As quatro estações de Ollanta Humala

por Gustavo Espinoza [*]

Ollanta Humala. Antonio Vivaldi, no plano artístico, deu às quatro estações um sentido musical, um ritmo, homogéneo e claro, capaz de cativar a atenção do ouvinte. Hoje, no plano político, e no Peru do nosso tempo, pode-se muito bem falar das quatro estações de Ollanta Humala num sentido diferente: um processo de formação confuso e o decantamento ambíguo, contraditório, mas ao mesmo tempo cheio de interrogações. Como elas têm a ver com a perspectiva quase imediata que se abre para o Peru e os seus habitantes, vale a pena desenhar as linhas fundamentais do seu processo, ligado ao convulsivo cenário nacional das últimas décadas.

OS INÍCIOS

Ainda que muito se haja falado acerca dos "antecedentes familiares" de Ollanta Humala, situando o seu pai na condição de "antigo comunista", dom Isaac recentemente jogou no lixo essa versão. Assegurou ele que jamais foi militante de partido algum e que, em todo caso, apenas teve "inclinações marxistas" nos seus anos de juventude. Desse modo, matou dois pássaros com um só tiro. Por um lado, evitou as acusações quanto ao seu passado certamente escuro e por outro deu destino à cor da sua herança assegurando que ela se limitou a "algumas ideias".

Mas os inícios de Ollanta não se circunscrevem ao plano familiar. É público o facto de que a sua carreira militar transcorreu numa etapa muito complexa da vida peruana, quando a instituição estava virtualmente pejada de manobras turvas, influências nefastas e procedimentos dolosos. Ninguém se movia na estrutura castrense sem a autorização e o aval do todo-poderoso Chefe dos Serviços de Inteligência, que se reunia com a hierarquia castrense na salinha do SIN e tinha todos presos pelo pescoço. Naqueles anos, Ollanta fez uma carreira militar privilegiada à sombra de protectores poderosos. O general Cano Angulo, Chefe da Região Militar com sede em Arequipa e actualmente preso pela comissão de delitos diversos, foi um deles. Encarregou-se de assegurar para aquele oficial um lugar destacado numa guarnição de fronteira, o posto de Locumba, que se tornou notícia em 29 de Setembro de 2000.

É bem sabido que o domínio absoluto de Vladimiro Montesino sobre Alberto Fujimori foi baseado na sua capacidade de controlar a instituição castrense. O "assessor" convenceu o Presidente que nas Forças Armadas tinha inimigos, conspiradores, oportunistas e rebeldes e que só ele — e ninguém mais — tinha capacidade de domesticá-los porque os tinha na mão: dava-lhes dinheiro e outros guloseimas, que deixava escrupulosamente registados. Assim, poderia ocorrer tudo ao Presidente, menos prescindir da única pessoa que poderia manter a fera encurralada.

Por isso, quando devido ao peso de factores alheios à sua vontade o Mandatário se viu obrigado a por de lado os serviços de VMT e forçá-lo a abandonar o país, este decidiu confirmar o seu poder desencadeando um caos controlado que fizesse saltar o covarde Presidente. Assim se percebe a chamada telefónica que fez do veleiro Karisma — através de telefone por satélite — para o forte Locumba a fim de falar com o comandante Ollanta, que se sublevou de imediato. Nunca se revelou, contudo, o conteúdo dessa conversação, nem se soube se ela ocorreu de forma directa ou através de terceiros. Mas aconteceu.

Nesse esquema, quando em Janeiro de 2005 Antauro Humala se levantou com os seus reservistas no posto policial de Andahuaylas, os núcleos do fujimorato não tiveram objecções em apoiar uma amnistia parlamentar a Ollanta que lhe permitiu continuar sua carreira militar, procuraram dar a essa acção um carácter que não tinha: apresentaram-na como a irrupção de um sentimento de recusa às limitações do processo democrático. Imediatamente depois, procuraram "proteger" os Humala, cercando-os de seguranças e garantias. A essa estação pertencem os laços com o fujimorismo: Fernan Altuve como "assessor", os Wolfenson em pleno apoio, a propaganda de La Razón, o amparo legal de Torres Caro e o respaldo do período militar deposto expresso através de altos oficiais na activa e na reserva.

O APRA [1] ENTRA EM CENA

A segunda estação tem outro sentido. No confuso cenário eleitoral no qual tradicionalmente elege-se o presidente numa segunda volta, uma vez que na primeira ninguém obtém maioria absoluta, os cálculos e as manobras abundam.

O APRA sabe, com efeito, que possui uma votação cativa que potencialmente lhe assegura a passagem do seu candidato à segunda volta. Mas também está consciente de que nela a união de todas as forças que resistem ao APRA provocará a sua derrota. Todos os inquéritos asseguram, com efeito, que numa hipotética segunda volta Alan García perde frente a Lourdes Flores, a Valentin Paniagua ou a qualquer candidato que arvore as bandeiras do anti-aprismo. Para García, contudo, existia uma probabilidade hipotética: deslocar Lourdes Flores e assegurar uma segunda volta com Ollanta Humala, o que lhe permitiria polarizar as coisas de outro modo: apresentar-se como o expoente da ordem, da democracia, da paz e da tranquilidade, frente ao caos, à violência, à subversão e ao pânico. Posto diante dessa alternativa — supõe a APRA — o eleitorado optará finalmente por García, como ocorreu em 1985, quando a polarização incluiu duas opções: aprismo ou socialismo.

