Greece for Sale
Vamos esquecer por um momento que mesmo o FMI, que acontece ser um dos maiores
credores da Grécia, reconheceu agora publicamente que é
irrealista esperar que a Grécia reembolse toda a sua dívida.
Vamos assumir que à Grécia não pode ser dado qualquer
alívio da dívida, mas que tem de reembolsá-la, um certo
montante a cada ano. Mesmo assim há dois caminhos para fazer com que a
Grécia reembolse esta dívida. Um é através da
tomada de mais bens e serviços gregos
gratuitamente
como forma de pagamento da dívida, o qual basicamente significa que a
Grécia obtem um excedente de transacções correntes na sua
balança de pagamento,
através de uma procura acrescida pelas suas exportações
do seu principal país credor (ou de qualquer outro, pouco importa),
cujas receitas sigam para o pagamento da dívida grega. O outro é
através de activos gregos serem liquidados
(sold off)
aos seus credores (ou a qualquer outro organismo, pouco importa, com as
receitas da venda sendo utilizadas para pagar os credores).
A diferença entre as implicações económicas destes
dois caminhos é enorme. Considere-se o primeiro caminho. Uma vez que a
economia grega está constrangida pela procura, um aumento no seu
excedente de exportação (o que é o modo como um aumento no
excedente da conta corrente seria efectivado)
através de um aumento das suas exportações
(e não através de uma redução das suas
importações, a qual é o que a "austeridade"
procura alcançar), teria o efeito de aumentar sua produção
e emprego. Além disso, por causa do efeito "multiplicador"
deste processo inicial na produção, através de excedente
de exportação ampliado, o aumento total na produção
seria muito maior. Exemplo: se o excedente de exportação
aumenta
em 100 devido a maior procura externa, e se o consumo privado habitualmente
metade do produto total da economia, então, mesmo com a despesa do
governo grego e com o investimento privado permanecendo na mesma, o aumento
total na produção da economia grega seria 200. (Pode-se pensar
que neste cálculo não considerámos o aumento nas
importações que seria provocado por um aumento no produto, mas
isto não é assim: estamos a falar de um aumento de 100 no
excedente da exportação,
isto é, no excesso das exportações sobre as
importações). Destes 200 extra, o aumento do consumo privado
absorverá 100 e o excedente exportado outros 100.
A Grécia nesta situação teria reembolsado 100 aos seus
credores
sem nenhum custo para si própria,
ao contrário, ao fazer assim, ela teria elevado a
produção interna, o emprego interno e o consumo interno, sem
fazer quaisquer cortes no investimento interno ou na despesa governamental com
pensões, salários, transferências de pagamentos e tudo o
mais.
Este ponto é muito pouco apreciado. A propaganda burguesa acerca da
Grécia adopta tipicamente a seguinte forma, a qual aliás persuade
mesmo muitas pessoas progressistas: os gregos viveram para além
dos seus
meios por longo tempo, porque, sugere-se, eles são preguiçosos,
indolentes, relaxados e ineficientes, ao contrário dos diligentes e
industriosos trabalhadores alemães. Tendo vivido para além dos
seus meios por tanto tempo, eles agora não têm outra alternativa
senão apertar os cintos, aceitar a "austeridade" e impor um
corte na sua absorção interna de bens e serviços. De facto
este corte na absorção interna terá de ser particularmente
drástico e portanto a "austeridade" particularmente severa, se
tiverem não só de se privar de quaisquer novos empréstimos
do exterior como também de reembolsar os empréstimos que
já receberam. Portanto ninguém precisa lamentá-los porque
foram eles que provocaram isto.
ABSURDO CONCEPTUAL
O absurdo empírico deste argumento tem sido amplamente denunciado.
Proposições tais como os gregos são preguiçosos e
indolentes; a dívida grega resulta inteiramente de factores gregos sem
conexão com a crise económica mundial; a dívida grega
acumulou-se porque o país viveu continuamente para além dos seus
meios e que a acumulação nada tem a ver com as próprias
políticas impostas sobre a Grécia pelos seus credores; tudo isto
tem-se mostrado absolutamente vazio. Mas o que não recebeu tanta
atenção foi o
absurdo conceptual
deste argumento.
Este argumento baseia-se inteiramente na suposição de que a
economia grega sempre foi e continua a ser caracterizada pelo pleno emprego,
que sempre foi e continua a ser constrangida pela oferta o que é
diferente de ser constrangida pela procura.
A necessidade do aperto de cinco, e da austeridade como meio de chegar a isso,
não pode resultar numa economia na qual os recursos jazem inutilizados.
Ela pode resultar numa economia constrangida pela oferta, porque só
nesse caso a absorção interna tem de ser reduzida para dar
espaço a um excedente de exportação que possa ser
utilizado para reembolsar dívida. Numa economia constrangida pela
procura, a dívida pode ser reembolsada através da
geração de um excedente de exportação, mesmo quando
a absorção interna
aumenta,
através do emprego de recursos ociosos, desde que a procura por
exportações esteja acessível no exterior.
Dito de modo diferente: se o governo grego simplesmente desse
vouchers
ao invés da sua dívida para os seus credores e, através
deles (com adequada intervenção fiscal, sem dúvida)
às populações dos países credores, para umas
férias gratuitas na Grécia, então numerosos
pássaros teriam sido mortos com uma só pedra. O povo dos
países credores teria experimentado uma melhoria nos seus padrões
de vida através de umas férias grátis na Grécia,
paga efectivamente pelos direitos que os seus países possuem em
relação à Grécia; a Grécia teria liquidado a
sua dívida na medida do valor dos
vouchers;
o emprego interno; o produto interno e mesmo o consumo interno na
Grécia teria
melhorado
em consequência do influxo
vouchers
possuídos por turistas e, naturalmente, haveria muito melhor sentimento
de solidariedade dentro da Eurozona.
