por James Howard Kunstler
Em
The Long Emergency
[1]
disse podermos esperar que o governo
federal se torne cada vez mais impotente e ineficaz que isto seria uma
marca característica dos tempos. De facto, afirmei que qualquer
empreendimento organizado numa escala colossal funcionaria deficientemente nos
próximos anos, quer seja um governo, uma universidade estadual, uma
cadeia nacional de lojas a retalho ou uma fazenda gigante do meio oeste.
É característico da contracção compressiva que a
nossa sociedade enfrenta que sistemas hiper-complexos gigantes baloucem e
fracassem. Deveríamos esperar por isso.
É trágico que o símbolo da própria
esperança, Barack Obama, seguisse as instruções do
programa exactamente no momento em que este conjunto de condições
estava a ganhar movimento. Certamente vai ficar pior e vai haver um bocado de
pessoas desapontadas que estarão a sofrer perdas terríveis e
sofrimento real na sua vida diária. As sociedades não andam bem
quando o público cai no desespero total, que é o oposto de
esperança. É quando as facas longas e as animosidades tribais
emergem e as coisas dão para o torto.
Dentro do contexto dos partidos políticos convencionais a
espécie que nos EUA há muito tem sido o parâmetro
"normal" vemo-los a exaurirem-se nas duas facções,
ambas cada vez mais desligadas da realidade. O governo Obama tornou-se
refém de uma forma tóxica de pretensão e mentira. A fim de
sustentar o desejo de "esperança" se não a
própria esperança o presidente e os seus conselheiros da
Casa Branca juntamente com os nomeados do seu gabinete, estão a
pretender que as forças históricas da contracção
compressiva não estão em marcha. Eles estão a mentir
directamente acerca dos números do desemprego emitidos em nome do
governo. Estão deliberadamente a ignorar a bancarrota completa que tolhe
o governo a todos os níveis. Recusam-se a executar a lei contra "os
facínoras da grande riqueza". Parecem não entender o monumental
problema da escassez de energia que o mundo inteiro enfrenta, ou suas
implicações para economias industriais. Acima de tudo, persistem
em promover a mentira de que esta economia pode retornar ao estado anterior de
temerária acumulação de dívida (também
conhecida como "consumismo") que nos fez tão ridículos
e doentios.
O perturbador com a auto-ilusão, quer numa pessoa ou numa sociedade,
é que a realidade não se importa nada com o que alguém
acredita, ou com a história que deitam cá para fora. A
realidade não "fia". A realidade não tem um problema de
auto-imagem. A realidade não submete os seus feitos à
administração da auto-estima. Nestes dias, os americanos
não gostam demasiado da realidade porque ela não lhes
permitirá que a intimidem. A realidade é uma força
implacável e a única pergunta para seres humanos frente a elas
é: o que fazer? Por outras palavras, não é realmente
possível administrar a realidade, mas você pode certamente optar
por administrar os seus negócios dentro dela. Mas não faremos
isso porque é demasiado difícil. Esta situação
adversa deixa o público progressivamente com pouco mais do que maus
sentimentos de desencorajamento e perseguição. É espantoso
que todas as pessoas inteligentes em torno do presidente não percebam
isto.
A realidade desdobra-se pouco a pouco e isto pode interessar-nos. Por exemplo:
tenho sustentado durante muitos anos que estamos a aproximar-nos do
crepúsculo da era do automóvel e as
implicações disto para a vida diária nos EUA são
bastante amplas. Durante longo tempo assumi que esta mudança de
circunstâncias decorreria dos nossos problemas com o fornecimento de
petróleo. Mas a realidade é manhosa. Ela lançou duas novas
reviravoltas no enredo ultimamente. O romance da América com os carros
pode não tropeçar apenas na questão do abastecimento de
combustível. Verifica-se agora que os nossos problemas com o capital
são tão severos que muito menos pessoas serão capazes de
tomar dinheiro emprestado dos bancos para comprar carros do modo como o sistema
foi organizado. Os nossos problemas com capital também estão a
despojar-nos da capacidade de pagar para consertar o sistema hiper-complexo de
estradas municipais, auto-estradas inter-estaduais e mesmo ruas de cidades que
tornam possível a monitorização. O que faremos?
