por Miguel Urbano Rodrigues
Caracas foi durante a primeira semana de Dezembro sede de um acontecimento com
características inéditas a nível planetário. Mais
de 340 intelectuais e artistas vindos de 52 países reuniram-se na
capital venezuelana para debater problemas e ameaças
inseparáveis da própria sobrevivência da humanidade.
O Apelo de Caracas traduz bem o espírito desse Encontro Mundial de
representantes da
intelligentsia
em Defesa da Humanidade. Nele, homens e mulheres de culturas muito diferentes
coincidiram no tocante «à necessidade de construir um muro de
resistência frente ao projecto de dominação mundial que
hoje se pretende impor».
Mais expressivo do significado do evento que as decisões tomadas foi a
atmosfera de permanente combatividade do Encontro, marcada pela solidariedade
entusiástica com a Revolução Bolivariana.
Não será exagero afirmar que a iniciativa ficará a
assinalar uma radicalização do processo de
transformações profundas em curso que faz da Venezuela a
vitrina de uma luta de classes como o mundo não conhecia desde as
Revoluções Russas de 1917.
«Amanhã pode ser demasiado tarde!»
Esta frase de Fidel, repetida por Hugo Chavez no discurso de encerramento do
Encontro, deu força a duas ideias centrais que percorreram os
discursos pronunciados pelo Presidente naqueles dias.
O líder da Revolução ao anunciar repetidamente a
radicalização da Revolução, deixou muito claro que
o seu povo vai enfrentar gigantescos desafios e que somente avançando e
não recuando poderá defender e aprofundar as conquistas já
realizadas. Chavez está consciente de que o choque frontal com o
imperialismo é inevitável .
A ruptura com o sistema de dominação afirmou com clareza
essa evidencia exigirá do povo enormes sacrifícios e uma
grande firmeza.
No diálogo que manteve com as delegações estrangeiras no
Teatro Tereza Carreño um anfiteatro com 2500 lugares
utilizou as perguntas formuladas para iluminar o seu discurso inicial sobre o
binómio antagónico revolução e golpe com respostas
que gradualmente deram cor e forma a outro discurso, complementar, no qual
a informação, os projectos e o recurso constante a exemplos se
inseriram num comovedor painel da Revolução.
Tudo foi transmitido de uma forma espontânea, directa. Chavez é
um comunicador excepcional. Mas a sua oratória torrencial não
pode ser confundida com a dos líderes populistas tradicionais em cujas
arengas a retórica oculta a ausência de conteúdo.
As palavras dirigidas pelo líder venezuelano aos intelectuais presentes
no Encontro foram não apenas muito pensadas como carregadas de
mensagens ideológicas.
Ele avaliou os riscos da sua opção ao insistir repetidamente em
que a Revolução Bolivariana não é mais apenas uma
revolução nacional porque, hostilizada pelo imperialismo,
somente poderá sobreviver se romper o isolamento, assumindo, os
contornos de uma revolução defendida pela humanidade
progressista. Por outras palavras, a solidariedade internacionalista passou a
ser não somente imprescindível, mas factor de sobrevivência.
A complexidade do desafio lançado por Chavez no Encontro de Caracas
transparece de algumas das «sugestões» por ele formuladas.
Ao defender a criação de um Banco Central Latino-americano e de
um Fundo Monetário Latino-americano e insistir pela
fundação da Petrosul uma empresa que agruparia a PDVSA
venezuelana, a PEMEX mexicana, a Petrobrás brasileira e a empresa
petrolífera estatal argentina Chavez não se limita a
reafirmar a sua recusa da dominação imperial sobre o pais.
Vai muito mais longe porque as suas propostas deixam transparecer a
decisão de internacionalizar a Revolução Bolivariana.
Obviamente a concretização dessas propostas não é,
por ora, possível. Qualquer delas esbarraria com obstáculos
intransponíveis. Mas o seu significado não deve ser
subestimado.
