Crítica e crítica
Acerca do "nacionalismo do PIB"
O antigo governador do Banco de Reserva [banco central da Índia]
Raghuram Rajan revelou-se abertamente contra a medida adoptada em Novembro de
2016 pelo governo indiano de desmonetizar o papel-moeda, num discurso
apresentado recentemente na Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Como Rajan é um economista conceituado e tem sido um importante decisor
económico no país, é de saudar a sua crítica da
desmonetização: ela acrescenta um peso considerável
às vozes que se têm levantado contra esta medida perversa e
despótica do governo Modi. Ao mesmo tempo, contudo, ela proporciona uma
ocasião para traçar uma importante distinção. Como
não pode haver oportunismo ou frente unida táctica em
matéria de teoria (ao contrário da utilização
aberta e criativa de outras ideias, tal como fez Lenine com as ideias de J.A.
Hobson), traçar tais distinções mesmo entre aqueles
que
podem estar alinhados do mesmo lado contra uma medida particularmente opressiva
torna-se essencial para o rigor teórico.
Há duas espécies distintas de crítica contra a medida da
desmonetização. Uma vem da esquerda e destaca as
consequências desastrosas para os camponeses, os pequenos produtores e os
trabalhadores em geral, em suma, as vastas massas trabalhadoras. A outra, vem
de um conjunto de pessoas, incluindo o antigo primeiro-ministro Manmohan Singh,
a qual está dentro do paradigma neoliberal, que destacou o efeito
deletério sobre a taxa de crescimento do PIB do país. Certamente
a primeira crítica não estava inconsciente, nem silenciou, seu
efeito deletério sobre o crescimento: afinal de contas, um ataque ao
sector da pequena produção que é tão importante
numa economia como a nossa não pode senão afectar adversamente
sua taxa de crescimento. E a segunda, seria não educado sugerir,
está inconsciente, ou não preocupada, com os sofrimentos do povo
trabalhador com a desmonetização. No entanto, há uma
diferença de foco e de ênfase entre as duas, uma destaca os
efeitos directamente sobre o povo e a outra os efeitos sobre o crescimento do
PIB, uma foca as condições do povo e a outra a dimensão da
acumulação de coisas.
A crítica de Rajan pertence claramente à segunda categoria. Ele
observou que, enquanto a taxa de crescimento da economia mundial estava a
subir, a taxa de crescimento da Índia, a qual, estando ligada sob o
regime neoliberal, também deveria ter aumentado, pelo contrário
diminuiu e atribuiu este facto aos efeitos da
desmonetização e da introdução do Imposto sobre
Bens e Serviços (GST). Certamente, como todos os neoliberais, ele
sugeriu que a sua preocupação com a taxa de crescimento decorria
da sua preocupação acerca do emprego e, portanto, acerca do povo;
que a Índia tinha de ter uma taxa de crescimento superior a 7 por cento
ano se quisesse reduzir o seu problema de desemprego, mas que a
desmonetização e o GST haviam derrubado a taxa de crescimento
abaixo daquele número.
Contudo, este argumento com base no qual os neoliberais justificam o seu foco
no crescimento do PIB, tem pouca validade. O facto de que durante o
período anterior, os anos de pré-liberalização, a
taxa de crescimento do PIB estivesse em torno dos 3,5 a 4 por cento e a taxa de
crescimento do emprego em torno dos 2 por cento, ao passo que na era neoliberal
uma duplicação da taxa de crescimento do PIB para mais 7 por
cento tivesse sido acompanhada por uma redução pela metade da
taxa de crescimento do emprego (para 1 por cento) simplesmente não
é reconhecido na sua argumentação. Por outras palavras,
muito embora a afirmação seja de que a preocupação
quanto ao crescimento do PIB é acerca do povo, ela é realmente
acerca do crescimento do PIB
per se,
isto é, acerca do tamanho da acumulação de coisas em si.
Esta inquietação com o crescimento do PIB é um componente
essencial da ideologia na era do neoliberalismo. E serve a um objectivo de
classe muito útil para a grande burguesia. Se o crescimento do PIB se
torna o supremo objectivo nacional, então quem quer que seja que promova
esse crescimento torna-se o verdadeiro defensor da nação, ao
passo que quem fizer qualquer coisa que pareça impedir esse crescimento
torna-se
ipso facto
"antinacional". Uma vez que numa sociedade burguesa é a
burguesia, e em particular a grande burguesia, que empreende a
acumulação de capital que antecede o crescimento do PIB, a grande
burguesia torna-se a corporificação real do nacionalismo. Por
outro lado, todos os trabalhadores oprimidos, que procuram defender seus
padrões de vida indo à greve por salários mais altos ou
manifestando-se a favor de controles de preços, parecem estar a
"perturbar" a economia e a minar o crescimento do PIB. Eles portanto
parecem estar a actuar de uma maneira "anti-nacional".
