Tomar consciência da gravidade da crise que a humanidade enfrenta
é o primeiro dever dos intelectuais que se reúnem em Encontros
Internacionais como este para reflectir sobre o seu futuro.
Admito que somente uma pequena minoria tomou já consciência de que
a ameaça de uma tragédia talvez sem precedente passou a ser uma
realidade.
Jacques Blamont, um cientista membro da Academia Francesa, afirma no seu
último livro, "Introdução ao século das
ameaças", que corremos o risco de uma tragédia que dentro
de algumas décadas reduzirá a humanidade a um terço,
dizimada por catástrofes resultantes do simples esgotamento dos recursos
naturais não renováveis. "O mundo foi avisado de que tem de
morrer, mas não acredita", adverte.
Blamont, intelectual conservador, não exagera. A menos que a humanidade
consiga deter a corrida para o abismo, catástrofes piores do que a da
peste negra no século XIV, podem levá-la à beira da
extinção.
O que nos empurra para o fim? A estratégia de barbárie de um
capitalismo exterminista liderado pelo monstruoso sistema de poder que tem o
seu pólo num pais que insiste em apresentar-se como modelo
civilizatório. (...)
O DESAFIO VENEZUELANO
Companheiros
Creio que os participantes neste Encontro vindos de dezenas de países
compartilham a convicção de que o povo da Venezuela bolivariana
aparece hoje à humanidade progressista como uma vanguarda que encarna o
próprio espírito do evento que aqui nos reúne "En
Defensa de la Humanidad".
É uma convicção justa.
A Venezuela emerge hoje, num planeta trágico e caótico, como um
laboratório social efervescente no qual se desenvolve uma luta de
classes como o mundo não conhecia, pela duração e
intensidade, desde as revoluções russas de 1917. Na
pátria de Bolívar foi retomado um desafio dificílimo:
transformar radicalmente a sociedade e libertá-la da
dominação imperialista, optando pela via dita pacifica, isto
é, utilizando exclusivamente para o efeito as instituições
criadas pela burguesia para servir os seus objectivos, incompatíveis com
os do poder revolucionário.
Os êxitos obtidos por Chavez não devem levar a uma
subestimação das dificuldades que se multiplicam e renascem,
inseparáveis da própria dialéctica da vitória.
A batalha da primeira reforma das velhas instituições foi ganha
com a promulgação de uma nova Constituição. Mas as
grandes maiorias iniciais semearam no próprio governo ilusões
românticas. O andamento da história confirmou ser muito mais
fácil reformar uma constituição anacrónica do que
reformar em profundidade homens e mulheres que, na aparência, haviam
embarcado para sempre na grande nave da revolução. Muitos
não aguentaram as primeiras tempestades. Alguns ficaram pelo caminho;
outros mudaram de barco.
A vitória, por ampla margem, de Hugo Chavez no referendo
revogatório, após uma campanha em que a oposição,
estimulada e financiada pelo imperialismo, desceu pelos métodos e pela
palavra a níveis de perversidade quase desconhecidos na Europa, foi um
acontecimento de significado não apenas continental, mas mundial. O
povo venezuelano, assumindo o papel de sujeito da história, voltou a
derrotar as forças unidas da oligarquia e do imperialismo. Sem a sua
participação maciça não teria sido possível
o triunfo alcançado no confronto com a engrenagem golpista que pretendia
tal como no golpe de 11 de Abril de 2002 e no
lock-out
petrolífero derrubar o presidente Hugo Chavez e destruir a
Revolução Bolivariana.
Companheiros
Acredito que dos benefícios deste Encontro Internacional o mais
importante será o aprofundamento da solidariedade dos povos com a
Revolução Bolivariana. Estou certo de que cada uma das
delegações aqui presentes tudo fará para dinamizar essa
solidariedade nos respectivos países. Mas para que esse esforço
atinja plenamente os objectivos será indispensável em primeiro
lugar tomar iniciativas que contribuam para ampliar o conhecimento do processo
venezuelano.
Sejamos realistas. O interesse que a revolução bolivariana
desperta no mundo não é acompanhado de um conhecimento pelas
grandes maiorias da história do país, do quadro político
social existente quando Chavez conquistou a Presidência e dos factos e
situações ligados à cadeia de conspirações
posterior. A própria expressão de Revolução
Bolivariana gera ainda perplexidade, sendo fonte de confusões. Na
Europa, nos EUA, na Ásia e na África, Bolívar
apesar de ser um gigante na história continua a ser quase um
desconhecido.
Creio que algumas iniciativas comuns, consensuais entre nós e de
concretização relativamente fácil, poderiam ser
imediatamente empreendidas em escala mundial precisamente com o objectivo de
divulgar o desafio venezuelano.