El Nacional
e
El Universal,
os dois grandes diários da oligarquia, não dedicaram uma
só linha ao Encontro Mundial de Intelectuais o que é
esclarecedor do seu conceito de democracia e informação
mas as declarações do Presidente foram imediatamente
interpretadas em Washington como um gesto intolerável, de
conteúdo subversivo.
Chavez não mastigou palavras. Disse da ALCA o que pensa dela como
projecto recolonizador e imperial e defendeu um conceito de
integração latino-americana que o faz aparecer aos olhos da Casa
Branca como um revolucionário satânico, um segundo Fidel Castro.
A solidariedade irrestrita com Cuba seria suficiente para alarmar Washington,
mas o aprofundamento da colaboração entre os dois países
em múltiplas áreas é assumido com orgulho. Chavez
não esconde que caminha ombro a ombro com «a republica
irmã».
Escritores e cientistas políticos que visitavam a Venezuela pela
primeira vez ficaram impressionados pela utilização constante da
historia no discurso chavista. As citações de Bolívar, as
referências ao herói tutelar ajudam a compreender o que é e
significa ser hoje bolivariano. A modernidade de Bolívar como
revolucionário transpareceu em paralelos oportunos entre
situações do passado e as opções de hoje face
à Revolução.
Chavez inspira-se no Libertador ao enfrentar dificuldades que na
aparência se apresentam como insuperáveis. Contemplando o futuro
imediato adverte: «o que fizemos foi muito pouco; o principal
está por fazer».
Com frequência a evocação de episódios vividos no
decurso do processo serviram-lhe para iluminar o heroísmo popular.
Emocionou o auditório quando, descrevendo os dias do
lock out
petrolífero, com o país quase paralisado, sem gasolina, e
privado de abastecimentos, contou o seu encontro com uma família muito
pobre num bairro degradado. Uma mulher, pegando-lhe no braço,
arrastou-o para o casebre onde vivia. Chavez percebeu que cozinhavam alguma
coisa numa panela. Tirou a tampa e viu que era um pedaço de madeira. A
mulher comentou: «estamos a comer o que resta da minha cama». E
acrescentou: «Fica tranquilo, vamos aguentar. Resiste, Chavez!»
A história contemporânea da América Latina, da Europa, do
Médio Oriente agredido pelo imperialismo, foi tempero do discurso
ideológico.
Não foi sem surpresa que muitos dos participantes estrangeiros
acompanharam a sua apologia da aliança operario-camponesa no país
e na América Latina. Surpresa ainda maior quando, recordando os
encontros que manteve com dirigentes de países islâmicos, exortou
os povos da América Latina a levantarem-se, solidários com e
iranianos e sírios, se estes forem alvo de novas agressões
imperialistas.
No dia seguinte, falando no encerramento do Encontro, Chavez proferiu um
discurso menos elaborado, ainda mais radical. Retomando a ideia do
aprofundamento da Revolução, foi enfático na
afirmação de que ela vai entrar numa nova fase. E foi mais
longe. Apresentou o socialismo como única alternativa ao
neoliberalismo, ao sistema de dominação imperial que
ameaça a humanidade.
A alternativa socialismo ou barbárie, formulada por Rosa Luxemburgo
há um século, aparece hoje como actualíssima,
reactualizada pelo desenvolvimento da história.
Mas terá sido adequado o momento escolhido por Chavez para deixar
transparecer pela primeira vez a sua opção socialista?
INCOGNITAS E DEBILIDADES
Ao longo dos último meio século acompanhei
revoluções e contra-revoluções que marcaram o rumo
da América Latina. Com excepção de Cuba, não
recordo uma relação similar à existente hoje na Venezuela
entre um governante e o povo que o apoia. A confiança das massas no
líder é total, ilimitada. Impressionou os intelectuais
estrangeiros tanto nas aclamações por ele recebidas no Encontro
como nos contactos que eles mantiveram com moradores pobres em visitas a
comunidades da capital e dos Estados.
