por Miguel Urbano Rodrigues
Florestan Fernandes foi no Brasil o meu melhor e mais intimo amigo.
Sobre ele escrevi em livros e artigos muitas páginas. Afirmei e repito
que vi nele, como no francês Henri Alleg, a personificação
da pureza e da autenticidade revolucionarias. Ao longo de muitos anos atingi
com ambos um nível de identificação irrepetível.
Florestan emerge simultaneamente como o mais criador e talentoso
sociólogo da América Latina.
Foi com surpresa e admiração que li, tardiamente, muito
vagarosamente, o seu livro
A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá
[1]
.
Esta edição (da Revista do Museu Paulista) da sua tese de
doutoramento, que fora publicada em 1951, foi-me oferecida em 1968 com uma
dedicatória carinhosa. Limitei-me então a folhear. o livro. O
tema não me atraiu na época. Extávamos em vésperas
do devastador Ato Institucional nº5 que destruiu a Universidade de
São Paulo e o afastou da sua cátedra. As polícias
políticas brasileiras intensificavam a repressão aos exilados
portugueses, um livro meu fora proibido e apreendido pelo governo de Costa e
Silva, e a embaixada de Portugal negava-me passaporte (exceto para Portugal).
Encontrei há semanas o livro, esquecido num canto da minha biblioteca de
Serpa.
Li-o com um sentimento de culpa.
De culpa, porquê?
Pelo
atraso.
Florestan morreu há mais de 20 anos. E eu só agora tomo
conhecimento da importância de uma obra que, se lida na época, me
teria ajudado a avaliar a dimensão do saber acumulado em plena juventude
pelo cientista social e facetas da sua personalidade que tardei a identificar
no amigo e companheiro de lutas.
Para muitos leitores
A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá
é um trabalho académico hermético, pesado. E não
é. Encontrei nesse livro fascinante o humanista, o sábio, o
pensador politico, o apaixonado pela história profunda com fome de
descida às raízes da condição humana, o brasileiro
destruidor de mitos forjados pela burguesia, o investigador empenhado na
compreensão difícil do índio alguém que
só muito lentamente fui descobrindo no revolucionário, amigo
fraterno.
Ao desembarcar no Brasil eu tinha do índio a ideia formada por filmes
racistas e romances de aventuras que apresentam os aborígenes ora como
selvagens pacíficos ora como canibais sanguinários, sempre como
seres primitivos, quase irracionais, tal como os viu Colombo.
Com exceção dos povos da Mesoamérica e do Incário,
criadores de importantes civilizações, os ameríndios do
Brasil, tal com os papuas, os maoris e outros polinésios, apareciam-me
como indígenas ferozes, animalescos.
Sabia que na época da chegada de Cabral os tupinambás eram
aproximadamente 100 mil, concentrados no litoral do Brasil. Sabia também
que tinham sido aliados dos franceses quando Villegagnon fundou a França
Antárctica na Baia da Guanabara, destruída cinco anos depois
pelos portugueses. Sabia igualmente que o governador Mem de Sá
exterminara praticamente os últimos tupinambás em massacres
implacáveis.
Mas ignorava o que pensavam, como viviam, como combatiam e se matavam em
guerras tribais esses índios antropófagos.
Florestan é tao minucioso, tao exaustivo, tão profundo na
reconstituição da vida quotidiana dos tupinambás que
transmite ao leitor a sensação absurda de se encontrar numa
aldeia desse povo e contemplar como espectador aquela gente e acompanhar o seu
quefazer. Descreve com minucia e rigor as técnicas e táticas de
guerra dos tupinambás, o sistema de abastecimento em campanha, o papel
das mulheres e dos jovens na vida comunitária.
Os tupinambás eram antropófagos. Matavam os prisioneiros,
assavam-nos, e devoravam os seus corpos em festins tribais em que participava
toda a comunidade embriagada pelo cauim.
Essa realidade é suficiente para provocar reações de
repulsa e de condenação inapelável nos cidadãos de
qualquer sociedade evoluída contemporânea.
Mas Florestan consegue o prodígio de nos introduzir num mundo tribal
cuja mundividência ele ilumina e explica, permitindo compreender a
motivação do comportamento da sociedade tupinambá.
