Um gesto da mão invisível
por John Michael Greer
Tem sido uma longa estrada, mas finalmente alcançámos o ponto
nestes ensaios no qual já é possível começar a
falar acerca de algumas das consequências do facto económico
primário do nosso tempo: a chegada a limites geológicos para o
aumento da produção de combustíveis fósseis. Este
é um tópico de discussão tão desafiador quanto
será vivenciá-lo, porque não pode ser entendido
efectivamente a partir de dentro dos pressupostos que estruturam a maior parte
do pensamento económico de hoje.
É comum, por exemplo, ouvir pessoas bem intencionadas insistirem em que
o mercado, obviamente, responderá à produção
restringida de combustíveis fósseis tanto pela
canalização de fundos de investimento ou de meios mais efectivos
de produzir combustíveis fósseis, por um lado, como
através de novas fontes de energia, por outro. A lógica parece
impecável à primeira vista: quando o preço do
petróleo, por exemplo, sobe, o lucro a ser feito trazendo mais
petróleo ou substitutivos do petróleo ao mercado também
sobe. Investidores ansiosos por maximizar os seus lucros portanto
despejarão dinheiro em iniciativas para produzir petróleo e os
seus substitutivos, e a produção ascenderá
consequentemente até que o preço volte a recuar.
Esta é a lógica da mão invisível, tornada famosa
primeiramente por Adam Smith em
A riqueza das nações
há mais de dois séculos e ainda central na maior parte
das ideias dominantes da teoria económica do mercado. Esta lógica
deve muito da sua influência ao facto de que em muitos casos os mercados
de facto se comportam deste modo. Tal como qualquer regra que governa sistemas
complexos, contudo, está longe da infalibilidade e precisa ser
equilibrada pela consciência das situações em que deixa de
funcionar.
AS LEIS DA TERMODINÃMICA
A energia é uma destas situações: em alguns aspectos, a
mais importantes de todas. A energia não é simplesmente uma
mercadoria entre outras; é a mercadoria original, o fundamento de toda
actividade económica. Ela segue as suas próprias leis as
leis da termodinâmica, nomeadamente as quais não são
o mesmo que as leis da teoria económica. E quando dois conjuntos de leis
entram em conflito, as leis da termodinâmica vencem sempre.
Considere uma civilização agrária que continue à
luz do sol, tal como funcionava toda sociedade humana até a
ascensão do industrialismo a uns três séculos atrás.
Em termos energéticos, parte do influxo anual de energia solar é
colectado através da agricultura, armazenado na forma de cereal e
transformado em energia mecânica ao alimentar com cereal os trabalhadores
humanos e os animais de tracção. É um sistema eficiente e
flexível
(resilient),
e sob condições adequadas pode mobilizar espantosas quantidades
de energia; a Grande Pirâmide é uma das mais óbvias
comprovações deste facto.
Tais civilizações normalmente desenvolvem prósperas
economias de mercado no qual um vasto conjunto de bens e serviços
são permutados. Elas também normalmente desenvolvem intrincadas
abstracções sociais que servem para administrar a
distribuição destes bens e serviços, bem como a riqueza
primária que vem do sol através da agricultura aos seus
cidadãos. As duas coisas, entretanto, dependem do contínuo fluxo
de energia do sol para os campos, para os celeiros, para as forças de
trabalho humanas e animais. Se algo interrompe este fluxo digamos, um
fracasso na colheita a única opção que permite a
sobrevivência colecta é ter suficiente energia solar armazenada
nos celeiros para compensar a lacuna.
Isto é necessário porque a energia não chega as regras
comuns da permuta económica. A maior parte das outras mercadorias ainda
existe depois de terem sido permutadas por outra coisa e isto torna as permutas
reversíveis. Por exemplo: se você vender ouro para comprar
mármore, pode normalmente mudar de opinião e vender
mármore para comprar ouro. A mão invisível funciona aqui;
se o mármore for escasso, aqueles que têm ouro e querem
mármore podem ter de oferecer mais ouro pela sua opção de
materiais de construção, mas as pedreiras de mármore
estarão a trabalhar horas extras para equilibrar as coisas.
A energia é diferente. Uma vez que você transforma o
conteúdo energético de uns poucos milhões de bushels
[1 bushel=35,24 litros]
de cereal numa pirâmide, digamos, pela utilização do
cereal para alimentar trabalhadores que cortam e transportam as pedras, aquela
energia foi-se, e você não pode transformar a pirâmide outra
vez em cereal tudo o que pode fazer é esperar até à
próxima colheita. Se aquela colheita fracassa, e a energia armazenada
nos celeiros já foi transformada em pirâmides, nem a economia de
mercado de bens e serviços ou o sistema abstracto de
distribuição de bens e serviços pode compensar isso. Nem,
naturalmente, pode você enviar uns dez mil trabalhadores extras para os
campos se não tiver o cereal para mantê-los vivos.
