Revisitando os limites do crescimento:
Após o Pico Petrolífero
- Na década de 1970 o aumento da população mundial e os
recursos finitos disponíveis para suportá-la eram tópicos
correntes. Depois o interesse desvaneceu-se mas já é
tempo de voltar ao
assunto.
por Charles A. S. Hall e John W. Day, Jr.
[*]
Nas últimas décadas tem havido grande discussão nas
academias e nos media acerca dos impactos ambientais da actividade humana,
especialmente aqueles relacionados com as alterações
climáticas e a biodiversidade, mas muito menos atenção tem
sido prestada à diminuição dos recursos básicos
para os seres humanos. Apesar da nossa falta de atenção, o
esgotamento de recursos e o crescimento da população têm
continuado de modo implacável. A mais imediata destas questões
parece ser um declínio nos reservatórios de petróleo, um
fenómeno habitualmente designado como "pico
petrolífero" porque a produção global parece ter
atingido um máximo e está agora a declinar. Contudo, um conjunto
de recursos relacionados e de questões económicas continuam a
perfilar-se com números e impactos cada vez maiores tantos que o
autor Richard Heinberg fala em "pico de todas as coisas". Acreditamos
que estas questões foram bem estabelecidas e de forma basicamente
precisa por uma série de cientistas em meados do século passado e
que os acontecimentos estão a demonstrar que as suas ideias originais
eram basicamente sãs. Muitas destas ideias foram esclarecidas
explicitamente num livro de referência chamado
The Limits to Growth,
publicado em 1972.
Nas décadas de 1960 e 1970, durante nossos anos de
formação em escolas de pós-graduação, os
nossos curricula e os nossos pensamentos foram fortemente influenciados pelos
escritos de ecologistas e cientistas informáticos que falavam clara e
eloquentemente acerca do choque crescente entre números crescentes de
pessoas e suas necessidades materiais enormemente acrescidas e os
recursos finitos do planeta. Os choques do preço do petróleo e as
longas filas nos postos de gasolina na década de 1970 confirmaram nas
mentes de muitos que os argumentos básicos destes investigadores eram
correctos e que os humanos estavam a enfrentar algum tipo de limites para o
crescimento. Era extremamente claro para nós então que a cultura
do crescimento da economia americana tinha limites impostos pela natureza tais
que, por exemplo, o primeiro autor vez planos de reforma muito conservadores em
1970 com base na sua estimativa de que estaríamos a experimentar os
efeito do pico petrolífero exactamente no período da sua
expectativa de reforma em 2008.
Estas ideias permaneceram connosco, embora em grande medida tivessem
desaparecido, pelo menos até muito recentemente, da maior parte da
discussão pública, das análises de jornais e dos curricula
das faculdades. O nosso sentimento geral é de que poucas pessoas pensam
hoje acerca destas questões, mas ainda assim a maior parte daquelas que
o fazem acreditam que a tecnologia e a economia de mercado resolveu os
problemas. A advertência em
The Limits to Growth
e mesmo a
noção mais geral de limites do crescimento é vista
como inválida.
Mesmo os ecologistas em grande medida desviaram a sua atenção
para longe dos recursos, concentrando-se, com certeza não erradamente,
sobre várias ameaças à biosfera e à biodiversidade.
Eles raramente mencionam a equação básica
recursos/números humanos que era o ponto central dos ecologistas
anteriores. Exemplo: o número de Fevereiro de 2005 da revista
Frontiers in Ecology and the Environment
foi dedicado a "Visões para um futuro ecologicamente
sustentável", mas a palavra "energia" aparecia ali
só para a "energia criativa" pessoal e
"recursos" e "população humana" mal eram
mencionados.
Mas será que a teoria dos limites do crescimento fracassou? Mesmo antes
do colapso financeiro de 2008, jornais recentes transbordavam com
notícias acerca da energia e aumentos de preços
alimentares, fome generalizada, tumultos associados em muitas cidades e
escassez de vários materiais. As seguir, as manchetes mudaram para o
colapso de sistemas bancários, aumento do desemprego e da
inflação, e contracção económica geral. Um
certo número de pessoas atribuía pelo menos uma parte substancial
do actual caos económico aos aumentos dos preços de
petróleo do princípio de 2008.
