O aprisionamento dentro de um discurso
Aprisionar toda discussão intelectual dentro de um discurso particular
é o método mais comum que o neoliberalismo utiliza para
estabelecer a sua hegemonia. Houve por exemplo o debate recente sobre a
questão da "autonomia" do Banco de Reserva (RBI), em que um
lado pretendia controle sobre o RBI pelo governo e sua clique de
"capitalistas de compadrio" ao passo que o outro queria um RBI que
atendesse aos desejos e caprichos da finança globalizada. A
questão do controle popular ou parlamentar sobre a
instituição simplesmente nunca foi levantada. O mesmo
fenómeno do aprisionamento da discussão intelectual dentro de um
discurso particular pode ser vista no debate sobre uma questão
relacionada, nomeadamente a utilização das reservas do RBI para
promover a despesa governamental.
A questão a ser perguntada é: por que deveria o governo, o
qual tem o poder de tributar e de contrair empréstimos, sentir a
necessidade de recorrer às reservas do RBI a fim de aumentar os seus
gastos? A resposta é que dentro das disposições
neoliberais ele não tem poder real para fazer qualquer coisa que seja
desagradável à finança globalizada. E, uma vez que a
finança não gosta nem de impostos sobre capitalistas nem de
défices orçamentais (impostos sobre os trabalhadores para
financiar maior despesa não aumentariam nem o emprego nem o bem-estar),
o governo encontra-se numa situação incómoda.
Sua ânsia de recorrer às reservas do RBI para aumentar a despesa
neste ano de eleições decorre deste facto, o qual tem
raízes na realidade do regime neoliberal.
Há um outro ponto a observar aqui. Utilizar as reservas do RBI equivale
realmente a um aumento do défice orçamental, embora isto
não figure como tal no orçamento do governo. Uma maneira
óbvia de extrair estas reservas é aumentar os pagamentos de
dividendos do RBI ao governo que os possui. No orçamento, tais
pagamentos de dividendos apareceriam como uma receita adicional para o governo
e, se as despesas aumentassem em igual montante, o défice
orçamental teria permanecido inalterado; as despesas mais elevadas, por
outras palavras, teriam sido financiadas sem aumentar o défice
orçamental.
Mas esta conclusão surge inteiramente porque estamos a concentrar a
atenção no governo propriamente dito. Se tomarmos o sector
governamental como um todo, incluindo não apenas o governo propriamente
dito mas também instituições estatais como o RBI,
então para este sector como um todo enquanto as despesas teriam subido
(devido a maiores gastos do governo), o rendimento não teria.
O pagamento de dividendos do RBI ao governo equivale simplesmente a uma
transferência de uma entidade para outra dentro do sector governo, mas
não a um aumento do rendimento do sector como um todo. Portanto o
défice do sector governo como um todo teria subido numa quantia igual ao
aumento na despesa governamental, muito embora não se tivesse
apresentado como um aumento do défice no orçamento do governo.
Seus efeitos macroeconómicos, no entanto, deveriam ser exactamente os
mesmos de um défice orçamental. Por outras palavras, aumentar a
despesa governamental através da utilização de reservas do
RBI equivale a um défice orçamental camuflado.
A questão levanta-se de imediato: por que não um défice
orçamental claro?
A resposta evidente, já dada, é que o capital financeiro
desaprova os défices orçamentais. E quando a finança
está globalizada enquanto o Estado permanece um
Estado-nação, as ordens da finança devem ser executadas,
pois do contrário haveria uma fuga de financiamento do país em
causa provocando uma crise financeira. Mas por que a finança não
gosta de um défice orçamental? O argumento teórico
avançado habitualmente contra um défice orçamental, de que
causa inflação, não aguenta um exame atento.
A inflação, deixando de lado a variedade daquela impulsionada
pelos custo a qual, em qualquer caso, não nada tem a ver com um
défice orçamental, decorre do excesso de procura agregada nos
preços básicos (ou seja, antes da inflação), o qual
não pode ser eliminado através de um aumento na oferta. Dizer que
um défice orçamental gera inflação equivale
portanto a assumir que a economia está sempre em "pleno
emprego", ou seja, que não há qualquer deficiência da
procura agregada na economia e que a chamada Lei de Say é
válida. Esta é uma suposição claramente absurda,
embora muito utilizada na teoria económica
mainstream.
