Os multimilionários e a pandemia
Os dados relativos à distribuição de riqueza são
notoriamente difíceis de interpretar. Isto acontece porque
variações nos preços das acções afectam a
distribuição de riqueza, de modo que um boom no mercado de
acções subitamente faz com que os ricos pareçam muito mais
ricos, ao passo que um colapso do mercado de acções torna a
distribuição de riqueza menos desigual da noite para o dia. Por
outras palavras, o facto de que os ricos mantêm uma parte da sua riqueza
na forma de acções torna difícil estimar a sua riqueza
total a qual agora tem uma componente durável e outra que é
potencialmente evanescente.
Entretanto, há certas ocasiões em que se pode dizer algo
definitivo acerca da distribuição de riqueza o
período da pandemia tem sido uma destas ocasiões. Há
poucas dúvidas de que mesmo durante os meses da pandemia, enquanto
milhões de trabalhadores de todo o mundo sofriam de modo agudo com a
perda de emprego e de rendimento, os multimilionários do mundo
aumentaram enormemente a sua riqueza. E isto certamente significa um aumento na
desigualdade de riqueza no mundo.
Segundo um relatório do banco suíço UBS, mencionado no
Guardian de 7 de Outubro
, a riqueza dos multimilionários do mundo aumentou em
27,5 por cento entre Abril e Julho deste ano, o período em que a
pandemia estava no seu pico. A sua riqueza no fim de Julho havia atingido uma
altura recorde de US$10,2 milhões de milhões
(trillion)
ou £7,8 milhões de milhões. O pico anterior da riqueza dos
multimilionários era de US$8,9 milhões de milhões no fim
de 2017. Desde então, enquanto o número de
multimilionários aumentava ligeiramente de 2158 para 2189, a sua riqueza
aumentou consideravelmente. De facto, entre o fim de 2017 e o fim de Julho de
2020 a riqueza per capita dos multimilionários aumentou em 13 por cento.
O facto entretanto é que este aumento é o resultado
líquido de dois movimentos contraditórios: uma queda até
Abril de 2020 e uma ascensão drástica de 27,5 por cento desde
então até o fim de Julho.
Esta ascensão tem uma significância particular. Uma vez que
grandes massas do povo dificilmente possuem qualquer riqueza e o pouco que elas
possuem não flutua muito em valor, ao contrário dos preços
no mercado de acções, um aumento nos preços das
acções
ipso facto
aumenta a desigualdade de riqueza na sociedade e, inversamente, uma
redução nos preços das acções reduz a
desigualdade de riqueza. Uma conclusão sólida, como vimos, acerca
da magnitude da mudança na desigualdade de riqueza torna-se
difícil de traçar.
Contudo, o aumento na desigualdade de riqueza depois de Abril é
totalmente diferente. Segundo um porta-voz do UBS, quando os preços das
acções estavam em queda antes de Abril de 2020 os
multimilionários não só não liquidavam suas
acções em pânico mas realmente compravam
acções de possuidores mais pequenos que estavam empenhados no
pânico da venda. Em consequência, quando os preços das
acções aumentaram depois de Abril eles obtiveram enormes ganhos
de capital. Estes ganhos decorrem essencialmente do facto de que pequenos
possuidores de acções não têm a capacidade de reter
suas acções. Portanto o aumento na concentração de
riqueza durante a pandemia não foi apenas em relação aos
muito pobres que de qualquer modo não têm riqueza, mas
também em relação aos pequenos possuidores de riqueza.
Não foi apenas o efeito espontâneo de uma ascensão geral
nos preços das acções; foi um acto específico do
que Marx chamou de centralização do capital.
Em
Imperialismo
Lenine disse que toda crise sob o capitalismo, seja económica ou
política, torna-se uma ocasião para a centralização
do capital. É preciso acrescentar as crises médicas à
lista de Lenine, na verdade toda a espécie possível de crises.
O mecanismo habitual para a centralização é a ruína
que visita os pequenos produtores capitalistas durante uma crise (ela
também visita os micro produtores, mas a sua dizimação
é encoberta sob a expressão acumulação primitiva de
capital, ao invés de centralização) e portanto aqueles,
tipicamente bancos mais pequenos ou agências de crédito, que os
financiaram. Todos estes são capturados por companhias maiores, ou
simplesmente afundam, deixando o campo livre para companhias maiores invadirem
o espaço até então ocupado por eles.
Além deste mecanismo de centralização, há
também a simples fusão de capitais, o agrupamento conjunto de
vastas massas de pequenos capitais nuns poucos muito grandes, tais como o que
os bancos ou mercado de acções promove. Isto constitui outro
mecanismo, muito poderoso, de centralização.