Embora muitos continuem a recusar o que aqueles investigadores da década
de 1970 haviam escrito, há evidência crescente de que as
"Cassandras" originais estavam perfeitamente certas nas suas
avaliações gerais, ainda que nem sempre nos pormenores ou na
temporização, acerca dos perigos do crescimento contínuo
da população humana e dos seus níveis crescentes de
consumo num mundo que se aproximava de constrangimentos materiais muito reais.
Já é tempo de reconsiderar estes argumentos à luz de nova
informação, especialmente acerca do pico petrolífero.
Os primeiros tiros de aviso
Uma discussão da questão recursos/população
começa sempre por Thomas Malthus e a sua publicação de
First Essay on Population,
de 1798:
Penso que se pode razoavelmente estabelecer dois postulados. Primeiro, que o
alimento é necessário para a existência do homem. Segundo,
que a paixão entre os sexos é necessária
permanecerá aproximadamente no seu actual estado. Assumindo então
meus postulados como garantidos, eu digo que a força da
população é indefinidamente maior do que a força da
terra para produzir subsistência para o homem. A população,
quando não controlada, aumenta numa razão geométrica. A
subsistência aumenta apenas numa razão aritmética. Uma
ligeira familiaridade com números demonstrará a imensidade da
primeira força em comparação com a segunda.
A maior parte das pessoas, incluindo nós próprios, concorda em
que a premissa de Malthus não se manteve entre 1800 e o presente, pois a
população humana expandiu-se em cerca de sete vezes, com altas
simultâneas em nutrição e riqueza geral embora muito
recentemente Paul Roberts, em
The End of Food,
relate que a desnutrição foi comum ao longo do século
XIX. Foi só no século XX que a energia fóssil barata
permitiu produtividade agrícola suficiente para impedir a fome. Este
argumento foi apresentado muitas vezes anteriormente de que a nossa
escalada exponencial na utilização da energia, incluindo aquela
utilizada na agricultura, é a principal razão de termos gerado
uma oferta alimentar que cresce geometricamente tal como a
população humana tem continuado igualmente a fazer. Portanto,
desde o tempo de Malthus temos evitado a fome generalizada para a maior parte
do povo da Terra porque a utilização do combustível
fóssil também se expandiu geometricamente.
Os primeiros cientistas do século XX que se levantaram contra a
preocupação de Malthus acerca da população e dos
recursos foram os ecologistas Garrett Hardin e Paul Ehrlich. Os ensaios de
Hardin na década de 1960 sobre os impactos da
super-população incluíram o famoso
Tragedy of the Commons,
no qual discute como indivíduos tendem a super-utilizar a propriedade
comum no seu próprio benefício mesmo quando isso é
desvantajoso para todos os envolvidos. Hardin escreveu outros ensaios sobre
população, cunhando frases como "liberdade para procriar
traz a ruína para todos" e "ninguém morrer de
super-população", esta última significando que o
amontoamento raramente é uma fonte directa de morte, mas antes resulta
em doença ou desnutrição, as quais então matam
pessoas. Esta frase surgiu num ensaio que reflectia sobre as milhares de
pessoas na litorânea Bangladesh que foram afogadas num tufão.
Hardin argumentou que estas pessoas sabiam muito bem que esta região
seria inundada a cada poucas décadas mas permaneceram ali de qualquer
forma porque não tinham outro lugar para viver naquele país muito
apinhado. Este padrão tornou a acontecer em 1991 e 2006.
O ecologista Paul Erlich argumentou in
The Population Bomb
que o crescimento contínuo da população acarretaria a
destruição de abastecimentos alimentares, saúde humana e
natureza, e que o processos malthusianos (guerra, fome, pestilência e
fome) mais cedo ou mais tarde fariam com que as populações
humanas ficassem "sob controle", abaixo da capacidade biótica
do mundo. Enquanto isso, o agrónomo David Pimentel, o ecologista Howard
Odum e o cientista ambiental John Steinhart quantificaram a dependência
energética da agricultura moderna e mostraram que o desenvolvimento
tecnológico está quase sempre associado à
utilização acrescida de combustíveis fósseis.
