Os preços voláteis do petróleo
A geopolítica da especulação: Fazer e aceitar os
preços do petróleo
Todo o Mercado é um processo de relações sociais e de
poder. Em todo mercado há o que fazem o preço
(price makers)
e os que o aceitam
(price takers).
Mas o mercado do petróleo não é um mercado vulgar e,
portanto, a luta para controlar o mercado do petróleo não
é uma luta vulgar. Sendo o petróleo elementar para a
acumulação global e mantendo-se o sistema monetário em
parte
baseado em mercadorias
, o grau de controlo do mercado do
petróleo reflecte-se num certo grau de poder reforçado em todos
os outros mercados. Mas, para controlar um mercado do petróleo, o
principal actor, que é sem dúvida os EUA, tem que desenvolver uma
estratégia de intervenção na fonte, militar ou de qualquer
outro tipo, que anule os outros actores. Por consequência, a
extensão com que os EUA introduzem tensões nas áreas
produtoras de petróleo, calibram o grau com que os estados
petrolíferos abdicam da sua soberania no que se refere ao
petróleo e mantém à distância outros actores
importantes, são medidas que representam a acção colateral
necessária para estabelecer os alicerces do padrão
petrodólar. Este exercício permanente de poder constitui a pedra
angular do dinheiro-mercadoria ou, mais concretamente, do sistema
monetário global baseado no petrodólar.
À superfície das coisas, os preços do petróleo
mudam em reacção a factores económicos e
geopolíticos. Mas, na história recente, a amplitude das
variações do preço do petróleo tem sido
atribuída mais sistematicamente aos crescentes riscos
geopolíticos relacionados com o Irão e à liquidez
abundante em contraposição com as margens de
refinação e almofadas mais pequenas uma almofada é
a dimensão da faixa entre a oferta e a procura. A bolha
petrolífera tem vindo a absorver parte do excesso de liquidez,
fortalecendo o dólar, e reforçando as rendas imperialistas dos
EUA. Apesar de os preços internacionais de petróleo muito altos
poderem frustrar uma recuperação global já de si
frágil, que tem estado a trabalhar em vão no que se refere a
postos de trabalho, a arrogante guerra dos EUA contra o Irão continua a
agitar o mercado.
Por baixo, no entanto, os preços do petróleo são demasiado
importantes para serem confiados ao 'mercado'. Com a manutenção
do padrão do petrodólar, a subida dos preços do
petróleo prejudica todas as economias importadoras num grau mais elevado
do que acontece com a economia dos EUA. As variações do
preço do petróleo engendram pois uma mudança no grau de
poder que a economia dos EUA possui vis-à-vis as outras. No ciclo
depressivo em curso, que não cede apesar do amento das dívidas,
ganha terreno a reafirmação da estatura dos EUA através do
mecanismo de controlo do petróleo. O capital financeiro também
não deixa de ficar satisfeito com a expansão do endividamento dos
EUA e do aumento do capital fictício. O capital, no seu todo, tem
mostrado robustez em resultado das dívidas que assoberbam os
trabalhadores reduzindo a sua capacidade de desfrutar uma vida decente.
Depauperar a classe trabalhadora, numa época de crise predominante na
ideologia social, aumenta a quota de valor real e de riqueza adquirida pelas
classes dominantes. Em certo sentido, o crescimento de dívidas ou
capital fictício tiveram efeitos
não fictícios
e terríveis sobre as classes trabalhadoras nas economias mais
avançadas. Mas as consequências reais mais terríveis da
expansão do capital fictício recaem sobre os povos do
Médio Oriente. As guerras de agressão destinadas a financiar as
dívidas crescentes dos EUA através de
reivindicações de direitos aumentam de intensidade devido
à fraqueza do elo que liga o petróleo ao dólar. Assim, os
preços do petróleo têm muito mais a dizer sobre o estado da
economia global do que simplesmente o custo do petróleo à
saída da bomba.
Preços voláteis do petróleo
Os preços das ramas de petróleo apresentam uma grande
variabilidade
. Muito recentemente, o Preço do Cesto de Referência
da OPEP atingiu os 140 dólares por barril em Julho de 2008, desceu para
os 35 dólares no final desse ano, e agora os preços estão
mais uma vez acima dos 100 dólares. A especulação
financeira, em especial a compra de futuros de ramas de petróleo, esteve
por detrás do brusco aumento do preço em
2008
e o actual pico [de preços] é impelido pela
especulação em torno dum
futuro com uma grande carga geopolítica. Vale a pena assinalar que as
tão faladas considerações geológicas relativas ao
fim do petróleo não são responsáveis pelas subidas
do preço do petróleo, nem em 1973 nem em 2004. As reservas de
petróleo têm importância a longo prazo; os actuais
preços do petróleo não foram determinados por
crenças que pertencem ao longo prazo. Essas considerações
geológicas apenas têm impacto no preço numa perspectiva de
futuro ou a longo prazo. Mas os problemas geopolíticos perturbam os
mercados instantaneamente e tornam-se fatídicos num instante. Os
problemas no Golfo, passados e presentes, ganharam um aspecto permanente e, com
as conversas sobre um ataque inevitável ao Irão, estão a
aumentar de intensidade. A maior preocupação a curto prazo que
influencia o preço do petróleo prende-se com uma repentina quebra
de abastecimento e um maior risco da diminuição na almofada
fornecida pela Arábia Saudita que fornece o grosso da
capacidade excedentária
.
