Um contraste gritante
Uma das tendências imanentes do capital é mercantilizar todas as
esferas da vida. Sob o capitalismo neoliberal, quando as tendências
imanentes do capital actuam sem peias, deparamo-nos com o domínio da
mercantilização a atingir novas áreas. A
mercantilização da educação que progrediu nos
últimos tempos é um exemplo disso; e agora encontramos a
mercantilização a invadir o mundo da política tal como
nunca antes.
A mercantilização da política vem acontecendo desde
há algum tempo; mas a compra de legisladores por toda a parte que se
está a verificar [o estado de] Karnataka é o exemplo mais
recente atingiu novas alturas. Não importa quem o povo eleja,
aquela formação política que tiver os bolsos mais fundos
acabará por ser o governo. E naturalmente aqueles que o povo elege
são eles próprios determinados, substancialmente, por qual
formação política tem os bolsos mais fundos.
O entendimento marxista tradicional tem sido que um Estado burguês pode
ter uma forma parlamentar de governo, porque as instituições do
Estado, tal como o exército e a burocracia, permanecem inalteradas mesmo
que seja eleito um governo receptivo aos trabalhadores. Quando um partido da
classe trabalhadora chega ao gabinete, a menos que o utilize para esmagar o
Estado burguês ele necessariamente terá de funcionar dentro de
limites circunscritos os quais não afectam a continuidade da ordem
capitalista. Contudo, a mercantilização da política
procura também assegurar que um partido da classe trabalhadora
não possa sequer chegar ao poder através de eleições
parlamentares; ele simplesmente não terá bastante dinheiro para
isso. A democracia parlamentar turva-se assim num regime de domínio
directo, através de uma formação política escolhida
a dedo pela oligarquia corporativo-financeira.
Segundo o Centre for Media Studies, uma ONG com sede em Delhi, o BJP gastou uns
colossais 270 mil milhões de rupias [3,53 mil milhões de euros],
ou cerca de Rs500 milhões [6,54 milhões] por distrito
eleitoral. Isso representou 45% da despesa total de todos os partidos, a qual
chegou a Rs600 mil milhões. A esmagadora maioria destes fundos veio do
sector corporativo, com o BJP a receber a fatia do leão dos mesmos.
Segundo a
Association for Democratic Reforms
, outra ONG de Delhi, do total de doações acima de Rs200 mil
milhões em 2017-18, 92% foram para o
BJP
.
Duas brechas legais tornaram possíveis tão enormes despesas
eleitorais: uma é o sistema de títulos que as
formações políticas agora podem emitir, nos quais o nome
do doador não é tornado público. Trata-se de um esquema
que, não surpreendentemente, foi lançado pelo BJP. A outra
é o sistema de contabilidade em que as despesas incorridas pelo partido,
distintas das do candidato, não são contadas nas despesas
eleitorais deste último. Assim, um partido político com acesso a
fundos pode gastar literalmente qualquer montante que queira para lutar nas
eleições. Isso basicamente significa que são as
corporações que lutam nas eleições através
dos seus candidatos.
O que é significativo é que a mercantilização da
política, tal como a mercantilização da
educação, foi muito mais longe na índia do que nos
países capitalistas avançados e isso num espaço de
tempo muito mais curto. O domínio do capitalismo neoliberal é o
principal responsável por isto. Mas dentro deste ambiente geral, o BJP
executou a fusão do poder corporativo e do Estado numa extensão
muito maior do que em qualquer época anterior. Se o acordo dos
[aviões caça] Rafale foi um aspecto desta fusão, o facto
de 92% das doações corporativas irem só para o BJP
é o outro aspecto.
Ao contrário do que está a acontecer na Índia, temos um
quadro contrastante na Venezuela. O imperialismo estado-unidense, juntamente
com a elite venezuelana, tem feito esforços frenéticos para
derrubar o governo do presidente Nicolas Maduro, o sucessor de Hugo
Chávez que liderou a "Revolução Bolivariana"
naquele país. Nisto, os EUA têm o apoio dos países
capitalistas avançados, de todos os jornais "liberais" do
mundo capitalista e de toda a direita latino-americana, a qual cresceu,
entre outros factores,
devido a bem-sucedidos "golpes parlamentares" executados no Brasil e
em outros lugares daquele continente. Também tentou todas as armas do
seu arsenal, desde a guerra económica até a sabotagem do sistema
eléctrico da Venezuela, chegando mesmo a um
golpe
real que tentou colocar no poder Juan Guiado, o autoproclamado
"presidente" apoiado pela elite do país. Mas, ainda assim,
todos estes esforços fracassaram miseravelmente.