Outros ecologistas, incluindo George Woodwell e Kenneth Watt, discutiram o
impacto negativo de pessoas sobre ecosistemas. Kenneth Boulding, Herman Daly e
alguns outros economistas começaram a questionar os próprios
fundamentos da teoria económica, incluindo a sua
dissociação da biosfera necessária para suportá-la
e, especialmente, seu foco sobre o crescimento e a substituibilidade infinita
a ideia de que alguma coisa sempre surgirá para substituir um
recurso escasso. Estes escritores foram parte e parcela da nossa
graduação em ecologia no fim dos anos 1960.
Enquanto isso Jay Forrester, o inventor de um bem sucedido computador com
memória de acesso aleatório (RAM), começou a desenvolver
uma série de análises interdisciplinares e processos de
pensamento, os quais ele denominou sistemas dinâmicos. Nos livros e
documentos que escreveu acerca destes modelos ele avançou a ideia das
dificuldades a virem devido ao contínuo crescimento da
população humana num mundo finito. Esta última logo
tornou-se conhecida como o modelo dos limites de crescimento (ou o modelo
"Clube de Roma", devido à organização que
encomendou a publicação). Os modelos foram refinados e
apresentados ao mundo pelos estudantes de Forrester, Donella Meadows, Dennis
Meadows e seus colegas. Eles mostraram que o crescimento exponencial da
população e da utilização de recursos, combinados
com a natureza finita de recursos e a assimilação de
poluição, levaria a um sério declínio na qualidade
material da vida e mesmo no número de seres humanos.
Ao mesmo tempo, o geólogo M. King Hubbert previu em 1956 e mais uma vez
em 1968 que a produção de petróleo dos Estados Unidos
contíguos atingiria o pico em 1970. Embora as suas previsões
fossem descartadas na época, de facto a produção de
petróleo nos EUA atingiu o pico em 1970 e a de gás natural em
1973.
Estas várias perspectivas sobre os limites do crescimento pareceram ser
cumpridas em 1973 quando, durante a primeira crise de energia, o preço
do petróleo aumentou de US$3,50 para mais de US$12 por barril. A
gasolina aumentou de menos de US$0,30 para US$0,65 por galão [1
galão = 3,785 litros] numas poucas semanas enquanto os abastecimentos
disponíveis declinavam, devido a uma falha temporária de apenas
cerca de 5 por cento entre a oferta e a procura projectada. Pela primeira vez
os americanos tornaram-se sujeitos a filas de gasolina, grandes aumentos nos
preços de outras fontes de energia e inflação de dois
dígitos com uma contracção simultânea na actividade
económica total. Tal inflação simultânea e
estagnação económica era algo que economistas consideravam
impossível, pois ambas eram supostas estar inversamente relacionadas. O
óleo de aquecimento doméstico, a electricidade, a comida e o
carvão também se tornaram muito mais caros. Então
aconteceu outra vez: Em 1979 o petróleo aumentou para US$35 por barril e
a gasolina para US$1,60 por galão.
Alguns dos males económicos de 1974, tais como as mais altas taxas de
desemprego desde a Grande Depressão, altas taxas de juros e
elevação de preço, retornaram na década de 1980.
Enquanto isso, novos relatórios científicos foram publicados
acerca de toda espécie de problemas ambientais: chuva ácida,
aquecimento global, poluição, perda de biodiversidade e o
esgotamento da camada de ozono protectora da Terra. A escassez de
petróleo, as filas da gasolina e mesmo alguma escassez de electricidade
na década de 1970 e princípio da de 1980 pareciam dar
credibilidade ao ponto de vista de que a nossa população e a
nossa economia haviam de muitos modos excedido a capacidade da Terra para
suportá-los. Para muitos, isto parecia como se o mundo estivesse a cair
e para aqueles familiares com os limites do crescimento, parecia que as
previsões do modelo começavam a verificar-se e que este era
válido. A academia e o mundo como um todo estavam alvoroçados com
discussões de energia e questões de população
humana.
As nossas próprias contribuições para este trabalho
centraram-se em avaliar os custos energéticos de muitos aspectos de
recursos e gestão ambiental, incluindo abastecimento alimentar,
gestão fluvial e, especialmente, a obtenção da
própria energia. Um foco principal dos nossos documentos foi o retorno
energético sobre o investimento
(energy return on investment, EROI)
para a obtenção de petróleo e gás dentro dos
Estados Unidos, os quais declinaram substancialmente desde a década de
1930 até a de 1970. Logo tornou-se óbvio que o EROI para a maior
parte das possíveis alternativas era ainda mais baixo. O declínio
do EROI significava que cada vez mais energia produzida teria de ser dedicada
simplesmente à obtenção da energia necessária para
fazer andar uma economia.
