Na Índia tal como em muitos outros países sob o capitalismo
neoliberal
Acumulam-se nuvens tempestuosas de recessão
O índice de produção industrial, pela primeira vez desde
Junho de 2013, contraiu-se em termos absolutos em 0,1 por cento no mês de
Março de 2019, em comparação com um ano atrás. Isso
acontece depois de um aumento de apenas 0,07% em Fevereiro, um aumento de 1,7%
em Janeiro, um aumento de 2,6% em Dezembro e um aumento de 0,3% em Novembro. O
crescimento industrial, em suma, vem desacelerando há algum tempo e o
último dado reafirma enfaticamente essa tendência.
Dentro da produção industrial, o sector manufactureiro, que tem
um peso de 77,6%, declinou 0,4% em Março em comparação com
o ano anterior, e isso ocorreu devido a um declínio de 8,7% nos bens de
capital, uma queda de 5,1% nos bens de consumo duráveis, uma queda de
2,5% nos bens intermediários e um aumento de 0,3% em bens não
duráveis. Para o ano financeiro de 2018-19 como um todo, o crescimento
do índice de produção industrial foi de apenas 3,6%,
inferior aos 4,4% de 2017-18; mas foi nos últimos meses do
exercício que a recessão ganhou força.
Esta recessão, em certo sentido, é inevitável. É
um sintoma do facto de que a economia indiana, como outras economias do mundo,
está presa em um limbo, com o neoliberalismo tendo chegado a um beco sem
saída e nenhum outro regime económico baseado no mercado
doméstico ter vindo substituí-lo.
A economia mundial tem assistido a uma desaceleração que agora
começa a afectar economias como a Índia e a China devido a uma
taxa de crescimento mais baixa das exportações. Mas a menor taxa
de crescimento das exportações não é sequer
parcialmente contrabalançada por qualquer aumento do crescimento do
mercado interno. Ao contrário, o mercado interno também
está a encolher ao mesmo tempo devido à miséria rural,
devido aos efeitos secundários da desaceleração do
crescimento das exportações e também por causa do
crescente peso dos incumprimentos de activos
(non-performing assets),
assim como
inter alia
do abrandamento do crescimento industrial, o qual esmaga a disponibilidade de
crédito para o empreendimento de grandes despesas. O abrandamento do
crescimento das exportações, por outras palavras, longe de ser
contrabalançado, é ainda agravado pela contracção
do mercado interno.
Isso fica claro pelo facto de o sector de bens de consumo duráveis ter
encolhido e o sector de bens de consumo não duráveis ter
permanecido praticamente estagnado em Abril em relação ao
mês de Abril anterior. E a contracção na
produção de bens de capital, que ocorre no topo de uma
contracção que já ocorrera em Fevereiro, sugere que o
investimento na economia está em queda.
O Reserve Bank of India [banco central] já anunciou duas vezes cortes
na
Repo Rate
[NR]
, de 25 pontos base cada; mas é improvável que isso
faça grande diferença. O que está a atrasar o desembolso
de crédito não é tanto o custo do crédito mas a sua
disponibilidade, que ficou prejudicada por estar bloqueada pelos activos
não cumpridos. Naturalmente, mesmo que o crédito estivesse
facilmente disponível não está claro quanta
diferença faria isso, mas com a própria disponibilidade de
crédito sujeita a alguma rigidez, um mero rebaixamento das taxas
não aumentará o desembolso de crédito em qualquer medida
significativa.
O que é necessário é a expansão orçamental,
mas aqui chegamos ao cerne da questão. Nesta época de
eleições, vários partidos políticos prometeram
maiores transferências para os pobres das áreas rurais, o que
certamente expandiria o mercado interno e causaria algum reavivamento da
produção industrial. O orçamento do governo de Modi havia
prometido 6000 rupias per capita anualmente para cerca de 120 milhões de
pessoas pertencentes a pequenas famílias camponesas. O [partido do]
Congresso foi muito além no seu manifesto eleitoral. Ele prometeu sob
seu esquema
NYAYA
dar 6000 rupias por mês, ou seja, 72.000 rupias por ano, para o quintil
mais baixo das famílias, o que representa cerca de 50 milhões de
lares.
