A construção do império, o tecto da dívida, o
défice orçamental e a "solução
Sansão"
EUA aplicam as mesmas receitas da troika em Portugal...
por James Petras
Os líderes políticos e económicos dos EUA e do mundo
estão confrontados com o que descrevem como uma "catástrofe
sistémica": a incapacidade de pagar a credores globais, inclusive
bancos internos e estrangeiros, a investidores e a governos que possuem US$16,7
milhões de milhões
(trillion)
em títulos do US Treasury. Há uma crise relacionada: o governo
não pode assegurar a aprovação de um orçamento que
financie as actividades das suas agências militares e civis, inclusive
pagamentos em grande escala a empreiteiros militares, o financiamento de
negócios, operações agrícolas e bancárias,
assim como programas sociais. A elevação do tecto da
dívida é central para o funcionamento da classe dominante
financeira pois ela extrai centenas de milhares de milhões de
dólares fiscais em pagamentos de juros do US Treasury. Elevar o tecto da
dívida permite que o Estado continue a tomar emprestado e a pagar a seus
credores bilionários. Por sua vez, enquanto tem liquidez, o Tesouro dos
EUA constitui um "refúgio seguro" para investidores pois
proporciona lucros garantidos. Além disso, na medida em que o
dólar permanece a divisa de referência para
transacções globais, o Tesouro dos EUA pode imprimir dinheiro
à vontade e tomar emprestado a um custo mais baixo a expensas dos
seus competidores e adversários.
Financiar o défice orçamental exige a contracção de
empréstimos, os quais envolvem vendas no valor de centenas de milhares
de milhões de títulos do governo dos EUA através da Wall
Street mas com um custo para o contribuinte. O denominador comum
é que todo o edifício do capital financeiro e a totalidade das
suas estruturas de apoio dependem do financiamento da dívida pelo
Estado. Ao tomar emprestado e a seguir tributar seus cidadãos o Tesouro
extrai riqueza da vasta maioria dos americanos.
Para entender a luta pela elevação do tecto da dívida e
aprovação de um orçamento deficitário é
necessário analisar as origens a longo prazo e em grande escala da
dívida do Estado.
Guerras imperiais, a ascendência do capital financeiro e a crise da
dívida
A dívida sempre crescente e a constante elevação do tecto
da dívida é um resultado dos gastos a longo prazo e em grande
escala na construção do Império estado-unidense. O
empreendimento imperial gerou um défice enorme: o rácio
custo/benefício tem sido esmagadoramente negativo. Ao contrário
do que diz a propaganda militarista, o império não tem sido
"auto-financiado": As guerras e ocupações no Iraque,
Afeganistão e alhures custaram aos contribuintes dos EUA milhões
de milhões de dólares, não compensados pelo rendimento da
pilhagem imperial ou pela expansão económica interna.
Em paralelo com o custo de guerras e ocupações, a ascensão
do capital financeiro resultou em grande medida da pilhagem do Tesouro dos EUA.
Enormes salvamentos externos
(bailouts),
empréstimos com juros baixos, pagamentos em grande escala de juros de
títulos, subsídios e isenções fiscais criaram uma
classe dominante financeira baseada na manutenção de um Estado
carregado de dívida e pagador de juros, que cumpre suas
obrigações para com os credores enquanto privatiza (e elimina)
programas sociais. O resultado é um "Estado endividado fraco"
e uma Wall Street rica e próspera. A Wall Street prepara-se para ganhar
milhões de milhões com a privatização dos planos
multibilionários de saúde (Medicare) e aposentação
(Social Security): isto constituirá uma componente fundamental da
"Grande Negociação"
("Great Bargain")
para elevar o tecto da dívida.
Quem são os beneficiários da elevação do tecto da
dívida?
Os beneficiários principais e imediatos do aumento do tecto da
dívida são os ricos, possuidores de títulos; os
beneficiários a médio e longo prazo são os construtores do
império militar e de inteligência que podem continuar a obter mais
de US$700 mil milhões por ano de verbas do orçamento. Os
principais perdedores estratégicos da elevação do tecto da
dívida serão as centenas de milhões de
beneficiários de programas sociais como Social Security, Medicare e
Medicaid e os membros das suas famílias. Como parte da "Grande
negociação" selada pelo presidente do Partido Democrata e o
Congresso republicano entre US$1,3 e US$1,4 milhão de
milhões em cortes sociais terão lugar ao longo dos
próximos dez anos, segundo o Gabinete do Orçamento do Congresso.
Os cortes na Segurança Social verificar-se-ão pela
elevação da idade de elegibilidade para benefícios plenos
para 70 anos, resultando numa perda de US$120 mil milhões, pois
será expectável que muitos trabalhadores aposentados mais velhos
morressem antes de retirarem um único pagamento enquanto milhões
de americanos serão forçados a adiar a aposentação
e a trabalhar mais cinco anos extras.
Em segundo lugar, a idade mínima de elegibilidade para benefícios
parciais aumentará de 62 para 64 anos o que resulta numa perda
adicional de US$144 mil milhões para os trabalhadores.
