O discurso da desesperança:
Como o pessimismo palestino poderia provocar uma rebelião muito
necessária
O maior desafio da Palestina não é o fato de as pessoas
não se considerarem um fator na libertação de sua
própria terra e sim a incapacidade da sua liderança em reconhecer
o imenso potencial de energia dos palestinos em toda a parte para um enfoque
anticolonial, centrado e estratégico, uma campanha de
libertação.
Numa recente discussão televisiva, um respeitado jornalista
pró-Palestina declarou que se alguma vez ocorrer uma mudança ou
transformação positiva na trágica saga palestina,
não seria agora, pois seria necessário uma geração
completamente nova para conseguir uma mudança de paradigma... Tão
inócua como possa parecer, a declaração incomodou-me
muito. Escutei essa frase uma e outra vez, frequentemente reiterada por
intelectuais bem-intencionados, cujas experiências ao investigar e
escrever sobre o chamado 'conflito israelo-palestino' podem ter levado alguns
deles ao pessimismo, se não a desesperança. O 'discurso da
desesperança' é, talvez, compreensível se alguém
examina a realidade tangível e desagradável sobre o terreno: a
ocupação israelense cada vez mais arraigada, a
anexação planejada da terra palestina ocupada na
Cisjordânia, a vergonhosa normalização árabe com
Israel, o silêncio ensurdecedor da comunidade internacional e a
inutilidade da liderança palestina. Endossar essa lógica
não é apenas contraproducente, é também
a-histórico. Ao longo da história cada grande conquista que
trouxe liberdade e um pouco de justiça a qualquer nação se
realizou apesar de probabilidades aparentemente insuperáveis. De fato,
quem teria pensado que o povo argelino fosse capaz de derrotar o colonialismo
francês quando suas ferramentas de libertação eram
tão rudimentares em comparação com os incríveis
poderes do exército francês e seus aliados? A mesma
noção se aplica a muitas outras experiências
históricas modernas, desde o Vietnã até a África do
Sul, desde a Índia até Cuba.
A Palestina não é a exceção. Entretanto, o
"discurso da desesperança" não é tão
inocente quanto parece. Ele se deve a persistente incapacidade de reconhecer a
centralidade do povo palestino, ou qualquer outra pessoa, para o caso, em sua
própria história. Ademais, supõe que o povo palestino
é, francamente, ineficaz. Curiosamente, quando muitas
nações ainda estavam lidando com o conceito de identidade
nacional, o povo palestino já havia desenvolvido um sentido refinado de
identidade coletiva moderna e consciência nacional. As greves gerais de
massas e a desobediência civil que desafiam o imperialismo
britânico e os assentamentos sionistas começaram há quase
um século, culminando na greve geral de seis meses de
duração de 1936. Desde então, a resistência popular,
que está vinculada a um sentido definido de identidade nacional, tem
sido um elemento básico na história palestina. Foi uma
característica destacada na Primeira Intifada, o levantamento popular de
1987. O fato de que a pátria palestina se perdiesse, apesar da maior
consciência das massas palestinas nesse momento, não é
indicativo da capacidade do povo palestino para afetar os resultados
políticos.
Reiteradamente os palestinos se rebelaram e, com cada
rebelião, obrigaram todas as partes, incluindo Israel e os Estados
Unidos, a reconsiderar e rever suas estratégias por completo. Um exemplo
disso foi a Primeira Intifada. Quando, em 8 de dezembro de 1987, milhares
saíram às ruas do campo de refugiados de Jabaliya, o campo mais
povoado e pobre da Faixa de Gaza, o momento e o lugar do levantamento foram
mais adequados, racionais e necessários. Nesse mesmo dia, um
caminhão israelense havia atropelado um comboio de automóveis que
transportavam trabalhadores palestinos, matando a quatro homens jovens. Para
Jabaliya, como para o resto da Palestina, foi a gota d'água. Respondendo
aos cantos e súplicas dos sofredores de Jabaliya, Gaza foi, em
questão de dias, o terreno fértil para uma verdadeira
revolução autopromovida e inquebrantável. Os cantos dos
palestinos na Faixa de Gaza foram respondidos na Cisjordânia e ecoaram
nas cidades palestinas, inclusive naquelas localizadas em Israel.
A energia contagiosa de crianças e jovens que queriam reclamar as
identidades de seus antepassados que haviam sido horrivelmente desfigurados e
divididos entre regiões, países e campos de refugiados, era
emblemática. A Intifada, que literalmente significa
"sacudir-se", enviou uma poderosa mensagem à Israel de que o
povo palestino está vivo e ainda é capaz de alterar todos os
esforços coloniais de Israel. A Intifada também enfrentou o
fracasso das lideranças palestinas e árabes, que persistiram nas
suas políticas de facções e egoístas. De fato, as
conversações de Madrid de 1991 entre palestinos e israelenses
foram entendidas como um compromisso israelo-estadunidense, destinado a
terminar com a Intifada em troca do reconhecimento da Organização
para a Libertação da Palestina (OLP) como representante do povo
palestino. Os Acordos de Oslo, assinados por Yasser Arafat e Israel em 1993,
desperdiçaram os ganhos da Intifada e, em última instância,
substituíram a OLP, que era mais democraticamente representativa, pela
Autoridade Palestina corrupta.
