MPPM condena actuação de António Guterres
Secretário-geral da ONU capitulou diante da política de
apartheid de Israel
O MPPM encara com preocupação o papel desempenhado pelo
secretário-geral da ONU, António Guterres, no processo que
conduziu à demissão de Rima Khalaf do posto de Secretária
Executiva da Comissão Económica e Social das Nações
Unidas para a Ásia Ocidental (CESAO).
A sucessão dos acontecimentos merece ser referida brevemente. Na
quarta-feira, 15 de Março, a CESAO publicou um documento
histórico em que acusa Israel de apartheid, num relatório que
concluía que "Israel estabeleceu um regime de apartheid que domina
o povo palestino como um todo".
Os autores do relatório os estado-unidenses Virginia Tilley e
Richard Falk, ambos especialistas em Direito Internacional
"conscientes da gravidade desta alegação [
] concluem
que os elementos de prova disponíveis estabelecem além de
qualquer dúvida razoável que Israel é culpado de
políticas e práticas que constituem o crime de apartheid, tal
como definido legalmente nos instrumentos do direito internacional". O
relatório "assenta no mesmo corpo de leis e princípios
internacionais de direitos humanos que rejeitam o anti-semitismo e outras
ideologias racialmente discriminatórias, incluindo a Carta das
Nações Unidas (1945), a Declaração Universal dos
Direitos Humanos (1948) e a Convenção Internacional sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
Racial (1965)" e "baseia-se para a sua definição do
apartheid sobretudo no artigo II da Convenção Internacional para
a Repressão e a Punição do Crime de Apartheid
(1973)". Os autores do relatório sublinham que, "embora o
termo "apartheid" tenha sido originalmente associado ao caso
específico da África do Sul, representa agora uma espécie
de crime contra a humanidade segundo o direito internacional
consuetudinário e o Estatuto de Roma do Tribunal Penal
Internacional" acrescentando que "o presente relatório
reflecte o consenso dos peritos de que a proibição do apartheid
é universalmente aplicável e não foi tornada irrelevante
pelo colapso do apartheid na África do Sul e no Sudoeste da
África (Namíbia)".
O relatório destacou em especial as políticas
discriminatórias de Israel no que diz respeito à terra,
consagradas na Lei Fundamental do país (o equivalente à
constituição). A CESAO também refere algumas das
políticas israelenses de "engenharia demográfica": a
concessão a todos os judeus, em qualquer parte do mundo, do direito de
obter a cidadania israelense, enquanto impede a entrada de milhões de
palestinos com laços ancestrais documentados à terra em que o
Estado de Israel foi criado, em 1948; o impedimento do reagrupamento familiar
dos cidadãos palestinos de Israel casados com palestinos dos
territórios ocupados; a manutenção de comunidades
segregadas dentro de Israel, com uma distribuição de recursos
extremamente desigual. O relatório salienta ainda a importância
fundamental dos diferentes códigos legais israelenses que se aplicam aos
palestinos dentro de Israel, em Jerusalém Oriental ocupada, na Margem
Ocidental e na Faixa de Gaza cercada como "principal método pelo
qual Israel impõe um regime de apartheid".
A publicação do relatório foi de imediato alvo de
violentas críticas de Israel e dos Estados Unidos, que exortaram o
secretário-geral, António Guterres, a demarcar-se formalmente do
conteúdo do relatório, e exigindo que o mesmo fosse retirado da
página oficial das Nações Unidas. Nesse próprio
dia, através de uma declaração do porta-voz do
secretário-geral, Stéphane Dujarric, António Guterres
tornava público o seu distanciamento.
Segundo declarações de Rima Khalaf, António Guterres
pediu-lhe, em 16 de Março, que retirasse o relatório e, apesar da
solicitação de que reconsiderasse, Guterres terá
insistido, o que a levou a apresentar a sua demissão. E de facto, a 17
de Março, o relatório já não estava
disponível no site da CESAO. A decisão do secretário-geral
foi saudada pelos embaixadores de Israel, Danny Danon, e dos Estados Unidos,
Nikki Haley, assim como pelas organizações do lobby sionista nos
EUA.
O MPPM não pode deixar de condenar a actuação neste caso
do secretário-geral da ONU, António Guterres, premiando o
país que mais vezes violou as resoluções da ONU, Israel,
em detrimento do martirizado povo palestino, para com o qual a ONU tem uma
pesada e irrenunciável dívida histórica. Não
podemos esquecer que há sete décadas a ONU optou por uma partilha
do território histórico da Palestina, prometendo a
criação de dois Estados. Mas enquanto um desses Estados, Israel,
existe há 68 anos, o povo palestino continua a aguardar o cumprimento da
promessa que a Assembleia Geral da ONU lhe fez e que foi sucessivamente
renovada através de inúmeras resoluções do Conselho
de Segurança e da Assembleia Geral que Israel desafia diariamente.
O MPPM enaltece a posição de verticalidade assumida por Rima
Khalaf e considera a decisão de António Guterres, cedendo perante
as pressões de Israel e dos Estados Unidos da América numa
altura em que este último país discute cortes à
comparticipação financeira para o orçamento da ONU
como gravemente atentatória do prestígio, independência e
da própria razão de ser das Nações Unidas. Nesta
ocasião, vale a pena recordar que, em Outubro de 2016, aquando da
eleição de António Guterres, o embaixador de Israel na
ONU, Danny Danon expressava votos que, com o novo Secretário Geral, a
ONU abandonasse a sua "obsessão com Israel". A
posição ora assumida por António Guterres, confirmando os
receios suscitados por aquela declaração do representante de
Israel, abre um grave precedente que faz temer o pior sobre o desenrolar futuro
do seu mandato.
O MPPM reitera nesta ocasião os votos que formulou na carta que dirigiu
a António Guterres por ocasião do início do seu mandato
como secretário-geral da ONU: que este seja o mandato em que as
Nações Unidas saldem a dívida histórica que
têm para com o povo da Palestina. Só revendo a atitude que desta
vez assumiu e adoptando uma posição consentânea com as
resoluções da ONU, António Guterres defenderá a
autoridade e prestígio da organização que dirige, e
poderá favorecer uma solução justa do drama do povo
palestino. Só assim a ONU poderá contribuir para a paz em todo o
Médio Oriente, para a paz mundial.
Lisboa, 22 de Março de 2017
A Direcção Nacional do MPPM
O texto integral do relatório censurado encontra-se em
electronicintifada.net/...
[*]
Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente
,
www.facebook.com/mppm.movimento.palestina
Este comunicado encontra-se em
http://resistir.info/
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