O título da sua tese de doutoramento abre a porta a essa
compreensão. Para a escrever, recorreu a uma bibliografia colossal.
Utiliza sobretudo textos de cronistas e sacerdotes do seculo XVI que conheceram
com maior ou menor intimidade a sociedade tupinambá: os portugueses
Gondavo de Magalhães e Ambrósio Brandão, os franceses Jean
de Lery e André Thevet, o alemão Hans Staden, os padres Manuel da
Nóbrega e José de Anchieta entre muitos outros.
Os tupinambá viviam envolvidos em guerras ininterruptas.
Porquê?
Encaravam a guerra como ato de sobrevivência. Para eles, o conflito
mortal com outras tribos era um dever moral com fundamentos sagrados.
Identificavam uma correlação funcional da guerra com a
religião, a magia, a moral, a educação, a política,
e cultura. A poligamia inseria-se na sua organização social.
Aos 30 anos, Florestan acumulara já uma erudição e um
saber de uma diversidade impressionantes.
Na reflexão sobre a escravatura, a guerra e o parentesco na sociedade
tupinambá ? apenas três exemplos dedica
páginas ao desenvolvimento dos temas, extrapola-os e cita
Aristóteles, Marx, Montesquieu, Levy Strauss, Durkheim, Levy Bruhl,
entre outros autores, movido pela exigência de aprofundar essas
temáticas.
O mesmo ocorre no tocante à antropofagia, tema fulcral e recorrente.
O canibalismo dos tupinambás era ritual. A carne dos inimigos mortos
tinha um significado simbólico. O objetivo da guerra era fazer
prisioneiros para os sacrificar e lhes devorar os corpos para vingar parentes e
antepassados mortos pelo inimigo na interminável cadeia de conflitos
tribais.
A necessidade da vingança nascia para os guerreiros de
obrigações dos vivos para com os mortos que desembocavam na
guerra como ponte entre os vivos e o mundo dos mortos.
Para ser tão claro quanto possível, descreve com pormenores
macabros o cerimonial do sacrifício das vítimas, prólogo
do banquete coletivo.
A tese de doutoramento, de enorme ambição científica, tem
mais de 400 páginas, incluindo o apêndice, as notas e a
bibliografia.
O leitor apercebe-se gradualmente da enorme complexidade das
relações humanas numa sociedade primitiva quase sem
administração nem chefes na guerra como na
organização da vida.
Ao contrário do que seria de esperar, os prisioneiros, cujo destino era
serem abatidos e devorados, raramente eram mortos logo apos o regresso da
guerra.
As futuras vítimas podiam permanecer meses, até anos, como
escravos dos senhores que os tinham aprisionado em combate.
Os escravos eram bem alimentados, recebidos quase como membros da
família até ao dia da sua execução. O senhor
oferecia-lhe com frequência filhas como companheiras. Não tentavam
fugir. Encaravam a morte com alegria, como uma honraria, felizes por serem
sacrificados pelos inimigos.
Os tupinambás acreditavam na imortalidade da alma. Segundo a sua
complexa cosmogonia, a alma, separada do corpo, voava apos a morte para as
montanhas, rumo ao convívio com o espirito dos antepassados, tendo
acesso ao paraíso para uma felicidade eterna. Mas para que isso
acontecesse era indispensável matar e devorar o máximo de
inimigos.
O poder mágico religioso era exercido pelos pagés (feiticeiros),
intermediários entre os guerreiros e os espíritos dos ancestrais,
e pelos anciãos, que conheciam as genealogias das famílias e
gozavam de grande respeito.
Florestan Fernandes, insisto, escreveu um livro importantíssimo para a
ciência, obra que o revelou como um sociólogo diferente, inovador.
Na Escola do Movimento dos Sem Terra, em São Paulo, que tem o seu nome
é recordado por sucessivas gerações como o último
dos grandes humanistas do seculo XX e um maravilhoso revolucionário.
20/Fevereiro/2016/Vila Nova de Gaia
[1]
Florestan Fernandes era marxista, um comunista sem partido apos breve passagem
pelo trotsquismo. Mas neste trabalho optou pelo método funcionalista,
sobretudo porque essa metodologia facilita a explicação
descritiva da "guerra primitiva".
O original encontra-se em
http://www.odiario.info/?p=3925
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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