A estratégia perdedora de Trump
Abraçar o Brasil e confrontar a China
por James Petras
Os EUA adotam um regime destinado ao fracasso e ameaçam a economia mais
dinâmica do mundo. O presidente Trump elogia Jair Bolsonaro, o
recém-eleito presidente do Brasil, e promete promover estreitamento dos
laços económicos, políticos, sociais e culturais. Em
contraste, o regime de Trump está empenhado em desmantelar o modelo de
crescimento da China, impondo sanções severas e generalizadas, e
fomentar a divisão e fragmentação duma China maior.
Washington escolhe os seus aliados e inimigos com base num acanhado conceito de
vantagens a curto prazo e de perdas estratégicas.
Neste artigo, vamos analisar as razões por que a relação
EUA-Brasil se encaixa no objetivo de Washington para o domínio global e
porque é que Washington receia o crescimento dinâmico e o desafio
de uma China independente e competitiva.
O Brasil à procura de um patrono
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, anunciou desde o primeiro dia, um
programa de inverter quase um século de crescimento económico
orientado pelo estado. Anunciou a privatização de todo o setor
público, incluindo setores estratégicos, como as finanças,
a banca, os minérios, as infraestruturas, os transportes, a energia e as
atividades de manufatura. Além disso, dá prioridade à
centralidade das empresas multinacionais estrangeiras. Os anteriores regimes
autoritários, civis e militares, protegeram as empresas nacionalizadas
que faziam parte de alianças tripartidas que incluíam empresas
privadas estrangeiras, estatais e nacionais.
Em contraste com os anteriores regimes eleitos que tentaram nem sempre
com êxito aumentar as pensões, os salários e o
nível de vida e reconheceram a legislação laboral, o
presidente Bolsonaro prometeu despedir milhares de funcionários do setor
público, reduzir as pensões e aumentar a idade da reforma, ao
mesmo tempo que reduzir os salários, a fim de aumentar os lucros e
baixar os custos dos capitalistas.
O presidente Bolsonaro promete inverter a reforma agrária, expulsar,
prender e assaltar as famílias rurais para reinstalar os
latifundiários e encorajar os investidores. A
desflorestação da Amazónia e a sua entrega aos
barões da pecuária e aos especuladores de terras incluirá
a ocupação de milhões de hectares de terras
indígenas.
Na política externa, o novo regime brasileiro compromete-se a seguir a
política dos EUA em todas as questões estratégicas: o
Brasil apoia os ataques económicos à China, apoia a
ocupação de terras de Israel no Médio Oriente (incluindo a
mudança da capital para Jerusalém), defende os esquemas dos EUA
de boicote e políticos para derrubar os governos de Cuba, da Venezuela e
da Nicarágua. Pela primeira vez, o Brasil pôs à
disposição do Pentágono bases militares e forças
militares para quaisquer invasões ou guerras futuras.
A satisfação dos EUA quanto à cedência gratuita do
presidente Bolsonaro de recursos e riquezas e à perda de soberania
é apreciada nas páginas do
Financial Times,
do
Washington Post
e do
New York Times,
que preveem um período de crescimento, de investimento e de
recuperação se o regime tiver a "coragem" de
impor a venda ao desbarato.
Como já aconteceu em inúmeras experiências recentes com
mudanças de regime para a direita neoliberal na Argentina, no
México, na Colômbia e no Equador, jornalistas e especialistas das
páginas financeiras deixaram-se cegar pelos dogmas ideológicos
quanto a possíveis dificuldades e crises.
A política económica do regime de Bolsonaro ignora o facto de que
o Brasil depende das exportações agrominerais para a China e
compete com as exportações dos EUA
as elites da
agroindústria brasileira vão ressentir-se da mudança dos
seus parceiros comerciais. Vão opor-se, derrotar e corroer a campanha
anti-China de Bolsonaro, se ele se atrever a persistir.
Os investidores estrangeiros vão apoderar-se das empresas
públicas, mas tudo indica que não vão expandir a
produção, dada a profunda redução do emprego, dos
salários, à medida que o mercado dos consumidores vai decaindo.
Os bancos podem fazer empréstimos, mas exigirão altas taxas de
juro para 'riscos' altos, em especial à medida que o governo for
enfrentando uma oposição social crescente dos sindicatos e dos
movimentos sociais, e uma violência maior da militarização
da sociedade.
Bolsonaro não tem a maioria no Congresso que depende do apoio eleitoral
de milhões de funcionários públicos, de trabalhadores
assalariados, de pensionistas e de minorias étnicas. Uma aliança
no Congresso será difícil sem corrupção e sem
compromissos
O gabinete de Bolsonaro inclui vários ministros
fundamentais que estão a ser investigados por fraude e lavagem de
dinheiro. A sua retórica anticorrupção irá
evaporar-se perante as investigações judiciais e as
denúncias.
O Brasil dificilmente poderá fornecer quaisquer forças militares
de préstimo para aventuras militares, regionais ou internacionais, dos
EUA. Os acordos militares com os EUA terão pouco peso perante o profundo
turbilhão interno.
A política neoliberal de Bolsonaro dependerá das desigualdades,
em especial entre os cinquenta milhões que acabaram de sair da pobreza.
O apoio dos EUA ao Brasil enriquecerá a Wall Street que vai agarrar no
dinheiro e desaparecer, deixando os EUA a enfrentar a ira e a
rejeição do seu aliado frustrado.