O que temos assistido durante a pandemia é ainda outro mecanismo de
centralização, diferente dos dois acima, decorrente da
incapacidade de pequenos possuidores de riqueza enfrentarem os colapsos de
preços de acções que os multimilionários podem
aguentar. Este poder dos multimilionários não tem nada a ver com
qualquer "coragem", ou "determinação" ou
"empreendedorismo" ou qualquer daquelas supostas virtudes que a
mitologia do capitalismo lhe atribui. Ele simplesmente tem a ver com o facto de
que eles são grandes.
Como eles são grandes podem permitir-se aguentar
flutuações dos preços das acções na sua
caminhada e até mesmo efectuar ganhos maciços com a incapacidade
dos pequenos possuidores de riqueza para assim fazer. De facto, ironicamente
sua capacidade para aguentar flutuações dos preços das
acções decorre não de serem "tomadores de risco"
mas sim de serem precisamente o oposto, ou seja, avessos à tomada de
riscos.
A sua riqueza implica que se podem dar ao luxo de não correr riscos, ou
seja, o luxo da "segurança". Daí que detenham a sua
riqueza de uma forma diversificada para minimizar o risco e as
acções são apenas uma das formas em que detêm a sua
riqueza. Quando os preços das acções caem a um
nível invulgar, como acontece com qualquer crise sem precedentes, podem
permanecer imperturbáveis, ao passo que os detentores de riqueza mais
pequenos são apanhados desprevenidos. Os grandes detentores de riqueza
aproveitam esta oportunidade para obterem ganhos com os males dos pequenos
detentores de acções que começam a vender
acções em desespero.
Um exemplo tornará este ponto mais claro. Se eu tiver 100 rupias de
riqueza, então gostaria de mantê-la numa forma que me dê um
rendimento suficientemente grande, mesmo que haja o perigo de incorrer em
perdas de capital. A minha preferência não é por gostar de
correr riscos, mas porque preciso desesperadamente do rendimento. Por isso, por
exemplo, colocarei toda a minha riqueza em acções. Se, pelo
contrário, se eu tiver 1 milhão de rupias, então já
tenho um rendimento amplo de qualquer forma e posso dar-me ao luxo de reter
apenas metade da minha riqueza sob a forma de acções e a outra
metade sob a forma de saldos bancários que dificilmente me dão
qualquer rendimento. Se houver uma queda de 10% nos preços das
acções, então enquanto o pequeno detentor de
acções perde 10% da sua riqueza, o grande detentor de
acções perde apenas 5% (ou seja, 10% sobre metade da sua
riqueza). O último pode portanto permitir-se suportar a queda na sua
trajectória, ao passo que o primeiro não pode. E quando em
desespero, para evitar novas perdas, o primeiro começa a vender
acções, o segundo, ou seja, o grande detentor de
acções, compra essas acções e mantém-nas
até o mercado se tornar mais favorável.
As flutuações no mercado de acções são
comuns sob o capitalismo; mas as quedas são muito mais drásticas
durante as crises, não importam como sejam causadas. E este é
precisamente o período em que grandes possuidores de riqueza fazem uma
matança a expensas dos pequenos. A centralização ocorre
com uma vingança durante tais períodos.
Todo este processo, embora executado em relação aos pequenos
detentores de riqueza, faz lembrar a acumulação primitiva de
capital infligida aos micro produtores. Se os grandes detentores de riqueza
compram acções no valor (genuinamente) de Rs 100 aos mais
pequenos a Rs 100, então não há ganho líquido para
eles. Para pagar esta compra, têm de reduzir os seus saldos de caixa ou
pedir emprestado aos bancos ou vender algum outro activo que possuam. Em todos
estes casos não há aumento do activo líquido que possuem
(ou do seu "património líquido"). Mas se comprarem
acções no valor de Rs 100 por apenas Rs 50 devido a uma queda nos
preços das acções, e, digamos, tomarem emprestado este
montante junto a um banco, então quando os preços das
acções recuperarem para o seu verdadeiro valor, eles teriam
expandido o seu património líquido em Rs 50. Neste caso, os
maiores detentores de acções teriam enriquecido à custa
dos mais pequenos em Rs 50, o que é análogo à
acumulação primitiva de capital.
O porta-voz do UBS alegou que o aumento da concentração da
riqueza durante a pandemia era um fenómeno estranho ao capitalismo. Ele
não podia estar mais errado. Está inteiramente em conformidade
com a lógica do capitalismo; na realidade, é inevitável
sob o capitalismo que toda tragédia humana que desencadeie uma crise
neste sistema se torne uma ocasião para um aumento da
concentração da riqueza através do mecanismo que acaba de
ser esboçado.
Este aumento na concentração da riqueza tem ocorrido país
após país, incluindo mesmo na Índia, onde, de acordo com a
mesma fonte, a riqueza dos multimilionários indianos aumentou 35% no
mesmo período para US$423 mil milhões de dólares (
The Wire,
16 de Outubro). Ao longo deste período, a produção
contraiu-se em quase um quarto, tal como o emprego. Este contraste dá
uma ideia do
modus operandi
do capitalismo.
25/Outubro/2020
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2020/1025_pd/billionaires-and-pandemic
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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