A reversão
Contudo, todo este interesse começou a desvanecer-se quando enormes
quantidades de petróleo e gás descobertos anteriormente mas
não utilizado, fora dos EUA, foram desenvolvidas em resposta aos
preços mais elevados e então inundou o país. A maior parte
dos economistas convencionais, e também um bocado de outras pessoas,
não gostavam do conceito de que pode haver limites para o crescimento
económico, ou na verdade da actividade humana em geral, em
decorrência de constrangimentos da natureza. Eles sentiam que a sua
visão fora validada por esta viragem dos acontecimentos e os novos
recursos em gasolina.
A teoria económica convencional (neoclássica) é
apresentada principalmente na perspectiva da eficiência o conceito
de que forças de mercado não restringidas procuram os
preços mais baixos em cada conjuntura e que o efeito líquido
deveria ser os mais baixos preços possíveis. Isto também
levaria a que todas as forças produtivas fossem desenvolvidas da forma
óptima, pelo menos em teoria.
Os economistas desgostam particularmente da perspectiva da escassez absoluta de
recursos e escreveram uma série de relatórios desdenhosos
dirigidos aos cientistas acima mencionados, especialmente àqueles mais
estreitamente associados aos limites do crescimento. A fusão nuclear era
citada como uma candidata para a fonte seguinte de energia abundante e barata.
Eles também não encontravam evidência para a escassez,
dizendo que o produto havia aumentado entre 1,5 e 3,0 por cento ao ano. Ainda
mais importante, eles dizem que as economias tinham dentro de si mecanismos
relacionados com o mercado (a mão invisível de Adam Smith)
destinados a tratar da escassez. Um importante estudo empírico dos
economistas Harold J. Barnett e Chandler Morse, em 1963, parecia mostrar que,
quando corrigidos da inflação, os preços de todos os
produtos básicos (excepto os produtos florestais) não haviam
aumentado ao longo de nove décadas. Portanto, embora houvesse pouca
argumentação de que recursos de qualidade mais alta estivessem a
ser esgotados, parecia que inovações técnicas e
substituições de recursos, conduzidas pelos incentivos do
mercado, haviam resolvido e continuariam indefinidamente a resolver as
questões a longo prazo. Era como se o mercado pudesse aumentar a
quantidade de recursos físicos na Terra.
O novo comportamento da economia geral parecia apoiar esta visão. Em
meados da década de 1980 o preço da gasolina havia caído
substancialmente. O enorme novo campo de Prudhoe Bay, no Alasca, entrou em
produção e ajudou a mitigar em alguma medida a
diminuição da produção de petróleo em outros
lugares dos EUA, mesmo quando uma proporção crescente do
petróleo utilizado na América era importada. A energia como
assunto desvaneceu-se dos media e das conversações da maior parte
das pessoas. Supunha-se que os mercados não regulamentados levassem
à eficiência e a um declínio na energia utilizada por
unidade de produto económico. O Japão e os EUA parecia,
proporcionar evidência a essa teoria. Também afastámos a
produção de electricidade do petróleo, em
direcção ao carvão, ao gás natural e ao
urânio.
Em 1980 um dos mais persistentes e eloquentes porta-vozes da biologia na
questão dos recursos, Paul Ehrlich, caiu na "armadilha", nas
suas próprias palavras, ao fazer uma aposta acerca do preço
futuro de cinco minerais com o economista Julian Simon, um forte defensor do
poder do engenho humano e do mercado e um incrédulo quanto a quaisquer
limites para o crescimento. O preço de todos os cinco foi abaixo ao
longo dos 10 anos seguintes, de modo que Ehrlich (e dois colegas) perderam a
aposta e tiveram de pagar US$576 a Simon. O incidente foi amplamente relatado
nos media importantes, incluindo um artigo depreciativo no
New York Times Sunday Magazine.
Aqueles que advogavam em favor dos constrangimentos de recursos foram
essencialmente desacreditados e mesmo humilhados.
