Bolívia: Fascismo toma o poder Morales queixa-se
Desde que Evo Morales foi eleito presidente há mais de 33 meses, a
extrema direita boliviano tem-se aproveitado de toda concessão,
compromisso e gesto conciliatório do regime Morales para expandir o seu
poder político, bloqueando mesmo as reformas sociais mais moderadas e
paralisando o funcionamento do governo, através de manobras legais e
gangs de violentos rufiões de rua.
Ao mesmo tempo que o governo boliviano utilizava repressão do Estado
contra camponeses sem terra e mineiros em greve, permanecia um espectador
passivo e impotente diante da tomada da Assembleia Constitucional pela extrema
direita, dos principais aeroportos em Santa Cruz (forçando o presidente
a voar de volta ao seu palácio), suspendendo todo o transporte
público, a arrecadação de impostos federais e projectos e
investimentos públicos. Pior ainda, gangs paramilitares fascistas
repetidamente insultaram, bateram, desnudaram e ridicularizaram apoiantes
camponeses do presidente Morales de etnia índia nas principais ruas e
praças das capitais das províncias que eles controlam.
Apesar de receber cerca de 70% da votação nacional na
eleição de 10 de Agosto de 2008, Morales não tomou uma
única medida para conter o domínio fascista do poder regional
continuando a implorar pelo diálogo e o compromisso, enquanto a
extrema direita acumula força e prepara-se para entrar em violenta
guerra civil contra os pobres e os indígenas bolivianos. O governo
boliviano expulsou o embaixador dos EUA, Philip Goldberg, só depois de a
Embaixada dos EUA apoiar activamente a captura do poder regional pela extrema
direita depois de quase três anos de financiamento aberto e
colaboração pública com os secessionistas. Uma vez que o
regime Morales não rompeu relações com Washington,
é provável que um novo nomeado para a embaixada chegue logo para
continuar a conspiração activa de Goldberg com a extrema direita.
O contraste entre a ignominiosa passividade do presidente e o agressivo e
violento putsch político da direita fascista é gritante. A
peça central do violento levantamento e da tomada de poder pelos
fascistas localiza-se em cinco departamentos regionais: Santa Cruz, Pando,
Beni, Tarija and Chuquisaca, os quais estão agrupados numa
organização regional de massa, o Conselho Nacional
Democrático (CONALDE). Isto inclui prefeitos locais, presidentes de
muncipalidade, líderes de negócios e chefes de
organizações de latifundiários apoiados por gangs de
rufiões de rua armados numa variedade de organizações,
sendo a mais importante a União da Juventude Cruceñista, a qual
especializou-se em degradar, bater e mesmo matar apoiantes índios
desarmados de Morales.
Prelúdio para a guerra civil e a tomada de poder
A guerra civil e a tomada de poder pela direita nos cinco departamentos segue
uma sequência de eventos que resulta numa recuperação
gradual do poder político e social e do subsquente lançamento de
uma multiplicidade de movimentos ofensivos a partir de dentro de
instituições governamentais e cada vez mais através da
acção extra-parlamentar directa. Isto tem resultado numa
escalada dos assaltos esporádicos para a violência
sistemática contra indivíduos, organizações,
instituições públicas e recursos económicos
estratégicos. Nesta fase mais recente, a oposição
dispensou sua cobertura institucional 'legalista' e adoptou a tomada violenta
das instituições do Estado declarando abertamente a sua
secessão em relação ao governo central, desafiando a
autoridade do governo para governar e para exercer seu monopólio legal
sobre o poder da polícia.
Do poder popular a tomada neo-fascista do poder
1- O arranque do levantamento secessionista-neo-fascista começou em 2005
quando, para todos os efeitos e propósitos, um levantamento em massa de
trabalhadores, camponeses e mineiros índios derrubou o regime neoliberal
e dominou as ruas, apresentando todos os ingredientes para um novo governo
revolucionário.