Embora esses esquemas, especialmente o do NYAYA, que é muito mais
ambicioso, ajudem a expandir o mercado interno, a questão é como
os recursos para isso podem ser levantados. A tributação dos
ricos, especialmente através da tributação da riqueza, que
é virtualmente inexistente na Índia e que, portanto, pode gerar
receitas substanciais precisamente não existe na Índia, é
a maneira óbvia de mobilizar recursos; mas isso será
resolutamente combatido pelo capital financeiro internacional. Manmohan Singh
havia dito diplomaticamente, quando o esquema do NYAYA estava a ser
lançado, que não deveria haver problemas quanto ao levantamento
dos recursos; mas encontrar recursos para isso dentro de um regime neoliberal
será extremamente difícil.
Da mesma forma, se o esquema for parcialmente financiado por um aumento do
défice orçamental, então a magnitude do défice
orçamental ultrapassará sua meta de 3,4% do PIB, e isso
provavelmente levará a um rebaixamento da classificação de
crédito da Índia, tornando extremamente difícil financiar
o défice em conta corrente na balança de pagamentos. Este
problema se tornará ainda mais agudo se a Índia aceder à
exigência americana de parar de comprar petróleo do Irão, o
qual é mais barato do que os preços spot do petróleo que a
Índia teria de pagar. O governo de Modi já indicou sua
disposição de aceder à exigência americana; se
retornar ao poder, ele simplesmente reiterará esta posição.
Os preços do petróleo já se estão a firmar, o que
ampliará o défice actual; se as sanções dos EUA
contra o Irão também forem consideradas, então o
défice actual aumentará ainda mais. E se, além disso, o
montante do défice orçamental exceder sua meta, então a
entrada de recursos financeiros secará à medida que a
classificação de crédito da Índia cair e
haverá pouca esperança de enfrentar este défice de modo
normal.
Estamos portanto numa situação bizarra. Se o governo tentar
superar a recessão crescente, terá dificuldade em atender ao
défice em conta corrente; por outro lado, se nada fizer para combater a
recessão, então a situação do desemprego, que
já é sombria, se tornará ainda mais sombria.
A severidade da situação de desemprego tem sido ocultada da
opinião pública porque o governo simplesmente se recusou a
publicar quaisquer dados sobre o desemprego durante mais de dois anos. Mas um
relatório que escapou do Gabinete de Estatística do governo
coloca a taxa de desemprego em 6,1%, a mais alta dos últimos 45 anos. O
Centro de Monitoramento da Economia Indiana colocou a taxa de desemprego nos
7,6% em Abril. Deve-se notar que enquanto os movimentos na taxa de desemprego
dão uma indicação da direcção do movimento
do desemprego, a taxa em si não captura a magnitude do problema. Isso se
verifica porque o racionamento de empregos na Índia assume a forma de a
maior parte das pessoas serem empregadas apenas uma parte do tempo, ao
invés de algumas estarem plenamente empregadas e outras estarem
plenamente desempregadas.
Claramente, portanto, o governo terá que fazer alguma coisa para
melhorar o desemprego; mas fazer qualquer coisa irá desestabilizar a
balança de pagamentos dentro do paradigma neoliberal. Em suma, as
galinhas neoliberais estão finalmente a voltar a casa para se
empoleirarem.
Como o próprio neoliberalismo está a entrar num beco sem
saída, este deveria ter sido o momento ideal para se desvincular dele
através da introdução, de controles de capital e de
comércio [exterior]. Como os Estados Unidos já estão
introduzindo controles de comércio, a Índia poderia ter
introduzido tais controles à sombra da acção dos EUA. E
com tais controles em vigor, poderia ter introduzido um imposto sobre a riqueza
e um imposto sobre heranças. Ele poderia então cumprir sua
promessa de efectuar pagamentos de transferências para as famílias
pobres e, dessa forma, expandir o mercado interno, seguindo-se os passos
necessários para aumentar a taxa de crescimento da
produção de cereais. O estancamento dos influxos financeiros em tal
situação não teria feito grande diferença para a
capacidade do país de financiar seu défice em conta corrente, o
qual teria diminuído de qualquer modo devido aos controles comerciais.
Mas o governo Modi parece ter pouca consciência do facto de o
neoliberalismo ter chegado a um beco sem saída. E o partido do
Congresso, que foi o arquitecto das reformas neoliberais da Índia,
apesar de prometer o esquema do NYAYA, não terá a temeridade de
actuar em conformidade. A recessão industrial, portanto, é
provável que se acentue.
26/Maio/2019
[NR]
Chama-se
repo rate
à taxa a que os bancos centrais remuneram depósitos feitos
pelos bancos comerciais. Ela influencia o nível geral das taxas do país.
A
repo rate
é o oposto da taxa de desconto, que consiste na taxa a que os bancos
centrais emprestam aos bancos comerciais.
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/0526_pd/gathering-storm-clouds-recession
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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