A mãe de todas as crises de energia

por Robert L. Hirsch [*]

Robert L. Hirsch. Os leitores de Power enfrentam hoje problemas graves no negócio do fornecimento de electricidade. Mas dentro em breve um problema muito maior explodirá no palco: o pico da produção mundial de petróleo. Tem havido previsões de peritos acerca do pico desde que o primeiro furo nos EUA, em 1859, começou a produzir, e muitas previsões de pico posteriores demonstraram-se incorrectas.

Reservas de petróleo mergulham

Mas o petróleo é um recurso finito e em esgotamento rápido. Não há dúvida de que a produção mundial de petróleo atingirá o pico em algum momento no tempo. Em 2005, a Real Academia de Ciências da Suécia notou que 54 dos 65 mais importantes países produtores de petróleo do mundo haviam ultrapassado o pico da produção e estavam em declínio. A academia também também observou que a taxa de acréscimo de novas reservas em todo o mundo era de menos de um terço da taxa de consumo mundial. Outros acreditam num rácio muito mais elevado.

O momento da máxima produção mundial de petróleo é incerto, em grande parte devido a dados fracos e enviesados, de modo que as previsões têm variado amplamente. Recentemente, um certo número de profissionais altamente qualificados concluíram que o mundo parece estar num planalto (plateau) na produção de petróleo, com declínios em vias de acontecer no futuro próximo. Incluídos neste grupo estão homens da indústria como Henry Groppe, T. Boone Pickens e Matt Simmons. Ken Deffeyes, geólogo aposentado de Princeton, acredita que o pico começou no fim de 2005. O competente e franco Sadad al Husseni, vice-presidente aposentado da Saudi Aramco, recentemente teve a coragem de declarar a mesma coisa. O seu conhecimento de base pode ser melhor do que o de qualquer outro homem do petróleo.

Por que está questão está a voar abaixo do radar público? Parcialmente é porque muitos economistas acreditam que quanto mais aumenta o preço de uma mercadoria, mais oferta chegará ao mercado. Aquela teoria funcionou para minerais. Mas a geologia do petróleo é diferente de uma forma fundamental. Além disso, a experiência dos últimos cinco anos contradiz a doutrina económica

O silêncio da indústria

Optimistas influentes, incluindo a ExxonMobil, Cambridge Energy Research Associates, e a Energy Information Administration do Departamento de Energia, asseguram-nos que não há motivo para preocupação imediata. Uma grande companhia de petróleo tem problemas muitos sérios em falar acerca do pico petrolífero, porque em simultâneo teria de esboçar um novo plano de negócios a fim de evitar uma queda das suas acções no mercado. No entanto, de maneira cautelosa, as principais empresas petrolíferas advertiram das sérias perturbações que estão a fermentar num recente estudo do National Petroleum Council.

Durante décadas a produção mundial de petróleo tem crescido ao ritmo do crescimento do PIB mundial. O petróleo é o sangue vital das sociedades modernas; os produtos petrolíferos alimentam quase tudo o que se movimenta. Pense-se na dificuldade em construir nova infraestrutura de energia eléctrica sem a disponibilidade imediata de combustíveis líquidos, quem dirá a preços muito mais elevados do que os de hoje.

Minha análise recente do problema — "Mitigation of Maximum World Oil Production: Shortage Scenarios" (a ser publicado em Energy Policy, Elsevier) — considerou um programa de choque à escala mundial em eficiência de combustíveis líquidos e substituição de líquidos a partir do carvão, areias petrolíferas, xisto e gás natural. Ele conclui que, após 20 anos de esforços, uns 25 a 35 milhões de barris de poupanças e líquidos substitutos podem conseguir-se. Mas se a produção mundial de petróleo declina à taxa de uns modestos 2% ao ano, o mundo ainda faltaria ao mundo dezenas de milhões de barris de petróleo por dia. Se, como acreditam alguns, se verificasse uma taxa de declínio de 5% ao ano, seria provável uma devastação económica ainda mais severa. E o que se passa se exportadores de petróleo decidirem reter o desenvolvimento da sua oferta de petróleo de acordo com o seu próprio interesse nacional?

Quando se aproximas o pico, os preços de combustíveis líquidos e a volatilidade dos mesmos aumentará dramaticamente. É o que está a acontecer agora. Contudo, como pode haver outras explicações para as actuais circunstâncias, elas por si mesmas não constituem um indicador confiável. Nós provavelmente só reconheceremos o instante do pico no espelho retrovisor.

Enfrentar a mudança inevitável

Lidar com um pico na produção mundial de petróleo será extremamente complexo, envolverá milhões de milhões de dólares e exigirá décadas de esforços intensos sob as melhores das condições.

Um quadro para o planeamento da amenização da escassez de petróleo foi desenvolvido e apresentado recentemente no relatório Hirsch. Para estimar os impactos económicos potenciais, o relacionamento potencial entre a percentagem de declínio na oferta mundial de petróleo e a percentagem de declínio no PIB mundial foi estimada ser aproximadamente 1:1, o que significa que um declínio de 1% na produção mundial de petróleo criaria uma redução de 1% no PIB mundial. Mesmo reconhecendo o facto de que a precisão é impossível em tais matérias, é preocupante contemplar o impacto da escassez mundial de petróleo a crescer a 2% a 5% ao ano ao longo de um longo período.

Há tecnologias prontas para amenizar o pico petrolífero, tais como a liquefacção do carvão, a recuperação melhorada (enhanced) de petróleo, e a de gás-para-líquidos, para mencionar umas poucas. Elas serão necessárias porque as frotas de veículos e maquinaria movidos a combustíveis líquidos por todo o mundo têm vidas úteis que se medem em décadas, e elas não podem ser substituídas rapidamente mesmo sob a melhor das condições. Primeiro, o público terá de tornar-se consciente do problema; segundo, teremos de substituir nosso actual e excessivamente complicado método de tomada de decisão — em todo o mundo; e terceiro, grandes compromissos terão de ser feitos e seguidos. As tarefas pela frente serão dantescas; também haverá notáveis oportunidades de contribuir e lucrar.

[*] Conselheiro de energia do Management Information Services Inc. Dirigiu o programa de fusão do Departamento de Energia dos EUA, chefiou o gabinete de Washington do Electric Power Research Institute e foi presidente do departamento de energia e sistemas ambientais da Academia Nacional.

O original encontra-se em
www.powermag.com/powerweb/archive_article.asp?a=152-DEPT_Comm&y=2007&m=december .
Tradução de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
13/Jan/08