2- Sob a liderança de Evo Morales e do antigo organizador de ONG, Garcia
Linera e seu partido eleitoral, o Movimento ao Socialismo (MAS), o movimento de
massa foi retirado das ruas, da actividade autónoma e da
revolução social para a política eleitoral. Evo Morales
foi eleito presidente em Dezembro de 2005 e pôs-se a assinar pactos
políticos com os partidos da extrema direita a fim de partilhar o poder
institucional na busca de um programa político-económico
centrista. Isto envolveu
joint ventures
com todas as corporações multinacionais extractoras de
minérios (excluindo expropriações e
nacionalização), sinais minimalistas de reforma agrária
(nunca implementada) e duras políticas fiscais (excluindo
redistribuição do rendimento e limitando aumentos de
salários à taxa de inflação).
3- Em meados de 2006, a extrema direita havia-se recuperado da sua derrota
eleitoral e através da sua presença na recém eleita
Assembleia Constitucional manobrou efectivamente para bloquear a
aprovação da nova Constituição. O governo focou
exclusivamente na sua agenda de reforma política, consolidou suas
joint ventures
com todas as grandes multinacionais do gás e do petróleo,
renovou contratou desfavoráveis com o Brasil (pagando à
Bolívia bem abaixo dos preços do mercado mundial) e desmobilizou
os movimentos de massa através do controle do partido MAS sobre
líderes urbanos e rurais (com a excepção dos mineiros).
4- Principiando no fim de 2006 e aumentando de intensidade ao longo de 2007, a
direita neo-fascista apoiou-se nas suas tropas de choque extra-parlamentares
para assaltar representantes pro-governamentais na Assembleia Constitucional,
organizar bloqueios de estradas e afirmar a sua independência
('autonomia') em relação ao governo nacional. O governo
boliviano rejeitou qualquer recurso à mobilização popular
exigida pelos sectores mais radicalizados dos mineiros em Oruro e Potosi. Ao
invés disso, recuou face à pressão institucional da
direita neo-fascista, oferecendo concessões sobre a
redacção da Constituição. Morales fez uma
série de concessões estratégicas sobre a dimensão
das terras isentas de reforma agrária, cedendo poderes judicial e
fiscais ao dominadores regionais fascista e concedeu o controle das estradas,
auto-estradas e praças às gangas de neo-fascistas bem armados.
5- Ao longo de 2008, a direita neo-fascista continuou sua 'marcha para a
instituições' consolidando seu controle sobre governos locais e
regionais e reclamações sobre rendimentos dos sectores
económicos estratégicos todos eles localizados nas
regiões contestadas. Em meados de 2008, a direita asseverou abertamente
suas acções secessionistas e tratou de criar polícia
paralela, alfândega paralela, agências fiscais e de governo
paralelas. O regime secessionista deu licenças aos negócios,
latifundiários e para a elite urbana da classe média.
Através da sua liderança das auto-intituladas
'organizações cívicas' e dos seus aplicadores armados,
trataram de intimidar e assaltar milhares de apoiantes do governo, camponeses,
activistas índios, responsáveis e homens de negócio
pró-governamentais, vendedores de rua, professores das escolas,
trabalhadores da saúde e outros empregados públicos. A
estratégia neo-fascista para a tomada do poder foi baseada na
acumulação de forças através de
manifestações públicas de poder, comícios
maciços e lockouts para encerrar negócios urbanos. Quaisquer
apoiantes do governo nacional que não cumprissem seus ditames sofriam
punições públicas cruéis, incluindo sovas e a
humilhação pública de índios e camponeses apoiantes
de Morales nas praças urbanas onde eram desnudados e chicoteados para
escárnio da multidão branca de origem europeia.
Do protesto à tomada do poder
Tendo experimentado apenas repetidos protestos fracos e inconsequentes do
regime Morales-Garcia, em Agosto de 2008 os neo-fascistas lançaram uma
blitz em plena escala, dando rédea solta e apoio financeiro e
político a uma assalto em grande escala a todas as principais
instalações e agências federais e a sindicatos e
escritórios de associações de camponeses nos cinco
departamentos que controlam. Eles tomaram o controle dos aeroportos negando
direitos de aterragem a qualquer responsável do governo ou relacionado
com o governo, incluindo o presidente Morales e o vice-presidente Garcia e
qualquer dignitário visitante.
