O lixo editorial a que temos direito
Releiam o
editorial do Financial Times
da passada sexta-feira. Já está? Bom, agora experimentem ler um
editorial de João Vieira Pereira no dia a seguir (sábado) no
Expresso.
Desculpem, mas não me apetece fazer ligação (e
além disso paga-se para ler o esforço para nos transformar em
lixo, em linha com crónicas antigas).
E agora leiam a sequência de
Rui Cerdeira Branco
, disponível gratuitamente no twitter (editado ligeiramente por
António Vilarigues
). Deixem-me só lembrar antes que Portugal não só tem o
mais baixo investimento público (em percentagem do PIB) da UE, como tem
das mais baixas percentagens de emprego público no emprego total, uma
verdadeira desgraça para o nosso desenvolvimento.
Ode a João Vieira Pereira! O João, no seu editorial de hoje
[dia 4 de abril] no
Expresso
indigna-se por os funcionários do Estado não estarem a
contribuir para o sacrifício nacional pois não há um
único em
lay-off
com corte de salário (que seria pago pelo mesmo Estado). De quem
falará ele?
Diz que não é dos 30 569 médicos, nem dos 49 022
enfermeiros. Nem será dos 9 670 técnicos de
diagnóstico e terapêutica. Bem como dos 1 962 técnicos
superiores de saúde. Também não será dos
51 366 polícias das forças de segurança ou dos
1 548 polícias municipais. Ou dos 2 292 bombeiros.
Se bem percebi também não fala dos 136 150 professores dos
vários níveis de ensino básico e secundário que
continuam a dar aulas à distância e a preparar o que aí
vem. Ou dos 15 241 docentes universitários e 10 470 docentes
superior politécnico que continuam com aulas não presenciais.
Mesmo os políticos nacionais, regionais, locais estarão em
overdrive
como nunca pelo que também não será desses
2 374 que fala ou sequer dos autarcas que na larga maioria não
contam para este totobola pois recebem senhas e não salário.
Será que fala dos 157 990 assistentes operacionais/
operário/ auxiliar (aqueles que constituem, no Estado, o grupo com mais
infetados) que contém, lá pelo meio, a malta que está nos
hospitais, centros de saúde, que nas autarquias continuam a desinfetar
ruas e enterrar mortos? Se calhar não.
Talvez sejam os 87 448 assistentes técnico/ administrativos bom,
mas também nesses os há que estão em teletrabalho a apoiar
os 67 965 técnicos superiores que desenham e acodem a empresas e
particulares com todas as medidas de exceção.
Já sei, são os dirigentes, os 11 107 dirigente
intermédios e os 1 713 dirigentes superiores. Mas espera, quem
define trabalho, organiza o trabalhado à distância, distribui
pessoas para outras áreas críticas neste período?
Não também não devem ser esses.
Talvez os 5 181 informáticos? Eh pá, também
não! Esse andam completamente debaixo de água a tentar que tudo
funcione à distância e a trabalhar como nunca. Os 403 diplomatas?
Bom, esses andam em roda viva à procura de garantir equipamentos e
razoabilidade entre pares.
Serão os magistrados, todos os 3 801? Bom, parece que há
muitos processos ainda em curso e muito trabalho acumulado que implica ler,
estudar e despachar. Ná. Também não andam a coçar a
micose.
Estão-se-me a acabar os suspeitos. Mas... serão os 3 441
tipos da investigação científica? Os de biomédicas?
Os de economia? Quais? Sim haverá alguns que ficaram em casa mas
até esses estão de prevenção e podem ser chamados a
qualquer momento como determina o Estado de Emergência.
Pois é JVP, provavelmente NUNCA em tempo de paz os mandriões do
Estado mandriaram tão pouco. Se calhar NUNCA tantos sentiram o peso e
importância de cumprirem e se calhar NUNCA os que eles servem
reconheceram tão facilmente quão importante é o seu
trabalho para comunidade. Saúde!
07/Abril/2020
[*]
Economista.
O original encontra-se em
ladroesdebicicletas.blogspot.com/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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