Refiro-me a livros e filmes já disponíveis e que, ao serem
levados a públicos de muitas nacionalidades, funcionariam como imagem da
revolução bolivariana e instrumento eficaz para a sua defesa.
Citarei para o efeito o que estamos a fazer em Portugal.
O Festival da Culturgest em Lisboa o mais importante festival do
Documentário do pais foi inaugurado com o filme
The revolution will not be televised,
de Kim Bartley e Donacha O' Brien. Mais de 700 pessoas aplaudiram de
pé esse magnífico trabalho que ilumina com clareza o processo
revolucionário, o golpe de Abril e a sua derrota pelo povo e pela
vanguarda revolucionaria das Forças Armadas.
Estamos preparando a exibição desse filme em cidades do interior
de Portugal governadas por alcaides progressistas.
No campo editorial serão em breve lançadas as
traduções portuguesas de um livro de Marta Harnecker sobre a
Venezuela e de
La campaña admirable,
do historiador colombiano Juvenal Torres. Nessa obra, editada em espanhol
pelo Ministério da Educação da Venezuela, o autor
traça um magnífico perfil do jovem Bolívar, quando
arrancando do baixo Magdalena com 70 homens, o futuro vencedor de Carabobo
inicia uma campanha que termina com a derrota do exército de Monteverde
(16 000 soldados) e a segunda libertação de Caracas em 1813.
Neste livro, desconhecido na Europa, cada uma das sucessivas
proclamações e mensagens de Bolívar anuncia já o
estadista, o pensador e o revolucionário para o qual o exército
deve ser o povo em armas.
Outro livro cuja edição esta a ser preparada em Portugal é
Dialéctica de una Victoria,
de Rodolfo Sanz, uma obra simultaneamente de informação e
reflexão, que representa a meu ver uma contribuição
utilíssima para a compreensão da revolução
bolivariana .
Iniciativas como as citadas somente poderão, entretanto, atingir
plenamente os seus objectivos se, em cada país onde existam
condições para tal, personalidades e forças
políticas e sociais solidárias com o processo bolivariano criarem
movimentos de solidariedade com o grande desafio revolucionário que tem
a Venezuela por cenário.
Hugo Chavez afirma que a Revolução Bolivariana não
é, contrariamente ao que aconteceu com a chilena, uma
revolução desarmada. Essa evidencia não deve levar a
esquecer que mais de uma centena de oficiais superiores das Forças
Armadas estiveram envolvidos no golpe de Abril.
O muito que se fez na Venezuela é, entretanto, insuficiente para que a
revolução possa atingir as suas metas. Rodolfo Sanz lembra no
seu livro que uma segunda assembleia constituinte será necessária
para «transformar a estrutura do estado, para derrubar o que continua em
pé do antigo aparelho da Quarta Republica». O governo não
controla a totalidade do Estado, onde, na Educação, na
Saúde, no Poder Judicial, estruturas contra-revolucionarias conservam
importantes posições.
É muito positivo que a esmagadora maioria do Exército esteja
hoje identificada com o projecto revolucionário, situação
inédita na América do Sul.
A vitória no referendo foi uma grande derrota do imperialismo. A
oposição perdeu a iniciativa e encontra-se no momento
desorganizada, dividida e sem perspectivas. Seria, porem, um erro admitir que
o imperialismo vai acompanhar passivamente o avanço da
revolução bolivariana.
O futuro está na Venezuela carregado de interrogações
ainda sem resposta. A solidariedade internacional pode contribuir
decisivamente para que essas respostas sejam positivas, correspondendo
às aspirações da grande maioria do povo de Bolívar.
O agravamento da crise estrutural do capitalismo favorece a
intensificação das lutas de significado anti-imperialista.
Quanto mais os EUA se atolarem no Iraque maiores serão as dificuldades
dos governos da União Europeia em camuflarem as suas divergências
sobre a estratégia neo-fascista de Washington para o Médio
Oriente e a Ásia Central. A Espanha já se retirou da fogueira
iraquiana, Blair enfrenta critica crescentes, e na Itália o povo condena
com veemência a política de vassalagem de Berlusconi. Quanto
à França e à Alemanha, a aparente melhora no
diálogo com a Administração Bush não oculta as
divergências de fundo inseparáveis da sua oposição
à presença norte-americana no Iraque.
