O que há de errado com um défice orçamental?
Escrevi acerca disto anteriormente, mas considerando que a má teoria
económica torna-se cada vez mais espessa entre os representantes do
capital financeiro, especialmente as instituições de Bretton
Woods localizadas em Washington DC, não há mal em que me repita.
A questão refere-se ao défice orçamental e actualmente tem-se
tornado urgente porque as receitas dos governos por toda a
parte do mundo, inclusive a Índia têm diminuído
devido ao confinamento induzido pela pandemia, ao passo que a necessidade de gastos
governamentais em socorro e cuidados de saúde escalou acentuadamente e
exige maiores défices orçamentais.
Duas proposições grosseiramente erradas são
avançadas neste contexto pelos representantes da finança: uma, de
que um défice orçamental para além de um certo limite
(habitualmente 3 por cento do PIB) deve sempre ser evitado pois ou tende a ser
inflacionário (se for monetizado, isto é, se a tomada de
empréstimo adicional do governo vier do banco central), ou exclui
(crowds out)
o investimento privado (se a contracção do empréstimo
adicional do governo provier do sector privado). Ao longo desta
discussão ignorarei, para maior simplicidade, o caso da tomada de
empréstimos no estrangeiro.
A segunda proposição errada é que se, ao invés de
contrair empréstimo, o governo financiar suas despesas pela venda de
algum activo de sua propriedade, tais como participações do
sector público ou terra governamental, então não haveria
efeitos danosos como aqueles de um défice orçamental. De facto as
receitas da venda destes activos são apresentadas como rendimento do
governo, a par da sua receita fiscal, e portanto o défice
orçamental ampliado desaparece. Vamos examinar estas duas
proposições uma por uma para verificar porque são erradas.
Numa economia onde há capacidade não utilizada e desemprego, isto
é, numa economia que é constrangida pela procura, um
défice orçamental mesmo se financiado pela
contracção de empréstimos do governo junto ao banco
central não pode ser inflacionário. A inflação
ocorre se a oferta não puder aumentar enquanto a procura aumenta, a
preços de base. Mas numa economia constrangida pela procura um aumento
da procura provocará um aumento da produção e portanto da
oferta e não dos preços. Portanto não existe a
questão de ser inflacionária numa situação como a
actual, onde existe tanto capacidade não utilizada como desemprego.
A única diferença que faz contrair empréstimos do banco
central, em oposição a contrair empréstimos do sector
privado, é a seguinte: se o governo toma emprestado do banco central, o
qual imprime moeda e a dá ao governo, então a despesa do governo
coloca esta moeda em mãos privadas. Se ao invés o governo contrai
empréstimos do sector privado então isso colocaria títulos
do governo em mãos privadas. Se a moeda é colocada em mãos
privadas então estas terão direitos sobre o banco central o qual
por sua vez tem direitos sobre o governo (contra o qual aquela moeda foi
impressa): portanto o sector privado mantém direitos sobre o governo
indirectamente. Mas se o governo tomar emprestado directamente do sector
privado então este possui direitos sobre o governo directamente. Esta
é toda a diferença que há entre as duas
situações.
Temos estado a falar acerca do "sector privado", mas como os
trabalhadores mais ou menos consomem tudo o que ganham, trata-se dos
capitalistas cujas poupanças aumentam devido ao défice
orçamental e que possuem direitos sobre o governo. Os direitos que os
capitalistas possuem contra o governo por causa do défice
orçamental foram colocados nas suas mãos pelo próprio
défice orçamental. Trata-se de uma benesse
(booty)
que lhes é entregue pelo governo, a qual eles nada fizeram para ganhar.
Os recursos que o governo obtém para despesas através de um
défice orçamental surgiram da maior produção gerada
pelo estímulo que ele proporciona e a parte do lucro desta
produção simplesmente aterra no colo dos capitalistas, uma
fracção da qual eles mantém como poupanças, na
forma de direitos sobre o governo.
Isto também nos diz porque um défice orçamental não
é um bom caminho para financiar gastos governamentais. Não
é por causa dos argumentos espúrios avançados pelos
representantes da finança, mas sim porque um défice
orçamental aumenta a desigualdade de riqueza. Se por exemplo o governo
tributasse esta benesse através de um imposto sobre o lucro ou um
imposto sobre a riqueza, então a riqueza dos capitalistas permaneceria a
mesma que era antes do aumento da despesa do governo; mas se não o
fizer, então esta riqueza aumenta exactamente no montante do
défice orçamental. Isto aumenta a desigualdade de riqueza no
país.
