Contagem decrescente para os US$200/barril
— agora está nos US$115!!

por Jerome a Paris [*]

. Tenho sido delicadamente censurado por não fazer quaisquer contagens regressivas agora que os preços do petróleo começaram a baixar. Enquanto a leviandade e alegria demonstrada por muitos no media tradicionais e alhures são pouco mais do que ridículas, como se demonstra neste gráfico preparado para o Oil Drum, algumas questões sérias foram levantadas e merecem respostas.

Assim, para além da semi-improvisada resposta de que durante o mês passado nada de facto aconteceu nos mercados de petróleo (afinal de contas, o recente declínio é ainda mais pequeno, em termos percentuais, do que vários outros no último par de anos), aqui estão uns poucos pontos que convém notar.

Uma amostra das séries Countdown to $200 oil :

"Era especulação e a bolha explodiu"
"Variações tão pequenas na procura ou na oferta não podem explicar tais mudanças de preços"
"O que dizer acerca do prémio [nos preços] da guerra do Irão – aquilo é especulação, não é?"
"A procura está baixa (nos EUA), os preços virão abaixo de volta ao normal"
"Os asiáticos também reduzirão a sua procura".


Muitos não concordam com a minha afirmação de que a especulação tem pouco ou nada a ver com a corrida nos preços do petróleo, e consideram que os brutais aumentos de preços, seguidos por igualmente brutais diminuições, não podem ser explicados pelas mudanças razoavelmente pequenas nos números da oferta ou da procura.

Deixem-me tentar explicar outra vez porque, nas condições de hoje, pequenas variações têm precisamente essas consequências.

Num mercado em que a oferta é abundante, o equilíbrio do mercado será efectuado pelo ajustamento da oferta, isto é, o preço será tal que apenas o volume requerido de petróleo é extraído para atender à procura, e não mais. Nesse caso, a competição entre fornecedores actua em pleno, e o preço será o custo marginal da oferta, que é o custo do barril mais caro que é preciso para atender exactamente a procura. Todos os produtores com custos inferiores terão aquele mesmo preço (e farão um lindo lucro quanto mais barato forem os seus custos), e aqueles que são mais caros não produzirão. Em tais circunstâncias, variações na procura (ou nova oferta que surja) pode apenas fazer com que o preço se mova lentamente ao longo a curva do custo de produção, e maiores movimentos de preços habitualmente vêm de factores "acima do chão", isto é, crise geopolíticas que incluem um risco de grande ruptura da oferta.

Mas se nos movermos para um mercado em que a oferta é utilizada totalmente a fim de satisfazer a procura, entramos num mundo inteiramente novo. Neste caso, se a procura potencial ainda aumenta, não há oferta a curto prazo para atender tal procura, e a exigência absoluta para o equilíbrio físico do mercado traduz-se (para além da utilização de stocks, os quais só podem ser temporários) numa necessidade de destruir procura, isto é, de alguns potenciais utilizadores privarem-se de utilizar petróleo. Como todos nós sabemos, o petróleo é realmente conveniente, e todos nós estamos pouco desejosos (e, em muitos casos, incapazes) de parar de utilizá-lo. Mas ainda assim a destruição da procura precisa de acontecer. No curto prazo, isto exige que os preços subam suficientemente altos para convencer alguém a parar de utilizar o produto, tanto porque ele/ela não pode arcar com a despesa ou porque ele/ela escolhe uma alternativa que é menos conveniente mas mais barata e, a tal nível de poupança, vale a pena incorrer no incómodo. Em tais circunstâncias, movimentos de preços a curto prazo podem ser bastante violentos, e serão. De facto, qualquer acontecimento que perturbe a oferta, quaisquer notícias que mostrem que a procura era mais elevada do que o esperado, ou que a oferta era inferior à esperada, o a sugerir que a procura será mais elevada do que se pensava, ou a oferta mais baixa do que o esperado, pressionará imediatamente os preços para cima (e as notícias opostas para baixo, naturalmente), porque as notícias traduzem um desequilíbrio entre a oferta e a procura e uma maior necessidade de destruição da procura (inversamente, uma menor necessidade disso).

  • Assim, uma explosão num pipeline na Nigéria – bang!, 200 mil barris/dia de petróleo (de alta qualidade) fora do mercado. Destruição do mercado, precisa-se!
  • Ben Bernanke sugere que uma recessão é inevitável – os preços vão abaixo pois uma economia mais lenta traduzir-se-á em menos procura de petróleo, e portanto menos destruição da procura será exigida;
  • A armazenagem de petróleo aumenta – ah!, a procura era mais baixa do que pensávamos (ou a oferta mais alta) no mês passado, e haverá menos necessidade de destruição da procura no mês seguinte!
  • Bush aceita conversações directas com o Irão – bang, a o prémio de guerra vai abaixo, pois diminui a probabilidade de um conflito que ponha em perigo o abastecimento de petróleo (o qual provocaria uma necessidade maciça e brutal de destruição da procura, a menos que o armazenamento estratégico seja espremido).