A ofensiva para a retomada de Faluja não produziu os resultados
esperados em Washington. A operação militar configurou um
genocídio, as perdas dos
marines
foram elevadas e o efeito propaganda não funcionou porque coincidiu com
o levantamento armado de Mossul. Enquanto reocupavam uma cidade, os EUA
perdiam o controle de outra muito mais importante. Neste momento, a poucas
semanas da data marcada para as eleições, parece transparente que
elas serão uma farsa.
A guerra do Iraque repito é uma guerra perdida e os EUA
não sabem como sair dela.
Como era inevitável, a derrota da estratégia estadunidense no
Médio Oriente torna o sistema mais vulnerável no conjunto do
planeta.
Na América Latina a luta contra a ALCA permanece como objectivo
fundamental. Bush reafirmou em Cartagena o seu apoio ao Plano Colômbia,
que configura uma intervenção imperial indirecta num país
chave do hemisfério, e repetiu que pretende implementar a ALCA no
próximo ano. Mas a resistência ao projecto aumenta. A
oposição da Venezuela bolivariana aponta um caminho e fortalece a
luta dos povos, da Patagónia ao Istmo, contra um "Acordo"
imperial que recolonizaria a América Latina.
O oportunismo, os recuos e mesmo a capitulação de dirigentes
populistas que suscitaram grandes esperanças não justificam
atitudes pessimistas. Do Rio Bravo à Terra do Fogo os povos da
América Latina, com poucas excepções, demonstram uma maior
disponibilidade para a luta. Aí temos, a confirmar a tendência, a
vitória da Frente Ampla no Uruguai. (...)
O QUE FAZER?
Tornou-se já evidente que dos Fóruns Sociais Mundiais e
continentais não pode sair qualquer alternativa global ao neoliberalismo
porque no mundo actual é impossível apresentar uma alternativa de
contornos bem definidos, de valor universal, ao sistema que ameaça
destruir o planeta.
A dualidade antagónica socialismo ou barbárie, tal como a
apresentam cientistas sociais como Meszaros e Samir Amin, expressa bem a
situação existente.
Ou o capitalismo, nesta fase senil, destrói a civilização,
empurrando a humanidade para a barbárie (ou a extinção),
ou o capitalismo é eliminado.
Seria, contudo, entrar no terreno da especulação esboçar
sequer os contornos do socialismo (ou dos socialismos) que sucederão ao
capitalismo.
Sendo a actual crise do capitalismo estrutural, o sistema não tem
reforma possível, pelo que a luta na época revolucionaria que se
aproxima, é incompatível com projectos que perpetuam as ideias,
as palavras e os remédios da contra-revolução.
A tarefa é ciclópica porque hoje não existem forças
sociais organizadas aptas como lembra Georges Gastaud a
"preencher o fosso entre a necessidade objectiva da
revolução e a fraqueza subjectiva do compromisso
revolucionário e militante".
Sob o bombardeamento de uma engrenagem mediática perversa que faz da
desinformação quase uma ciência temos de aprender a
combater as técnicas utilizadas pela contra-revolução para
reescrever a história, deturpando-a.
Quando o ex-secretário geral do Partido Comunista Francês
não hesitou em afirmar que o balanço global do socialismo foi
negativo, fomos confrontados com os efeitos devastadores da propaganda do
inimigo.
O inventário dos enormes erros cometidos pelo socialismo real e a
crítica da burocratização do estado e do partido
soviéticos não devem impedir-nos de rejeitar a
satanização da URSS e de denunciá-la como um objectivo
daqueles que tentam desesperadamente salvar o capitalismo.
A restauração do capitalismo na URSS em 1991 foi o desfecho de um
longo processo que resultou da acção complementar das
forças internas desagregadoras e da ofensiva externa do imperialismo.
Se Gorbatchev e a sua equipa conseguiram, apesar de um desprestígio
crescente, manter-se no poder até à liquidação do
regime e à implosão da URSS foi porque beneficiaram da revolta
muito ampla da população contra as deformações de
um projecto no qual já era irreconhecível o concebido por Lenine.
É útil recordar que a nova burguesia russa é a herdeira
directa da burocracia que no período da estagnação
brejneviana dirigiu o Estado soviético.
O Che afirmou que o socialismo económico sem a moral comunista era
inaceitável.
O socialismo não pode ser construído com os instrumentos do
capitalismo. A historia demonstrou com o malogro da transição do
capitalismo para o novo regime que a economia desenvolvida de cima para baixo,
em processo administrativo, sem participação do povo, não
pode conduzir a uma sociedade socialista.
Num livro em que reúne uma série de lúcidos ensaios
Georges Gastaud insiste na necessidade, em nome do realismo
revolucionário, de "deixar de conceber a passagem do socialismo ao
comunismo como um automatismo económico resultante do amadurecimento
quase vegetal do socialismo, do socialismo desenvolvido".