Uma vez que um défice orçamental coloca riqueza nas mãos
dos capitalistas sem que estes façam nada para ganhá-la, aumenta
gratuitamente a desigualdade de riqueza na economia e é isso que
está errado com ele, quando comparado por exemplo com despesas
governamentais financiadas por impostos.
Quanto ao financiamento da despesa governamental através da venda dos
seus activos, o FMI não considera isto como parte do défice
orçamental, o que é absurdo pela seguinte razão: Vimos que
(numa economia fechada) um défice orçamental coloca nas
mãos dos capitalistas um montante de direitos sobre o governo
exactamente equivalente. Estes direitos podem ser detidos indirectamente,
quando capitalistas detêm dinheiro, ou directamente, quando detêm
dívida pública. A venda para eles de activos do governo, como
participações do sector público ou terras do governo,
apenas altera a forma dos seus direitos sobre o governo.
Se participação do sector público for vendida,
então tal participação apenas substitui moeda nas
mãos dos capitalistas (se o défice for financiado pela tomada de
empréstimo junto ao banco central); da mesma forma ela apenas substitui
títulos do governo quando o défice não é
monetizado. Portanto o efeito de vender activos do governo não é
absolutamente diferente daquele do défice orçamental
convencional. De facto, despesas governamentais financiadas pela venda de
activos do governo deveriam ser contadas como défice orçamental,
exactamente como o gasto financiado pela venda de títulos governamentais.
Mas por que o FMI pensa de outra forma? A razão é inteiramente
ideológica. Apesar de possivelmente não poder haver qualquer
diferença entre as duas situações aquela em que o
governo financia seus gastos colocando direitos sobre si próprio na
forma de títulos da dívida pública nas mãos dos
capitalistas, e a outra em que o governo gasta colocando suas
participações nas mãos de capitalistas a
razão porque o FMI conta a primeira como défice orçamental
e franze as sobrancelhas em relação a ela, ao passo que permite a
segunda, é porque quer que o sector público seja privatizado.
É esta preferência ideológica que faz com que o FMI
pretenda que a venda de participações do sector público
não deveria ser contadas como défice orçamental.
O mesmo se pode dizer da venda de terras governamentais. Apesar de as suas
consequências económicas serem exactamente as mesmas da venda de
títulos da dívida pública (a qual é o que implica
um défice orçamental), ela não é contada como
défice orçamental como deveria ser. Em suma, é claramente
errado tratar a venda de terras governamentais como uma medida para aumentar
receitas. Mas muitos economistas, influenciados pelo pensamento do FMI, assim o
fazem.
Isto tem uma consequência infeliz. Quer o governo gaste através da
venda de títulos ou da venda de terras não faz diferença
para o facto de que isto aumenta a desigualdade de riqueza. Um défice
orçamental aumenta a riqueza dos capitalistas ao colocar títulos
da dívida pública (ou moeda) nas suas mãos bem além
da riqueza que eles possuíam antes de o governo ter decidido gastar mais
através do recurso a um défice orçamental. Colocar terra
ou participação no sector público nas mãos de
capitalistas não faz um mínimo de diferença para isto;
apenas muda a forma da sua riqueza, não o facto de capitalistas obterem
riqueza adicional e portanto haver um aumento na desigualdade de riqueza da
sociedade.
Se bem que aumento da despesa governamental na Índia nas presentes
circunstâncias seja um dever, uma vez que a economia indiana é
constrangida pela procura, advogar que esta despesa deveria ser financiada
através de uma venda de terras do governo demonstra uma falta de
consciência tanto do facto de que a venda de terras não é
diferente de um défice orçamental como de que isto também
implica um aumento da desigualdade de riqueza.
Se a economia é para ser estimulada e se a desigualdade de riqueza
é para ser impedida de se tornar ainda pior do que o nível
horrendo já atingido, então o único meio para que isto
possa ser feito é através de maior despesa governamental que seja
financiada por um imposto sobre os ricos, ou um imposto sobre os lucros ou um
imposto sobre a riqueza.
26/Julho/2020
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2020/0726_pd/what-could-be-wrong-fiscal-deficit
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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