Para além da era do petróleo
Em Maio último, num movimento pouco noticiado e que passou quase
desapercebido, o Departamento da Energia [dos EUA] efectuou uma viragem
fundamental que quase significa uma mudança de época nos EUA e
até na história mundial: aproximamo-nos do fim da Era do
Petróleo e entrámos na Era da Insuficiência. O departamento
deixou de falar em "petróleo" nas suas
projecções das disponibilidades futuras e passou a falar em
"líquidos". A produção global de
"líquidos", indicou o departamento, ascenderá dos 84
milhões de barris de equivalentes do petróleo (mbep) por dia em
2005 para uns projectados 117,7 mbep em 2030 o que mal chega para
satisfazer a procura mundial prevista de 117,6 mbep. Para além de
sugerir até que grau as companhias petrolíferas cessaram de ser
meras fornecedoras de petróleo e passaram a ser fornecedoras de uma
grande variedade de produtos líquidos incluindo
combustíveis sintéticos derivados do gás natural, milho,
carvão e outras substâncias esta mudança dá
uma pista para algo mais fundamental: entrámos numa nova era de
competição energética intensificada e de dependência
crescente da utilização da força para proteger fontes de
petróleo.
Para apreciar a natureza desta mudança, é útil sondar um
pouco mais profundamente a curiosa terminologia do Departamento da Energia.
"Líquidos", explica o departamento no seu
International Energy Outlook for 2007,
abrange o petróleo "convencional" bem como líquidos
"não convencionais" nomeadamente areias betuminosas,
xistos oleosos, biocombustíveis, carvão-para-líquidos e
gás-para-líquidos. Outrora um componente relativamente
insignificante do negócio da energia, estes combustíveis assumem
muito maior importância quando a produção do
petróleo convencional fraqueja. Na verdade, o Departamento da Energia
prevê que a produção de líquidos não
convencionais saltará de uns meros 2,4 mbpe por dia em 2005 para 10,5 em
2030, ou seja, o quádruplo. Mas a verdadeira notícia não
é o crescimento impressionante nos combustíveis não
convencionais e sim a estagnação na produção do
petróleo convencional. Visto desta perspectiva, é difícil
fugir à conclusão de que a substituição de
"petróleo" para "líquidos" na terminologia do
departamento é uma tentativa não muito subtil de disfarçar
o facto de que a produção mundial de petróleo está
na sua capacidade pico ou próxima dele e que dentro em breve podemos
esperar uma retracção na disponibilidade global de
petróleo convencional.
Obviamente, o petróleo é uma substância finita e os
geólogos alertaram há muito para o seu desaparecimento final. A
extracção do petróleo, tal como a de outros recursos
não renováveis, seguirá uma curva parabólica ao
longo do tempo. A princípio, a produção sobe rapidamente e
depois desacelera até estar praticamente esgotada metade da oferta
original; é nesta altura que se atinge o pico da extracção
sustentável e a produção começa um declínio
irreversível até se tornar demasiado caro extrair o pouco que
resta. A maior parte dos geólogos acredita que já
alcançámos o ponto médio no esgotamento da herança
de petróleo mundial e estamos portanto perto do pico na
produção global. Agora só falta saber até que ponto
estamos próximos dele; há peritos que clamam que já
lá chegámos e outros que afirmam que ainda faltam alguns anos ou
talvez mesmo uma década.
Até há bem pouco tempo, os analistas do Departamento da Energia
estavam firmemente no campo dos optimistas desvairados que afirmavam que o Pico
Petrolífero estava tão longe no futuro que realmente não
era preciso pensar muito nisso. Pondo de lado a ciência da
questão, a declaração oficial de uma visão
tão cor-de-rosa afastava qualquer necessidade de defender melhorias no
rendimento do combustível automóvel ou de acelerar o progresso no
desenvolvimento de combustíveis alternativos. Dadas as prioridades da
Casa Branca, não é de surpreender que esta visão tenha
prevalecido em Washington.
Contudo, de há seis meses a esta parte, os sinais de um pico iminente na
produção de petróleo convencional tornaram
impossível ignorá-lo mesmo para os analistas conservadores
da indústria. Estes últimos provêm de um mundo que
não faz prisioneiros de guerra, o mundo dos negócios e da
fixação do preço do petróleo, por um lado, e das
análises de peritos internacionais de energia, por outro.