Por agora, um governo sem dinheiro distribui dinheiro-por-sucata
(cash-for-clunkers),
o que é basicamente um programa de construção de
auto-estima destinado a fazer com que o governo se sinta melhor consigo
próprio porque está aparentemente a retirar da estrada carros de
11 milhas por galão
[21,38 litros aos 100 km]
e a substituí-los
por carros de 27 milhas por galão
[8,11 litros aos 100 km]
, evitando
assim terríficos problemas com alterações
climáticas. É tolo naturalmente, mas o fracasso de
liderança é geral. Mesmo os ambientalistas de elite no Aspen
Institute estão preocupados em descobrir novos caminhos
"verdes" para manter todos os carros em circulação.
Eles aplicam zero esforço à ideia de comunidades em que se possa
caminhar a pé, ou a restaurar o sistema ferroviário, o que
serão os remédios baseados na realidade para o problema da
dependência do carro.
A direita republicana é, de facto, ainda mais puerilmente ilusionista.
Para Glen Beck e Sarah Palin trata-se fundamentalmente de "furar,
furar" [poços]. Eles nada sabem acerca da geologia do
petróleo nem mesmo acreditam que a Terra seja mais velha do que
seis mil ano, o que significa que não acreditam na geologia, ponto
mas estão excitados com a fé de crianças de oito
anos em que devemos ter um bocado mais de petróleo no chão porque
isto é a América e Deus ama-nos mais do que os povos de outras
partes do planeta, de modo que o petróleo deve estar ali. Quando se
decepcionarem, as suas ideias infantis tornar-se-ão cruéis e
sádicas. Procurarão punir todos os que acreditem ter a Terra mais
do que seis mil anos de idade. O truque é que, se forem ao poder nos
ciclos eleitorais pela frente, serão impotentes e ineficazes mesmo para
perseguir os seus inimigos.
Nesse meio tempo, a vida americana simplesmente entorpecerá, não
importa no que acreditemos. Não entorpecerá até uma
paragem completa. O seu destino a curto prazo é reduzir os níveis
de complexidade e de escala a que nos habituámos há muito. As
pessoas poderão conduzir menos carros por menos milhas. As estradas
ficarão piores. Em alguns lugares serão piores do que em outros.
Haverá menos empregos para onde ir e menos coisas para vender. As
pessoas que viverem em comunidades na escala das realidades energéticas
e de capital dos próximos anos poderão estar mais
confortáveis. Vamos certamente ter perturbações com
dinheiro. Famílias afundarão na dívida e perderão
todas as suas poupanças. O dinheiro poderia ser escasso ou sem valor. O
crédito será mais escasso.
Ambas as facções da vida política americana se entregam
à ficção do controle. A história é o
big brother
da realidade. Ela está a levar-nos para alguns lugares que não
queremos ir, de modo que provavelmente terá de nos arrastar para
lá com pontapés e berros. Acima de tudo, tanto a realidade como a
história provavelmente nos levará para algum cubículo
(woodshed)
da alma nacional e espremerá a merda para fora de nós. Isso
poderia ser uma coisa saudável, uma vez que a merda consiste em todas as
mentiras que contámos a nós próprios. Uma vez que nos
livremos daquilo, podemos redescobrir umas poucas coisas deixadas dentro da
nossa identidade colectiva a que vale a pena olhar com auto-respeito real.
09/Novembro/2009
[1]
O capítulo 4 da edição portuguesa encontra-se em
http://resistir.info/energia/kunstler_cap_4.html
O original encontra-se em
http://kunstler.com/blog/2009/11/dreams-die-hard.html#more
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.