Cuidado com o "Dia da marmota" de Obama

por John Pilger

Filme de 1993 dirigido por Harold Hamis. Um dos filmes mais inteligentes que já vi é "O dia da marmota" (Groundhog Day) [1] , no qual Bill Murray actua como um meteorologista da TV que se descobre preso no tempo. A princípio ele tem a ilusão de que o mesmo dia e as mesmas pessoas e as mesmas circunstâncias apresentam novas oportunidades. Finalmente, sua ingenuidade e falsas esperanças abandonam-no e ele percebe a verdade da sua situação aflitiva e escapa. Será isto uma parábola para a era de Obama.

Tendo feito campanha com "A mudança em que você pode acreditar", o presidente eleito Barack Obama nomeou a sua equipe. Ela inclui Hillary Clinton, que votou por atacar o Iraque sem ler a avaliação da inteligência e desde então tem ameaçado "obliterar totalmente" o Irão por conta de uma potência externa, Israel. Durante a sua campanha primária, Obama referiu-se repetidamente às mentiras de Clinton acerca do seu registo político. Quando nomeou a sua secretária de Estado, chamou-a "minha querida amiga".

O slogan de Obama agora é "continuidade". O seu secretário da Defesa será Robert Gates, que serviu o regime Bush ilegal e empapado em sangue como secretário da Defesa, o que significa secretário da guerra (a última vez que os EUA tiveram de defender-se a si próprios foi em 1812 quando os britânicos o invadiram). Gates não queria data para uma retirada do Iraque e "mais de 20 mil soldados" a serem enviados para o Afeganistão. Ele também quer que os EUA construam um arsenal nuclear completamente novo, incluindo armas nucleares "tácticas" que turvam a distinção com as armas convencionais.

Outro produto da "continuidade" é a primeira escolha de Obama para a chefia da CIA, John Brennan, que partilha responsabilidades pelo sequestro e tortura sistemática de pessoas conhecido como "extraordinary rendition". Obama também designou Madelein Albritht para informar sobre como "fortalecer a liderança dos EUA em reacção ao genocídio". Albright como secretária de Estado foi em grande medida responsável pelo bloqueio do Iraque na década de 1990, descrito por Denis Halliday, da ONU, como genocídio.

Há mais continuidade nas nomeações de Obama dos responsáveis que tratarão da pirataria económica que deitou abaixo a Wall Street e empobreceu milhões. Como no pesadelo de Bill Murray, eles são os mesmos responsáveis que provocaram aquilo. Lawrence Summers, por exemplo, dirigirá o National Economic Council. Como secretário do Tesouro, segundo o New York Times, "promoveu a lei que desregulamentou os derivativos, os... instrumentos – também conhecidos como activos tóxicos – que disseminaram perdas financeiras [e] recusou-se a dar atenção aos críticos que advertiam dos perigos pela frente".

Há lógica aqui. Ao contrário do mito, a campanha de Obama foi financiada em grande medida pelo capital predador, tal como o Citigroup e outros responsáveis pelo escândalo das hipotecas sub-prime, cujas vítimas foram principalmente afro-americanos e outras pessoas pobres.

Será isto uma grande traição? Obama nunca escondeu o seu registo como homem de um sistema descrito por Martin Luther King como "o maior fornecedor de violência no mundo de hoje". O namorico de Obama como crítico soft do desastre no Iraque alinhava-se com a maior parte da opinião do Establishment de que aquilo fora "tolo". Os seus fãs incluem os criminosos de guerra Tony Blair, que "saudou" suas nomeações", e Henry Kissinger, que descreveu a nomeação de Hillary Clinton como "excelente". Um dos principais conselheiros de John McCain, Max Boot, que está na ala direita do Partido Republicano, disse: "Estou espantado com estas nomeações. Elas podiam facilmente ter vindo de um presidente McCain".

A vitória de Obama é histórica, não só porque ele será o primeiro presidente negro como porque ele penetrou num grande movimento popular entre minorias da América e os jovens fora do Partido Democrático. Em 2006 os latinos, a maior minoria do país, apanharam a América de surpresa quando manifestaram-se em massa nas cidades para protestar contra as leis draconianas de imigração de George W. Bush. Eles cantavam: "Si, se puede!" ("Sim, podemos!"), um slogan que posteriormente Obama afirmou como o seu próprio. Sua secretária para Segurança Interna é Janet Napolitano que, como governadora do Arizona, ganhou notoriedade por alimentar a hostilidade contra imigrantes latinos. Ela militarizou a fronteira do seu estado com o México e apoiou a construção de uma muralha odiosa, semelhante àquela que divide a Palestina ocupada.

Na véspera da eleição, relatou a Gallup, a maior parte dos apoiantes de Obama estava "empenhada" mas "profundamente pessimista acerca da futura direcção do país". Minha suposição é que muitas pessoas sabiam o que estava para vir, mas esperavam o melhor. Ao explorar esta esperança, Obama quase neutralizou o movimento anti-guerra que historicamente é aliado dos democratas. Afinal de contas, quem pode disputar com o símbolo do primeiro presidente negro neste país escravocrata, pouco importando se ele é um fomentar de guerras? Como destacou Noam Chomsky, Obama é uma "marca" diferente das outras, tendo ganho a maior campanha publicitária e atraído somas de dinheiro sem precedentes. A marca venda por algum tempo. Ele encerrará a Baía de Guantanamo, cujos presos representam menos de um por cento dos 27 mil "prisioneiros fantasmas" dos EUA. Ele continuará a fazer discursos comoventes e banais, mas as lágrimas secarão quando o povo entender que o presidente Obama é o mais recente administrador de uma máquina ideológica que transcende o poder eleitoral. Ao ser perguntado o que fariam os seus apoiantes quando a realidade irrompe-se, Stephen Walt, um conselheiro de Obama, dise: "Eles não têm nenhum lugar para ir".

Não ainda. Se há um final feliz no Dia da marmota de guerra e pilhagens repetidas, ele pode certamente ser encontrado no próprio movimento de massa cujos entusiastas registaram eleitores e bateram a portas e levaram Obama ao poder. Será que eles agora ficarão satisfeitos como espectadores diante do cinismo da "continuidade"? Em menos de três meses, milhões de americanos irados foram politizados pelo espectáculo de milhares de milhões de dólares de donativos para a Wall Street quando eles lutam para salvar os seus empregos e as suas casas. Como se sementes começassem a brotar por baixo da neve política. E a história, como o Dia da marmota, pode repetir-se. Poucos previram os acontecimentos que fizeram época na década de 1960 e a velocidade com a qual eles se sucederam. Como um beneficiário daquele tempo, Obama deveria saber que quando as viseiras são removidas, tudo é possível.

11/Dezembro/2008

[1] Groundhog Day : A expressão em inglês serve para indicar "sempre a mesma coisa outra vez", sobretudo em referência a ciclos repetitivos desagradáveis.

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=515

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
15/Dez/08