Mas o mais dramático, talvez, tem sido a espectacular subida nos
preços do petróleo. Em Setembro, o preço do crude leve,
doce, ultrapassou pela primeira vez a barreira psicológica, há
muito definida, de 80 dólares por barril na Bolsa de Mercadorias de Nova
Iorque e desde então tem vindo a subir até aos 90 dólares.
Têm sido invocadas muitas razões para o aumento dos preços
do crude, incluindo as perturbações na região Delta,
produtora de petróleo da Nigéria, a sabotagem dos oleodutos no
México, o aumento da actividade dos tufões no Golfo do
México e os receios de ataques turcos aos santuários da guerrilha
curda no Iraque. Mas a razão de fundo é que a maioria dos
países produtores de petróleo está a extrair na sua
capacidade máxima e a sentir cada vez maior dificuldade em aumentar a
produção face à crescente procura internacional.
Até mesmo a decisão da Organização dos
Países Exportadores de Petróleo (OPEP) de aumentar a
produção em 500 mil barris por dia não conseguiu impedir o
ímpeto na subida dos preços. Preocupados com a possibilidade de
que um aumento excessivo nos custos do petróleo possa provocar uma
recessão mundial e uma diminuição na procura dos seus
produtos, os países da OPEP acordaram em reforçar a sua
produção estipulada numa reunião em Viena em 11 de
Setembro. "Achamos que o mercado está um pouco alto", explicou
o ministro do petróleo do Kuwait, Mohammad al-Olaim. Mas esta atitude
pouco contribuiu para abrandar a subida dos preços. Obviamente, a OPEP
teria que desencadear um aumento de produção muito maior para
alterar o ambiente do mercado, e não se sabe muito bem se os seus
membros têm capacidade para o fazer neste momento ou futuramente.
Um alerta de outro género foi fornecido pela decisão do
Casaquistão em Agosto de suspender a exploração da
gigantesca região petrolífera Kashagan no sector do Mar
Cáspio, começada inicialmente por um consórcio de empresas
ocidentais nos finais dos anos 90. Dizia-se que Kashagan era o projecto
petrolífero mais promissor desde a descoberta de petróleo na
Baía Prudhoe do Alasca nos finais dos anos 60. Mas a empresa deparou com
enormes problemas técnicos e ainda não produziu um único
barril de petróleo. Frustrado pela incapacidade de obter quaisquer
benefícios económicos deste projecto, o governo do
Casaquistão alegou riscos ambientais e derrapagem de custos para
justificar as operações de suspensão e a necessidade de
avaliar melhor o projecto.
Tal como a dramática subida nos preços do petróleo, o
episódio de Kashagan é um indício das crescentes
dificuldades da indústria do petróleo nos seus esforços
para aumentar a produção face ao aumento da procura. "Todas
as companhias petrolíferas estão a esforçar-se para
aumentar a produção", disse em Julho, ao
Wall Street Journal,
Peter Hitchens da companhia de corretagem Teather & Greenwood. "É
cada vez mais difícil cumprir os projectos a tempo e dentro do
orçamento".
Que a debilidade da indústria não é um problema
temporário, mas sintomático de uma tendência a longo prazo,
foi agora confirmado em dois importantes estudos publicados este verão
por conservadoras organizações da indústria.
O primeiro foi publicado a 9 de Julho pela International Energy Agency (IEA),
uma afiliada da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico, o maior clube das principais potências
industriais. Intitulado
Medium-Term Oil Market Report (Relatório do mercado do petróleo a
médio prazo),
é uma previsão impiedosa da equação global
oferta-e-eprocura para o período de 2007-2012. As notícias
não são boas.
Prevendo que a actividade económica mundial cresça a uma
média de 4,5 por cento ao ano durante este período
impulsionada em grande medida pelo crescimento desenfreado da China, da
Índia e do Médio Oriente o relatório conclui que a
procura mundial de petróleo aumentará 2,2 por cento ano por ano,
fazendo subir o consumo mundial de petróleo de cerca de 86
milhões de barris por dia em 1007 para 96 milhões em 2012. Com
sorte e com novos investimentos maciços, a indústria
petrolífera será capaz de aumentar suficientemente a sua
produção para satisfazer o maior nível da procura previsto
para 2012 à tangente. Mas, para além disso, parece pouco
provável que a indústria consiga enfrentar qualquer aumento na
procura. "Prevê-se que o petróleo não seja suficiente
daqui a cinco anos", declarou a agência.