Os povos de civilizações agrárias geralmente entendiam
isto. Faz parte da tragédia do mundo moderno que a maior parte dos povos
nos dias de hoje não entendam, muito embora a nossa
situação não seja de todo diferente da deles. Nós
estamos da mesma forma dependentes de inputs de energia da natureza, embora a
nossa energia inclua vastas quantidades de luz solar
pré-histórica, na forma de combustíveis fósseis,
bem como energia solar actual em várias formas. Fundamentámos a
nossa própria espécie de mercados para permutar bens e
serviços; e o nosso sistema abstracto para administrar a
distribuição de bens e serviços o dinheiro
está tão fortemente envolto em mitologia quanto qualquer das
civilizações arcaicas do passado.
DINHEIRO PRODUTOR DE DINHEIRO
Contudo, a forma particular tomada pelo dinheiro no mundo moderno tem certos
efeitos não encontráveis em sistemas antigos. Nas velhas
civilizações agrária, a riqueza consistia primariamente de
terra agrícola e seus produtos. A quantidade de terra agrícola
num reino podia aumentar ligeiramente através da guerra ou do
investimento em sistemas de canais, embora pudesse igualmente diminuir se uma
guerra corresse mal ou os canis ficassem arruinados por tempestades de areia.
Quando as sementes de cereal eram lançadas nos campos todos esperavam
que o resultado fosse uma colheita abundante, mas ninguém imaginava que
o cereal acumulado nos celeiros iria de alguma forma multiplicar-se por si
próprio ao longo do tempo. Nos dias de hoje, em contraste, é
assumido como um facto óbvio que dinheiro pode automaticamente produzir
mais dinheiro.
Este hábito de pensamento tem as suas raízes nos três
séculos de crescimento económico explosivo que se seguiram ao
nascimento da era industrial. Numa economia em expansão, a quantidade de
dinheiro em circulação precisa expandir-se bastante rapidamente
para corresponder aproximadamente à expansão do conjunto de bens
e serviços para venda. Quando esta falha se verifica, a escassez conduz
as taxas de juro para cima (o custo de usar o dinheiro) e pode causar
contracções económicas. Isto foi um problema sério
e recorrente no fim do século XIX, e levou os reformadores da Era
Progressista a reformular economias industriais modernas de formas que
permitissem a oferta de dinheiro expandir-se ao longo do tempo para atender
à expectativa de crescimento. Mais uma vez, a mão
invisível estava em acção, com alguma ajuda de
legisladores: uma procura por mais dinheiro causava finalmente um sistema que
produzia mais dinheiro.
Tem sido destacado por um certo número de comentadores na blogosfera
relativa ao Pico Petrolífero que o método mais popular para
expandir a oferta monetária a transformação da
tomada de empréstimos a juros de um mau hábito ocasional dos
imprudentes no próprio fundamento da moderna vida económica
tem sobrevivido à sua utilidade uma vez que uma economia em
expansão conduzida pelo aumento da produção de
combustível fóssil rende-se a uma economia em
contracção limitada pela produção decrescente de
combustíveis fósseis. Isto é inteiramente verdadeiro num
sentido abstracto, mas há uma armadilha no modo de por esta
compreensão lógica em prática.
LEI DOS RENDIMENTOS DECRESCENTES
A chegada dos limites geológicos para o aumento da
produção de combustíveis fósseis coloca um fardo
sobre a economia, porque o custo em energia, trabalho e materiais (e não
de dinheiro) para extrair combustíveis fósseis não depende
de forças de mercado. Na média, ascende ao longo do tempo, pois
reservas facilmente acessíveis são esgotadas e têm de ser
substituídas por aquelas de extracção mais difícil
e custosa. Melhorias de eficiência e novas tecnologias podem conter isso
numa medida limitada, mas ambas enfrentam o problema familiar dos retornos
decrescentes pois as leis da termodinâmica e outras leis físicas
entram em jogo.
Quando uma sociedade se aproxima dos limites geológicos da
produção, por outras palavras, quando gradualmente uma
fracção crescente da sua oferta total de energia, recursos e
trabalho tem de ser dedicada à tarefa de acarretar a energia, isto
mantém toda a economia em movimento. Esta percentagem pode ser pequena a
princípio, mas é efectivamente um imposto em espécie sobre
toda a actividade económica produtiva e à medida que cresce torna
a actividade económica produtiva menos lucrativa. O processo pelo qual
dinheiro produz mais dinheiro não consome qualquer energia, em
contraste, e assim investimentos financeiros não perdem terreno devido
à ascensão dos custos energéticos.
Isto torna os investimentos financeiros, em média, relativamente mais
lucrativos do que investir nas espécies de actividade económica
que utilizam energia para produzir bens e serviços não
financeiros. Quanto mais elevado o fardo imposto pelos custos da energia, mais
geral se torna a disparidade. O resultado, naturalmente, é que
indivíduos tentam maximizar os seus próprios ganhos
económicos e transferem o seu dinheiro de investimentos na economia
produtiva de bens e serviços para a economia de papel das
finanças.
