Dizer apenas "sou indígena" ou "venho de origens humildes
ou populares" não garante nada
por James Petras
entrevistado por Efrain Chury Iribarne
[*]
"Obviamente há uma grande massa de pessoas pobres que não
sabem bem a história, os zig-zag e medidas mediáticas de Evo.
Não sabem que não apoiou os levantamentos, que apoiou Carlos Mesa
e depois afastou-se das manifestações, do caminho eleitoral, etc.
Assim, penso que nas massas populares há uma divisão entre o
sector organizado e com consciência de classe e uma massa pobre que se
identifica com a simbologia do Evo pobre".
Chury: Hoje partimos das eleições bolivianas e da
transformação de Evo Morales em vencedor.
Petras: Bem, há que colocá-lo um pouco em perspectiva.
Não sou pessoa para comemorar actos eleitorais sem uma análise
cuidadosa, pois temos sido enganados tantas vezes por tantos políticos
que prometem fazer mudanças pelo povo e que, depois de serem eleitos,
lhe viram as costas. Antes de mais há que analisar o facto que tantos
valorizam, de ser o primeiro indígena eleito presidente. Em certo
sentido é verdade, mas há que recordar que há muitos anos
a Bolívia tinha um vice-presidente indígena que partilhava a
presidência com um neoliberal, e que ficou no governo, apesar das medidas
profundamente anti-populares
Além disso temos o caso de Toledo, no Peru, lembra-se?, que punha
la chomba,
o chapéu indígena, cantava algumas canções e que,
na verdade, se converteu no pior inimigo do povo peruano, que nunca ultrapassou
os 10% de apoio nos últimos dois anos da sua presidência.
Primeiro, temos o exemplo do Equador, onde o governo de Gutierrez chegou ao
poder com o apoio dos indígenas, com uma ministra dos Negócios
Estrangeiros indígena, tal como vários outros ministros, e acaba
um governo mais pró ianque e pró Plano Colômbia que
qualquer outro. Forçosamente os indígenas tinham que sair do
governo, depois do próprio Gutierrez estar derrotado. Segundo: temos o
exemplo de Lula, supostamente um homem do povo que, enquanto há 90
milhões de pobres no Brasil, decide pagar 15 mil milhões de
dólares ao Fundo Monetário Internacional, pagando inclusive com
muita antecipação, em vez de melhorar as condições
de vida desses pobres.
Com isto quero dizer que afirmar simplesmente "sou indígena ou
venho de origens humildes ou populares não garante nada". E em
terceiro lugar, nos últimos dois anos, é evidente para qualquer
observador que não seja cego, surdo e mudo, que o senhor Evo Morales
guinou bastante à direita, opondo-se às
manifestações, não participando no grande protesto que
derrotou Sanchez de Lozada, que apoiou Carlos Mesa até que, em 2005, os
lutadores o expulsaram e que ultimamente tem falado de um capitalismo
ridículo a que chama capitalismo andino, supostamente um capitalismo
mais simpático para os índios explorados da montanha. Conversou,
sem o publicitar, com o embaixador americano, teve consultas com os
capitalistas que lhe financiaram a campanha e que disseram que vão
continuar a pagar a dívida. Diz que vai nacionalizar o petróleo
e o gás, mas o seu vice-presidente diz que vai respeitar os contratos e
que, simplesmente, vai aumentar o imposto sobre a extracção.
Também há indicações de que ganhou apoio em Santa
Cruz pactuando com os oligarcas locais, dizendo-lhes que não vai tocar
nos seus interesses, etc. Deste modo, Evo Morales chega à
presidência como Lula, com uma maioria esmagadora, apoiado pelos
indígenas, os pobres, El Alto e também sectores da classe
média e outros sectores capitalistas. Então, quem vai ser
beneficiado: o povo ou os capitalistas? Onde se podem inserir os pobres: no
capitalismo andino, que é a bandeira de Evo Morales e que diz que o
socialismo não é para os próximos 50 ou 100 anos?
Devemos ter muita cautela, creio que se trata de outro caso de centro-esquerda,
tão contestado ultimamente, e apoiar os movimentos sindicais e populares
que disseram a Evo que a primeira medida é convocar uma Assembleia
Constituinte e nacionalizar o petróleo e o gás. Os sectores mais
combativos estão à espera que estas duas coisas estejam entre as
primeiras medidas. E já disseram que se não cumprir vão
começar de imediato a pressionar para que se cumpra.
