Um homicida teatro de absurdo
por John Pilger
Tente rir, por favor. Os noticiários agora são oficialmente uma
paródia e um jogo para a diversão de toda a família.
Primeira pergunta: Por que estamos "nós" no
Afeganistão? Resposta: "Para tentar ajudar no programa de
reconstrução do país". Quem disse isso?
Huw Edwards
, o principal leitor de notícias da BBC. Que comediante é este
galês.
Segunda pergunta: Por que estamos "nós" no Iraque? Resposta:
Para "implantar uma democracia aberta de estilo ocidental". Quem
disso isso?
Paul Wood
, o antigo correspondente de defesa da BBC, e sua patroa Helen Broaden,
directora
da BBC News. Para demonstrar sua afirmação, Boaden forneceu
à
Medialens.org
2700 palavras de citações de Tony Blair e George W. Bush.
Ironia? Não, ela pretendia isso.
Tome-se Andrew Martin, conselheiro da divisão de queixas da BBC, que tem
andado a procurar nos discursos de Bush "provas" das nobres
razões democráticas para arrasar uma antiga
civilização. Diz ele: "A palavra 'D' não
está ali, mas a frase 'unido, estável e livre' [é]
claramente uma alusão a isto". Afinal de contas, diz ele, a
invasão do Iraque "foi lançada como 'Operação
Liberdade Iraquiana'". Além disso, diz o homem da BBC, "no
discurso de Bush de 1 de Maio de 2003 (aquele no porta-aviões) ele falou
repetidamente acerca da liberdade e explicitamente acerca da
transição iraquiana para a democracia ... Estes exemplos mostram
que isto estava na mente de Bush antes, durante e após a
invasão".
Tente rir, por favor.
A risada pode ser difícil, concordo, dada a carnificina de civis no
Afeganistão pelos aviões da "coligação",
incluindo aqueles dirigidos pelas forças britânicas empenhadas no
"programa de reconstrução do país". O
bombardeamento de áreas civis duplicou, juntamente com as mortes de
civis, afirma o
Human Rights Watch
. No mês passado, "nossos"
aviões massacraram aproximadamente 100 civis, dois terços deles
crianças entre as idades de três meses e 16 anos, enquanto
dormiam, segundo testemunhas oculares. O noticiário da televisão
BBC inicialmente dedicou nove segundos ao relatório do Human Rights
Watch, e nada para o facto de que "menos do que amendoins" (segundo
um trabalhador da ajuda) estar a ser gasto na reconstrução de
alguma coisa no Afeganistão.
Quanto à noção de um Iraque "unido, estável e
livre", considere os contratos sem licitação dados às
maiores companhias de petróleo ocidental para a propriedade do
petróleo do país. "Roubo" é uma palavra mais
verdadeira. Redigidos pelas próprias companhias e por
responsáveis dos EUA, os contratos foram apresentados por Bush e Nouri
al-Maliki, "primeiro-ministro" do governo
"democrático" do Iraque que reside numa fortaleza americana
com ar condicionado. Isto não é notícia.
Tente rir, por favor, enquanto considera a devastação da
saúde do Iraque, outrora a melhor no Médio Oriente, pela poeira
omnipresente deixada pelas armas de urânio empobrecido britânicas e
estado-unidenses. Um estudo da Organização Mundial de
Saúde relatando uma epidemia de câncer foi suprimido, afirma seu
autor principal. Isto foi relatado na Grã-Bretanha apenas pelo
Glascow Sunday Herald
e pelo
Morning Star
. Segundo um estudo feito no ano passado pelo Colégio Médico da
Universidade de Bassorá, quase a metade de todas as mortes nas
províncias sulistas contaminadas foram causadas pelo câncer.
Tente rir, por favor, nos recentes rituais encantantórios de Nurembergs
a partir dos quais sairá o próximo presidente dos Estados Unidos.
Aqueles pagos para manter o registo limpo tem-se esmerado para apresentar um
espectáculo selecto. Barack Obama, o homem da
"mudança", quer "construir umas forças armadas do
século XXI ... para permanecer na ofensiva por toda a parte". Aqui
entra a nova Guerra Fria, com promessas de mais bombas, mais sociedade
militarizada com suas 730 bases por todo o mundo, nas quais os americanos
gastam 42 cents de cada dólar de impostos.
Internamente, Obama não propõe qualquer medida autêntica
que possa mitigar a grotesca desigualdade da América, tal como os
cuidados básicos de saúde. John McCain, seu opositor
republicano, presta-se bem a ser uma figura para caricaturas nos media o
falso "herói de guerra" agora juntou-se a uma mulher que
proscreveu Shakespeare, é amante de armas e fanática religiosa
mas o seu verdadeiro significado é que ele e Obama no essencial
partilham as mesmas perigosas receitas.
Milhares de americanos decentes vieram às duas convenções
de nomeação para exprimir a opinião divergente de
milhões dos seus compatriotas que acreditam, com boas razões, que
a sua democracia está a evaporar-se. Eles foram intimidados, presos,
batidos, gaseados com pimenta; e foram desprezados ou ignorados por aqueles
pagos para manter o registo limpo.
Enquanto isso,
Justin Webb
, o editor de América do Norte da BBC, lançou um livro sobre a
América, sua "cidade sobre uma colina". É uma
espécie de visão Mills & Boon
[1]
do sistema predatório que ele admira tão obsequiosamente. O
livro chama-se
"Tenha um lindo dia".
Tente rir, por favor.
[1] Mills & Boon: editora britânica especializada em sub-literatura.
11/Setembro/2008
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=502
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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