Cresce a resistência de classe à
"globalização"
O termo "globalização", embora muito utilizado,
é extremamente enganoso, tal como o seu presumido "par", o
"nacionalismo". Isto acontece porque ambos os termos são utilizados
de modo abrangente sem qualquer referência ao seu conteúdo de
classe, como se só pudesse haver uma espécie de
"globalização" e só uma espécie de
"nacionalismo". Utilizar conceitos destacados do seu conteúdo
de classe é um dos truques favoritos da ideologia burguesa: o que
equivale a conferir universalidade a conceitos que no essencial pertencem
só ao discurso burguês, como se este fosse o único discurso
possível do universo e todas as opções estivessem
confinadas apenas a trajectórias alternativas
dentro
deste universo.
Esta utilização não-classista de palavras que servem para
tudo torna possível estabelecer antinomias. Assim, seja o que for pode
parecer melhor do que outra coisa, como se fosse algo razoável. Isso
equivale a endossar o que disse o lado conservador de Hegel: "O real
é a razão". Portanto é estabelecida uma antinomia entre
"globalização" e "nacionalismo" onde a
primeira parece progressista, aberta, democrática e transportadora da
"modernidade", ao passo que a última parece
reaccionária, fechada anti-democrática ao ponto de ser fascista,
e anti-"moderna". Qualquer oposição àquilo que
existe (isto é, a "globalização") é
então alcunhada, dentro desta disjuntiva binária, como um
movimento reaccionário, um afastamento da marcha rumo à
"modernidade", em direcção a um tradicionalismo
opressivo e anti-democrático. A resistência contra a
opressão dentro do actual regime de
"globalização" é dessa forma desacreditada como
uma regressão reaccionária a um passado horrendo.
Uma vez que tal ideia também permeia certas secções da
esquerda, estas também encaram a resistência a uma
"globalização" opressiva (onde a opressão
decorre devido ao
conteúdo de classe
desta globalização), como um recuo para um nacionalismo
reaccionário e desenvolvem uma atitude distante em
relação à mesma. Isto ironicamente serve para actuar como
uma profecia auto-realizável: a própria frieza de segmentos da
esquerda em relação à resistência contra a
"globalização" dá uma oportunidade às
forças reaccionárias da direita e mesmo fascistas de se
posicionarem como amigas de tal resistência e isto realmente
parece dar a esta resistência o carácter muito reaccionário
que estes segmentos da esquerda esperavam desde o começo.
RESISTÊNCIA CADA VEZ MAIS LIDERADA PELA ESQUERDA
A questão real portanto é encarar termos como
"globalização" levando em conta o seu conteúdo
de classe e também o conteúdo de classe da resistência a
ela. E aqui emerge o facto inequívoco de que a actual
"globalização" a qual representa a hegemonia do
capital financeiro internacional e tem provocado miséria aguda entre os
trabalhadores por todo o mundo, ou seja, os trabalhadores nos países
capitalistas avançados e os trabalhadores, camponeses, pequenos
produtores e trabalhadores agrícola nos países subdesenvolvidos
está a ser por eles desafiada por toda a parte. Uma
resistência, tal como não se via desde há décadas,
está a crescer, a qual, embora confinada dentro de países, tem no
entanto uma ampla difusão entre os demais. E mais ainda, esta
resistência está agora a ser cada vez mais conduzida pela
esquerda, pois ela abstém-se por toda a parte da sua anterior
ambivalência quanto à globalização liderada pelas
finanças.
As eleições presidenciais dos EUA trouxeram à tona um
auto-proclamado socialista, Bernie Sanders, o qual tomou claramente uma
posição reconhecendo a miséria aguda acumulada sobre os
trabalhadores americanos pela globalização conduzida pelas
finanças, e que se desempenhou extremamente bem na corrida eleitoral e
poderia mesmo ter derrotado Donald Trump, até ter sido expulso da
corrida pelo establishment do Partido Democrata (faltando-lhe infelizmente a
coragem para combatê-lo). As eleições presidenciais
francesas trouxeram à tona Jean-Luc Melenchon, candidato da esquerda
(apoiado pelo PCF) que obteve quase 20 por cento dos votos (19,64), apenas um
pouco menos do que Emmanuel Macron que obteve a vitória final na
primeira volta (23,75). E agora as eleições britânica
trouxeram à tona um Partido Trabalhista liderado por um socialista,
Jeremy Corbyn, que fora sistematicamente ridicularizado não só
pelos conservadores como também pelos blairistas dentro do Partido que
haviam capturado durante décadas e que eram ardentes advogados das
políticas neoliberais promovidas pela globalizada conduzida pelas
finanças.
Os resultados da eleição britânica, além de serem
uma rejeição de Theresa May cujo governo conservador foi reduzido
a uma minoria, e aos blairistas, também cortaram dimensão do
UKIP, o partido de direita anti-imigração que foi um destacado
apoiante do Brexit. Ele obteve apenas 1,8 por cento dos votos e nem uma
única cadeira,
sua votação caiu muito abaixo do 10,8 por cento em
comparação com a eleição geral anterior.
Uma das afirmações da oposição liberal do
establishment ao Brexit foi que era uma campanha da direita a partir da qual o
UKIP venceria. Mas claramente a classe trabalhadora britânica, a qual
esmagadoramente apoiou o Brexit, assim o fez por causa da opressão
económica da UE e não por qualquer simpatia pelo UKIP. Na
verdade, ela tinha escassa consideração pelo UKIP e uma vez que o
Partido Trabalhista se livrou da influência blairista na sua
liderança, afluiu às bandeiras do Labour. Corbyn pode não
ter vencido realmente a eleição, mas ele reconstruiu a ponte
entre os sindicatos e o Partido Trabalhista a qual fortalecerá a
intervenção da classe trabalhadora e a resistência contra a
globalização conduzida pela finança.