Ironicamente, isto acontece exactamente quando uma oferta monetária
perpetuamente em expansão conduzida pela tomada maciça de
empréstimos a juros se tornou um anacronismo inadequado à nova
realidade económica da contracção de energia. Isto
também garante que qualquer tentativa de limitar a esfera financeira da
economia enfrentará oposição em massa, não
só dos financeiros como de milhões de cidadãos comuns
cujos sonhos de uma aposentadoria confortável repousam na
esperança de que investimentos financeiros ultrapassarão a
vacilante economia de bens e serviços. Enquanto isso exactamente
quando a economia mais precisa de reinvestimento maciço em capacidade
produtiva para readaptar-se ao mundo muito diferente definido pela oferta de
energia em contracção o dinheiro de investimento à
procura de retornos mais altos foge da economia produtiva para o reino da
riqueza abstracta de papel.
Este efeito tão pouco será contraditado, como sugerem as pessoas
bem intencionadas mencionadas no princípio deste ensaio, por uma
inundação de dinheiro de investimento a ir para a
produção de energia e a fazer recuar o seu custo. Produzir
energia gasta energia e portanto a produção está
simplesmente tão sujeita à elevação dos custos da
energia como qualquer outra actividade produtiva. Ao mesmo tempo, quando o
preço do petróleo sobe, os custos de extraí-lo ou de fazer
algum substitutivo para ele elevam-se em conjunto e tornam investimentos na
produção de petróleo ou substitutivos não mais
lucrativos do que em qualquer outra parte da economia produtiva. O
petróleo que já foi extraído do chão pode ser um
bom investimento, e papeis financeiros a especular sobre o preço futuro
do petróleo provavelmente serão excelentes, mas nada disto
ajudará a aumentar a oferta do petróleo, ou de qualquer
substitutivo do petróleo, que flui para a economia.
Um pormenor intrigante deste cenário é que o mesmo já
afectou o primeiro grande produtor de petróleo a ter atingido o Pico
Petrolífero sim, os Estados Unidos. É improvável
ter sido acidental que no rastro do seu próprio pico de
produção, em 1972, a economia americana tenha seguido exactamente
esta trajectória de desinvestimento maciço na economia produtiva
e de expansão maciça da economia de papel das finanças.
Muitos outros factores desempenharam um papel naquele processo, sem
dúvida, mas suspeito que a instável mas inexorável
ascensão nos custos de energia ao longo dos últimos quarenta anos
tinha muito mais a ver com as entranhas da economia americana do que a maior
parte das pessoas suspeitam.
EXPANSÃO EM METÁSTASE
Se isto for correcto, agora que a produção petrolífera
encontrou globalmente os mesmos limites que a colocaram em declínio aqui
nos Estados Unidos, o mesmo padrão de desinvestimento na
produção de bens e serviços unido à expansão
metastática do sector financeiro pode mostrar-se numa escala muito mais
vasta. Há limites para quão longe ela pode ir, naturalmente,
não porque financeiros e aposentados às vezes tenham carinho por
bens de consumo, mas estes limites ainda não foram atingidos, de modo
algum. Também é fácil prever um futuro no qual a
indústria, a agricultura e todos os outros sectores da economia que
produzem bens e serviços sofram de sub-investimento crónico, em
que os custos da energia continuem a elevar-se e em que a infraestrutura em
colapso se torna um factor dominante na vida diária, enquanto o
Wall Street Journal
(impresso em Shanghai nessa altura) anuncia a emergência da primeira
meia dúzia de quadrilionários no mercado de
derivativos-de-derivativos-de-derivativos.
Talvez o limite mais importante no caminho de tal corrida rumo ao absurdo
económico seja o simples facto de que nem toda economia utiliza as
decisões individuais de investidores em busca do ganho privado para
aplicar capital de investimento. Pode não ser acidental que um bom
número das economias com mais êxito do mundo exactamente agora,
com a China bem à frente, toma as suas decisões de investimento
com base pelo menos em parte em considerações políticas,
militares e estratégicas, ao passo que a nação que ostenta
mais orgulhosamente a sua economia de mercado sim, esta seria os Estados
Unidos, mais uma vez está a cambalear de uma derrocada
económica para outra.
Infelizmente também se verifica que muitos dos países que
retiraram as suas decisões de investimento das mãos de um sistema
de mercado auto-suicida não são propriamente um bom exemplo na
delicada preocupação que dedicam aos direitos humanos. Caso seja
esta a tendência do futuro e pode ser importante notar que Oswald
Spengler, entre outros, previu tal resultado , então, a mão
invisível poderá acabar por mostrar o dedo médio a todos
nós.
11/Novembro/2009
O original encontra-se em
thearchdruidreport.blogspot.com
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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