Aviltando a
intelligentsia
[O primeiro-ministro] Narendra Modi disse recentemente, de modo escarninho, que
os
"naxalitas urbanos"
[1]
vivem no conforto do ar condicionado. Esta observação acaba por
abranger toda a
intelligentsia,
uma vez que aqueles que falam ou escrevem em público, defendendo o
direito a discordar das posições do
hindutva
[2]
, incluindo conhecidos críticos de esquerda praticamente todos os
membros da
intelligentsia
que mantêm a integridade, foram classificados pelo governo de
"naxalitas urbanos".
A sua observação constitui uma tentativa extremamente grosseira
de deslegitimar qualquer posição intelectual que seja
desagradável para o governo, sugerindo que os que defendem tais
posições vivem confortavelmente e, portanto, não deveriam
ser levados a sério. Ou seja, o próprio facto de viverem
confortavelmente tornaria falsos os seus argumentos.
Esta afirmação é absurda pelo menos por três
razões.
Primeiro, a maioria das pessoas presas nos últimos meses
como
"naxalitas urbanos"
eram ativistas dos direitos civis que trabalhavam com pessoas tribais
marginalizadas e a viverem com elas em condições difíceis,
como autênticos ativistas de todo o tipo, incluindo os ativistas
políticos de esquerda, costumam fazer. As condições em que
vivem de facto estão muito longe da imagem do conforto do ar
condicionado, de Modi.
Em segundo lugar, o próprio Modi e os seus amigos nos grandes
negócios e nos
media
, cujas declarações ele deseja sem dúvida que as pessoas
levem a sério como constituindo a "verdade", não vivem
propriamente na penúria. Na verdade, vivem num conforto de ar
condicionado muito maior do que quaisquer outros no país. (Um deles
até tem um alto edifício em Mumbai só para si).
Em terceiro lugar, e de modo ainda mais pertinente, a validade ou não de
uma posição intelectual tem de ser definida intelectualmente e
não apenas olhando para o estilo de vida da pessoa que mantém
essa posição. Na verdade, quando o estilo de vida da pessoa que
mantém uma determinada posição é invocado para
denegrir essa posição, então podemos ter a certeza de que,
subjacente a tal invocação, há uma incapacidade de
confrontá-la intelectualmente.
Mas este hábito de tentar negar posições intelectuais
simplesmente tentando rebaixar aos olhos do povo as pessoas que as mantém
caracteriza todos os movimentos de direita (por vezes, incorretamente chamados
de "populistas") que se
estão a verificar por todo o mundo. Todos eles tentam denegrir
posições intelectuais que lhes são intragáveis,
não através de argumentos, mas utilizando diversas formas de
caluniar o conjunto de intelectuais que defendem tais posições.
Mas como eles não têm muitos intelectuais dignos desse nome,
porque se tivessem, confrontariam críticas com argumentos ao
invés de simples calúnias, suas calúnias aos intelectuais
que não estão de acordo com eles limitam-se a rebaixar todos os
intelectuais: consideram todos os intelectuais como reais ou potenciais
ameaças de grau variável. Em resumo, eles opõem-se
à própria atividade intelectual.
Não há nada de surpreendente nas razões porque estes
grupos reacionários não têm quaisquer intelectuais dignos
desse nome. A intelecção exige fazer perguntas e uma
característica destes grupos marcados pelo fanatismo é que os
membros dos mesmos devem engolir incondicionalmente o que lhes é
transmitido a partir do topo, pelo "líder". Isso não
significa necessariamente que não façam perguntas. Muitos
deles não fazem, claro, mas outros fazem-nas, presumivelmente. Mas
aqueles que as fazem, mantêm esse facto cuidadosamente camuflado, seja
por medo ou por puro oportunismo ou ainda por razões carreiristas.
Porém, o resultado é que a atividade intelectual no seio destes
grupos assume a forma de simples propaganda de um conjunto de pensamentos
transmitidos, pensamentos que depois são repetidos por todo o grupo.
Não assume a forma de qualquer envolvimento independente dos seus
membros com ideias ou dúvidas.
Quando um movimento reacionário surge de súbito e rapidamente se
guinda à proeminência, ele pode conseguir arregimentar o apoio de
algum intelectual importante já conhecido e, dessa forma, alegar um
certo
pedigree
intelectual. Mas, mesmo neste caso, trata-se de uma coexistência do
movimento com alguns intelectuais por sua conveniência e não de
qualquer atividade intelectual no seio do movimento. Por outro lado, em
movimentos antigos e bem instalados, como o
Hindutva
, o âmbito desses arranjos de conveniência praticamente não
existe. Como as ideias são transmitidas a partir do fundador por
intermédio dos líderes que o seguiram, alegar um
pedigree
intelectual emprestado torna-se muito arriscado, não vá criar
confusão entre os adeptos devido a alguma falta de sincronia entre as
ideias do intelectual "possuído" por conveniência e as
ideias transmitidas pelos líderes.
Tais movimentos são portanto intrínseca e essencialmente
anti-intelectuais, não apenas anti-esquerda mas opostos a
qualquer forma de atividade intelectual independente. Daí oporem-se ao
ensino per se, o qual, pela sua própria natureza, exige uma atividade
intelectual na procura do conhecimento.