De facto o capitalismo é um sistema tipicamente constrangido pela
procura, que nunca se caracterizou pelo "pleno emprego" mesmo
no topo de um
boom,
muito menos em "tempos normais". Ampliar o défice
orçamental nestas condições pode aumentar o emprego e a
produção sem elevar preço em qualquer medida
significativa. A Índia em particular tem sido caracterizada pela
capacidade ociosa na indústria e acima dos níveis
"normais" de stocks de cereais virtualmente ao longo de todo o
período de liberalização económica. Portanto um
aumento no défice orçamental não provocaria
inflação via excesso de procura agregada mas, ao invés,
elevaria a produção e o emprego. É verdade que pode
resultar em maiores importações e, portanto, num défice
maior em conta corrente na balança de pagamentos, mas isso precisa ser
verificado não pela manutenção da procura baixa, mas sim
impondo restrições a importações que até
Donald Trump aplicou nos Estados Unidos. .
Portanto o desgosto da finança em relação a um
défice orçamental nada tem a ver com os seus apregoados efeitos
danosos, os quais não podem surgir numa economia constrangida pela
procura. Tem a ver, sim, com o facto de que se for institucionalizada maior
despesa governamental e esta também financiada não
através da tributação mas através de maior
contracção de empréstimos os quais não prejudicam
ninguém de imediato como um elemento essencial no funcionamento
da economia, então isto serve para deslegitimar o papel dos
capitalistas. Haver um bando de capitalistas cujos "espíritos
animais" têm de ser cuidadosamente alimentados através de
concessões e subsídios, então não seria mais
considerado necessário.
A oposição do capital financeiro a défices
orçamentais, embora procure ser justificada por toda espécie de
argumentos teóricos espúrios, tal como ligar estes défices
à inflação em quaisquer circunstâncias, levanta-se
por esta razão fundamental e é institucionalizada por toda a
parte através da legislação da Responsabilidade
Orçamental. A necessidade de camuflar um défice
orçamental maior surge por causa disso. E utilizar as reservas do RBI
para aumentar os gastos do governo, embora não seja senão um
aumento do défice orçamental, não aparece como tal no
orçamento do governo e, portanto, pode ser dissimulado como
"inofensivo".
Todo o argumento acerca da extracção das reservas do RBI para
financiar maior despesa governamental toma portanto a economia neoliberal e os
constrangimentos que ela impõe ao governo como admitido, mas procura
descobrir um meio de contornar estes constrangimentos devido a
compulsões eleitorais. A teoria avançada é de que apesar
de um défice orçamental ser mau porque é
inflacionário, utilizar as reservas do RBI não é o mesmo
que ampliar o défice orçamental. Os que se opõem a este
argumento tomam igualmente os constrangimentos impostos pela economia
neoliberal como admitido e também aceitam esta teoria; a sua
objecção é de que o governo não deveria dar ordens
ao RBI.
O debate está dentro do contexto de um regime neoliberal, mas em nenhum
momento este facto é reconhecido. Procura-se um discurso confinado ao
contexto de um regime neoliberal a fim de este o retrate como uma
questão teórica geral, o que significa que o regime neoliberal
é descrito como o único universo possível que poderia
existir. Ao aprisionar toda a gente dentro deste discurso, a hegemonia do
neoliberalismo é assegurada, uma vez que todos discutem a questão
enquanto limitam a atenção ao próprio regime neoliberal,
mas não à procura de ultrapassá-lo.
Uma vez reconhecido que utilizar reservas do RBI não é diferente
de ampliar o défice orçamental, e também que uma tal
ampliação não é necessariamente nefasta (embora sem
dúvida despesa governamental financiada por défice seja pior do
que despesa governamental financiada por impostos), torna-se possível
criticar o próprio regime neoliberal. Torna-se possível
argumentar que a despesa do governo deveria ser expandida, com programas de
bem-estar e no sector social, através de maior receita fiscal dos ricos,
mas, na falta disso, mesmo através de um défice orçamental
mais elevado, pouco importando se reservas do RBI são utilizadas para
esta finalidade.
Quando o governo está deitando abaixo até o
MGNREGS
, a ideia de que não há restrições de recursos
per se,
mas apenas os caprichos do capital financeiro que obstaculizam os gastos do
governo é um ponto importante a ter em mente. Procura-se que este ponto
seja obscurecido pelo discurso público que o neoliberalismo promove. A
esquerda deve revelar este discurso de aprisionamento.
06/Janeiro/2019
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/0106_pd/entrapping-within-discourse
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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