Nenhuma notícia é fria
por John Pilger
De como o óbvio se tornou invisível na pauta
de notícias dos actuais media que se dizem "de
referência". As notícias que não
dão primeiras páginas
são "notícias frias". Exemplos: a
resistência a potências estrangeiras de palestinos, de iraquianos
comuns e de afegãos são "notícias frias" ao
passo que as mortíferas maquinações de Bush e Blair
são "notícias regulares".
Quando comecei a trabalhar como jornalista havia algo chamado
"notícias frias"
("slow news").
Quando nada acontecia dizíamos que eram "dias de notícias
frias" excepto vitórias e tragédias nos lugares
distantes onde vivia a maior parte da humanidade. Estas raramente eram
relatadas, ou as tragédias eram descartadas como actos da natureza,
apesar das provas em contrário. O valor das notícias de todas as
sociedades era medido pelo seu relacionamento "connosco" no ocidente
e o seu grau de acatamento, ou hostilidade, à nossa autoridade. Se elas
não se ajustassem, eram notícias frias.
Pouco destas concepções foi alterado. Para mantê-las,
milhões de pessoas permanecem invisíveis, e descartáveis.
No 11 de Setembro de 2001, enquanto o mundo lamentava as mortes de quase 3000
pessoas nos Estados Unidos, a Organização das
Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
(FAO) relatava que mais de 36 mil crianças haviam morrido devido aos
efeitos da pobreza extrema. Elas foram notícias muito frias.
Vamos tomar uns poucos exemplos recentes e comparar cada uma delas com as
notícias regulares vistas na BBC e alhures. Manter em mente que os
palestinos são cronicamente notícias frias e que os israelenses
são notícias regulares.
Notícia regular: Charles Clarke, porta-voz de Tony Blair, "revive
a batalha de Downing Street" e chama Gordon Brown de
"estúpido, estúpido" e um "obcecado pelo
controle". Ele desaprovou o modo como Brown sorri. A isto é dada
cobertura até à saturação.
Notícia fria: "Um genocídio está a verificar-se em
Gaza", adverte Ilan Pappe, um dos principais historiadores de Israel.
"Esta manhã... outros três cidadãos de Gaza foram
mortos e uma família inteira ferida. Isto é a colheita da
manhã, antes do fim do dia muitos mais serão massacrados".
Notícia regular: Blair visita a Cisjordania e o Líbano como um
"pacificador" um "intermediário" entre o primeiro
ministro israelense e o "moderado" presidente palestino. Mantendo
uma expressão indiferente, ele adverte contra
"actuações mediáticas"
("grandstanding")
e "distribuir a culpa".
Notícia fria: Quando o exército israelense atacou a Cisjordania
em 2002, arrasando casas, matando civis e destruindo lares e museus, Blair foi
avisado previamente e deu "o sinal verde". Ele também foi
advertido acerca dos recentes ataques israelenses a Gaza e ao Líbano.
Notícia regular: Blair disse ao Irão para prestar
atenção ao Conselho de Segurança da ONU e "não
avançar com um programa nuclear".
Notícia fria: O ataque israelense ao Líbano fazia parte de uma
sequência de operações militares planeadas cuidadosamente,
das quais a próxima é o Irão. As forças americanas
estão prontas para destruir 10 mil alvos. Os EUA e Israel contemplam a
utilização de armas nucleares tácticas contra o
Irão, muito embora o programa de armas nucleares do Irão
não exista.
Notícia regular: "Temos estado a fazer progresso real em
áreas onde a insurgência tem sido mais forte", diz um
porta-voz americano no Iraque.
Notícia fria: Os militares americanos perderam todo o controle sobre a
Província al-Anbar, a ocidente de Bagdad, incluindo as cidades de Faluja
e Ramadi, as quais agora estão nas mãos da resistência.
Isto significa que os EUA perderam o controle de grande parte do Iraque.
Notícia regular: "É bastante claro que tem sido feito
progresso real [no Afeganistão]", diz o Foreign Office.
Notícia fria: a nato mata 13 civis afegãos, incluindo nove
crianças, durante um ataque a fim de "proporcionar cobertura"
às tropas com base em Musa Kala, na Província Helmand.
Notícia regular: Blair é o primeiro-ministro trabalhista com
mais êxito, pois venceu três eleições consecutivas de
modo esmagador.
Notícia fria: Em 1997, Tony Blair recebeu menos votos populares do que
os Conservadores de John Major em 1992. Em 2001, Blair recebeu menos votos
populares do que os trabalhistas de Neil Kinnock em 1992. Em 2005, Blair
recebeu menos votos populares do que os Conservadores em 1997. As
últimas duas eleições produziram os mais baixos
comparecimentos desde a cidadania.
Notícia regular: Na era de Blair "a ideologia rendeu-se
inteiramente aos 'valores'... não há vacas sagradas [e] nem
limites fossilizados para o terreno sobre o qual a mente pode estender-se na
busca de uma melhor Grã-Bretanha", escreveu Hugo Young,
The Guardian,
1997.
Notícia fria: "Nuremberg declarou que a guerra agressiva é
o supremo crime internacional. Eles [Bush e Blair] deveriam ser julgado
juntamente com Saddam Hussein", afirma Benjamin Ferencz, promotor chefe
dos crimes nazi em Nuremberg.
14/Setembro/2006
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=411
e no
New Statesman.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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