Estado de contracção
por James Howard Kunstler
[*]
Exactamente quando o sr. Obama saltou para o gabinete oval, chegámos ao
ponto em que muitas pessoas têm dificuldade em imaginar o futuro. Isto
inclui especialmente os media de referência, os quais atingiram um estado
de zumbificação paralelo ao dos bancos. Mas mesmo na poderosa
blogosfera, com seus milhares de vozes não constrangidas por anunciantes
covardes ou editores prostituídos, a visão do futuro fica turva
quando um escuro e agourento nevoeiro se abate sobre a terra das
possibilidades.
Durante pelo menos um ano vários enredos têm estado a desvendar-se,
sobretudo na web, mas sem chegarem a conclusões. O
principal acontecimento tem
sido [a polémica] dos deflacionistas versus os inflacionistas. O
primeiro grupo basicamente diz que demasiado "dinheiro" está a
ser eliminado da circulação e que isto definha o novo
"dinheiro" sendo arrastado para a existência na forma de
salvamentos, TARPs
[1]
e estipêndios para redecorar escritórios. Os deflacionistas
vêm os restos despedaçados da economia do crédito ao
consumidor a pressagiar um aprofundamento sempre maior dentro do buraco
até que esteja sepultado tão baixo que nem todas as
retroescavadoras do mundo serão capazes de desenterrá-lo. Os
inflacionistas que os contestam dizem que ao despejar cargas maciças
de camiões de "dinheiro" criado estará logo
ultrapassado o desaparecimento da "riqueza" e, no processo, o
dólar dos EUA desvalorizará.
Alguns de nós vêm ambos os resultados em sequência: a
"solução" deflacionária da dívida podre
agora em curso de empréstimos que jamais serão
reembolsados, de títulos de papel com nomes em siglas que se revelam
como fraudes, de contratos "não cumpridos" a entrarem no
pântano dos arrestos, de bancos a pretenderem ainda existir, de
"riqueza" alucinada a precipitar-se para dentro do buraco
cósmico do esquecimento só pode perdurar até que
todos que possam falir tenham falido. Então, exactamente quando nos
depararmos como uma nação de bolsos vazios, o tsunami do
"dinheiro" recém-criado destinado a "relançar o
consumidor" (criado não a partir da actividade produtiva mas
simplesmente impresso de forma precipitada), começará a agitar-se
através da "economia", perseguindo produtos e mercadorias que
se tornaram escassos durante a fase deflacionária e o resultado
é hiper-inflação, o apagador de dívidas, destruidor
de fortunas e pílula suicida de governos irresponsáveis.
Suponho que a diferença básica é que os deflacionistas
duros parecem pensar que o seu processo pode perdurar para sempre. A sociedade
simplesmente fica cada vez mais pobre até que remontamos a algo como uma
cena de Pieter Bruegel o Velho. Os inflacionistas vêm uma
bifurcação na estrada que conduz a uma destruição
mais evidente, especialmente perturbações políticas quando
um bocado de emoções negativas se juntar à
solução da orgia e subjugar o governo.
Mas neste momento, uma semana após a posse de um novo presidente, desceu
o nevoeiro fatal e absolutamente todos temem aquilo que se oculta do outro
lado, sem serem capazes de discernir o caminho através do mesmo.
Exemplo: a
"fadiga do salvamento" que está a ser comentada sugere que o
Congresso pode simplesmente obrigar a um alto na criação de
dinheiro. Onde é que isto deixaria o apelo urgente do sr. Obama por
"estímulos"? Sem mencionar as novas injecções
TARP para redecorar escritórios de bancos.
Tenho sido céptico quanto aos "estímulos" tal como
delineados até agora, destinados a renovar a infraestrutura da Feliz
Motorização. Para mim, isto é o culminar de uma
campanha destinada a sustentar o insustentável uma vez que a
dependência do carro é definitivamente a última coisa
que precisamos apoiar e promover. Até
agora não ouvi qualquer conversa acerca de promover comunidades
sustentáveis, ou qualquer plano
significativo para nos tornarmos sérios acerca da
reparação de ferrovias para passageiros e de transporte
público integral. Será que círculo do sr. Obama perdeu de
vista o facto de que importamos mais de dois terços do petróleo
que utilizamos, mesmo durante o actual arrefecimento do preço? Ou
terão
eles esquecido quão vulneráveis isto nos deixa ao mais ligeiro
espasmo geopolítico em países exportadores de petróleo
tão estáveis como a Nigéria, México, Venezuela,
Líbia, Argélia, Colômbia, Irão e Estados do
Médio Oriente? E será que nos vamos salvar a conduzir carros?
Sei que é difícil para qualquer americano imaginar um modo de
vida diferente, mas é melhor começar a afinar as nossas
imaginações porque a motorização sem fim não
é mais o nosso destino. A mensagem do público nesse sentido
não foi transmitida para cima e assim, nesta etapa perigosa, a mensagem
faria melhor em vir de cima para baixo. O sr. Obama precisa ir a TV e dizer ao
público americano que foram feitos
cruisin' for burgers
[2]
. Ele podia fazer isto revivendo drasticamente a sua proposta de
estímulo tal como ela agora se põe.
