O slogan "Fabricar na Índia"
Uma análise válida para muitos países além
da Índia
À primeira vista, a campanha "Fabricar na Índia" parece
inócua, talvez uma fantasia mas uma fantasia algo inocente: Se as
grandes empresas do mundo vierem "fabricar" coisas na Índia
para venderem por todo o mundo, o que é o objectivo da campanha
"Fabricar na Índia" do governo Modi, então o que
há de errado nisto? Uma vez que "Fabricar na Índia"
não provoca qualquer "desindustrialização"
interna e nem portanto desemprego, tal como aconteceria se estas companhias
estivessem a produzir para o mercado indiano (ou mesmo para o mercado mundial),
a expensas de outros, produtores internos mais pequenos que geram emprego mais
amplo por unidade de produto,
isto é, uma vez que há um
acréscimo
líquido ao nível a actividade interna, por que é que
alguém objectaria a isto? Tudo o que se poderia dizer acerca disto
é que tal "desindustrialização" não
ocorreria, mas nada mais haveria a criticar na
campanha "Fabricar na Índia".
IMPRESSÃO FALSA
Trata-se, contudo, de uma impressão falsa. Quando
corporações multinacionais localizam suas fábricas em
países do terceiro mundo isso não significa que o controle sobre
decisões quanto à sua tecnologia e produção mude
para estes países ela permanece nas sedes localizadas nas
metrópoles. A tecnologia, investigação & desenvolvimento e
inovações continuam no domínio da companhia mãe.
Mesmo decisões de produção e investimento das filiais
localizadas no terceiro mundo têm de se conformar à
estratégia global da corporação multinacional (CMN) e,
portanto, são controladas a partir das metrópoles. A
localização cada vez mais extensa de tais fábricas em
países do terceiro mundo portanto significa necessariamente que cada vez
mais vastos segmentos da economia do terceiro mundo caem sob o controle de
decisores metropolitanos, o que equivale a uma crescente perda de soberania
económica.
Em qualquer caso, a abertura da economia ao turbilhão dos fluxos
financeiros globais significa que os Estados do terceiro mundo têm
forçosamente de acatar sistematicamente as exigências do capital
financeiro internacional a fim de impedir fugas de capitais, isto é, que
a sua autonomia na sua tomada de decisões está comprometida. Mas
se, além disso, um segmento crescente da economia também for
dominado por corporações multinacionais, as quais por sua vez
são controladas a partir das metrópoles, então esta
autonomia é mais uma vez atenuada. O Estado, nesse caso, é sempre
obrigado a assegurar que nada aconteça que ponha em perigo os interesses
destas corporações, pois caso contrário o sistema de
produção seria minado. E isto significa que temos efectivamente
uma replicação dos tempos coloniais quando o Estado colonial
basicamente cuidava dos interesses do capital estrangeiro. Ou, para usar uma
analogia diferente, a esfera da produção torna-se crescentemente
caracterizada por uma "extra-territorialidade" tal como a que
desfrutavam as potências estrangeiras na China pré
revolucionária (da quais as zonas económica especiais, ZEEs,
são de qualquer forma uma espécie de recordação).
Mas isso não é tudo. A razão para as CMNs localizarem
fábricas no terceiro mundo são os baixos salários do mesmo
e esta razão é de relevância só no caso de
indústrias onde a magnitude do input de trabalho é significativo.
Caso contrário, a vantagem de assim localizar fábricas, apesar
mesmo dos benefícios da "extra-territorialidade", não
suplantaria a desvantagem de se aventurar num país estrangeiro. Segue-se
portanto que só certas actividades são localizadas no terceiro
mundo, tipicamente nas actividades manufactureiras pouco qualificadas as quais
são mais trabalho intensivo e menos tecnologia e capital intensivo.
Isto significa que todos os países do terceiro mundo que procuram
localizar investimento directo estrangeiro (IDE) estão realmente a
correr atrás apenas de um certo montante limitado de investimento
e estão implacavelmente a competir uns contra os outros para atrair este
montante limitado de investimento para o seu solo. Portanto há
necessariamente uma "corrida para o fundo do poço", no qual
cada país compete com outros em reduzir salários,
"disciplinar" os trabalhadores, retirar direitos de trabalhadores,
desmantelar sindicatos e introduzir "flexibilidade no mercado de
trabalho" (a qual implica o direito ilimitado de empregadores contratarem
e despedirem trabalhadores à vontade). A campanha "Fabricar na
Índia" não é apenas um convite para fabricar coisas
na Índia; é um convite para "fabricar" coisas na
Índia
em oposição a outros países.
E é uma campanha que é ou será correspondida por
campanhas semelhantes em outros países. Portanto ela implica
necessariamente um ataque aos trabalhadores como parte de um lance competitivo
para seduzir o capital.