Mas não é deste modo que o capital financeiro opera. Ele
não está interessado em oferecer férias grátis na
Grécia aos povos sob sua jurisdição. Na generalidade, um
aumento nas exportações gregas, para gerar um excedente mais
amplo para a Grécia, só pode acontecer de modos que são
anátema para o capital financeiro. Cada um deles envolve um
estímulo à procura, a qual, para ser realista, tem de ser nas
economias excedentárias da Europa, na Alemanha em particular. Tal
estímulo pode assumir a forma de maior consumo por parte da
população interna (da qual umas férias grátis na
Grécia é um exemplo) ou assumir a forma de maior despesa
governamental. Aumentar o consumo da população interna como meio
de liquidar a dívida possuída pelo país vai contra a
ética do capitalismo, a qual, como resumiu o economista marxista polaco
Michal Kalecki
, sustenta: "você deve ganhar o seu pão diário
com o
suor da sua testa a menos que tenha meios privados". E em
relação ao aumento da despesa governamental, a única que
é favorecida pelo capital financeiro é aquela que o beneficia e
isto no contexto actual tem pouco efeito gerador de procura.
Segue-se portanto que a mais óbvia, a mais humana, a mais
razoável saída do
imbroglio
da dívida grega, que é através de uma expansão da
procura na economia europeia (tal expansão, a propósito,
não representa uma ameaça de provocar quaisquer dificuldades de
balança de pagamentos para a Europa como um todo), é descartada
pois na Europa há efectivamente uma ditadura do capital financeiro. O
que o capital financeiro ditou à Grécia, ao invés,
é mais "austeridade" que procura reduzir as
importações gregas gerando nova recessão e desemprego, bem
como uma transferência forçada da propriedade de activos gregos
para capitalistas estrangeiros.
Uma parte importante do novo acordo imposto à Grécia é o
estabelecimento do
Fundo de Desenvolvimento de Activos da República Helénica
(TAIPED), o qual será monitorado por responsáveis estrangeiros e
organizará a venda de tudo o que o Estado grego possui: portos
marítimos, ferrovias, utilities, aeroportos internacionais e mesmo o
local das Olimpíadas. O dinheiro arrecadado através de tais
vendas irá para a liquidação da dívida grega. Isto,
ironicamente, é a decisão da União Europeia, a qual tem
pretensões de ser o mais "civilizado" lugar do mundo!
IMITANDO O AGIOTA
Toda criança indiana sabe que é exactamente isto o que tem feito
o agiota de aldeia ao camponês endividado ao longo da nossa
história, especialmente sob o colonialismo, quando foi estabelecida toda
uma parafernália de tribunais para forçar o cumprimento de
"contratos". Ele tomava a terra, os utensílios, a
mobília miserável que o camponês possuía, os
insignificantes ornamentos que a esposa do camponês havia trazido consigo
ao casar, tudo ao invés da dívida do camponês.
Inúmeros contos, romances, peças e filmes foram escritas em todas
as línguas da Índia sobre a crueldade dos agiotas para com os
camponeses. Mas hoje, ironicamente, temos os governos das mais
"civilizadas" nações do mundo a imitarem, na sua
visão colectiva, a cupidez do agiota de aldeia indiano!
Dois pontos são especialmente dignos de nota aqui. Primeiro, por causa
da "austeridade" que continua e se
intensifica, os preços destes activos foram imensamente reduzidos
devido a uma queda na sua taxa de utilização. Segundo,
como todos os compradores potenciais destes activos estão bem conscientes do
facto de que o governo grego é pressionado a efectuar estas vendas
tão rapidamente quanto possível a fim de cumprir suas
obrigações de dívida, todos eles aguardam o momento
propício e lançam os preços ainda mais para baixo.
Portanto, não só a nação chamada Grécia
está a ser despojada dos seus activos públicos que estão
agora a ser transferido para proprietários capitalistas estrangeiros
como também isto está a ser feito a preços
perdulários! Uma vez que muitos destes novos proprietários seriam
"operadores não confiáveis"
("fly-by-night operators")
que têm pouco interesse em realmente administrar estes activos ou
utilizá-los para finalidades produtivas, a economia grega está com
efeito a ser destruída de modo muito barato.
Victor Grossman, na
Monthly Review Zine
, vê um paralelo entre o que está a acontecer na Grécia e o
que aconteceu na RDA há um quarto de século, quando
foi estabelecido um Fundo de Privatização para vender activos
públicos a toda espécie de trapaceiros que estavam mais
interessados em vender activos obtidos a preço da chuva
(asset-stripping)
do que em administrá-los para as finalidades a que se destinavam. Do
ponto de vista do capital alemão há na verdade uma
semelhança entre as duas situações, a qual se estende
mesmo ao desejo em cada um dos casos de "punir" a população por
ter apoiado um regime de esquerda. Contudo, há uma importante
diferença. Eric Honecker não presidiu a destruição
da economia da RDA, mas Alexis Tsipras está a presidir a
destruição da economia grega.
26/Julho/2015
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2015/0726_pd/greece-sale
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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