A sublinhar a conclusão geral do relatório há uma
série de preocupações específicas. Em especial,
aponta para um declínio preocupante na área dos campos mais
antigos nos países fora da OPEP e para a correspondente necessidade de
aumentar a produção nos países da OPEP, muitos deles
situados em áreas propícias a conflitos no Médio Oriente e
em Africa. Os números apontados são incríveis. À
primeira vista, pareceria que a necessidade de 10 milhões de barris
extra por dia entre o momento actual e 2012 se traduziria num aumento de 2
milhões de barris por dia em cada um dos próximos cinco anos
uma meta aparentemente atingível. Mas isso não tem em
consideração o declínio dos campos mais antigos. Segundo o
relatório, o mundo precisa actualmente de 5 milhões extra: 3
milhões para compensar o declínio dos campos mais antigos, mais
os 2 milhões para a procura acrescentada. Isto é um desafio
dantesco e possivelmente inultrapassável, principalmente quando se chega
à conclusão de que todo o petróleo adicional terá
que vir do Irão, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia,
Angola, Líbia, Nigéria, Sudão, Casaquistão e
Venezuela países que não inspiram a confiança do
investidor, confiança essa necessária para injectar centenas de
milhares de milhões de dólares em novos equipamentos de
perfuração, oleodutos e outras infra-estruturas essenciais.
No segundo importante estudo,
Facing the Hard Truths About Energy,
preparado pelo National Petroleum Council, uma importante
organização industrial, que foi publicado no Verão
passado, podemos encontrar causas de preocupação semelhantes.
Dado que apresentava uma visão "equilibrada" do dilema
energético do país, o relatório do NPC foi muito elogiado
no Capitólio e nos meios de comunicação, tanto mais que, a
reforçar o seu brilhantismo, havia a identidade do seu principal autor,
um antigo director da Exxon Móbil, Lee Raymond.
Tal como o relatório do IEA, o estudo do NPC começa com a
afirmação de que, com o grau certo de combinação de
políticas e de investimentos maiores, a indústria será
capaz de satisfazer a procura de petróleo e de gás natural dos
EUA e internacional. "Felizmente, o mundo não vai ficar sem
recursos energéticos", afirma ousadamente o relatório. Mas
abundam os obstáculos ao desenvolvimento e fornecimento desses recursos,
por isso são necessárias urgentemente políticas e
práticas cautelosas. Embora "não haja uma
solução única e fácil para os múltiplos
desafios que enfrentamos", os autores concluem que estão
"confiantes em que uma rápida adopção dessas
estratégias" permitirá que os Estados Unidos
satisfaçam as suas necessidades energéticas a longo prazo.
Mas leia-se esse relatório com mais atenção, e surgem
grandes dúvidas. Mais uma vez, aparecem as preocupações
decorrentes das crescentes dificuldades em extrair petróleo e gás
em locais menos favoráveis e dos riscos geopolíticos associados
à crescente situação de insegurança relativa a
fornecedores não amigáveis e instáveis. Segundo o NPC (que
utiliza dados extraídos da IEA), serão necessários cerca
de 20 milhões de milhões de dólares extra para novas
infra-estruturas nos próximos vinte e cinco anos para garantir que haja
energia bastante para satisfazer a procura mundial previsível.
E então o relatório afirma o óbvio: "Será
necessário um clima estável e atractivo de investimento para
atrair o capital adequado para a evolução e expansão da
infra-estrutura energética". É aqui que qualquer observador
astuto deve começar a sentir-se realmente alarmado porque, conforme o
estudo assinala, não é previsível um clima desses. Como o
centro de gravidade da produção mundial do petróleo se
inclina decisivamente para os produtores da OPEP e para produtores de energia
centralizados no Estado, como a Rússia, serão os factores
geopolíticos a dominar o mercado, em vez dos factores de mercado.
"Estas mudanças apresentam profundas implicações
para os interesses, estratégias e políticas dos EUA", afirma
o relatório do NPC. "Muitas das esperadas mudanças podem
agravar os riscos para a segurança energética dos EUA num mundo
em que a influência dos EUA tende a diminuir enquanto potência
económica em favor de outros países. Nos próximos anos,
podem agravar-se as ameaças de segurança em relação
às principais fontes mundiais de petróleo e de gás
natural".
As implicações são óbvias: não é
provável que haja importantes investimentos que atinjam os
milhões de milhões de dólares necessários para
reforçar substancialmente a produção nos próximos
anos, o que sugere que a produção global do petróleo
convencional não atingirá os elevados níveis previstos
pelo Departamento de Energia e, pelo contrário, em breve
começará um declínio irreversível.