Há aqui uma diferença fundamental entre a esquerda e a direita. A
esquerda, tradicionalmente, apoia ideias em geral, na procura de conhecimentos
em geral. Sem dúvida esse apoio baseia-se na crença de que, num
ambiente destes, as ideias da esquerda darão frutos dado o seu valor
intelectual, mas isso é irrelevante. Mas a questão é que
as apoia. Muitos ativistas de esquerda na Índia, por exemplo, ajudaram a
construir escolas e liceus, não com o objetivo tacanho de propagandear
as ideias da esquerda (da forma que o RSS
[4]
usa as escolas para propagandear as ideias RSS), mas apenas para fomentar o
pensamento, para fomentar a busca de conhecimentos na sociedade. Estas
instituições não são instituições do
Partido, seja em que sentido for, nem instituições controladas
pelos ativistas do Partido que as fundaram; pelo contrário, aqueles que
as fundaram têm a tendência de se afastarem, depois de plantarem a
sementinha para o futuro da sociedade.
A direita, por outro lado, tem uma perspetiva totalmente diferente, que se
manifesta no facto de um dos legados mais duradouros do atual governo BJP
[5]
, que será lembrado durante muito tempo, é o caos em que
lançou o sistema de ensino do país, em especial no sistema do
ensino superior. Isto não tem origem numa gestão desastrada de um
ministro em especial; nem de um tratamento de má qualidade imposto a uma
instituição em especial; nem de um simples grupo de pessoas,
associadas à direção de instituições de
ensino anteriores ao período BJP, e substituídas por outro grupo
de pessoas aceitáveis ao BJP, menos competentes ou com menos
experiência ou com um espírito menos académico. Os danos
têm sido sistemáticos, generalizados e provocados não por
qualquer diferença sociológica entre um conjunto de
administradores e outro, mas pelo facto estrutural de que o fanatismo
hindutva
não suporta qualquer escrutínio de si mesmo e, portanto,
não suporta qualquer vibrante instituição de ensino
superior, visto que a razão de ser de uma instituição
dessas é escrutinar tudo.
O
hindutva
só pode adquirir hegemonia matando o pensamento per se. A
oposição à atividade intelectual que lhe é
fundamental tem de se transformar obrigatoriamente numa oposição
à atividade intelectual, enquanto tal.
Mas não basta que a tribo dos intelectuais seja vitimizada oficialmente.
Se estes mantiverem o respeito da sociedade, essa vitimização
pode virar-se contra o partido no governo, dada a simpatia que a
população tem por eles. A vitimização dos
intelectuais tem pois de ser acompanhada pela difamação dos
mesmos, para que percam o seu estatuto moral entre a população. A
população tem de os ver como "os outros". Tornam-se
necessários para esse objetivo qualificativos como "naxalitas
urbanos", elementos "anti-nacionais", uma imoral
"multidão de língua inglesa", um grupo promíscuo
no "luxo do ar condicionado". Juntamente com os muçulmanos, os
dalits
e os grupos marginalizados, também os intelectuais têm de passar
a ser estranhos para a população.
Isto torna-se especialmente importante numa sociedade em que os intelectuais
sempre foram tidos em alta estima pela população, um legado do
nosso passado feudal, baseado nas castas (apesar de os intelectuais de outrora
terem sido um grupo muito diferente dos intelectuais duma sociedade
pós-colonial que ainda evidenciam as marcas de serem um produto da luta
anti-colonialista). Ironicamente, um partido como o BJP que defende aspetos
essenciais do nosso passado feudal, como o sistema de castas (que é
central em todo o hinduísmo ortodoxo e, portanto, o projeto
hindutva
) está a tentar vigorosamente destruir um importante legado desse
passado, nomeadamente a estima pelos intelectuais ou pelas pessoas empenhadas
em trabalho mental.
Também não é surpresa nenhuma que o esteja a fazer
atribuindo-lhes "vícios burgueses", como viver no conforto do
ar condicionado. Contudo, mais uma vez, a ironia consiste no facto de que isso
está a ser feito por um governo que afirma que a sua capacidade mais
importante é a de anunciar um rápido desenvolvimento
bourgeois,
ao ponto de abrir a economia à
operação desenfreada do capitalismo internacional. Mas esta
ironia é inerente à lógica do capitalismo neoliberal
contemporâneo.
25/Novembro/2018
Notas da tradutora
[1] Naxalitas: Movimento maoísta indiano, radicado sobretudo em zonas
rurais.
[2] Hindutva: Antigo movimento nacionalista hindu violentamente
anti-muçulmano.
[4]
RSS
: Organização Patriótica Nacional,
organização nacionalista hindu, da ala direita, considerada como
organização originária do Partido Bharativa Janata, o
partido no governo da Índia.
[5] BJP: Partido Bharativa Janata, Partido do Povo Indiano, lidera o governo da
Índia.
Ver também:
Também sou uma naxalita urbana
, de Arundhati Roy
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2018/1125_pd/vilifying-intelligentsia
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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