A paz não pode cheirar a derrota

por Carlos Aznárez

É evidente que na Palestina tudo mudou desde a morte de Yasser Arafat. E mudou para pior já que, se a linha do Rais podia ter pontos obscuros, na relação da sua organização (Al Fatah) com o resto das organizações combatentes palestinianas existia uma série de códigos que não eram violados a partir da Autoridade Nacional Palestina (ANP). E estes passavam, na generalidade, por não ceder às pressões que a entidade sionista exercia, para que fosse a ANP a desarmar a intifada.

Morto o líder indiscutível de inúmeros palestinianos – e olhado com respeito por quem, metodologicamente, não concordava com ele na insurreição palestiniana –, o seu imposto sucessor, Abu Mazzen, encarregou-se de acelerar o processo do enterro da dignidade do povo palestino. Coincidindo, ponto por ponto, com a ideia de “paz” desejada pelo imperialismo norte-americano para a região – primeiro que tudo, docilidade pela parte palestina, desarmamento dos insurrectos e isolamento de quem continuar a intifada – o novo chefe da ANP prepara-se para enterrar definitivamente o machado de guerra.

Não só abraça provocatoriamente Sharon como também repete um esquema que anteriormente tinha provocado mais desunião entre as fileiras palestinianas: a perseguição policial e militar dos lutadores. Manda prender militantes da Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), persegue guerrilheiros do Hamas – não esquecer que esta organização tem cada vez mais peso entre o povo palestiniano – e da FDLP, e aceita, submissamente, que os seus novos aliados de Israel se dêem ao luxo de romper, uma e outra vez, o aparente cessar fogo, assassinando população indefesa e prosseguindo a caça selectiva dos que não optaram pela rendição.

Abu Mazzen poderá ter sido eleito pelo voto popular. Isso não está em discussão, mas convenhamos que na Palestina ocupada, não se dão todas as condições para que todos os que lutam se expressem em liberdade. Mas o que o dirigente da ANP não pode é atribuir a si próprio a omnipresente representatividade, como a de participar numa negociação que, a todos os títulos, é uma capitulação imposta por Washington, o principal aliado e sustentáculo dos genocídios sionistas, e pelo lobby judeu dos Estados Unidos, que bem sabemos quanto vale, e decide, nesta parte do mundo.

Não, o caminho da paz não vai chegar pela mão da traição e da reconciliação com aqueles que não só invadiram, roubaram, usurparam e assassinaram população palestiniana como também têm um projecto integral a aplicar ao povo vizinho, que consiste na rendição e posterior anexação, para fazer desaparecer a forte identidade palestiniana.

Abu Mazzen está a desperdiçar a imensa demonstração de colaboração que todas as organizações palestinianas mostraram, durante todo o processo final originado pela morte de Arafat e em diálogos posteriores, com o objectivo de procurar uma saída de unidade na acção, única forma possível de encarar algum tipo de negociação soberana com a entidade sionista.

Assim, não há qualquer rota possível, mas maior submissão e um claro incitamento a que cada uma das organizações que não baixa os braços perante o sionismo prossiga o seu combate de modo autónomo. Com este tipo de posições, que apenas procuram acordar o impossível, prossegue-se a abertura da brecha por onde passará a continuação da guerra e, o que é pior, se generalize um clima de maiores confrontos entre palestinianos.

Pode dizer-se, como desculpa para a posição oficiosa da ANP, que o povo palestiniano “está cansado de tanta violência e morte”. Não temos qualquer dúvida sobre isso, o que, obviamente, influi nas incertezas que o prosseguimento do dificílimo caminho que é a busca da paz pode gerar. Mas parte-se de um enorme erro se se acredita que, adoptando uma atitude dócil frente ao inimigo, fazendo concessões desprezíveis e humilhantes e, finalmente, perseguindo os que deveriam ser parte de um mesmo corpo beligerante, se alcançará o objectivo, tão ardentemente desejado, de a Palestina ser um Estado verdadeiramente soberano.

As experiências de outros povos – da América Latina, por exemplo – de negociar numa posição de fraqueza, sempre, inexoravelmente, terminaram numa maior frustração e derrota para os que se iludiram com esse caminho. A luta do povo palestiniano não pode estar na mesa das oferendas, o sangue derramado por várias gerações de revolucionários não devia ser abastardado por pessoas que, mais que simbolicamente, abandonaram o uniforme de combatente, para vestir o fato ocidental do invasor, que sorriem e aplaudem os que matam e torturam, ou os que mantém nas prisões-túmulos israelenses mais de 9.000 prisioneiros palestinianos.

Estão equivocados Abu Mazzen e os seus assessores se acreditam que, insistindo na sua teoria dos dois demónios, se poderá construir um discurso de tranquilidade na região. Os povos aprenderam: a única forma possível de exercer a verdadeira soberania é construir poder desde baixo, e não fazendo concessões aos que procuram apertar ainda mais a corda sobre o pescoço. A sorte dos presos, dos milhares de refugiados que vagam pela diáspora e dos princípios fundadores da insurreição palestiniana, não valem nada quando se impõem os critérios de uma burocracia pactuante e manipuladora, que parece mais preocupada em atender as razões dos assassinos do seu povo, que escutar a reclamação popular que, ontem e hoje, exige a independência.

O original encontra-se em Resumen Latinoamericano .
Tradução de José Paulo Gascão.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

18/Fev/05