Contudo, seduzir CMNs não assume simplesmente a forma de balouçar
cenouras económicas diante delas, com salários mais baixos e
trabalhadores "disciplinados". Do ponto de vista das CMNs não
é muito atraente instalar fábricas num país onde, mesmo
que os trabalhadores tenham sido intimidados, partidos políticos ou
"grupos da sociedade civil" organizam regularmente
manifestações contra elas, onde há
litigações regulares contra as suas negligências e onde a
imprensa regularmente enfatiza suas manigâncias. Elas prefeririam antes
localizar fábricas num país onde não só os
trabalhadores mas também os media, os intelectuais e os partidos
políticos tenham sido todos intimidados. Em suma elas prefeririam
localizar fábricas em países com regimes autoritários.
Sufocar direitos democráticos
em nome do desenvolvimento
torna-se portanto uma parte integral de estratégias tipo "Fabricar
na Índia". E também aqui opera a mesma "corrida para o
fundo do poço". Países do terceiro mundo concorrem uns com
os outros
em nome do desenvolvimento
não só para amedrontar os trabalhadores mas também para
suprimir a generalidade dos direitos democráticos.
ATITUDE ABOMINÁVEL
Mas, pode-se perguntar, se o resultado de um tal programa é ter maior
crescimento e portanto maior emprego e melhoria da pobreza, então qual
é o mal em pagar um preço por isto na forma de uma
supressão dos direitos dos trabalhadores, ou mesmo, por
extensão, de direitos democráticos gerais? A atitude
abominável por trás de uma pergunta como esta é
auto-evidente: ao invés de conceber uma estratégia de
desenvolvimento que esteja em consonância com o espírito de uma
sociedade democrática onde os trabalhadores e os outros desfrutam certos
direitos democráticos básicos, ela realmente pede um
sacrifício de tais direitos em nome do "desenvolvimento". Mas
esta atitude abominável é justificada por uma lógica
espúria, por uma pretensão de que
não há outras opções perante o povo,
isto é, por admitir como facto consumado que o capitalismo neoliberal
é o único destino que o povo pode ter.
Contudo, aqui ainda há outro ponto. No contexto da crise capitalista
mundial, em que o total de investimentos tem minguado sempre por causa da
existência de capacidade de produção
não utilizada por toda a parte, mesmo o facto de balouçar
cenouras diante das CMNs
não terá êxito em atrair muito investimento para
"fabricar" coisas na Índia. Por outras palavras, enquanto os
direitos dos trabalhadores serão suprimidos em nome da
atracção do capital estrangeiro para "fabricar" coisas
na Índia, não virá realmente muito capital estrangeiro, de
modo que o prometido aumento no emprego e a prometida redução da
pobreza nem sequer se concretizarão.
Vimos acima que apenas certas actividades são relocalizadas das
metrópoles para o terceiro mundo; que o âmbito para qualquer novo
investimento na periferia para localizar
outras actividades
é pequeno. Mas numa situação de estagnação
virtual da economia mundial, qualquer investimento líquido na
expansão de capacidade produtiva em
qualquer conjunto de actividades,
seja aquelas relocalizadas ou aquelas não relocalizadas, é
pequeno no total. Portanto com investimento irrisório a vir para o
terceiro mundo, a possibilidade de um programa como "Fabricar na
Índia" originar um boom é inexistente. A
repressão da classe trabalhadora e a criação de uma
atmosfera "propícia" às CMNs através da
remoção de direitos dos trabalhadores e mesmo da
abolição de direitos democráticos, ainda que fazendo dano
maciço à nossa sociedade e regime e aos padrões de vida
dos trabalhadores, nem mesmo provocará qualquer criação
adicional de empregos. Ao contrário, como o esmagamento dos
salários dos trabalhadores reduzirá a dimensão do mercado
interno e portanto do output para ele produzido, haverá realmente uma
redução do emprego.
O argumento padrão de que uma pioria das condições dos
trabalhadores será compensada por um aumento do emprego e uma
redução na pobreza portanto não se mantém. O
argumento de que o esmagamento dos trabalhadores induzirá as CMNs a
"Fabricar na Índia" representa não só uma
atitude abominável como também má teoria económica.
"Fabricar na Índia" não é portanto um slogan
inócuo; é um slogan potencialmente perigoso.
O único meio para que o sector manufactureiro possa expandir-se e gerar
emprego na economia é através da ampliação do
mercado interno, uma vez que o mercado de exportação é
golpeado pela crise capitalista mundial. Isto exige colocar mais poder de
compra nas mãos da população trabalhadora através
de maior despesa com o bem-estar social, maior despesa com esquemas de garantia
de emprego como o
MGNREGS
e maior despesa pública com
irrigação e na reanimação da agricultura. E se uma
tal agenda faz com que o capital internacional franza as sobrancelhas,
então esta hostilidade do capital internacional tem de ser anulada por
controles de capital adequados.
Contudo, tudo isto vai ao contrário do objectivo da campanha
"Fabricar na Índia". Mas se a
NDA
pudesse avançar nesta rota alternativa então não seria a
organização reaccionária e autoritária que
é. Na verdade, ela embarcou nesta campanha "Fabricar na
Índia" cujo objectivo potencial é precisamente constranger a
democracia e esmagar o povo trabalhador através de salários mais
baixos e emprego ainda mais baixo.
08/Novembro/2015
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
http://peoplesdemocracy.in/2015/1108_pd/slogan-"make-india"
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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