Esta conclusão leva a duas reacções estratégicas
óbvias: em primeiro lugar, o governo vai procurar colmatar os
escrúpulos dos principais investidores energéticos,
prometendo-lhes proteger os seus investimentos além-mar através
do posicionamento de forças militares americanas; e em segundo lugar, a
indústria vai procurar escorar as suas apostas desviando uma quota cada
vez maior dos seus investimentos para o desenvolvimento de líquidos
não petrolíferos.
O novo "Consenso de Washington"
A necessidade de um vigoroso papel militar dos EUA para proteger os valores
energéticos no estrangeiro tem sido um dos principais temas da
política externa americana desde 1945, altura em que o presidente
Roosevelt se encontrou com o rei Abdul Aziz da Arábia Saudita e lhe
prometeu proteger o seu reino em troca do acesso privilegiado ao
petróleo saudita.
Na expressão mais conhecida desta aliança, o presidente Carter
afirmou em Janeiro de 1980 que o fluxo desimpedido do petróleo do Golfo
Pérsico constituía um dos interesses vitais do país e que,
para proteger esse interesse, os Estados Unidos empregariam "quaisquer
meios necessários, incluindo a força militar". Este
princípio foi posteriormente citado pelo presidente Reagan como
argumento para voltar a pôr os tanques de petróleo do Kuwait sob
protecção da bandeira americana durante a guerra do
Irão-Iraque de 1980-1988 e protegê-los com navios de guerra
americanos uma atitude que levou a confrontos esporádicos com o
Irão. O mesmo princípio foi seguidamente invocado por George H.W.
Bush como justificação para a Guerra do Golfo de 1991.
A corrida para os líquidos alternativos
Embora apostados em manter o aumento do abastecimento do petróleo
convencional por tanto tempo quanto possível, os funcionários do
governo e da indústria estão conscientes de que chegará a
altura em que esses esforços se venham a revelar ineficazes. Sabem
também que vai certamente aumentar nos próximos anos a
pressão pública para reduzir as emissões do dióxido
de carbono a fim de reduzir a acumulação do efeito dos
gases de estufa que provocam a alteração do clima e para
fugir aos perigos do conflito no Médio Oriente. Por isso, estão a
dar maior realce ao desenvolvimento de alternativas ao petróleo que
possam ser obtidas internamente ou no vizinho Canadá.
Este realce foi pela primeira vez alvo de atenção na
última comunicação de Bush sobre o Estado da União.
Sublinhando a independência energética e a necessidade de
modernizar os padrões económicos dos combustíveis, Bush
anunciou um ambicioso plano para aumentar a produção interna de
etanol e de outros biocombustíveis. Parece que a
administração favorece diversos tipos de alternativas do
petróleo: o etanol derivado da palha do milho, de caules de ervas e de
outras culturas não alimentares (etanol celulósico); o diesel
derivado principalmente de rebentos de soja (biodiesel); e líquidos
derivados do carvão (carvão-para-líquidos), gás
natural (gás-para-líquidos) e de petróleo de xisto. Todos
estes métodos têm vindo a ser testados em laboratórios
universitários e em instalações de pequena
dimensão, e serão aplicados em empresas maiores, de
dimensões comerciais nos próximos anos com o apoio de diversas
organizações governamentais.
Por exemplo, em Fevereiro, o Departamento de Energia anunciou apoios num total
de 385 milhões de dólares para a construção de seis
instalações piloto para fabrico de etanol celulósico;
quando estiverem prontas em 2012, estas "biorefinarias"
produzirão mais de 490 milhões de litros de etanol
celulósico por ano. (Os Estados Unidos já produzem grandes
quantidades de etanol, cozendo e fermentando sementes de milho, um procedimento
que consome grande quantidade de energia e desvia colheitas alimentares
valiosas, embora substituam apenas uma pequena parte da nossa
utilização de petróleo; as plantas celulósicas
agora propostas utilizarão biomassa não alimentar e
consumirão muito menos energia).
As grandes companhias de energia estão igualmente ansiosas por
desenvolver alternativas ao petróleo; todas elas instalaram
laboratórios ou divisões para explorar futuras
opções energéticas. A BP tem sido especialmente agressiva;
em 2005 fundou a BP Alternative Energy e reservou 8 mil milhões de
dólares para esse fim. Em Fevereiro passado, esta nova
subsidiária anunciou uma doação de 500 mil milhões
de dólares possivelmente a maior da história nesta
área à Universidade da Califórnia, Berkeley,
à Universidade de Illinois e ao Laboratório Nacional Lawrence
Berkeley, para fundação de um Instituto de Biociências
Energéticas com o objectivo de desenvolver biocombustíveis. A BP
afirmou que se espera que o instituto "venha a explorar a
aplicação da biociência para a produção de
uma energia nova e mais limpa, em especial combustíveis para o
transporte rodoviário".
