O vírus mais letal não é o Covid-19 é a
guerra
O Covid-19 está a dar cobertura a uma pandemia de propaganda,
afirma Pilger
O Memorial das Forças Armadas britânicas é um lugar
silencioso, fantasmagórico. Localizado na beleza rural de Staffordshire,
num arvoredo de umas 30 mil árvores e relvados envolventes, suas figura
homéricas celebram determinação e sacrifício.
Os nomes de mais de 16 mil soldados britânicos estão ali listados.
A literatura diz que "morreram no teatro de operações ou
foram alvos de terroristas".
No dia em que estive ali, um pedreiro estava a acrescentar novos nomes
àqueles que haviam morrido em cerca de 50 operações por
todo o mundo durante o período que é conhecido como "tempo
de paz". Malásia, Irlanda, Quénia, Hong Kong, Líbia,
Iraque, Palestina e muitos mais, incluindo operações secretas
tais como as da Indochina.
Nem um ano se passou desde que foi declarada a paz em 1945 sem que a
Grã-Bretanha tivesse enviado forças militares para combater as
guerras do império.
Nem um ano se passou em que países, sobretudo pobres e dilacerados por
conflito, não houvessem comprado ou recebido mediante empréstimos
em condições preferenciais armas britânicas para promover
as guerras, ou "interesses", do império.
Império? Que império? O jornalista investigativo Phil Miller
revelou recentemente em
Declassified
que a Grã-Bretanha de Boris Johnson mantinha 145 sítios
militares chame-os bases em 42 países. Johnson jactou-se
de que a Grã-Bretanha é "o principal poder naval na
Europa".
Em meio à maior emergência sanitária dos tempos modernos,
com mais de 4 milhões de procedimentos cirúrgicos adiados pelo
Serviço Nacional de Saúde, Johnson anunciou um aumento recorde de
£16,5 mil milhões [18,1 mil milhões] nos assim
chamados gastos de defesa um número que recuperaria muitas vezes
o sub-financiado SNS.
Mas estes milhares de milhões não são para defesa. A
Grã-Bretanha não tem inimigos além daqueles internos que
traem a confiança das suas pessoas comuns, seus enfermeiros e
médicos, seus cuidadores, idosos, sem abrigo e jovens, como têm
feito sucessivos governos neoliberais, Conservadores e Trabalhistas.
Ao explorar a serenidade do Memorial Nacional da Guerra logo percebi que ali
não havia um único monumento, ou plinto, ou placa, ou rosal
honrando a memória das vítimas da Grã-Bretanha os
civis nas operações em "tempo de paz" comemoradas aqui.
Não há lembrança dos líbios mortos quando o seu
país foi deliberadamente destruído pelo primeiro-ministro David
Cameron e seu colaboradores em Paris e Washington.
Não há uma palavra de lamento pelas mulheres e crianças
sérvias mortas pelas bombas britânicas, lançadas de uma
altura segura sobre escolas, fábricas, pontes, cidades, sob as ordens de
Tony Blair; ou pelas empobrecidas crianças iemenitas aniquiladas por
pilotos sauditas com a sua logística e alvos fornecidos pelos
britânicos na segurança do ar condicionado de Riad; ou pelos
sírios esfaimados pelas "sanções".
Não há qualquer monumento para as crianças palestinas
assassinadas com a conivência permanente da elite britânica, tal
como a recente campanha que destruiu um modesto movimento de reforma dentro do
Partido Trabalhista com acusações especiosas de anti-semitismo.
Duas semanas atrás, o chefe do estado-maior militar de Israel e o chefe
da Defesa da Grã-Bretanha assinaram um acordo para "formalizar e
reforçar" a cooperação militar. Isto não foi
notícia. Mais armas britânicas e apoio logístico agora
serão despejados no regime fora da lei de Tel Aviv, cujos atiradores de
elite alvejam crianças e psicopatas interrogam crianças em
isolamento extremo. (Ver a recente reportagem chocante de Defense for Children,
Isolated and Alone
).
Talvez a mais gritante omissão no memorial de guerra de Staffordshire
seja um reconhecimento dos milhões de iraquianos cujas vidas e cujo
país foram destruídos pela invasão ilegal de Blair e Bush
em 2003.
ORB, membro do British Polling Council, estabeleceu o número em 1,2
milhão. Em 2013, a organização ComRes perguntou a uma
amostragem do público britânico quantos iraquianos haviam morrido
na invasão. Uma grande maioria disse que menos de 10 mil.
Como se sustenta um silêncio tão letal numa sociedade refinada? A
minha resposta é que a propaganda é muito mais eficaz em
sociedades que se consideram livres do que em ditaduras e autocracias. Incluo a
censura por omissão.
As nossas indústrias de propaganda tanto políticas como
culturais, incluindo a maior parte dos meios de comunicação
social são as mais poderosas, omnipresentes e refinadas do mundo.
Grandes mentiras podem ser repetidas incessantemente nas vozes reconfortantes e
críveis da BBC. As omissões não são um problema.
Uma questão semelhante diz respeito à guerra nuclear, cuja
ameaça é "sem interesse", para citar Harold Pinter. A
Rússia, uma potência nuclear, é cercada pelo grupo
belicista conhecido como NATO, com tropas britânicas a
"manobrar" regularmente até à fronteira invadida por
Hitler.