Creio que há uma grande diferença entre o traidor Lula e Morales.
Morales tem que enfrentar um sindicalismo que não vai dar grandes
prazos, o que, obviamente, ele como social-democrata vai pedir, dizendo que
não se pode fazer tudo de imediato, primeiro temos que reconstruir o
país, não devemos assustar os investidores, etc, etc, enfim, todo
o discurso oportunista. Se ele não tomar o caminho indicado pelos
resultados eleitorais e pelas promessas que fez, o povo, que diferentemente do
Brasil, tem uma vanguarda, uma massa, tem de o enfrentar fora do Parlamento.
Em que medida as massas bolivianas vão dizer que não há
que esperar?, essa é a pergunta. No entanto, há que assinalar
que as forças populares não deram a Evo Morales um cheque em
branco. Os jornais progressistas podem hoje celebrar, mas o povo organizado em
El Alto e as outras organizações sindicais terão um apoio
crítico, não um apoio incondicional para que ele faça o
que lhe der na gana e enviaram uma mensagem aos deputados que não
são de origem popular, classe média, psicólogos,
médicos, advogados e que estas gente deve levar em conta e não
dar resposta à sua origem de classe.
Chury: Então, quer dizer que é cedo para uma análise, mas
que o povo boliviano vai estar muito atento aos caminhos que Evo Morales possa
seguir.
Petras: Exactamente. Pelo menos o povo organizado, o povo mais consciente.
Obviamente há uma grande massa de pessoas pobres que não sabe bem
a história, que não conhecem os zig-zag e as medidas
conciliadoras de Evo. Não sabem que não apoiou os levantamentos,
que apoiou Carlos Mesa e depois repudiou as manifestações, o
caminho eleitoral, etc. Acredito que nas massas populares há uma
divisão entre o sector organizado e com consciência de classe e
uma massa pobre que se identifica com a simbologia do Evo pobre indígena
e não conhece o passado questionável de Evo. Por isso, se Evo
chega ao poder e não cumprir com as promessas e começar uma
prolongada negociação para aumentar os impostos às
transnacionais petrolíferas, creio que a grande dúvida é
se a vanguarda sindical e a consciência de classe poderá mobilizar
os outros sectores populares para o pressionar ao cumprimento das promessas.
Imagino que o discurso de Evo vai ser "dêem-me tempo, dêem-me
tempo", para evitar pressões do campo popular e da esquerda, para
que se possa regatear com os capitalistas e por a sua casa numa
situação mais estável com as transnacionais.
Em Janeiro vamos saber a verdadeira eleição: se Evo escolhe o
caminho do povo ou escolhe o caminho do capitalismo andino.
Chury: Petras, e o surpreendente pagamento de Kirchner ao Fundo
Monetário Internacional?
Sim, é o mesmo que fez Lula. Há duas coisas a dizer de forma
muito clara: o povo, os operários, os pobres, os desempregados, muitas
vezes, mil vezes, receberam dos governos de Lula e de Kirchner a mensagem de
que não há dinheiro para aumentar o salário mínimo,
não há dinheiro para financiar a educação, a
saúde e os investimentos públicos. É sempre o mesmo
discurso e, de repente, sacam 15 mil milhões do Brasil e 10 mil
milhões da Argentina e pagam a dívida com dois anos de
antecipação, o que não era nenhuma
obrigação, quando têm tanta pobreza e tantos problemas
adiados. Porque dispõem agora do dinheiro que durante tantos anos
negaram ter? E porque põem como prioridade não só pagar a
dívida, como pagá-la antecipadamente? E depois vão dizer
"pagámos a dívida, agora não temos dinheiro para
vós". É um argumento muito idiota, de que pagaram a
dívida para se libertarem do Fundo Monetário, o que é
libertarem-se pondo nos cofres do banco o dinheiro que faltava no banco?
É que aqui nos Estados Unidos está-se a rever o orçamento
para financiar o Fundo Monetário, isto é, o FMI estava à
procura do dinheiro para compensar o que os EUA não lhe vão dar e
estes generosos presidentes generosos para com os banqueiros
descobrem que têm dinheiro para o Banco, para ajudar os banqueiros a
financiar outras burlas no mundo.