Não apenas o povo permaneceu firme por trás do governo de Maduro,
apesar os flashes noticiosos nas televisões de todo o mundo (inclusive
no nosso país) acerca dos sofrimentos do povo sob este governo; como as
forças armadas venezuelanas também apoiaram o governo Maduro. Em
muitos países latino-americanos, as forças armadas por vezes
têm um carácter algo diferente do que a teoria marxista
tradicional lhes atribui. Extraídas do povo, elas são por vezes
politizadas e não sem simpatia por regimes progressistas, embora
naturalmente o oposto também seja verdadeiro. De facto, o próprio
Chávez veio das forças armadas e desfrutou de grande apoio entre
elas. As Forças Armadas Venezuelanas de modo geral continuam a apoiar o
governo Maduro.
O governo dos EUA tentou ao máximo "comprar" oficiais nas
forças armadas a fim de apoiar o golpe que engendrou, mas fracassou
miseravelmente, o que é um sintoma claro do facto de a política
na Venezuela não ter sido mercantilizada. Temos portanto um contraste
claro: entre a Índia onde a política está a ser cada vez
mais mercantilizada e a Venezuela, onde a mercantilização da
política avançou pouco apesar dos árduos esforços
que estão a ser feitos pelo imperialismo estado-unidense.
O exército venezuelano não é um Exército Vermelho
revolucionário. A Venezuela não teve uma revolução
socialista, que estabelecesse um Estado dos trabalhadores; a Venezuela
não é uma história clássica de um derrube
heróico da velha ordem. A Venezuela está de facto numa
transformação muito mais discreta
(low-key),
em comparação com as transformações
revolucionárias clássicas que electrizaram o mundo. Além
disso, mesmo dentro desta transformação discreta, a pessoa no
leme, Nicolas Maduro, não tem o carisma de um Chávez.
Mesmo assim, as forças armadas venezuelanas apoiaram o governo Maduro, o
que provocou uma mudança significativa na política
económica: para longe do neoliberalismo e numa direcção
favorável ao povo. Isto apenas sugere que as mesmas pessoas que se podem
tornar "objectos" num mundo de mercantilização da
política podem também afirmar-se no papel de "sujeitos"
quando surge uma oportunidade para fazê-lo, quando há uma
mudança que se afaste do neoliberalismo. E quando se afirmam desta
maneira, também exercem pressão sobre outros elementos, como as
forças armadas, o que também as impermeabiliza às
bajulações imperialistas.
Contrapor-se à mercantilização da política exige a
instituição de todo um conjunto de reformas eleitorais, incluindo
acima de tudo o financiamento de eleições pelo Estado. Mas estas
reformas não acontecerão a menos que a pressão popular
aumente. E qualquer mobilização do povo requer uma
política alternativa. A mudança [do povo] da
condição de mero "objecto" para o desempenho de um
papel "sujeito" exige a busca de uma alternativa política que
o coloque perante uma agenda alternativa.
A dialéctica entre as tendências imanentes do capital e a
intervenção activa dos trabalhadores foi explorada por Marx em
A pobreza da filosofia.
A tendência imanente do capital é atomizar os trabalhadores,
recrutá-los como indivíduos retirados de ambientes divergentes e
separados uns dos outros. Mas eles são colocados sob o mesmo tecto e
para aumentar seus magros salários formam
"combinações" as quais, embora inicialmente motivadas
pelo auto-interesse individual, representam a primeira ruptura na
atomização efectuada pelo capital, e que então se
transforma numa nova "comunidade".
Da mesma forma, a mercantilização da política, que
é uma tendência imanente do capital na época
contemporânea, pode ser quebrada se os trabalhadores forem reunidos em
uma nova "combinação" para uma nova agenda,
diferente daquela que o neoliberalismo lhes oferece
. Embora inicialmente possam ser atraídos para esta agenda pelo
auto-interesse individual, o próprio facto de se unirem terá
desencadeado uma tendência que contraria a mercantilização
da política. Só uma agenda alternativa, em torno da qual os
trabalhadores possam se unir dando origem a uma política alternativa,
é que pode romper a tendência rumo à
mercantilização da política.
04/Agosto/2019
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/0804_pd/striking-contrast
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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