As relações comerciais com os EUA
A Grã-Bretanha, quando era o principal país capitalista do mundo,
tinha um défice em conta corrente em relação aos
países emergentes, como a Europa Continental e os Estados Unidos, no
final do século XIX e início do século XX. Na verdade,
é da natureza do país líder ter esse défice, uma
vez que proporciona a esfera de acção para que outros
cresçam dentro do arranjo de moeda internacional presidido pelo
país líder.
Os EUA também têm um défice em conta corrente
vis-à-vis
os países emergentes de hoje. A diferença entre os dois
está no facto de que a Grã-Bretanha não apenas cumpria seu
défice corrente, mas chegava a fazer exportações de
capital para os mesmos países com os quais tinha um défice em
conta corrente e compensava-o pelo excedente da conta corrente
engendrado em relação às suas colónias, para as
quais fazia exportações "desindustrializantes",
e
de cujo excedente de exportação adicionalmente se apropriava de
modo
gratuito
para liquidar seus pagamentos. Em suma, a Grã-Bretanha não teve
de enfrentar qualquer problema de balança de pagamentos, apesar de ter
défices substanciais em conta corrente e na conta de capital em
relação aos novos países emergentes daquele tempo.
Os EUA não têm essa possibilidade em aberto. Embora ainda existam
excedentes apropriados das antigas "colónias" por causa dos
direitos de propriedade intelectual e outras destas extorsões, estas
nada são quando comparadas ao que é necessário para
equilibrar os pagamentos dos EUA. A descolonização
política tornou impossível aos poderes metropolitanos imporem
às suas antigas "colónias" um sistema de
transferências gratuitas. Os EUA, portanto, expandiram sua dívida
externa por um longo tempo a fim de cumprirem suas obrigações de
balança de pagamentos, criando pela primeira vez na história do
capitalismo uma situação em que a mais poderosa potência
capitalista do mundo também é a mais endividada externamente. Mas
agora ela deseja controlar seu endividamento externo.
Além disso, ela não pode sequer manter seu nível de
actividade interno fazendo exportações
"desindustrializantes". Tais exportações podiam ser
feitas anteriormente porque a Grã-Bretanha, a potência colonial
mais forte, tinha estes mercados coloniais "disponíveis"; ela
podia acessá-los à vontade. Mas os EUA não têm
mercados coloniais "disponíveis".
Confrontado com um declínio na actividade interna e um aumento do
endividamento externo, os EUA embarcaram numa nova estratégia, de serem
proteccionistas e, ainda assim, de "persuadir" os países
emergentes a aceitarem voluntariamente seu proteccionismo unilateral. Tentaram
convencer a China a aceitar o seu proteccionismo unilateral. Deste modo, espera
fazer com que outros países suportem o fardo do ajuste, enquanto aumenta
o nível de actividade interna e ao mesmo tempo fecha seu défice
na balança de pagamentos. Mas não teve êxito em
relação à China, uma vez que o governo chinês acaba
de aplicar tarifas mais altas a todo um conjunto de exportações
dos EUA.
E agora [o governo dos EUA] está a tentar persuadir a Índia a
aceitar seu proteccionismo sem retaliar e se possível reduzir suas
próprias tarifas, de modo a que as exportações americanas
possam ter mais facilidade para entrar no mercado indiano e deslocar as
exportações asiáticas em direcção às
quais a Índia se deslocava cada vez mais ao longo da última
década ou pouco mais. Em breve uma equipe americana chegará
à Índia a fim de tentar convencer o país a aceitar
voluntariamente o proteccionismo dos EUA e reduzir a magnitude do défice
americano nas relações bilaterais.
Os dois problemas básicos que os EUA têm em relação
à Índia são: primeiro, o substancial saldo de mercadorias
a favor da Índia e, segundo, o regime de direitos de propriedade
intelectual da Índia que, apesar de ser compatível com TRIPS,
não beneficia os Estados Unidos.
A balança de mercadorias a favor da Índia chegou a US$27,3 mil
milhões em 2017; supõe-se ter baixado um pouco, em US$4 mil
milhões em 2018, devido ao aumento da procura indiana por uma
série de produtos americanos, em particular aviões civis e
energia. Mas permanece, no entanto, um número considerável. Um
fechamento do hiato escancarado na balança de pagamentos é o que
os EUA gostariam.