Tudo isto são desenvolvimentos na arena eleitoral dos países
capitalistas avançados, reflectindo a oposição da classe
trabalhadora à globalização. Mas mesmo na Índia,
uma forte resistência do campesinato contra os apertos a que os levou o
regime neoliberal sob a globalização liderada pela finança
vieram agora à superfície após um período de tempo
muito longo, embora seja demasiado cedo para encontrar reflexo disso na arena
eleitoral. O movimento camponês emergiu em pelo menos três estados,
Maharashtra, Madhya Pradesh e Rajasthan (todos dominados pelo partido BJP o
qual é o instrumento actual para a imposição dos ditames
da oligarquia corporativo-financeira ligada à finança
internacional), cujas reivindicações incluem preços
remunerativos e um cancelamento de dívida
(debt-waiver).
O movimento chega após um interregno de aproximadamente quatro
décadas. Durante quatro décadas houve
suicídios de camponeses
mas não lutas camponesas em grande escala contra as
políticas que levaram ao seu empobrecimento. Não há
dúvida que têm sido lutas sobre questões específicas
em bolsões específicos mas não movimentos generalizados e
sincronizados.
ANTECEDENTES DO MOVIMENTO CAMPONÊS
Um movimento geral por todos os estados do país a exigir preços
remunerativos havia ocorrido só no fim da década de 1970. Vale a
pena recordar aqui os antecedentes daquele movimento. O fim dos anos 60 e
princípios dos anos 70 foi um período de inflação
maciça na Índia, com a taxa em 1973-74 chegando aos 30 por cento
na sequência do primeiro choque petrolífero (embora o choque
petrolífero tenha apenas se somado à fúria da
inflação que tivera início). O drástico esmagamento
da classe trabalhadora imposto por esta inflação foi um factor
importante por trás da onda de lutas grevistas dos trabalhadores daquele
tempo, dos quais a Greve Ferroviária de 1974 foi a mais importante. A
insatisfação devida à inflação foi
também responsável pelo facto de o [partido do] Congresso de
Indira Gandhi perder as assembleias eleitorais em Gujarat.
Portanto, o governo Indira Gandhi estivera sob pressão para fazer algo
acerca da inflação. Ele queria controlar esta
inflação invertendo os termos de troca entre o sector
agrícola e o não agrícola, contra os primeiros, o que
significa efectivamente controlar a inflação pelo esmagamento dos
camponeses e, através deles, dos trabalhadores agrícolas (uma vez
que camponeses "transferem" suas desgraças para os
trabalhadores). O período de Emergência foi digno de nota pela
mudança dos termos de troca
(terms-of-trade)
a que deu lugar, tanto assim que muitos investigadores encararam a economia
política da Emergência como consistindo na imposição
de uma "política de estabilização"
anti-camponesa para combater a inflação. Foi esta postura
anti-campesinato que provocou manifestações maciças de
camponeses (inclusive no Boat Club em Delhi
[1]
) e um surto de lutas camponesas por todo o país no fim dos anos 70 e
princípio dos 80.
Mas aquilo que o governo de Indira Gandhi fez num contexto específico
dentro do regime
dirigista
agora tornou-se a norma dentro do regime neoliberal. As políticas
neoliberais impostas pela globalização conduzida pela
finança implicaram efectivamente a adopção permanente de
um conjunto de políticas anti-camponesas, não apenas para manter
baixa a inflação (a qual não está de modo algum
tão alta como no princípio dos anos 70) mas para efectuar um
processo de acumulação primitiva de capital para o enriquecimento
dos monopolistas internos e estrangeiros.
Um tal processo de acumulação primitiva de capital a expensas dos
pequenos produtores tradicionais
também tem o efeito de esmagar a classe trabalhadora, incluindo seu
segmento organizado.
Os camponeses deslocados e pequenos produtores que afluem às cidades em
busca de empregos, não os encontram. Quando muito, os empregos
existentes são partilhados entre mais trabalhadores através de
processos de precarização
(casualisation), outsourcing,
informalização e outros semelhantes, todos os quais contribuem
para um inchaço do exército de reserva do trabalho. E tal
inchaço mantém baixa a força negocial de todos os
trabalhadores, incluindo mesmo a dos trabalhadores organizados. O que acontece
aos trabalhadores numa economia como a nossa dentro de um regime neoliberal
não é portanto independente do que acontece aos camponeses. Um
processo de acumulação primitiva a expensas dos últimos
também serve para esmagar os primeiros.
Entretanto, há um segundo meio ainda mais importante pelo qual a
acumulação primitiva afecta os trabalhadores. Uma vez que o
exército de reserva do trabalho exprime-se não em termos de uma
simples dicotomia entre alguns que estão empregados e outros que
estão no desemprego, mas antes através de fenómenos como
"desemprego disfarçado" e precarização ou
trabalhadores empregados intermitentemente, um inchaço das suas fileiras
implica um aumento na
fragmentação
de trabalhadores e portanto um novo enfraquecimento da sua capacidade para
resistir. E qualquer enfraquecimento na capacidade da classe trabalhadora para
resistir propaga-se também a outros segmentos da
população, levando a um rebaixamento geral da resistência
de classe.
O que estamos a testemunhar por todo o mundo hoje em dia é uma
reversão desta tendência. O capitalismo neoliberal atingiu agora o
ponto onde sua tendência espontânea para manter baixa a
resistência de classe, através da promoção da
fragmentação, já não é mais suficiente para
isso. E a resistência de classe, quando começa, tem meios para
propagar-se de modo rápido e amplo.
18/Junho/2017
[1] Boat Club: Parque em Delhi onde costuma haver comícios
políticos.
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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