De modo que, para muitos, parecia como se a economia houvesse respondido com a
mão invisível das forças de mercado através de
sinais de preços e substituições. Os economistas
sentiram-se vingados e os pessimistas acerca dos recursos bateram em retirada,
embora alguns efeitos da estagnação económica da
década de 1970 perdurassem na maior parte do mundo até cerca de
1990. (Eles ainda existem em lugares tais como a Costa Rica como dívida
não paga daquele período.) No princípio da década
de 1990, as economias dos EUA e do mundo basicamente haviam retrocedido ao
modelo anterior a 1973 de crescimento a pelo menos 2 ou 3 por cento ao ano com
taxas de inflação relativamente baixas. Os preços da
gasolina corrigidos da inflação, o mais importante
barómetro da escassez de energia para a maior parte das pessoas,
estabilizou e até diminuiu substancialmente em reposta a um influxo de
petróleo estrangeiro. As discussões da escassez simplesmente
desapareceram.
O conceito de mercado como decisor objectivo final do valor e o meio
óptimo de gerar virtualmente todas as decisões ganhou cada vez
mais credibilidade, parcialmente em resposta a argumentos acerca da
subjectividade de decisões pelos peritos ou corpos legislativos. As
decisões eram cada vez mais baseadas sobre análises
económicas custo-benefício onde supostamente os
democráticos gostos colectivos de todas as pessoas era reflectido nas
suas escolhas económicas.
Para aqueles poucos cientistas que ainda cuidavam de questões de
escassez de recursos, não havia qualquer lugar específico para
pedir contribuições na National Science Foundation ou mesmo no
Departamento de Energia (excepto para estudos destinados a melhorar a
eficiência
energética), de modo que a maior parte dos nossos melhores analistas
trabalhou nestas questões nos fins de semana, após a
aposentadoria ou gratuitamente. Com muito poucas excepções, o
treino de graduados em análise de energia ou limites de crescimento
definhou. O conceito de limites manteve-se vivo em várias
questões ambientais tais como o desaparecimento de florestas
húmidas, recifes de corais, e alteração climática
global. Mas estes problemas normalmente eram tratados como específicos,
ao invés de uma questão mais geral acerca do relacionamento entre
população e recursos.
Um olhar mais atento
Para uma distinta minoria de cientistas, nunca houve qualquer dúvida de
que a 'vitória' dos economistas no debate era na melhor das
hipóteses ilusória, e geralmente baseada sobre
informação incompleta. Por exemplo, Cutler J. Cleveland, um
cientista ambiental da Universidade de Boston, reanalisou o estudo de Barnett e
Morse em 1991 e descobriu que a única razão porque os
preços das commodities não haviam aumentado mesmo quando
os seus stocks de qualidade mais elevada estavam a esgotar-se era que no
período analisado no estudo original o preço real da energia
estivera a declinar devido ao incremento exponencial da
utilização de petróleo, gás e carvão, cujos
preços reais estavam simultaneamente a declinar. Portanto, mesmo quando
era necessária cada vez mais energia para obter cada unidade de
recursos, os preço dos recursos não aumentou porque o
preço da energia estava a declinar.
Da mesma forma, quando o choque petrolífero induziu uma recessão
no principio da década de 1980, e Ehrlich e Simon fizeram a sua aposta,
a procura afrouxada de todos os recursos levou a preços mais baixos e
mesmo algum aumento na qualidade dos recursos minerados, pois só as
minas com teores mais altos eram mantidas em funcionamento. Mas em anos
recentes os
preços da energia aumentaram outra vez, a procura por materiais na
Ásia elevou-se e os preços da maior parte dos minerais aumentou
dramaticamente. Tivesse Ehrlich feito a sua aposta com Simon sobre a
última década, ele teria feito uma pequena fortuna, pois o
preço da maior parte das matérias-primas, incluindo aquelas que
eles apostaram, aumentou de 2 a 10 vezes em resposta à enorme procura da
China e ao teor declinante dos recursos.
Outro problema é que a definição económica de
eficiência não tem sido constante. Vários investigadores,
incluindo os autores, descobriam que a utilização de energia
um factor que não foi considerado nas equações de
produção de economistas é de longe mais importante
do que o capital, o trabalho ou a tecnologia para explicar o aumento na
produção industrial dos EUA, Japão e Alemanha.