Do lado do consumo, a procura de petróleo continua a aumentar entre um a
um e meio por cento em média, por ano. O aumento na taxa de crescimento
da China e de outras partes da Ásia nos últimos vinte anos
contribuiu para um aumento regular da procura de petróleo. Os
constrangimentos na capacidade de produção do petróleo de
extracção fácil e "doce" [com menor teor de
enxofre] no sector a montante (países da OPEP) e nos EUA a jusante
estão a tornar-se evidentes pouco a pouco. No entanto, até agora,
os constrangimentos na oferta não têm constituído um
problema
per se
porque há mais refinarias a aceitar o crude de qualidade mais pesada e
a almofada tem vindo a emagrecer. Deve notar-se que o mercado do
petróleo só pode funcionar eficazmente se estiver
disponível um certo volume de capacidade de produção de
excedentes. É necessário um volume extra para compensar os
efeitos das greves, das tempestades e das guerras mais pequenas. Mas nenhuma
almofada será suficiente numa guerra que leve ao fecho do Estreito de
Ormuz. Muito especialmente, o efeito do medo que se desenvolve em torno desta
história falseada, é dum significado invulgar para alimentar
oscilações profundas no preço do petróleo. Mas, nem
o mercado integrado nem os serviços de informações
são suficientemente estúpidos para acreditar nessa
invenção sobre a capacidade militar do Irão. Imaginem que
as capacidades do Irão têm potencial para bloquear os estreitos e
conter um ataque dos EUA no Golfo. O dólar, os EUA, o mundo tal como o
conhecemos, ficaria tudo na mesma? Tal como com o Iraque, o poder do
Irão está a ser exagerado a fim de justificar a agressão.
O
militarismo
e o controlo dos EUA sobre o flanco oriental do Golfo
Pérsico são muito mais relevantes como províncias de
acumulação de capital do que a contribuição de
receitas petrolíferas insignificantes.
O preço do petróleo é estabelecido cada vez mais nos
mercados de futuros. Assenta num conjunto de mercados de futuros, mercados
à vista, mercados a prazo e mercados de derivados em que, com liquidez
em expansão, lideram os mercados de futuros. Os participantes nestes
mercados englobam importantes instituições financeiras como a
Goldman Sachs, a Morgan Stanley, a Merrill Lynch, a Société
Générale, e a J.P. Morgan. Um grande número de
hedge funds
e de apostadores individuais também fazem parte deste mercado. Os
hedgers,
podemos acrescentar, também são especuladores dado o seu medo
de que o preço real venha a ser menos favorável do que o
preço que estão dispostos a garantir. Assim, no mercado de
petróleo actual os principais agentes são especuladores. A
principal conclusão a tirar daqui é que o preço do
petróleo também oscila em resposta a taxas diferenciais de
retorno ao investimento noutros mercados e não unicamente a
questões de oferta-procura. Assim, na presença duma ampla
liquidez e de baixas taxas de retorno noutros mercados, as
percepções cozinhadas ou as expectativas do que poderá vir
a ser o equilíbrio oferta-procura nos meses seguintes inclusive, o medo
duma repentina escassez relacionada com uma futura guerra no Golfo, arrastam o
excesso de liquidez e tornam-se as forças motoras mais poderosas deste
mercado.
Preocupações agravadas
As preocupações geopolíticas relacionadas com o Golfo e as
ameaças de
sanções ao Irão
não são novas e sempre se infiltraram no mercado do
petróleo desta ou daquela
maneira. Desde há muitos anos que o mercado tem funcionado com estas
análises sombrias como pano de fundo e coabitado com estas
condições. Mas, ultimamente, os riscos subiram. As
opiniões
propagadas nos EUA por think tanks
e pelos
grandes meios de comunicação sobre um ataque inevitável ao
Irão elevaram o nível de tensão. Quem alimenta estas
informações ao mercado ainda desestabiliza mais, e não
é por acaso, o preço do petróleo já de si
instável. O poder que emana do controlo geoestratégico dos EUA
nas áreas do petróleo e a alta variabilidade do preço do
petróleo são elementos da mesma equação que se
reforçam a si próprios e através dos quais os EUA aumentam
o seu peso e a sua posição negocial em relação a
outros agentes. O dilema para os importadores, especificamente a China,
é procurar um equilíbrio entre reduzir o controlo dos EUA nas
áreas petrolíferas, a fim de não ficar entalada
estrategicamente em termos de abastecimento de petróleo, e não
enfraquecer demasiado os EUA ao ponto de abalar o padrão do dólar
americano, acabando por precipitar um processo de
desvalorização/deflação da dívida do
dólar. Grande parte da gestão desta relação fluida
depende de os EUA expandirem e calibrarem a intensidade dos conflitos em
áreas petrolíferas estratégicas e a sua distorcida
política monetária no sector financeiro, em relação
ao modo como deseja que o impacto da flutuação do preço do
petróleo seja distribuído entre a sua própria economia e a
dos outros.