Mas a dependência do líder é também uma fragilidade
da revolução. Porque toda revolução é um
processo molecular, que se desenvolve numa atmosfera de luta de classes, um
processo cuja duração não é previsível, que
exige uma organização revolucionaria preparada para uma luta
prolongada. Ora tal organização não existe ainda na
Venezuela. A participação maciça do povo, assumindo-se
como sujeito da historia, permitiu, em momentos decisivos, que as
forças, unidas, da direita caseira e do imperialismo fossem derrotadas.
Mas, num momento em que se anuncia uma nova fase, em que o dirigente
radicaliza a sua posição e relaciona a sobrevivência do
processo com a ruptura do isolamento, admitindo que a revolução
bolivariana assume a dimensão de um desafio continental ao imperialismo
a ausência de uma organicidade revolucionaria é
inocultável. Nem o Movimento V Republica, nem os Círculos
Bolivarianos, nem as actuais Patrulhas puderam desempenhar o papel
mobilizador e estruturador da organização revolucionaria exigida
pela situação histórica.
A grande incógnita persiste. Até onde será
possível transformar radicalmente a sociedade venezuelana num quadro
institucional em que segmentos importantes do Estado não são
controlados pelo Governo?
Nesse contexto a atitude das Forças Armadas assume uma importância
fundamental. Chavez enuncia uma realidade ao afirmar que a
revolução bolivariana não é, contrariamente
à chilena, uma revolução desarmada.
A grande maioria do corpo de oficiais apoia o processo de mudança.
Isso não significa que o Exército corresponda ao ideal definido
por Bolívar: «o Povo em armas».
Um oficial revolucionário, com altas responsabilidades, disse-me,
confiante: «Após a derrota do golpe, o desfile pela Praça
de França (Altamira)
[1]
de oficiais ligados à oposição foi uma presente do
céu, porque permitiu eliminar do Exército o que nele restava de
podre».
A opinião deixa transparecer alguma ingenuidade. A história
demonstra que as sementes da contra-revolução germinam nas
revoluções pela própria dinâmica destas.
Mais de uma centena de oficiais superiores, incluindo muitos generais e
almirantes, foram saneados após o golpe de 11 de Abril. Mas um
número não quantificável de oficiais que não
inspiravam confiança de algum modo cúmplices passivos da
intentona fascista permaneceu nas fileiras. Muitos foram transferidos
para guarnições distantes de Caracas, sobretudo na explosiva
fronteira com a Colômbia. Não terá sido uma
opção feliz. Essa fronteira é um autentico paiol. Ali se
concentram ganaderos e terratenientes reaccionários, narcotraficantes,
contrabandistas e aventureiros estrangeiros. Os paramilitares colombianos tudo
fazem, com cobertura do governo neofascista de Álvaro Uribe, para criar
na região uma atmosfera de permanente tensão. Alguns dos
incidentes ali ocorridos valem como advertência. É
inegável que o vírus transmitido pela escoria humana daquela
zona é contaminante.
Estamos perante um problema entre muitos. Mas não subestimável.
A nova fase da Revolução, anunciada por Chavez, exige que a
participação do povo seja elevada a um nível superior. A
disponibilidade para a luta em situações de angústia,
não basta para uma resposta revolucionária permanente,
lúcida, adequada à ambição transformadora e
desafiadora esboçada pelo Presidente.
Tudo indica que a radicalização do processo bolivariano,
anunciada por Hugo Chavez no Encontro Mundial de Caracas, e reafirmada no
Congresso Bolivariano dos Povos, vai fazer de 2005 um ano decisivo para o
destino da revolução em curso na pátria de Simón
Bolívar.
[1]
Altamira, em Caracas, é o bairro onde a classe dominante promoveu
durante meses concentrações, com a presença de militares,
em que o governo era alvo de constantes provocações.
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