney onde começou o império Westfield
num centro comercial que não tem nem a metade do tamanho daquele
que abriram em Stratford, East London, em 13 de Setembro último. Ali
podemos encontrar "Tudo", como dizia Jonathan Glancey, um
crítico de arquitectura: da Apple à Primark, do MacDonald's ao
KFC e ao Krispy Kreme. Há um cinema com 17 salas e com "luxuosos
lugares vip" e uma gigantesca e não menos luxuosa sala de bowling.
Tracey Emin e Mary Portas são os nomes de quem dirige a "equipa
cultural" da Westfield. O maior casino lá do sítio
olhará de cima uma rua "24-hour lifestyle " a que chamam The
Arcade. Essa mesma via será a única forma de acesso aos Jogos
Olímpicos de 2012 por onde terão de passar 10 milhões de
pessoas. A mensagem simples e grotesca do "compra, compra" foi aquela
escolhida por Londres para acolher o mundo.
"Se virem o filme da Disney Wall-E", escrevia Glancey em 2008,
"certamente reconhecerão Westfield e centros comerciais do mesmo
género. No filme os humanos, tendo abandonado o planeta terra que a sua
própria ganância destruíra, vivem uma vida absolutamente
sedentária que se resume a comer e consumir. Têm um corpo redondo
e atarracado e perderam totalmente o uso das suas pernas. Será que
é assim que vamos acabar? Ou será que vamos cair nas profundezas
de uma recessão gigantesca
sem nada com que comprar nem onde
comprar?" Numa imediaticidade menos apocalíptica, Westfield
é "um passo rumo ao nosso desejo colectivo de destruir a vida e a
cultura tradicional das nossas cidades, assim como a sua arquitectura,
comprando cada vez mais."
O plano inicial de desenvolvimento da cidade de Stratfor invocava Barcelona:
uma grelha bem definida de ruas de lojas e habitações. Moderna,
civilizada. Depois disso os Olímpicos impuseram-se e com eles a
Westfield, uma grande corporação patrocinadora do evento. O mega
centro comercial, o maior da Europa por sinal, foi construído no meio de
um nevoeiro de grandes blocos de apartamentos não muito longe dos locais
onde ocorreram os distúrbios recentes. Os seus produtos de
"designer", feitos à custa da mais barata e arregimentada
mão-de-obra, são chamativos para os mais endividados. O facto de
situar-se num local onde os trabalhadores londrinos costumavam produzir
comboios milhares de carruagens, locomotivas, vagões comerciais
naquilo a que outrora se chamou
produzir,
desperta-nos um interesse melancólico. Os empregos do mega centro
comercial não produzem absolutamente nada e são muito mal pagos.
É um símbolo destes nossos tempos extremos.
Frank Lowy é co-fundador da Westfield, bilionário
israelense-australiano, está para o comércio como Robert Murdoch
para os media. Westfield é proprietário ou tem
participações em mais de 120 centros comerciais em todo o mundo.
A torre de Sydney, a estrutura mais visível da cidade, tem estampado o
seu nome: "Westfield". Lowy, um antigo comando israelita, doa
milhões ao estado de Israel e em 2003 fundou o "independente"
Instituto Lowy para as Relações Internacionais (Lowy Institute
for Foreing Affairs) que promove a política externa de Israel e dos
Estados Unidos.
No mesmo dia em que abriu o centro comercial de Stratford, os investigadores de
Unicef afirmavam em relatório que as crianças britânicas
eram apanhadas numa "armadilha materialista" que consistia em
"comprá-los" com produtos de marca. Os pais de rendimento
reduzido sentiam "uma pressão tremenda da sociedade" para
comprar "roupas de marca, sapatilhas de marca e tecnologia" para as
suas crianças. À publicidade televisiva e outras formas de
sedução da "cultura do consumo" juntam-se os baixos
rendimentos e longas horas de trabalho, como responsáveis pela
situação. As crianças contaram aos investigadores que
prefeririam passar mais tempo com a sua família e ter mais actividades
ao ar livre, mas isto na maior parte das vezes não era possível.
Assim como "segurança social" se tornou numa palavra maldita,
também o equipamento social para os jovens e as
associações juvenis estão a ser progressivamente
eliminadas pelas autoridades locais.
Há quatro anos atrás a Unicef publicou uma tabela relativa ao
bem-estar das crianças em 21 países industrializados. O Reino
Unido encontrava-se no fim da tabela. Um quinto das crianças
britânicas vive na pobreza: um número que se prevê aumentar
no ano das Olimpíadas. A prioridade da classe política
britânica, independentemente do partido, é fazer o cidadão
comum pagar o "défice", termo cínico e capcioso usado
para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar
sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros
países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.
É um extremismo que castra as sociais-democracias, que foram a
redenção europeia do pós-guerra. O empobrecimento
forçado da Grécia, com as exorbitantes contrapartidas exigidas
pela banca alemã e francesa, levará provavelmente a outro golpe
fascista. O empobrecimento forçado de milhões de britânicos
levado a cabo pelo "antigo regime" de David Cameron, com o seu
crescente estado policial e burguesia complacente, especialmente nos media,
produzira mais motins: nada é mais certo. Poderemos contar com o
extremismo do apartheid para despoletar tal resultado, e pouco importará
o lustro consumista hermeticamente fechado num gigantesco centro comercial.
Perspectiva-se uma democracia para os ricos e totalitarismo para os pobres, e
não só; e claro "intervenção liberal",
como lhe chamou num tom aprovador o
The Guardian,
para aquelas regiões demasiado frágeis para resistirem à
"precisão" dos nossos mísseis Brimstone.
Fui noutro dia ao Parliament Square. O gráfico que mostrava os crimes
estatais, da autoria do activista pela paz e justiça Brian Haw, fora
finalmente retirado pela polícia metropolitana. Ela sabia que Brian
já não lhes podia fazer frente, tanto física como
legalmente, como o fizera durante uma década. Brian morreu em Junho
passado. Ao visitá-lo durante um natal gélido, fiquei emocionado
pela maneira como persuadia os mais simples transeuntes e com a força da
sua coragem. Necessitamos agora de milhões como ele. Urgentemente.
22/Setembro/2011
O original encontra-se em
www.johnpilger.com/
. Tradução de MQ.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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