O controlo do petróleo pelos EUA, ou o grau em que os regimes das
áreas petrolíferas abdicam da sua soberania em
relação aos EUA, é a principal garantia contra o seu
endividamento crescente. Nesse sentido, guerras aventureiras em regiões
petrolíferas que permitam aos EUA exercerem maior influência sobre
o petróleo servem de mediação na contradição
entre o desempenho económico cada vez mais débil dos EUA e o
endividamento que alimenta a financiarização. A
omnipresença de conflitos e guerras por procuração no
Médio Oriente e em África reflectem rivalidades persistentes
relacionadas com a contradição entre os EUA e outros quanto
à aquisição desproporcionada de rendas imerecidas ou
imperialistas. Presentemente, vai certamente haver um esforço continuado
dos EUA para retomar relações de poder com vista à
persistência do morno ciclo de crédito, da precária
rentabilidade financeira e dos resultados medíocres das campanhas do
Iraque e do Afeganistão. As sanções ao Irão
não são destinadas a suspender o programa nuclear. Essas
sanções são um prelúdio para a guerra. Enfraquecem
estruturalmente o Irão enquanto formação em
desenvolvimento e preparam-no para o ataque, como aconteceu no Iraque.
O velho padrão petrodólar não é uma identidade em
que o valor duma determinada divisa tenha que ser estável em termos de
produtos, que
a priori
exige que o dólar mantenha um
valor estável
em termos de
produtos. Nunca houve, na história recente, falta de petróleo e,
nunca os preços do petróleo foram estáveis. O forte elo
entre o dólar e o preço do petróleo, que é
inerentemente instável, é determinado pelo grau com que o poder
dos EUA é estabelecido em relação aos produtores directos
e aos importadores. Segundo a opinião do Prof. Patnaik, este é um
sistema produto/dinheiro baseado no poder. A variabilidade dos preços do
petróleo é gerida em parte para preservar a envergadura imperial
dos EUA dentro duma faixa em que os desequilíbrios globais pressionam a
desvalorização do dólar, por um lado, e, por outro, o modo
como os EUA usam a ameaça da desvalorização e
deflação da dívida para extorquir dinheiro aos seus
credores. A principal preocupação dos EUA provém do
nível de liquidez que pode elevar a níveis politicamente
intoleráveis os preços do petróleo à saída
da bomba, e é por isso que ultimamente se tem falado em libertar
reservas estratégicas
, o que pode significar sinistramente que os
preços serão geridos se o Irão for atacado. Neste sentido,
o padrão petrodólar é um poder definido como instrumento
produto-dinheiro, que contribui para e é alimentado pela conquista
imperialista.
Sobre a questão da agressão ao Irão, o capital global
divide-se em duas linhas: capital nacional que funciona como um meio de conta
de capital controlada e um capital livre financiarizado internacionalmente. A
colaboração tácita das elites globais condicionadas pela
conta de capital, por ex. as elites chinesas, com a posição
agressiva dos EUA para com o Irão só se manterá até
ao ponto em que os prejuízos estratégicos em áreas
petrolíferas comecem a desestabilizar perigosamente as suas economias
nacionais em comparação com a erosão sofrida nas suas
posses de riqueza denominadas em dólares. Os capitais do terceiro mundo
e outros capitais financeiros de livre circulação, em especial os
que resultam duma financiarização acrescida (parasitas dos
empreendimentos imperialistas dos EUA), sabem bem que um dólar
estável repousa fortemente no grau de controlo americano das
áreas petrolíferas. Os capitais financiarizados ou de livre
circulação continuarão a apoiar incondicionalmente os EUA.
Quanto às elites de base mais nacional, uma coisa é manter a sua
riqueza ligada ao dólar e outra coisa é pôr em risco a
fonte real da sua riqueza, que deriva do desempenho das suas economias
nacionais. Como indício do crescente descontentamento em
relação à posição abertamente agressiva dos
EUA para com o Irão, a China, que no passado usou com
moderação o seu poder de veto em questões fora da sua
vizinhança, vetou a resolução do Conselho de
Segurança da ONU sobre a Síria, que é a porta de entrada
para o Irão. A luta na China entre as
'alas esquerda e direita'
pode ser detectada pela forma como os controlos de capital
têm sido instituídos
até agora a favor da esquerda. A China tem sido a
principal força impeditiva do embargo ao Irão. O modo como se
está a formar um petro-renminbi alternativo na Ásia para pagar o
petróleo iraniano é desastroso para os americanos e pode
precipitar uma guerra mais cedo do que pensamos. Será que chegou o
momento do empurrão e irá desfazer-se o apoio das [várias]
alianças de classe às extorsões imperialistas dos EUA?
[*]
Professor Sénior no Middle East Institute, Universidade Nacional de
Singapura.
O original encontra-se em
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=30314
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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