Em terceiro lugar, o índice do custo de vida seria reduzido o que
representa uma perda em dez anos de US$112 mil milhões.
Em quarto lugar, o cálculo para benefícios iniciais descartaria o
método baseado no salário por um chamado "índice de
preço", o que resulta em os trabalhadores americanos perderem mais
outros US$137 mil milhões ao longo de 10 anos. Em suma, os
benefícios da segurança social dos trabalhadores seriam reduzidos
em mais de 500 mil milhões de dólares uma enorme
transferência de riqueza para os credores bilionários, os
investidores e construtores do império tudo em nome da
"redução da dívida".
Os cortes no MEDICARE e MEDICAIS resultariam numa ainda mais retrógrada
polarização de classe. A "Grande
negociação" podia levar a perdas adicionais de mais de
US$419 mil milhões.
O maior custo para os trabalhadores virá na forma de um aumento do seu
prémio mensal para serviços médicos (MEDICARE Parte B) dos
actuais 25% para 35%, resultando numa perda de US$241 mil milhões. A
segunda maior perda para trabalhadores resultará da
elevação da idade de elegibilidade para o MEDICARE de 65 para 67
anos custando aos trabalhadores um acréscimo de US$125 mil
milhões. A terceira perda para os trabalhadores será uma pancada
de US$53 mil milhões restringindo a utilização do seguro
MEDIGAP apólices suplementares que cobrem exigências de
partilha de custos do MEDICARE.
Cortes ulteriores de US$187 mil milhões no MEDICAID o plano
médico para os pobres e incapacitados verificar-se-iam quando o
governo federal transferisse seu financiamento directo para bloquear
concessões aos estados que cortariam severamente serviços para os
pobres um plano proposto primeiramente durante a
administração Clinton em relação ao financiamento
do
welfare.
Uma vez que estes cortes reaccionários em programas sociais
básicos estejam em vigor, os beneficiários, os que forem capazes,
serão forçados a comprar seguros médicos privados
suplementares alternativos e planos privados de aposentação,
enquanto os pobres ficarão sem eles. A decadência dos
serviços sociais públicos tramada pela Wall Street foi uma
estratégia deliberada e cínica para provocar descontentamento
popular facilitando a privatização gradual de serviços:
acrescentando custos, eliminando opções e limitando tratamentos
médicos, cirurgias e procedimentos, especialmente para os mais idosos. A
privatização da Segurança Social, do MEDICARE e do
MEDICAID maximiza a insegurança enquanto minimiza serviços e leva
a doenças não tratadas e sub-tratadas, maior sofrimento e
penúria económica. Os acordos entre o Congresso
bipartidário e a Casa Branca através da "Grande
negociação" para elevar o tecto da dívida
ampliarão e aprofundarão desigualdades nos Estados Unidos.
Em suma, a "Grande negociação" causará aos
trabalhadores americanos perdas de mais de US$1,119 milhões de
milhões ao longo dos próximos 10 anos, levando a um
declínio agudo na expectativa de vida, no acesso a cuidados de
saúde, nos padrões e qualidade de vida.
A solução Sansão
Dados os termos adversos que acompanham a "Grande
negociação" para elevar o tecto da dívida, seria
melhor se nenhum acordo fosse alcançado. A elite financeira está
a contar com a "Grande negociação" para alavancar sua
cobrança de créditos sobre as vidas e bem-estar de centenas de
milhões de americanos. Seria melhor sacudir os pilares e deitar abaixo
este Templo de
Mâmon
(a "Solução Sansão") fazendo-os pagar um
preço!
O "pavor e choque" induzido pelo incumprimento sacudiriam os
próprios fundamentos da pilhagem financeira do Tesouro dos EUA e dos
contribuintes; o incumprimento minaria seriamente a base financeira para
guerras imperiais, espionagem, tortura e esquadrões da morte. Todo o
projecto de construção do império desmoronaria.
Realmente, no curto prazo os trabalhadores e a classe média
também sofreriam com um incumprimento. Mas o descrédito dos
partidos políticos dominantes, da elite política e da Wall Street
podia levar a um novo alinhamento político, o qual financiaria programas
sociais ao, na frase de David Stockman, "cravar os ricos"
elevar impostos corporativos em 50%, impor um imposto sobre
transacções financeiras de 5%, remover o tecto de
contribuições para a segurança social e arrecadar impostos
das multinacionais dos EUA também sobre os lucros no estrangeiro.
Milhares de milhões adicionais seriam poupados com o término de
guerras imperiais, encerramento de bases e cancelamento de contratos militares.
A reforma fiscal, o desmantelamento imperial e o aumento do investimento
interno em actividade produtiva geraria crescimento interno levando a um
excedente orçamental, estendendo o MEDICARE a todos os americanos,
reduzindo a idade de aposentação para 62 anos e proporcionando um
salário digno a todos os trabalhadores!
18/Outubro/2013
O original encontra-se em
www.globalresearch.ca/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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