O confronto dos EUA com a China
Ao contrário do Brasil, a China não está disposta a
sujeitar-se a uma pilhagem económica e a abdicar da sua soberania. A
China está a seguir uma estratégia a longo prazo, concentrada no
desenvolvimento dos setores mais avançados da economia incluindo
a tecnologia de ponta da eletrónica e das comunicações.
Os investigadores chineses já produziram mais patentes e artigos
científicos de referência do que os EUA. Formam mais engenheiros,
mais investigadores de ponta e mais cientistas inovadores do que os EUA,
apoiados por altos níveis de financiamento estatal. A China, com uma
taxa de investimento de mais de 44% em 2017, ultrapassa em muito os EUA. A
China passou de um baixo valor acrescentado para um alto valor, nas
exportações, incluindo carros elétricos a preços
competitivos. Por exemplo, os iPhones chineses estão a ser mais
competitivos do que a Apple, tanto no preço como na qualidade.
A China abriu a sua economia às empresas multinacionais dos EUA, em
troca do acesso à tecnologia avançada, uma coisa que Washington
classificou como apreensões "forçadas".
A China tem promovido acordos multilaterais de comércio e investimento,
incluindo mais de sessenta país, em acordos de infraestruturas de grande
escala e a longo prazo, por toda a Ásia e África.
Em vez de seguir o exemplo económico da China, Washington queixa-se de
comércio desleal, roubo tecnológico, restrições de
mercado e constrangimentos estatais aos investimentos privados.
A China oferece oportunidades a longo prazo para Washington atualizar o seu
desempenho económico e social se Washington reconhecer que a
concorrência chinesa é um incentivo positivo. Em vez de
investimentos públicos de grande escala na melhoria e
promoção do setor de exportações, Washington
virou-se para as ameaças militares, as sanções
económicas e as tarifas que protegem os setores industriais de
retaguarda dos EUA. Em vez de negociar os mercados com uma China independente,
Washington favorece regimes vassalos, como o recém-eleito presidente
Jair Bolsonaro do Brasil, que confia no controlo e nas conquistas
económicas dos EUA.
Os EUA têm um caminho fácil para dominar o Brasil em termos de
ganhos a curto prazo lucros, mercados e recursos mas o modelo
brasileiro não é viável nem sustentável. Em
contraste, os EUA precisam de negociar, discutir e firmar acordos
reciprocamente competitivos com a China. O resultado final da
cooperação com a China permitirá aos EUA aprender e
crescer de modo sustentável.
Conclusão
Porque é que os EUA escolheram a via de apoiar um Brasil
retrógrado em vez de um líder, um país, virado para o
futuro?
Basicamente, os EUA estão mergulhados estruturalmente num sistema
político profundamente militarizado que é movido pela ânsia
do domínio mundial o 'imperialismo'. Os EUA não querem
competir com uma China inovadora, procura coagir a China a desmantelar as
instituições, a política e as prioridades que engrandecem
a China.
Washington exige que a China abdique da relativa autonomia do estado, aumente a
penetração dos EUA nos setores estratégicos e confie nos
banqueiros e académicos do mercado livre. A política
económica dos EUA é modelada por banqueiros,
especulações corruptas e 'lobbyists' de interesses regionais
especiais, incluindo regimes como Israel. A política económica da
China é modelada por interesses industriais, orientada pelos objetivos
estratégicos da autoridade central do estado, capaz e disposto a prender
centenas de funcionários de altos cargos, se forem corruptos.
Os EUA não podem conter a trajetória ascendente da China com um
cerco militar porque a estratégia económica de Pequim
neutraliza as bases militares dos EUA e derrota os constrangimentos
tarifários através da diversificação de importantes
acordos comerciais. Por exemplo, a China está a negociar com a
Índia um grande aumento de importações de mercadorias
agrícolas, que incluem arroz, açúcar, leite, soja e
algodão. A Índia tem atualmente um grande défice comercial
com a China, em especial em maquinaria e bens industriais e está ansiosa
por substituir os exportadores norte-americanos. A China tem importantes
acordos comerciais e de investimento em todo o sudeste asiático, na
Coreia do Sul, no Japão, no Paquistão, na Rússia e na
Austrália, assim como em África, na América Latina (Brasil
e Argentina) e no Médio Oriente (Irão, Iraque e Israel).
Os EUA têm pouca margem de manobra para "espremer" a China,
mesmo em setores de alta tecnologia, à medida que a China é menos
dependente do 'know-how' dos EUA. Washington garantiu acordos com a China,
aumentando as exportações de carros e de entretenimento. A China
pode facilmente concordar em reduzir o alegado "roubo de
propriedade", especialmente desde que deixou de ser um fator importante,
dado que a maior parte das inovações da China são criadas
internamente. Além disso, o
big business
e a Wall Street exigem que o regime de Trump chegue a um acordo de mercados
livres com a China e ignore os seus inimigos autárquicos.
Dada a continuada economia pujante da China (6,5% do PIB em 2018), a crescente
ênfase na expansão dos serviços sociais, no mercado de
consumo e na facilidade de crédito, as políticas de tarifas
coercivas de Trump estão condenadas e as ameaças militares
só encorajarão a China a aumentar e atualizar a sua defesa
militar e programas espaciais superiores.
Quaisquer que sejam os acordos comerciais temporários e limitados que
surjam das negociações EUA-China, o regime de Trump
continuará a sua agenda imperial unipolar de apoiar regimes vassalos,
como o Brasil, e confrontar a China.
O futuro pertence à China independente, inovadora e competitiva e
não a regimes vassalos, militarizados e subservientes como o Brasil.
O original encontra-se em
www.unz.com/...
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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