Suposições
por Jim Kunstler
Quando os historiadores derem uma olhadela para o longínquo 2007, em
meio ao nevoeiro emitido pelos seus aquecedores alimentados a carvão,
assinalarão que aquele foi o ano em que começou a Longa
Emergência ou o que quer que prefiram chamar à
dissolução das economias industriais e dos complexos sistemas que
as constituem. E se mantiverem algum sentido de humor o que é
muito provável uma vez que, como afirmou certa vez o sábio Sam
Beckett, nada é mais divertido do que a infelicidade eles
darão risadas quanto às suposições que guiaram os
comportamentos e as operações mentais dos responsáveis de
então (ou seja, agora).
O preço do petróleo está 53 por cento mais elevado do que
um ano atrás, a rastejar em direcção aos US$95. As
notícias dos media ainda são omissas quanto ao assunto (No
New York Times
nada consta na primeira página de hoje). O dólar está a
perder um centavo por semana contra o Euro. Em suma, o padrão de vida
americano está a despencar como um saco de areia. Por enquanto, um
público espantado está a tropeçar na paupérrima bebedeira dos
vídeo clips da Britney Spears. Se este público chegasse a ficar
sóbrio, e a um momento em que dissesse "... hei, espere um
minuto..." quando reconhecesse o fosso entre a realidade e a
estória que lhes é contada pelos líderes no governo, nos
negócios, na educação e nos media, isto poderia ser um momento
muito desagradável na história dos EUA.
Uma das mais estúpidas suposições feitas nestes dias por
notáveis adultos educados é que nos está assegurada uma
transição suave entre a hipertrofia cancerosa do nosso actual
ambiente económico e as condições mais duras a que estamos
a rolar em alta velocidade. Os professores nas universidades e as abelhas
trabalhadoras do sector técnico ainda estão absolutamente
confiantes em que algum hipotético "eles" irá
"propor" remédios mágicos de salvação
para fazer andar o sistema da Feliz Motorização sem gasolina. A
minha principal mensagem nas palestras que tenho feito nestes dias é
"...deixem de colocar toda a vossa energia mental na
continuação da dependência do carro e voltem a vossa
atenção para outras tarefas tais como comunidades em que se possa
andar a pé e no renascimento da ferrovia de passageiros..."
Inevitavelmente, alguém então levanta-se e sugere que a
transição para carros totalmente eléctricos está
quase a chegar, e que deveríamos deixar de nos preocupar. Como disse,
estes são os cidadãos educados das faculdades. Imagine no que
acreditam os idiotas adeptos dos carros de corrida que este ano ou no
seguinte o fantasma de Davey Crockett deixará uma jarra de
"matéria escura" liquefeita sob a árvore de Natal de
cada um, garantindo-lhes que mantenham os motores a roncar até
conduzi-los ao Êxtase de Elvis.
As pessoas educadas isto é, aquelas sujeitas às grandiosas
estórias de tecno-triunfalismo ensinadas nas universidades
estão certas de que nós inventaremos ou organizaremos um modo de
sair da presente situação. Uma sociedade que colocou homens
sobre a Lua em 1969, prossegue a estória, lançara um outro
"Projecto Apolo" a fim de manter as coisas em andamento.
Alguém pode perguntar, naturalmente, o que eles querem dizer com manter
as coisas em andamento. Mesmo se fosse hipoteticamente possível manter
todos os carros a andarem para sempre, seria uma boa coisa tornar
edifícios espalhados nos subúrbios a base da nossa economia?
Sim, porque esta é consequência directa da energia perpetuamente
barata. Será que alguém percebeu que a bolha habitacional e a
subsequente implosão está a seguir exactamente a linha do Pico
Petrolífero?
É um bocado mais difícil perceber quais são as
suposições entre os líderes no sector financeiro, uma vez
que grande parte da sua actividade nos últimos dez anos desviou-se para
a fraude. A estória que todos eles estão a por cá para
fora desde Bernanke, presidente do Fed, até presidentes de
grandes hedge funds é que a finança americana é uma
grande cobra que engoliu uns tantos porcos a mais, mas que se nós
dançarmos em torno de taxas de juro mais um bocado, e permitirmos que
mais algum dinheiro seja emprestado com baixos juros, a grande cobra finalmente
digerirá os porcos e continuará a deslizar feliz ao longo do seu
caminho nas trilhas da selva com um arroto e um peido. Deste ponto de vista
superior, pode-se ver antes uma outra estória: mais como uma gang de
operadores de máquinas de aposta a suarem dentro dos seus casacos Prada
quando se torna cada vez mais impossível esconder as perdas
maciças incorridas devido a um visível mau comportamento
imprudente. A minha própria hipótese é que um bocado
destes rapazes estarão a caminho do processo criminal não tarda
muito.