A difamação de tudo o que é russo, não minmizando a
verdade histórica de que o Exército Vermelho venceu amplamente a
Segunda Guerra Mundial, está infiltrada na consciência
pública. Os russos não têm "nenhum interesse",
excepto como demónios.
A China, também uma potência nuclear, aguenta o fardo da
provocação incessante, com bombardeiros e drones
estratégicos americanos a sondar constantemente o seu espaço
territorial e hurra o HMS Queen Elizabeth, porta-aviões
britânico de £3 mil milhões, a zarpar em breve para uma
viagem de 6.500 milhas [10.459 km] a fim de impor a "liberdade de
navegação" aos chineses do continente.
Cerca de 400 bases americanas circundam a China, "um pouco como um
laço", disse-me um antigo planeador do Pentágono. Estas
estendem-se desde a Austrália, através do Pacífico
até ao sul e norte da Ásia e através da Eurásia.
Na Coreia do Sul, um sistema de mísseis conhecido como Terminal de
Defesa Aérea de Alta Altitude (Terminal High Altitude Air Defense,
THAAD), é apontado à queima-roupa para a China através do
estreito Mar da China Oriental. Imagine mísseis chineses no
México ou no Canadá ou ao largo da costa da Califórnia.
Alguns anos após a invasão do Iraque fiz um filme chamado
The War You Don't See,
no qual perguntei a importantes jornalistas americanos e britânicos, bem
como a executivos de noticiários televisivos pessoas que conhecia
como colegas porquê e como Bush e Blair foram autorizados a
escapar ao grande crime no Iraque, considerando que as suas mentiras não
eram muito brilhantes.
As suas respostas surpreenderam-me. Tivéssemos "nós",
disseram eles isto é, jornalistas e emissoras, especialmente nos
EUA desafiado as afirmações da Casa Branca e da Downing
Street, investigado e revelado as mentiras, ao invés de as amplificar e
reflecti-las, a invasão do Iraque em 2003 provavelmente não teria
acontecido. Inúmeras pessoas estariam vivas hoje em dia. Quatro
milhões de refugiados não teriam fugido. O pavoroso ISIS, um
produto da invasão de Blair/Bush, poderia não ter sido concebido.
David Rose, então com o
Observer
de Londres, o qual apoiou a invasão, descreveu "o pacote de
mentiras que me foi alimentado por uma campanha de desinformação
bastante sofisticada". Rageh Omah, então o homem da BBC no Iraque,
disse-me: "Falhamos em pressionar os botões mais
desconfortáveis com força suficiente". Dan Rather, o
apresentador da CBS, concordou, tal como muitos outros.
Admirei estes jornalistas que romperam o silêncio. Mas eles são
honrosas excepções. Hoje, os tambores da guerra têm novos e
altamente entusiásticos rufadores na Grã-Bretanha, na
América e no "Ocidente".
Faça a sua escolha entre a legião de caluniadores da
Rússia e da China e de promotores de ficções tal como o
Russiagate. O meu Óscar pessoal vai para Peter Hartcher de
The Sydney Morning Herald,
cujo incessante alarido sobre a "ameaça existencial" (da
China/Rússia, principalmente da China) foi ilustrado por um sorridente
Scott Morrison, o RP que é o primeiro-ministro da Austrália,
vestido como Churchill, com V de Vitória e tudo. "Não desde
os anos 30 ....", a dupla entoou.
Ad nauseum.
Covid tem proporcionado cobertura para esta pandemia de propaganda. Em Julho,
Morrison tomou a sugestão de Trump e anunciou que a Austrália,
que não tem inimigos, gastaria 270 mil milhões de dólares
australianos [167 mil milhões] em provocações,
incluindo mísseis que poderiam atingir a China.
Que as compras da China de minerais e produtos agrícolas australianos
tenham efectivamente protegido a economia da Austrália não foi
"de interesse" para o governo de Camberra.
Os meios de comunicação australianos aplaudiram quase
unanimemente, enviando uma chuva de insultos à China. Milhares de
estudantes chineses, que haviam garantido os salários brutos de
vice-chanceleres australianos, foram aconselhados pelo seu governo a irem para
outro lado. Chineses-australianos foram insultados e entregadores foram
agredidos. O racismo colonial nunca é difícil de ressuscitar.
Alguns anos atrás entrevistei o antigo responsável da CIA na
América Latina, Duane Claridge. Em algumas palavras agradavelmente
honestas, ele resumiu a política externa "ocidental" tal como
é ordenada e dirigida por Washington.
A superpotência, disse ele, podia fazer o que quisesse onde quisesse
sempre que os seus "interesses estratégicos" o ditassem. As
suas palavras foram: "Habitua-te a isto, mundo".
Relatei uma série de guerras. Vi os restos de crianças, mulheres
e idosos bombardeados e queimados até à morte: as suas aldeias
devastadas, as suas árvores engrinaldadas com partes humanas. E muito
mais.
Talvez seja por isso que reservo um desprezo específico por aqueles que
promovem o crime da guerra predadora, que a acenam com má fé e
profanidades, nunca a tendo experimentado eles próprios. O seu
monopólio deve ser rompido.
14/Dezembro/2020
[*]
Jornalista e director de cinema, australiano-britânico. Seu sítio
web é:
www.johnpilger.com
. Este artigo é uma versão do discurso proferido na campanha de
fundos Stop the War, Artists Speak Out, em Londres.
O original encontra-se em
consortiumnews.com/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
.
|