Portanto, ironicamente, enfatizar o crescimento do PIB, ostensivamente para
promover o interesse do povo com a criação de maiores
oportunidades de emprego, serve para deslegitimar todas as lutas populares e
legitimar ao invés toda espécie de concessões que
estão a ser oferecidas ao capital para empreender o investimento. A mais
desavergonhada promoção do interesse corporativo parece ficar
justificada ao passo que todas as lutas populares parecem ser
ilegítimas! Mesmo oferecer concessões ao capital metropolitano
adquire legitimidade como parte de um "projecto nacional", um
projecto de "construção da nação"!
Este "nacionalismo do PIB" (se se pode chamá-lo assim), embora
geralmente idolatrado na era neoliberal, e jungido a um projecto comunal
Hindutva no período da crise do neoliberalismo a fim de lhe dar um
impulso adicional, tem longos antecedentes. De facto é uma parte
integral do "nacionalismo" burguês que surgiu na Europa no
século XVII e intensificou-se no XVIII. Os escritores mercantilistas
(muitos dos quais eram associados da English East India Company) bem como os
proponentes da economia política clássica eram ambos afligidos
por essa ideia, embora tivessem ideias muito diferentes sobre como podia ser
promovida.
Quando Adam Smith escreveu
A riqueza das nações
o seu objectivo era claramente desvendar o mistério de como a riqueza
podia ser aumentada, considerando como garantido que um tal aumento era um
objectivo "nacional" desejável, embora a sua própria
análise mostrasse que uma maior magnitude de riqueza da
nação não implicaria uma melhor condição
para o seu povo trabalhador. David Ricardo disse aproximadamente o mesmo que
Smith a este respeito. O aumento da riqueza, por outras palavras, era
considerado desejável
per se.
Isto é exactamente o que o "nacionalismo do PIB" de hoje
propaga efectivamente. Para isto ele advoga uma estratégia de classe
particular, a saber, um assalto ao povo trabalhador e um apaziguamento da
oligarquia corporativo-financeira e do capital internacional com a qual ela
está integrada.
Dizer isto não significa que este "nacionalismo do PIB" seja
uma mera conspiração por parte das classes dominantes, nem que
toda a gente que endosse isto seja um participante consciente nesta
conspiração. A sociedade burguesa realmente cria a
condição em que o foco está nas coisas ao invés das
relações entre pessoas. As coisas tornam-se misteriosamente
dotadas de poderes sobrenaturais. Portanto, os próprios meios de
produção parecem ter a capacidade de gerar um excedente por si
próprios, de modo que os lucros são vistos como parte natural e
inerente dos próprios meios de produção, o que é o
que a teoria económica burguesa nos ensina nestes dias.
Portanto não é nada surpreendente que a mera
acumulação de coisas, e a própria taxa em que tal
acumulação é efectuada (a qual é o que mede a taxa
de crescimento do PIB) pareça ter a misteriosa capacidade de ultrapassar
todos os problemas sociais, tais como o desemprego e a pobreza, sem considerar
as condições sociais e relações sociais
específicas sob as quais ocorre a produção e cresce o PIB.
Tal "reificação", como é chamado este
fenómeno na literatura marxista, não é apenas um estado de
coisas, uma característica de uma economia produção de
mercadorias generalizada; ela também desempenha um papel importante. Ao
esconder as relações reais entre pessoas na sociedade, as quais
tornam-se opacas porque são mediadas através de coisas, ela
também proporciona, através desta mesma camuflagem, uma
justificação ideológica para a exploração.
Vêem-se os lucros dos capitalistas ascenderem devido às
propriedades inerentes dos próprios meios de produção, ao
invés da apropriação do valor excedente através da
utilização da força de trabalho dos trabalhadores no
processo de produção. Exactamente do mesmo modo, o
"nacionalismo do PIB", o qual atribui poderes misteriosos às
coisas, proporciona uma justificação ideológica para
ordenar a sociedade de uma maneira mais favorável à grande
burguesia.
Segue-se portanto que apesar de toda crítica contra a
desmonetização do governo Modi deva ser saudada, a
distinção entre a crítica do tipo neoliberal e a
crítica de esquerda, com a primeira a enfatizar os constrangimentos
colocados à acumulação de coisas e a última a
enfatizar a intensificação da exploração que ela
implica, nunca deve ser perdida de vista.
30/Dezembro/2018
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2018/1230_pd/criticism-and-criticism
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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