Análises recentes de Vaclav Smil descobriram que ao longo da
década passada a eficiência energética da economia japonesa
realmente diminuiu em 10 por cento. Um certo número de análises
tem mostrado que a maior parte da tecnologia agrícola é
extremamente intensiva em energia. Por outras palavras, quando análises
mais pormenorizadas e orientadas para sistemas são empreendidas, os
argumentos tornam-se muito mais complexos e ambíguos, e mostram que a
tecnologia raramente funciona por si própria mas ao invés disso
tende a exigir elevada utilização do recurso.
Igualmente, a produção de petróleo nos EUA declinou em
50 por cento, como previsto por Hubbert. O mercado não resolve esta
questão para o petróleo dos EUA, apesar dos enormes aumentos de
preços e das perfurações no fim da década de 1970 e
na de 1980, houve menos produção de petróleo e gás
então, e no essencial desde então não houve
relação entre a intensidade de produção e taxas de
produção para o petróleo e gás dos EUA.
Há uma percepção comum, mesmo entre cientistas ambientais
reconhecidos, de que o modelo dos limites de crescimento foi um fracasso
colossal, uma vez que as suas previsões de poluição
extrema e declínio da população não se confirmaram.
Mas o que não é bem conhecido é que o resultado original,
baseado na tecnologia de computadores da época, tinha uma
característica muito capciosa: Não havia data no gráfico
entre os anos 1900 e 2100. Se alguém desenhasse uma linha temporal junto
à base do gráfico para determinar o ponto médio 2000,
então os resultados do modelo são quase exactamente correctos uns
35 anos depois, em 2008 (com umas tantas suposições adequadas).
Naturalmente, quão bem ele se comportará no futuro, quando o
comportamento do modelo se tornar mais dinâmico, ainda não
é conhecido. Embora não advoguemos necessariamente que a
estrutura existente do modelo dos limites do crescimento é adequada para
a tarefa à qual se destina, é importante reconhecer que as suas
previsões não foram invalidadas e de facto parecem bastante
exactas. Não conhecemos qualquer modelo feito por economistas que seja
tão preciso ao longo de um período de tempo tão longo.
Escapando a Malthus
É evidente que mesmo o mais radical apoiante dos constrangimentos de
recursos tem de aceitar que as previsões malthusianas não se
verificaram para a Terra como um todo, pois a população humana
aumentou umas sete vezes desde que Malthus escreveu o seu artigo, e em muitas
partes do mundo continua a crescer com fomes apenas esporádicas e
amplamente dispersas (embora muitas vezes com considerável
desnutrição e pobreza). Como foi isto possível?
A resposta mais geral é que tecnologia combinada com economia de mercado
ou outros sistemas de incentivo aumentaram enormemente a capacidade
biótica (
carrying capacity)
da Terra para os humanos. A tecnologia, contudo, é uma espada de dois
gumes, cujos benefícios podem ser substancialmente obliterados pelo
paradoxo de Jevons,
o conceito de que o aumento na eficiência muitas vezes leva a
preços mais baixos e portanto a maior consumo de recursos.
E a tecnologia não trabalha gratuitamente. Tal como originalmente foi
destacado por Odum e Pimentel, no princípio da década de 1970, o
aumento do rendimento agrícola é alcançado principalmente
através da maior utilização de combustíveis
fósseis para o cultivo, fertilizantes, pesticidas, secagem e assim por
diante, de modo que ela toma umas 10 calorias de petróleo para gera cada
caloria dos alimentos que comemos. O combustível utilizado é
dividido em partes aproximadamente iguais entre a unidade agrícola, o
transporte e processamento, e a preparação. O efeito
líquido é que aproximadamente 19 por cento de toda a energia
utilizada nos Estados Unidos vai para o nosso sistema alimentar. Malthus
não podia ter previsto este enorme aumento na produção
alimentar devido ao petróleo.
Analogamente, os combustíveis fósseis foram cruciais para o
crescimento de muitas economias nacionais, como aconteceu nos Estados Unidos e
na Europa ao longo dos últimos dois séculos, e está a
acontecer hoje na China e na Índia. A expansão das economias da
maior parte dos países em desenvolvimento está quase linearmente
relacionada com a utilização de energia, e quando aquela energia
é retirada, as economias contraem-se, como aconteceu com Cuba em 1988.
