por Miguel Urbano Rodrigues
O Seminário internacional «Los Partidos y una Nueva Sociedad»
tem marcado presença por ser diferente de iniciativas do género
em que predomina o caracter académico. Está voltado para o
debate de ideias, mas o seu objectivo precípuo é
colocá-lo a serviço da dinamização da luta dos
povos.
Numa época em que os fóruns sociais subalternizam os partidos
de esquerda, privilegiando os movimentos, ou os excluem dos grandes eventos,
esquecendo que a acção de uns e outros é ou deve ser
complementar -- o Seminário anual do
Partido do Trabalho
do México, empenhado em debater grandes problemas do nosso tempo,
está simultaneamente orientado para a acção, ciente de
que as organizações revolucionárias têm um papel
insubstituível a cumprir na grande crise de civilização
que vivemos.
Não é por acaso que partidos comunistas como o da China, o da
Federação Russa e o vietnamita patrocinaram este VIII
Seminário e que a maioria dos partidos comunistas
revolucionários da América Latina estiveram representados nele.
É positivo que o Partido do Trabalho do México utilize uma
parcela significativa dos subsídios que recebe do Estado (o que é
excepção absoluta no pais) para viabilizar iniciativas
orientadas para o debate criador de grandes problemas do mundo
contemporâneo resultantes da estratégia de um sistema de poder
que assume matizes neofascistas, ameaçando a própria continuidade
da vida.
Seria um erro concluir daí que o conjunto de intervenções
se caracterizou sempre por um alto nível e expressou um pensamento
uniformemente revolucionário. O Seminário foi um espelho da
esquerda latino americana, das suas contradições, da
confusão ideológica que resulta da complexidade da crise
internacional e das próprias peculiaridades do sistema de
dominação imperial.
A lucidez predominou. A comunicação apresentada por Alberto
Anaya, o destacado dirigente do Partido do Trabalho, marcou de certa maneira o
espirito do Seminário na medida em que iluminou bem a crise do sistema
capitalista, simultaneamente cíclica e estrutural, apontando o caminho
da luta dos povos como o único que pode conduzir à derrota da
engrenagem de dominação.
A delegação cubana, a mais numerosa, trouxe ao México a
imagem do seu pais, plasmada em intervenções diversificadas sobre
a história, a educação, a cultura, a juventude, a
saúde, os trabalhadores, a solidariedade internacionalista, etc. Desse
feixe de comunicações destacou-se, pelo rigor e profundidade
ideológica, a de Roberto Regalado Alvarez, um vasto painel dos desafios
que as nações a Sul do Rio Grande enfrentam, inseridas na crise
global do sistema de dominação.
A presença da América Latina foi naturalmente maciça. As
intervenções da delegação venezuelana -- sobretudo
a do embaixador Lino e a de Rafael Uzcategui -- deixaram transparecer a
firmeza com que o povo de Bolívar e Chavez defende a sua
revolução e, lutando por ela, avança com a historia.
Entre dezenas de discursos torna-se difícil recordar o que de mais
importante e original foi transmitido a um plenário onde predominavam
dirigentes políticos e sindicais e intelectuais de esquerda vindos de 26
países da América, da Europa, da Ásia e da África.
Escutei com especial interesse ,alem das citadas, as do dominicano Isa Conde,
do chileno Júlio Uga, do peruano Renan Muñoz, da argentina Emitia
Segotta, da salvadorenha Blanca Flor, do brasileiro Geraldo Barbosa, da
estadunidense Kathleen Chandler.
Chamou a atenção o trabalho apresentado por He Jun, do CC do
Partido Comunista da China, sobre «A teoria e a pratica do socialismo com
peculiaridades chinesas». Usando de uma franqueza pouco habitual em
conferencias internacionais, Jun sublinhou que a «China se encontra
(apenas) e encontrará na etapa primária do socialismo».
Distanciando-se de posições maximalistas comuns na Europa e na
América, criticou os que confundem desejos com realidades, e apontou
como tarefa central do partido na etapa primária do socialismo
pois a China não é ainda um pais socialista o
desenvolvimento das forças produtivas sociais.