Por isso a consolidação da candidatura de Ollanta Humala não foi desdenhada, mas antes estimulada pelo núcleo alanista do APRA. Isso explica porque nos inquéritos García caiu até os 11% quando todos lhe atribuem sensatamente um apoio da ordem dos 23 pontos percentuais.

Uma terceira estação começa quando Humala adquire uma potencialidade reconhecida no cenário nacional. Projecta-se e cresce como um out sider e ganha adesões no interior do país. Procura, então, consolidar laços com o seu irmão Antauro, inscrever o Partido Nacionalista Peruano como sua própria força, mas inicia conversações com outros sectores que deseja ganhar para o seu projecto. Estende a mão, assim, à esquerda oficial.

A iniciava não se solidifica por razões muito simples. Cada pastor cuida das suas ovelha e ninguém quer permitir ao outro que olhe o seu rebanho. A intransigência de uns e outros leva ao fracasso o que poderia ter sido um acordo se se houvessem posto em primeiro lugar as tarefas políticas e o programa, e não as agendas eleitorais que se frustraram devido a ambições subalternas. Há que sublinhar, contudo, que neste período Ollanta insistiu em considerar "superada" a dicotomia "esquerda-direita" e enfatizou antes uma estranha mistura de nacionalismo, indigenismo e racismo.

EM BUSCA DE DEFINIÇÕES

Uma quarta estação começou agora, abruptamente, após a recente viagem do candidato peruano a Caracas e a sua publicitada entrevista com o Comandante Hugo Chávez, na qual participou também o novo Presidente da Bolívia, Evo Morales.

Os meios de comunicação do nosso país — e o próprio governo de Toledo — fizeram a sua parte para tornar o tema escandaloso. Na realidade, para fazer "anti-chavismo", semeando a ideia de uma "ingerência externa" que qualificam de "inaceitável".

É claro que as razões expostas por Hugo Chávez são legítimas e justas. Ele simboliza um processo em marcha, confrontado com o mais poderoso inimigo do mundo: o império ianque. Procura, e precisa, abrir espaços, ganhar aliados, influir em pessoas. E se no Peru há forças que se dizem "patriotas" e "nacionalistas", por que não somá-las ao grosso contingente continental que hoje luta contra o Império?

Para isso, entretanto, há que dar uma certa orientação ao processo. E Chávez procurou recriar a mensagem e a experiência de Velasco Alvarado e acrescentá-la ao consistente discurso bolivariano que conforma as suas acções na região. O tema, então, é outro: Ollanta Humala assumirá essa mensagem?

Haveria uma mudanças significativa na sua atitude, porque até hoje o oficial peruano não teve uma mensagem consistente, nem progressista, nem revolucionária. Inclusive, quando aludiu a Velasco, fê-lo superficialmente e sem convicção, assumindo a forma, mas distanciando-se do conteúdo. Hoje, para dar sustentação à viragem, Ollanta conclamou "todas as esquerdas" a somarem forças numa só torrente. Convite sugestivo, sem dúvida, que poderia abrir caminho para uma nova estação.

Ela dependerá de três elementos básicos. Por um lado, do carácter do acordo que se propõe. Seria um erro, com efeito, circunscrevê-lo a um cenário eleitoral — unidos para as eleições — mas um acerto ampliá-lo para forjar uma unidade política baseada em pontos definidos de um programa concreto e de acções a implementar para além dos resultados eleitorais que se verifiquem. De qualquer modo, a composição das listas parlamentares será um escolho, porque ali teve origem a divergência que tornou impossível a aliança anterior. Se a esquerda realmente quer a unidade, tem o dever de sacudir as tentações eleitorais e as quotas pessoais e partidárias que a perturbam. O terceiro elemento, e talvez o decisivo, seja o que se refere ao próprio Ollanta Humala.

Os acontecimentos e as contradições do processo peruano colocaram-no finalmente no vértice das definições. O caminho que tomar, em perspectiva, dependerá em boa medida da sua própria consistência. Poderá, com efeito, perfilar-se em termos positivos, como ocorreu com o Hugo Chávez de 1992, ou negativos, como o Lucio Gutiérrez do 2001.

Isso dependerá, sobretudo, da sua própria consistência pessoal, da sua integridade humana, ainda que também, sem dúvida, dos duros avatares da luta de classes.

Quando se fala de Revolução, de Libertação Nacional e Socialismo, assumem-se palavras maiores. Será Ollanta Humala capaz de vencer o seu passado, superar suas estações obscuras e abrir uma nova rota ao processo peruano? Teremos a curto prazo alguns indicadores: Serão concretizadas as conversações com a Esquerda oficial? A lista parlamentar que Ollanta apresentará em Fevereiro deste ano reflectirá uma, ou outra, destas estações já descritas? Será elevado o discurso político para situar-se nos termos da confrontação social que vive o país?

No imediato, cada força está a tomar posições e o fujimorismo, em perigo de ser vetada a candidatura do ex-mandatário hoje preso no Chile, já insinua a ideia de votar por Ollanta como modo de "repudiar o sistema e a classe dirigente". Será isso grátis? Provavelmente não, mas permitirá saber se, finalmente, a Mafia toma partido agora por um candidato que cresce no meio da confusão e do caos.

09/Janeiro/2006

[1] Partido reaccionário peruano. Fundado por Haya de la Torre (1895-1979) na década de 1930.

[*] Redactor do jornal peruano Nuestra Bandera .

O original encontra-se em www.argenpress.info/nota.asp?num=027042 .


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
18/Jan/06