(Houve, entretanto, alguma expansão séria da economia
estado-unidense desde 1980 sem uma expansão simultânea da
utilização de energia. Isto é a excepção,
devida possivelmente à deslocalização de grande parte da
indústria pesada dos EUA, em comparação com a maior parte
do resto do mundo.) Portanto, a maior parte da riqueza é gerada
através da utilização de quantidades crescentes de
petróleo e outros combustíveis. Efectivamente, cada pessoa nos
Estados Unidos na Europa tem em média uns 30 a 60 ou mais "escravos
energéticos", máquinas para "cortar sua madeira e puxar
sua água", cujo poder de produção é igual ao
de pessoas muito fortes.
Assim, uma questão chave para o futuro é o grau em que os
fósseis e outros combustíveis continuarão a ser abundantes
e baratos. Em conjunto, o petróleo e o gás natural proporcionam
cerca de dois terços da energia utilizada no mundo, e o carvão
outros 20 por cento. Nós não vivemos numa era da
informação, ou numa era pós industrial, ou (ainda) numa
era solar, mas sim numa era do petróleo. Infelizmente, esta logo
chegará ao fim: Tudo indica que a produção de
petróleo e gás atingiram, ou atingirão em breve, um
máximo. Atingimos esse ponto para o petróleo nos EUA em 1970 e
agora também o atingimos em pelo menos 18 países produtores de
petróleo, e provavelmente na maioria dos 50 produtores mais
significativos. As questões importantes que subsistem acerca do pico
petrolífero não são acerca da sua existência, mas
sim, ao invés, quando ele se verificou para o mundo como um todo, que
perfil e quão aguda será a inclinação da curva
quando avançamos para o outro lado.
A outra grande questão acerca do petróleo é não
quanto é deixado no chão (a resposta é muito) mas quanto
pode ser extraído com um lucro energético significativo. O EROI
do petróleo estado-unidense declinou de aproximadamente 100:1 em 1930
para 40:1 em 1970, para cerca de 14:1 em 2000. Mesmo estes números
são relativamente positivos comparados ao EROI para descobertas
totalmente novas nos EUA, as quais, com base na limitada
informação disponível, parecem provavelmente aproximar-se
do 1:1 dentro de umas poucas décadas.
Historicamente, a maior parte da oferta de petróleo do mundo foi
descoberta através da busca em novas regiões. Foram descobertos
reservatórios muito grandes de modo particularmente rápido e a
maior parte do petróleo do mundo estava descoberta por volta de 1980.
Segundo o geólogo e defensor do pico petrolífero Colin Campbell,
"Todo o mundo foi agora pesquisado sismicamente e verificado
minuciosamente. O conhecimento geológico melhorou enormemente nos
últimos 30 anos e é quase inconcebível agora que grandes
campos permaneçam por descobrir".
Escassez de energia
O mundo enfrenta hoje enormes problemas relativos a população e
recursos. Estas ideias foram discutidas inteligentemente e, na maior parte,
precisamente em muitos documentos de meados do século passado, mas a
seguir em grande medida elas desapareceram da discussão
científica e pública, em parte devido a um incorrecto
entendimento tanto do que diziam aqueles documentos anteriores como da validade
de muitas das suas previsões. A maior parte dos manuais de ciência
ambiental centram-se muito mais nos impactos adversos dos combustíveis
fósseis do que sobre as implicações da nossa esmagadora
dependência económica e nutricional em relação a
eles. A falha hoje em trazer a realidade potencial e as
implicações do pico petrolífero, na verdade o pico de
tudo, para o discurso científico e o ensino é uma grave
ameaça à sociedade industrial.
O conceito da possibilidade de um enorme e multifacético fracasso de uma
parte substancial da civilização industrial está
tão completamente fora do entendimento dos nossos líderes que
estamos quase totalmente despreparados para isto. Para grandes questões
ambientais e de saúde, desde o tabaco até a
inundação de Nova Orleans, a evidência dos impactos
negativos historicamente antecedeu em várias décadas a
aceitação pelo público geral e as acções
políticas.
Virtualmente não há formas de transporte, para além dos
sapatos de couro e das bicicletas, que não sejam baseadas no
petróleo, e mesmo os nossos sapatos agora são feito de
petróleo. A produção alimentar é muito intensiva em
energia, o vestuário, o mobiliário e maior parte dos produtos
farmacêuticos são feitos de e com petróleo, e a maior parte
dos empregos cessaria de existir sem petróleo. Mas nos campus das nossas
universidades seria difícil perceber isso, para além de queixas
acerca do aumento do preço da gasolina, embora uma
situação semelhante à da década de 1970 parecesse
desdobrar-se no Verão de 2008 em consequência de três anos
de fraca produção de petróleo, aliviada apenas quando o
colapso financeiro diminuiu a sua procura.