O vento que disparou o lançamento da 'guerra civil' neo-fascista e a
violenta captura do poder foi a vitória eleitoral de Morales-Garcia no
referendo de 8 de Agosto em que Morales obteve 67% da
votação nacional. O resultado tornou claro que a direita
não podia retornar ao poder nacional através de
eleições quando a sua única maioria eleitoral só
existia nos departamentos em que dominava. Mas mesmo nos cinco departamentos
controlados pela extrema-direita, Morales recebeu aproximadamente 40% dos
votos, uma minoria forte nas cidades e uma maioria em muitas áreas
rurais entre o campesinato.
A classe capitalista, como em toda a parte ao longo da história,
quando confrontada até mesmo com algumas modestas reformas da
propriedade, e especialmente em face de um regime covarde, em recuo e
conciliatório, descartou-se dos métodos constitucionais de
oposição. Eles ligaram-se aos responsáveis neo-fascistas,
líderes 'civicos' e mesmo às gangs violentas dos jovens ricos de
Santa
Cruz. Morales recusou-se a ordenar à polícia e aos militares que
defendessem edifícios públicos diante de assaltos violentos e
incendiários, os quais destruíram serviços
públicos, telecomunicações, alfândegas,
escritórios de inquéritos sobre a terra, ficheiros oficial e
registos do Estado.
Em Pando e Tarija os oleodutos e gasodutos foram explodidos, provocando danos
extensos e com um custo de milhões de dólares em receitas
perdidas para o Estado. Finalmente, em 11 de Setembro de 2008 mais de uma
centena de camponeses favoráveis a Morales foi morta ou ferida em Pando
numa emboscada organizada por vigilantes armados apoiados pelo prefeito
departamental Leopoldo Fernandez e seus seguidores em
organizações 'cívicas'. A sistemática
destruição de todos os sinais e símbolos da autoridade do
governo federal e a matança e intimidação de camponeses e
trabalhadores apoiantes de Morales conduziu à etapa final destes
três anos de processo de secessão, de repressão
étnico-racial e de imposição de uma nova ordem
política fascista.
Enquanto a guerra civil conduzida pelos neo-fascistas actuava sem
oposição do governo nacional por todas as cinco
províncias, os ministros de Morales adoptavam posturas bizarras.
Garcia-Linera racionalizou a impotência do regime menosprezando a tomada
de pode pelo aparelho neo-fascista dos cinco departamento como 'actos de
vândalos cometidos por uma gang de 500 bandidos'. Quando a
Bolívia ardia, o ministro do Interior Alfredo Rada e o ministro da
'Defesa' Walker San Miguel tentavam em vão minimizar a tomada ilegal
pelos neo-fascistas de quase a metade do país que produz 80% do
rendimento nacional reduzindo a iminente guerra civil a actos de 'violento
vandalismo delinquente em diferentes regiões do Leste e do Sul do
país'.
Em 12 de Setembro de 2008, Morales aparentemente esquecido dos ataques e
tomadas de poder maciços e sustentados convocou realmente uma
reunião com os prefeitos neo-fascistas para um 'diálogo sem
quaisquer pré-condições'. Por outras palavras, Morales
absolveu-os do massacre e brutalização de mais de uma centena de
camponeses e ignorou a sabotagem económica, a qual acompanhava a tomada
e destruição de petróleo, gás e outros sectores
essenciais para a produção de receita. É
desnecessário dizer que os neo-fascistas encontraram-se com Morales sem
efectuar uma única concessão. A única razão de
facto porque se encontraram foi por Morales ter sido finalmente forçado
a declarar um 'estado de sítio' em Pando logo após a
matança de 30 camponeses por vigilantes armados sob o controle do
prefeito de Pando, Leopoldo Fernandez.
As tropas tiveram de limpar o aeroporto de bandidos da extrema-direita que
anteriormente haviam impedido a aterragem de um avião de transporte do
governo. Os outros quatro departamento sob controle neo-fascista não
foram afectados pela declaração de estado de sítio. Em
Pando, com a presença militar agora a guardar edifícios
públicos e instalaçãoes de petróleo e gás, o
governo decidiu finalmente prender o prefeito da extrema direita pelo seu papel
nos massacres.