Praticamente todas as grandes companhias petrolíferas estão a
apostar fortemente nas areias betuminosas do Canadá uma
substância espessa descoberta na província Alberta do
Canadá que pode ser transformada em petróleo sintético
mas à custa de um esforço e custos enormes. Segundo o
Departamento de Energia, a produção canadiana de betumes
subirá de 1,1 mbep em 2005 para 3,6 mbep em 2030, um aumento que
previsivelmente será canalizado sobretudo para os Estados Unidos. Na
esperança de realizar lucros com esta mina de ouro, empresas gigantes
dos EUA, como a Chevron, estão na corrida para adquirir
concessões nos campos betuminosos no norte de Alberta.
Mas embora atractiva numa perspectiva geopolítica, a
extracção das areias betuminosas canadianas é destrutiva
do ponto de vista ambiental. Consome grandes quantidades de energia para
recuperar o betume e transformá-lo em líquido utilizável,
libertando três vezes mais gases com efeito de estufa do que a
produção convencional de petróleo; o seu processamento
deixa abundantes águas tóxicas e paisagens lunares
desérticas. Embora raramente lhe seja dada cobertura na imprensa
americana, a oposição canadiana contra os prejuízos
ambientais provocados por estas operações gigantescas tem vindo a
aumentar.
Os factores ambientais avolumam-se numa outra possível fonte de
líquidos que as empresas energéticas americanas estão a
considerar, com forte apoio governamental: o petróleo de xisto, ou
líquidos de petróleo extraídos de rochas novas encontrado
na bacia Green River a ocidente do Colorado, a este do Utah e a sul do Wyoming.
Os geólogos governamentais afirmam que o xisto nos Estados Unidos
contém o equivalente a 2,1 milhões de milhões de barris de
petróleo a mesma quantidade do abastecimento mundial inicial de
petróleo convencional. Mas a única forma de extrair este suposto
tesouro é escavar toda uma enorme área descampada e aquecer a
rocha a 500º Celsius, criando montanhas de desperdícios durante o
processo. Também aqui tem vindo a aumentar a oposição a
este maciço assalto destrutivo ao ambiente. Apesar disso, a Shell Oil
já implantou uma instalação piloto em Rio Blanco, no
Colorado ocidental, com forte apoio da administração Bush.
A vida depois do pico
E temos assim um retrato da situação energética global
após o pico do petróleo convencional, com as tropas a correrem de
um local de produção de petróleo para outro e com uma
crescente parte dos nossos combustíveis de transportes a ser fornecida
por líquidos não petrolíferos de um ou de outro tipo. O
que não pode ser previsto com rigor é qual será
exactamente a forma desta futura equação energética, mas
é óbvio que o seu processo árduo vai estar presente nos
debates políticos da América, internos e externos, durante muito
tempo.
Como sugere este breve artigo, a passagem do pico do petróleo
terá profundas e duradouras consequências para este país,
sem soluções fáceis. Para enfrentar este futuro, temos,
acima de tudo, de repudiar qualquer resposta simplista, tal como a
"independência" energética baseada na pilhagem das
últimas áreas inexploradas da América ou a falsa promessa
do etanol de milho (que apenas pode abastecer uma pequena fracção
das nossas necessidades em transportes). Além do mais, torna-se claro
que muitas das alternativas de combustíveis propostas pela
administração Bush levantam perigos significativos por si mesmas
e devem portanto ser analisadas cuidadosamente antes de serem gastas
consideráveis somas públicas no seu desenvolvimento. A
posição mais segura e moralmente mais defensável é
repudiar qualquer "consenso" que invoque o uso da força para
proteger o abastecimento de petróleo no além-mar e lutar para
conservar o que resta do petróleo mundial, utilizando-o menos.
Outros artigos do autor:
As guerras que lubrificam a máquina do Pentágono
O ocaso da era do petróleo
[*]
Autor de
Blood and Oil: The Dangers and Consequences of America's Growing Dependence on Imported Petroleum
O original encontra-se em
http://www.thenation.com/doc/20071112/klare
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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