Deixando de lado se este "estímulo" representa a precipitada
impressão de dinheiro numa sociedade insolvente, vamos apenas
tomá-lo pelo seu valor facial e perguntar onde o
"dinheiro" pode ser melhor aplicado:
-
Temos de reabilitar milhares de centros de cidades por todo o país
a fim de acomodar a nova re-escalada do comércio local
e regional que se seguirá à morte das cadeias nacionais de lojas a
retalho do tipo WalMart. Trata-se de centros de cidade e Ruas Principais
reactivados que
são dispositivos indispensáveis de comunidades
"andáveis". O Congresso para o Novo Urbanismo (
CNU.org
) pode ser consultado sobre os procedimentos para alcançar isto e para
reabilitar as vizinhanças tradicionais ligadas às nossas Ruas
Principais.
-
Temos de reformar a produção alimentar (também conhecida
como "agricultura"). O agronegócio petrodependente irá
para o mesmo caminho das lojas em cadeia. Seus equacionamentos
fracassarão, especialmente numa sociedade amarrada ao crédito.
Esta parte do quadro é terrível exactamente neste momento,
quando nos preparamos para a estação do plantio, pois
muitas culturas podem não se efectuar por falta de dinheiro inicial.
Isto anuncia, pelo menos, preços alimentares muito mais elevados no fim
do ano, se não mesmo escassez directa e défices. E o novo
governo quer, ao invés disso, lançar rodovias caras? Rahm
Emanuel:
atarraxe a sua cabeça outra vez.
-
Como foi mencionado acima, temos de conseguir que o transporte de
passageiros por ferrovia funcione outra vez porque as companhias de
aviação vão morrer da próxima vez que houver um
pequeno aumento nos preços do petróleo, ou uma escassez pontual
do óleo. Não vamos ser grandiosos e tentar construir redes caras
de alta velocidade ou de levitação magnética
certamente não correctas agora porque elas exigem sistemas de
tracção inteiramente novos. Vamos reparar os equipamentos de
tracção comuns já ultrapassados, a enferrujar à
chuva, ou temporariamente substítuida por caminhos de bicicletas.
Estas são as três coisas importantes do momento e suficientes para
manter esta sociedade ocupada por um par de anos. Mas indo mais directamente
ao assunto principal deste blog, observadores de toda espécie
estão a ter dificuldade em imaginar qualquer caminho de saída das
nossas múltiplas aflições. Todas as possíveis
acções tentadas até então parecem absurdas. Por
que tentar inflacionar os preços da habitação quando a
única e crucial necessidade neste sector é de que os
preços das casas retornem à paridade com os rendimentos? Assim, o
mar de pessoas comuns ainda empregadas poderia pensar em comprar uma casa.
Bem, a
explicação óbvia é que os políticos
não podem aguentar o sofrimento de assistir arrestos em massa e a
ruína de famílias. Isto entende-se muito bem, e na verdade
é trágico. Francamente, não sei de qualquer
narcótico político que possa amenizar o sofrimento resultante das
más escolhas na vida mesmo que tais escolhas tenham sido
promovidas e reforçadas pela poderosa ideologia do "Sonho
Americano". De qualquer modo, agora os arrestos estão mesmo a
caminho
e talvez a questão que se destaque seja durante quanto tempo a
fúria do público permanecerá contida enquanto ouve acerca
de executivos da Wall Street a comprarem tapetes de US$80.000? Certamente
haverá um ponto de viragem na agonia colectiva que neste momento
não está demasiado longe .
No âmago dos TARPs e de outros salvamentos continuados destinados aos
bancos, aos fabricantes de carros e a uma multidão de outros pedintes
corporativos especiais, pergunto-me se já não teremos atingido o
ponto de saturação. Mas a opinião na web está
agudamente dividida e uma primeira manifestação é o debate
sobre se foi uma asneira terrível ou a coisa certa deixar o Lehman
Brothers afundar na bancarrota. Ambos os lados apresentam argumentos
válidos, mas virtualmente todos os outros super-bancos nesse exacto
momento inclinaram-se para a porta da morte e não temos
orientação clara sobre o que deveríamos fazer acerca
deles. Cada um é apresentado como "demasiado grande para
falir", além de estarem enredados com os outros nos
credit default swaps
o que deitaria todos abaixo se um realmente falisse. Parece-me que isto
é o que está no cerne da actual situação.
Ninguém
que eu tenha encontrado na esfera da opinião e do comentário
pensa que estes bancos sobreviverão e este desenlace está a curta
distância da conclusão de que todo o sistema bancário
está fatalmente doente levando directamente para uma crise
super-importante de política económica na qual o todo fede, o
sistema gotejante simplesmente entra em colapso. Penso que isto é o que
está por trás dos apelos do sr. Obama à acção
muito urgente.
Mas então vamos começar tudo outra vez: ninguém,
incluindo o próprio sr. O, realmente propôs um conjunto de
acções que já não tenha sido tentado para impedir a
criação de dinheiro. De modo que esta semana, talvez, algumas
sábias e intrépidas figuras talvez mesmo o presidente
articularão algo que não ouvimos antes, talvez mesmo algo
como suportar as nossas dificuldades com coragem. Será uma semana muito
interessante, estou certo.
26/Janeiro/2009
[1] TARP:
Programa de Alívio para Activos Perturbados
de instituições financeiras
[2]
cruisin' for burgers
: Referência a uma canção cuja letra refere-se a
alguém que vive em meio a falsidades.
[*]
Autor do romance
World Made by Hand
, sobre o futuro mundo pós petrolífero.
A encomenda do livro através deste link permitirá que
resistir.info receba uma pequena comissão.
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2009/01/state-of-cringe.html
.
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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