De facto, no mês passado houve uma sucessão de notícias que foram todas no mesmo sentido. Na mesma semana, Bernanke foi extremamente baixista (bearish) acerca da economia, os stocks de petróleo estavam mais altos do que o esperado, e conversações com Irão aconteceram. Cada um destes eventos tomou 3-4% do preço do petróleo, trazendo o preço para baixo em mais de US$15 em três dias.

E a qualquer momento que isto aconteça, especuladores são apanhados em erro e precisam fechar as suas posições, o que habitualmente reforça temporariamente o movimento subjacente (ah! Então os especuladores existem! E eles pressionam preços! Bem, sim, há especuladores – mas, na maior parte, eles seguem o mercado ao invés de conduzi-lo. Qualquer ultrapassagem de preços é habitualmente temporário. Eles proporcionam serviços valiosos, ao trazerem liquidez aos preços – e com isso proporcionando contrapartidas desejáveis àqueles que querem comprar hedge –, como companhias de aviação que compram futuros ou opções para o seu abastecimento ao longo dos meses ou trimestres seguintes a preços em que se protejam – e as suas tarifas – de preços ainda mais altos).


Um ponto que precisa ser reiterado é que a destruição da procura nos EUA (ou mesmo na Europa, onde também está a acontecer) não é suficiente por si própria para fazer descer os preços, porque ela precisa ser maior do que o crescimento da oferta no resto do mundo a fim de limitar as exigências de nova destruição da procura e ascensão de preços, uma vez que a produção está em grande medida estagnada . E o problema é que a procura não está a crescer apenas na China e na Índia, graças ao crescimento rápido, também está a crescer maciçamente nos próprios países produtores de petróleo (Arábia Saudita, Irão, Rússia, Venezuela), os quais muitas vezes subsidiam a gasolina e que podem permitir-se isso uma vez que têm uma protecção (hedge) natural (o subsídio fica maior quando os preços do petróleo estão mais altos, isto é, quando o seu próprio rendimento é maior, e o crescimento do rendimento é maior do que o crescimento do subsídio para aqueles que exportam quaisquer volumes de petróleo). De facto, a maior parte da destruição da procura acontecer em lugares sensíveis ao preço, como os países importadores mais pobres (mas eles não estava a queimá-lo muito de qualquer forma), e no mundo rico (o qual ainda pode permitir-se pagar petróleo, mas consome muito dele). Mas não podemos estar certos de que isto aconteça suficientemente rápido para realmente levarem os preços a descer devido ao que está a passar-se no resto do mundo.

Qualquer coisa que encoraje a redução da procura alhures (como subsídios mais baixos) ajuda a fazer descer preços, mas não é de forma alguma óbvio que tenhamos alcançado níveis de preços que sejam suficientes para provocar a estagnação geral da procura em face da produção estagnada ou quase-estagnada.

Assim, neste ponto, ainda estou feliz em continuar meu "Countdown to $200 oil series" e não vejo qualquer razão para considerar que a recente acalmia nos preços seja um sinal de uma tendência séria de mudança no mercado.

De facto, reitero mais uma vez que as nossas políticas energéticas deveriam focar uma coisa acima de tudo: a redução da procura. Qualquer redução da procura que consigamos em excesso daquilo que as forças de mercado nos forçariam a fazer fará com que os preços desçam, e nos poupará um bocado de dinheiro – e a destruição de procura mais inteligente é aquela da espécie permanente, que nos traz poupanças todo o mês e todo ano ao invés de poupanças isoladas como desistir de uma viagem.

Temos de reduzir a nossa procura. Vamos fazer isso de um modo organizado ao invés de fazê-lo em pânico, de um modo aleatório e inconsistente. E é nisso que os governos podem ajudar, proporcionando perspectiva a prazo mais longo, informando os cidadãos, pressionando a infraestrutura na direcção relevante, e aplicando padrões que se apliquem igualmente a todos e guiem o comportamento individual na direcção certa (Energia Inteligente).

Os mecanismos de preços funcionam, mas eles são brutais, prejudicam sobretudo os pobres, e provocam rupturas desnecessárias da actividade económica, e sofrimento para muitos. E eles são instáveis, pois a actual volatilidade (a qual, como expliquei acima, é provável que permaneça) provoca sinais que mudam rapidamente os quais impedem a tomada de decisões.

10/Agosto/2008

[*] Economista, jeromeguillet@yahoo.fr

O original encontra-se em http://europe.theoildrum.com/node/4399#more


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
13/Ago/08