As suposições políticas que se ouvem são as mais
espantosamente ingénuas e ridículas, especialmente aquelas que
envolvem outros países e as nossas relações com eles. Os
seguidores do
NY Times
não têm dúvidas, juntamente com Tom Friedman, de que a
economia global agora é um ornamento permanente da
condição humana, e que dentro em breve ela
transformar-se-á num colossal motor do comércio "verde"
(isto é, benigno). Friedman e os seus seguidores tendem a esquecer a
segunda lei da termodinâmica quando desenrolam as suas fantasias sobre um
mundo que pode inocentemente fabricar e mercadejar um número
infindável de travessas plásticas para salada de um lado do
planeta para o outro sem incorrer em quaisquer perdas para a saúde do
dito planeta.
As minhas próprias suposições são algo diferentes.
Penso que provavelmente iremos ver um bocado de países a lutarem pela
sobrevivência, inicialmente a manifestarem-se numa
competição pelo abastecimento minguante de petróleo do
mundo (ou de substâncias como o petróleo). Por exemplo, quando
vêm o globo poucas pessoas consideram que o Japão actualmente
importa 95 por cento do seu combustível fóssil. O Japão
tem sido um "bom rapaz" entre os países desde o seu
episódio de "cair fora" no meados do século XX e desde
então tem desfrutado uma longa prosperidade industrial. Mas o que
acontecerá quando não houver suficiente petróleo no mundo
para ser atribuído racionalmente pelos mercados entre os países
poderosos? Será que o Japão simplesmente enrolar-se-á e
morrerá? Será que fecharão as fábricas Toyota e
voltar-se-ão para plácidas cerimónias do chá»?
Penso que o Japão ficará fora de si, e é difícil
prever exactamente quem sentirá a sua ira e como.
Analogamente, a Europa. Os americanos vêem a Europa como uma
espécie de parque de lazer cheio de preguiçosos em cafés
antigos a desfrutarem do mesmo em pequenas chávenas nas esplanadas das
suas confortáveis cidades cheias de arte (algumas delas não
há muito reconstruídas a partir do entulho). A Europa deixou que
a América fizesse o seu trabalho sujo no Médio Oriente durante a
última década enquanto desfrutava dos carregamentos dos
petroleiros que subiam através do Canal de Suez. A Europa tem de fazer
apenas uns poucos gestos simples em defesa do seu abastecimento de
petróleo. Mas os campos petrolíferos do Mar do Norte, os quais
durante vinte anos restringiram a alavancagem da OPEP, estão findar a
uma taxa muito abrupta. Mais cedo ou mais tarde a Europa ficará fora de
si quanto a petróleo, e os crentes na geopolítica da terra plana
ficarão chocados ao verem que todos os países dos
preguiçosos de café podem mobilizar potentes forças
militares. Deus sabe de que lado estará, exactamente, quando
acontecerá, e onde a América ficará se os seus
próprios militares não estiverem tão exauridos para
poderem mesmo ficar de pé.
Pessoalmente, penso que o mundo estará a ficar um bocado maior outra
vez, e menos plano, e que finalmente a América descrobri-se-á
isolada mais uma vez entre dois oceanos embora incursões
desesperadas de exércitos inimigos, de uma forma ou de outra, não
estejam fora de questão quando a grande luta por recursos de
sobrevivência estiver a caminho. Entretanto, penso que os actuais
Grandes Países do mundo perderão a sua capacidade de projectar
poder pelos meios que fomos condicionados a pensar como possíveis.
Nesse meio tempo, o nosso próprio país tornou-se uma sociedade
incapaz de pensar, e o fracasso a todos os níveis, na
educação e no privilégio, é impressionante. Se
ouvir as pessoas que concorrem à presidência muitos deles
palhaços notórios pensará que todas as
confortáveis amenidades da vida diária podem continuar com uns
poucos ajustes no painel de comandos. Eles são covardes e é
possível que representem perfeitamente toda uma nação de
covardes que merecem liderança covarde. O perigo, naturalmente,
é que quando um líder não-covarde finalmente
aparecer numa América desesperada ele dominará
um povo irresponsável, ou pensará por ele.
29/Outubro/2007
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2007/10/assumptions.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|