Mas mesmo então o povo palestino continuou regressando, reclamando,
à sua maneira, sua importância e centralidade na luta. A Grande
Marcha de Retorno de Gaza é apenas uma das muitas iniciativas
impulsionadas pelas pessoas. O maior desafio da Palestina no movimento
não é o fato de que as pessoas não se considerem como um
fator de libertação de sua própria terra e sim a
incapacidade da sua liderança em reconhecer o imenso potencial de
aproveitar as energias dos palestinos em todos os lugares para um enfoque
anticolonial, centrado e estratégico, campanha de
libertação anticolonial. Essa falta de visão remonta aos
finais da década de 1970, quando os líderes palestinos
trabalharam para se comprometer politicamente com Washington e outras capitais
ocidentais, culminando no sentido dominante de que, sem a
validação política dos Estados Unidos, os palestinos
seriam sempre marginais e irrelevantes. Os cálculos da liderança
palestina naquele momento resultaram desastrosos. Depois de décadas
satisfazendo as expectativas e os ditames de Washington, a liderança
palestina, em última instância, regressou com as mãos
vazias, como finalmente demonstrou o 'Acordo do Século' da atual
administração de Donald Trump. Falei recentemente com duas jovens
ativistas palestinas: uma é da Gaza sitiada e a outra da cidade de
Seattle. O discurso progressista delas é, em si mesmo, um testemunho de
que o pessimismo de alguns intelectuais não define o pensamento dessa
nova geração palestina, e que não há necessidade de
descartar os esforços coletivos desta geração ainda muito
nova com vistas ao surgimento de uma "melhor". Malak Shalabi, um
estudante de direito que mora em Seattle, não transmite uma mensagem de
desesperança e sim de ação. "É realmente
importante que cada palestino e cada ativista de direitos humanos defenda a
causa palestina independentemente de onde se encontrem, e é importante,
especialmente agora", me disse. "Atualmente há
irrupções de movimentos sociais aqui nos Estados Unidos, em torno
dos direitos civis para os negros e de outros temas que estão (se
convertendo) temas prementes igualdade e justiça na
corrente principal. Como palestinos, é importante que também
nós levemos a causa palestina à corrente principal ",
acrescentou. "Há muito trabalho entre os ativistas palestinos aqui
nos Estados Unidos, a nível social, econômico e político,
para assegurar que se produza um vínculo entre o Black Lives Matter e a
Palestina", acrescentou.
Por sua vez, Wafaa Aludaini, em Gaza, falou dos incansáveis
esforços de sua organização, a 16 de outubro, para
envolver as comunidades de todo o mundo e tornar conhecidos os crimes de guerra
israelenses ali praticados e por fim ao assédio prolongado na faixa
empobrecida. "Os palestinos e ativistas pró-palestina no exterior
são importantes porque fazem que nossas vozes se escutem fora da
Palestina, já que os principais meios não informam (a verdade
sobre) o que está acontecendo aqui", me disse. Para que estes
esforços tenham êxito, "todos necessitamos estar
unidos", afirmou, referindo-se ao povo palestino em casa e na
diáspora, e ao movimento de solidariedade pró-palestina em todas
as partes, também. As palavras de Malak e Wafaa estão validadas
pela crescente solidariedade com a Palestina no movimento BLM, assim como com
numerosos outros movimentos de justiça em todo o mundo. Em 28 de junho,
a divisão do BLM no Reino Unido tuitou que "orgulhosamente" se
solidariza com os palestinos e rechaça os planos de Israel de anexar
grandes áreas da Cisjordânia. BLM foi além, criticando a
política britânica por ser "amordaçada do direito de
criticar o sionismo e as atividades coloniais dos colonos de Israel".
Repetir a afirmação de que toda uma nova geração
necessita substituir a atual para que ocorra qualquer mudança na
Palestina é um insulto, ainda que, às vezes, sem
intenção, a gerações de palestinos, cuja luta e
sacrifícios estão presentes em todos os aspectos da vida
palestina. Simplesmente porque as probabilidades acumuladas contra a liberdade
palestina parecem demasiado grandes nesse momento, não justifica deixar
de contar com uma nação inteira, que viveu muitas guerras,
assédios prolongados e dificuldades incalculáveis. Além
disso, a próxima geração não é mais que uma
mera evolução da consciência da geração
atual. Não podem ser desvinculadas e analisadas separadamente. Em seus
"Cadernos do Cárcere", o intelectual antifascista Antonio
Gramsci cunhou o termo "pessimismo do intelecto, otimismo da
vontade". Se bem que a análise lógica de uma
situação possa levar o intelecto ao desespero, o potencial de
revoluções e transformações sociais e
políticas deve nos manter a todos motivados para mantermos a luta, sem
importar as probabilidades.
[*]
Jornalista e editor do
The Palestine Chronicle.
O seu livro mais recente é
These Chains Will Be Broken: Palestinian Stories of Struggle and Defiance in Israeli Prisions
(Clarity Press, Atlanta). O Dr. Baroud é investigador principal
não residente no
Centro para o Islã e Assuntos Globais (CIGA), Universidade de Istambul
Zaim (IZU). Seu website é
www.ramzybaroud.net/
Ver também:
Aprendiendo del pasado: la historia proporciona pistas sobre la anexión de Cisjordania de Israel
A versão em castelhano encontra-se em
mintpressnews.es/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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