Chury: Vamos ao Chile, já que estamos na região. Não
é de esperar que haja mudanças profundas, ganhe quem ganhar a
segunda volta, quanto à política económica e social.
Ganhe Bachelet ou outro liberal, deve ser mais ou menos o mesmo.
Petras: Sim, é igual. Não há qualquer
indicação de que qualquer dos dois candidatos vá fazer uma
rectificação. Creio que estão ambos comprometidos com o
ultra liberalismo, impunidade dos militares; vão manter as
desigualdades, vão continuar a isentar de impostos o grande capital,
etc. No que há alguma diferença é na base social de
apoio, pois a concertação tem mais apoio popular e a direita mais
apoio na classe média, média baixa, etc, mas têm os mesmos
programas e políticas. Inclusive a campanha é uma farsa, com os
dois muito inflamados, a insultarem-se um ao outro e, no final vão-se
abraçar e beijar. Agora, o Partido Comunista tem 5% dos votos e decide
dar o apoio a Bachelet a troco de algumas reivindicações
eleitorais, algum aumento do salário mínimo. Creio que Bachelet
pode assinar um documento e depois marimbar-se, pô-lo na fila de espera,
como se costuma dizer.
Creio que o problema do Chile é que os dois partidos, as duas
coligações não apresentam qualquer diferença.
Ambos afirmam que o sistema de pensões está a fracassar, a baixar
as pensões e a prejudicar os reformados e ambos estão a criticar
a alta percentagem de pobreza, de pessoas que vive precariamente, mas o que
é que oferecem? Mais do mesmo: mais mercado, maior influência dos
grandes capitais, etc. Creio que é pseudo socialismo. Há que
compreender e quero dizer isto que os chilenos gastam mais, per
capita, com os militares que qualquer outro país nas Américas,
incluindo os países da América Central, com o Brasil e a
Colômbia incluídos. Em segundo lugar, o exército chileno,
com os socialistas no poder, está a reprimir no Haiti e o Chile assinou
um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos. Mais ainda,
poderíamos poderíamos dizer que o Chile tem a pior
situação para os assalariados rurais, a pior
situação de negociação colectiva para os sindicatos
e que é o país, entre o Brasil e o México, que tem as
piores desigualdades de classe, pelo que o socialismo chileno é como o
de Tony Blair: fala do povo e trabalha para o capital.
Chury: Faltam-nos dois minutos e queria perguntar-te que repercussão
teve nos últimos dias a declaração do chefe de Estado do
Irão acerca de Israel, que tanta celeuma levantou.
Petras: São comentários extremistas e por isso devemos
condená-los, mas a questão central deste assunto são as
declarações bélicas, a preparação da guerra
que estão a fazer os oficiais israelitas, inclusivamente o senhor Sharon
marca uma data para atacar militarmente e provocar uma
conflagração em todo o Médio Oriente. Poderíamos
criticar e devemos criticar algumas expressões do presidente do
Irão, mas não nos enganemos, na verdade o mais grave são
as ameaças de guerra e ataque dos Estados Unidos e Israel contra o
Irão, o que iria precipitar uma nova guerra, cinco vezes mais grave que
a do Iraque.
Isso parece-me o mais grave, mas enquanto fazemos as nossas críticas ao
ataques verbais, devemos concentrar mais as nossas críticas em Israel e
nos EUA, pela sua preparação material da guerra.
Chury: James Petras, como sempre o agradecimento e um grande abraço a
partir de Montevideo.
Petras: Quero enviar os meus votos de Natal. Não sei, mas nós,
os marxistas e ateus, sempre celebramos o Natal como uma grande festa do povo,
bebemos um bom vinho, temos um assado, salada e muitas sobremesas. Desejo que
todos os uruguaios, de todas as condições, possam ter um assado e
prepará-lo com todos os amigos, vizinhos e familiares. Eu vou brindar
pelo povo uruguaio e o meu grande amigo Chury.
Chury: Muito bem, os votos são recíprocos. Desejamos que passes
um bom Natal com toda a tua família. Um grande abraço.
Petras: Obrigado, adeus.
19/Dezembro/2005
[*]
da CX36 Radio Centenário, Uruguai.
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=24466
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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