Não foram desenvolvidos quaisquer substitutos para o petróleo,
pelo menos na escala exigida, e a maior parte tem uma fraca performance em
energia líquida. Apesar do potencial considerável, as fontes
renováveis (além da hidroeléctrica e da madeira
tradicional) actualmente proporcionam menos de 1 por cento da energia utilizada
tanto nos EUA como no mundo, e o aumento anual da utilização da
maior parte dos combustíveis fósseis é muito maior do que
a produção total (e muito menos do aumento) de electricidade de
turbinas eólicas e do fotovoltáico. As nossas novas fontes de
energia "verde" estão simplesmente a aumentar junto com todas
as tradicionais (ao invés de substituí-las).
Se quisermos resolver estas questões, incluindo a importante da
alteração climática, de qualquer modo significativo,
precisamos torná-las outra vez centrais na educação a
todos os níveis das nossas universidades, e debater e mesmo enfrentar
aqueles que negam a sua importância, pois temos hoje poucos grandes
líderes intelectuais sobre tais questões. Devemos ensinar teoria
económica a partir de uma perspectiva biofísica, bem como social.
Só então teremos qualquer possibilidade de entender ou resolver
estes problemas.
Bibliografia
-Barnett, H., e C. Morse. 1963.
Scarcity and Growth: the Economics of Natural Resource Availability.
Baltimore: Johns Hopkins University Press.
-Campbell, C., and J. Laherrere. 1998. The end of cheap oil.
Scientific American
March: 7883.
-Cleveland, C. J. 1991. Natural resource scarcity
and economic growth revisited: Economic and biophysical perspectives. In
Ecological Economics: The Science and Management of Sustainability.
Edited by R. Costanza. New York: Columbia University Press.
-J.,
et al.
2007. Restoration of the Mississippi Delta: Lessons from Hurricanes Katrina and
Rita.
Science
315:16791684.
-Ehrlich, P. R., and J. P. Holdren. 1971. Impact of population growth.
Science
171:121217.
-Forrester, J. W. 1971.
World Dynamics.
Cambridge: Wright-Allen Press.
-Hall C. 2004. The myth of sustainable development: Personal reflections on
energy,
its relation to neoclassical economics, and Stanley Jevons.
Journal of Energy Resources Technology
126:8689.
-Hall C. A. S., and C. J. Cleveland. 1981. Petroleum drilling and production
in the
United States: Yield per effort and net energy analysis.
Science
211:57679.
-Hall C. A. S.,
et al.
2001. The need to reintegrate the natural sciences with economics.
BioScience
51:663673.
-Hubbert, M. K. 1969. Energy resources. In the
National Academy of SciencesNational Re- search Council, Committee on
Resources and Man: A Study and Recommendations.
San Francisco: W. H. Freeman.
-Meadows, D., D. Meadows and J. Randers.
2004.
Limits to Growth: The 30-Year Update.
White River, Vt.: Chelsea Green Publishers.
-Odum, H. T. 1973.
Environment, Power and Society.
New York: Wiley Interscience.
-Smil, V. 2007. Light behind the fall: Japan's electricity consumption, the
environment, and economic growth.
Japan Focus,
April 2.
-Tierney, J. 1990. Betting the planet.
New York Times Magazine
December 2: 7981.
Para links relevantes consulte este número de American Scientist Online:
http://www.americanscientist.org/issues/id.78/past.aspx
[*]
Charles A. S. Hall: professor no College of Environmental Science and Forestry
da Universidade do Estado de Nova York - Syracuse. chall@esf.edu
John W. Day: professor emérito no Departamento de Oceanografia e
Serviços Costeiros da Universidade Estadual da Louisiana State
University.
Ambos são ecologistas de sistemas com uma vasta gama de interesses e
experiência em energia e administração de recursos.
O original encontra-se na
Scientific American
de Maio-Junho/2009 e em
http://www.esf.edu/efb/hall/2009-05Hall0327.pdf
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|