A China disse realizou extraordinários progressos, o
crescimento do PIB é o mais elevado do mundo, mas regista-se «um
grande atraso em projectos sociais no tocante a cultura,
educação, assistência medica, saúde, entre
outros». Aludindo a debilidades do processo e a grandes desafios do
presente, lamentou que mais de 110 milhões de chineses enfrentem
problemas como carências na assistência social, ou alimentares, ou
sobrevivam graças a subsídios do governo.
Foi uma das intervenções mais aplaudidas e que mais impacto
produziram.
CONTRADIÇÕES
Ao longo de todo o seminário transpareceu a contradição
entre duas perspectivas cujo distanciamento reflecte não apenas
mundividências diferentes como opções ideológicas
também diferenciadas, o que tem implicações importantes
nas estratégias e formas de luta esboçadas.
A velha antinomia Reforma-Revolução apareceu com maior ou menor
nitidez em muitas intervenções, embora paradoxalmente alguns
oradores não tenham talvez consciência plena das
consequências das suas opções reformadoras. Também
significativo foi o contraste entre o posicionamento daqueles que concedem
prioridade ao trabalho de construção teórica de projectos
de construção do futuro subalternizando as lutas do
presente e os que apontam como tarefa prioritária a
mobilização das organizações revolucionarias e
movimentos progressistas para o combate contra o sistema de poder que
ameaça a humanidade .
Essas contradições manifestaram-se obviamente na qualidade das
intervenções e no transcorrer dos debates.
Recordo, por exemplo, a confusão resultante da intervenção
de um professor universitário mexicano, que, ao dissertar sobre a
temática fundamental do petróleo numa extenso discurso, falou
como charlatão. A fome de palco era tamanha que, para alem de citar
estatísticas sem credibilidade sobre reservas, custos de
produção e preços hipotéticos, não hesitou
em afirmar que o México já foi a sétima economia do mundo.
Sendo formalmente de esquerda, discursos de exibicionismo como esse servem
à direita.
Por um acaso feliz, o orador seguinte foi um dos mais talentosos professores da
UNAM, Arturo Huerta autor de
A economia política da estagnação
que inseriu numa critica global ao neoliberalismo a analise
cientifica das consequências das políticas de ajuste e do TLCAN
na devastadora crise mexicana.
No tocante ao petróleo, um equatoriano, Victor Hugo Jijón,
apresentou uma comunicação de alto nível sobre «A
dimensão energética militar da ALCA e os desafios da
integração latino-americana». Recorrendo a
projecções, esboçou com rigor o quadro mundial do
esgotamento rapidíssimo das reservas comprovadas de petróleo,
situação com implicações conhecidas na
política das guerras preventivas dos EUA e na irracionalidade da sua
estratégia de dominação mundial.
Enquanto o Seminário transcorria, estava em andamento a
intervenção militar dos EUA no Haiti, com a cumplicidade activa
da França e do Conselho de Segurança da ONU. A ausência de
uma delegação daquele pais foi suprida por uma
intervenção do dominicano Narciso Isa Conde que expôs os
antecedentes históricos da situação que serviu de pretexto
ao desembarque dos marines.
A solidariedade com o povo do Haiti expressou-se com clareza numa das
resoluções mais aclamadas pelo Seminário. Ao condenar a
intervenção imperial, identificou nela uma ameaça global
aos povos da América Latina e do Caribe, de modo especial à
Venezuela bolivariana, a Cuba, e à insurgência colombiana.
O feixe de resoluções aprovadas sobre lutas em curso
Palestina, Porto Rico, Colômbia, Venezuela, Argentina, Iraque, El
Salvador, etc emergiu como expressão do espirito
internacionalista de um Seminário ao longo do qual durante três
dias foi permanente e comovedora a solidariedade com os povos que se batem
contra o imperialismo ou são vitimas de agressões directas ou
indirectas do seu sistema de poder.
Havana, 13 de Março de 2004
A intervenção do autor nesse seminário do México, "A frente principal e a
questão das alternativas", está em
http://resistir.info/mur/ponencia_mexico_mar04.html
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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