Cerca de uma década atrás a participação dos EUA
nas importações da Índia era de 8,5%; agora caiu para
5,7%. Ao longo do mesmo período, a participação da China
aumentou de menos de 11% para mais de 16%. A Índia, em suma, tem-se
movido de fontes americanas para fontes asiáticas nas suas
importações e os EUA gostariam de alterar isso.
Durante a última década os EUA forçaram a Índia a
mudar sua atitude em relação a
commodities
como as maçãs e amêndoas que importou. Da mesma forma,
está a remover um certo número de ítens das
exportações indianas do Sistema de Preferências
Generalizadas. Além disso, também é provável que
haja uma mudança nas importações indianas de
petróleo provenientes do Irão para, pelo menos em parte, para os
EUA, devido à pressão americana para boicotar o petróleo
iraniano. O governo de Modi, ao contrário da China, está
completamente alinhado com a exigência americana de não comprar ao
Irão, apesar de o petróleo iraniano ser mais barato e de os EUA
deixarem claro que não venderiam à Índia a um preço
mais barato. Em matéria de petróleo, portanto, a Índia
simplesmente abandonou sua posição de não ser obrigada a
comprar a um preço mais alto. Todas essas áreas, no entanto,
embora de alguma importância na perspectiva indiana, ainda não
representam muito do ponto de vista dos EUA.
A outra área em que os EUA pressionarão a Índia é
em relação à agricultura, na qual os EUA argumentam
há muito que a Índia tem dado subsídios ao arroz e ao
trigo superiores ao permitido pela OMC. Apesar de os próprios EUA terem
aumentado seus subsídios de US$61 mil milhões quando a OMC foi
formada, em 1995, para US$135 mil milhões em 2016, isso é
supostamente aceitável, ao passo que os subsídios da
Índia, que são dados a uma grande massa de pobres camponeses
indigentes, não o são, porque "distorcem
preços". Como nos EUA há muito poucos produtores no sector
agrícola, eles podem receber subsídios directamente sem causar
quaisquer "distorções de preço", muito embora
esses "subsídios" sejam utilizados para capturar o mercado
global. Mas na Índia, onde há milhões de camponeses,
subsídios directos não podem ser dados na forma de apoio ao
rendimento; os subsídios têm de ser concedidos sob a forma de
apoio aos preços e é precisamente isto que tem sido contestado
pelos EUA.
A lei de patentes aprovada na Índia em conformidade com os direitos de
propriedade intelectual (TRIPS) foi um golpe para o sector de medicamentos
genéricos. Antes disso, a Lei de Patentes indiana fora uma peça
legislativa modelar que em certa medida rompeu o monopólio em tecnologia
dos países avançados. Mas isso teve de ser abandonado para
torná-la compatível com o TRIPS, aumentando a
duração das patentes e estendendo as patentes de processo para
patentes de produto. Mesmo isso, no entanto, não foi suficiente para os
EUA, os quais desde então têm pressionado sistematicamente a
Índia para que desencoraje empresas de genéricos. Esta
pressão continuará a ser exercida pelos visitantes da
delegação comercial americana.
O que a posição americana demonstra é que o argumento do
livre comércio está dependente da existência de
colonialismo. Quando o colonialismo reinou supremo, pode-se ser
hipócrita sobre o livre comércio, uma vez que as colónias
poderiam absorver as mercadorias não vendidas. O livre comércio
parecia uma coisa boa, pois nenhum país avançado piorou com isso.
Não que alguma vez tenha havido um comércio completamente livre;
mas o país líder poderia praticar o livre comércio sem ser
incomodado por isso.
E as próprias colónias para as quais o excedente era exportado
não contavam.
Mas quando não há colonialismo, mesmo este argumento entra em
colapso. E é isto que o mundo tem estado a enfrentar nos últimos
anos.
A aceitação voluntária do proteccionismo dos EUA por
países como a China e a Índia equivaleria a aceitar o fardo de
impulsionar a procura agregada na economia mundial. Mas, como eles não
podem sequer usar seus respectivos Estados para essa finalidade, como os
défices orçamentais não serão permitidos
além de um ponto, eles podem usar apenas a política
monetária; mas a política monetária será inadequada
para promover a procura agregada numa situação de
deficiência geral da procura. Em consequência, a deficiência
da procura agregada continuará e, portanto, a luta pela captura do maior
mercado possível. O esforço americano para tornar seu
proteccionismo aceitável para os outros simplesmente não
terá êxito.
20/Maio/2019
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/0519_pd/indo-us-trade-relations
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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