Uma viragem rumo à boa governação?
O presidente Morales ordenou finalmente que o embaixador estado-unidense
Phillip Goldeberg deixasse o país depois de dois anos de
intervenção directa no planeamento, financiamento e apoio
à guerra de classe organizada pelos neo-fascistas e à tomada do
poder regional. Mais de US$125 milhões em fundos da AID financiaram
quase exclusivamente as organizações 'cívicas'
neo-fascistas e através delas a organização racista armada
'União da Juventude de Santa Cruz'. A há muito esperada
declaração de Morales de um estado de sítio veio apenas
sob a pressão dos seus incansáveis apoiantes entre os camponeses
e os movimentos de massa urbanos que começaram a organizar-se e armar-se
independentemente do impotente governo federal. Morales também
respondeu à pressão do Brasil, Argentina, Venezuela e outros
países para por fim à violência. O Brasil e a Argentina
foram afectados pela interrupção dos despachos vitais do
gás natural da Bolívia. Mesmo regimes constitucionais de
direita, como o de Bachelet no Chile e o de Alain Garcia no Perú,
apoiaram Morales e indirectamente pressionaram-no a actuar por medo do
precedente que uma violenta tomada de poder regional pela extrema direita
poderia ter para os seus próprios países.
Conclusão
O estado de sítio e a expulsão do embaixador dos EUA podem ser
vistos como movimentos positivos muito atrasados para reafirmar a soberania
boliviana e defender a ordem constitucional. Mas o que vem a seguir?
Os neo-fascistas tomaram o poder regional ao governo. Eles ainda controlam 80%
dos recursos económicos chave da Bolívia. A maioria da
população que vive sob o domínio da dreita está sem
a protecção do governo central. Apenas uns poucos oleodutos e
gasodutos foram temporariamente assegurados pelas tropas federais. Morales
confiou nos militares para defender o seu regime, pondo de lado, marginalizando
e desmobilizando movimentos emergentes populares de massa para a auto-defesa.
A confiabilidade do Exército Boliviano não está garantida.
Ao tornarem-se a chave para a defesa do regime de Morales contra a direita
neo-fascista, as forças armadas podem assumir poderes mais vastos, como
árbitros do futuro do país. Morales está relativamente
seguro, encafuado nos Andes, mas os seus seguidores nos cinco departamentos no
Leste continuam a enfrentar o domínio repressivo dos neo-fascistas e das
suas gangas de vigilantes armados. Igualmente importante, Morales, confrontado
com a violenta resistência da extrema direita, mostra toda a
intenção de fazer novas concessões sobre a partilha de
rendimentos e poder com a elite dirigente. Ele está pronto a fazer
ainda maiores concessões a uma centena de grandes latifundiários,
barões dos media, banqueiros e agro-exportadores que estão a
pressionar pela secessão.
Repetidamente, ao longo dos últimos três anos, índios,
camponeses, mineiros, habitantes de favelas urbanas e funcionários
públicos organizaram-se e combateram pela reforma agrária,
controle operário, nacionalização das minas e dos campos
de petróleo e por salários decentes. O que eles obtiveram de
Morales foi um governo de austeridade fiscal, acordos económicos com
corporações extractivas multinacionais e enormes complexos de
agronegócios. Apesar de ter um mandato político para dominar,
Morales fez uma sucessão de esforços fracassados para conciliar
com as irreconciliáveis elites económicas e regionais. Se
há uma lição que Morales pode aprender dos camponseses que
foram degradados e chicoteados na ruas de Santa Cruz, dos sindicalistas que
foram queimados nas sedes dos seus sindicatos e nas suas casas em Pando e dos
vendedores de rua que foram expulsos dos mercados em Tarija é que
não se pode 'fazer acordos' com fascistas. Não se derrota o
fascismo através de eleições e concessões aos seus
pagadores, os que possuem a grande propriedade.
16/Setembro/2008
Ver também:
http://resistir.info/bolivia/intervencao.html
, 14/Set/2008
O original encontra-se em
http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1754&more=1&c=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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