[2]
"Enquanto em vida de Lenine escreve o marxismo servia para
orientar a luta, ele principiou a funcionar como uma ideologia de maneira
idealista e apologética na URSS da estagnação. O marxismo
não era mais o teórico militante que iluminava os caminhos do
futuro através de uma pesquisa polémica em ruptura com todos os
tabus, mas o académico conformado que encontra numa lista de piedosas
citações a justificação da excelência da
ordem estabelecida (...) Enfim, a degenerescência burocrática
associada à estagnação exprime-se sob a forma de bloqueio
das contradições de um socialismo que deixa de olhar para a sua
finalidade objectiva, o comunismo, isto é uma sociedade sem classes e
sem estado. O papel dirigente da classe operária tende a tornar-se
então puramente formal e as relações sociais em atraso
prolongado relativamente às forças produtivas acabam por
paralisar o seu desenvolvimento".
A tarefa de uma revolução consiste em superar o modo de
produção anterior. As condições
desfavoráveis da Revolução Russa, com a necessidade de
defender o socialismo num só país criaram uma
situação imprevista. O socialismo foi forçado durante
sete décadas a funcionar como um socialismo que procurava
alcançar os níveis do capitalismo, utilizando muitos dos seus
mecanismos económicos. A transição não pôde
seguir o seu rumo natural.
Seria, contudo, entrar no terreno da especulação esboçar
sequer os contornos do sistema que sucederá ao capitalismo. O seu
perfil não pode ser traçado hoje. O mais provável
será o aparecimento e a convivência de sociedades socialistas
muito diferenciadas. Estamos longíssimo do estado universal.
A controvérsia assume actualidade porque intelectuais de esquerda,
alguns respeitados, afirmam que a elaboração de uma alternativa
teórica ao neoliberalismo se coloca como tarefa prioritária,
devendo preceder a da organização da luta frontal contra o
imperialismo.
Repito o afirmado anteriormente. A reflexão da problemática da
transição para o socialismo é uma tarefa
incontornável. Mas sair do campo dos erros cometidos (tarefa
imprescindível para a compreensão do mundo unipolar e para a
renovação criadora do marxismo tal como a concebiam Marx, Engels
e o próprio Lenine) passando daí à
formulação de projectos que subalternizam a luta contra o
imperialismo, concedendo prioridade ao debate teórico sobre a
construção da sociedade futura, seria cair na utopia, levar
água ao moinho do inimigo.
Não são somente diletantes das ciências sociais que
insistem em desenhar já os contornos da democracia participativa como
meta próxima. Há intelectuais sérios que sentem a mesma
tentação. Esquecem que são raríssimas as
sociedades onde ao povo se abre a possibilidade de participar como sujeito na
construção do seu próprio futuro. Na América do
Sul a Venezuela é, por ora, a única. Na Europa isso não
acontece em nenhum país. A convicção de que a
transição se pode realizar em qualquer sociedade, a partir do
interior do sistema, na vigência do capitalismo, desconhecendo na
prática a natureza do estado, do Poder, é ingénua. Sem
que os seus defensores disso tomem consciência, eles estão a tomar
noutro contexto histórico com linguagem diferente velhas teses
reformistas de Edward Bernstein. O que propõem não é uma
nova lógica socialista e revolucionária, mas a
humanização do capitalismo. O que é uma impossibilidade
absoluta, por incompatível com a própria essência do
sistema. O movimento, contrariamente ao que afirmava Bernstein não
é tudo, mas quase nada, como sustentou Rosa Luxemburgo ao desmontar-lhe
as teses revisionistas e oportunistas. A meta das grandes lutas do nosso tempo
não é o enfraquecimento gradual do capitalismo, mas sim o seu
desaparecimento.
No seu livro
O Poder da ideologia,
Meszaros recorda que cito "Nenhum acontecimento ou
desenvolvimento novo pode afectar de modo significativo a perspectiva
estratégica da social-democracia ocidental orientada para a
justificativa apologética da sua escolha original o caminho da
reforma estritamente gradual
e a rejeição categórica da possibilidade de mudança
revolucionária
e para a confirmação
apriorística
da perfeição estratégica adoptada. A última coisa
que esta perspectiva necessita, ou poderia trazer à tona sem se
destruir, seriam princípios teóricos realmente novos e objectivos
reorientados (...) Na realidade, as mudanças adequadas para assegurar,
ainda que lentamente, a prometida transição para uma sociedade
muito diferente socialista) mas meramente
conciliatórias.
A sua premissa, mais ou menos admitida tacitamente, é a
necessária exclusão,
de toda a
mudança estrutural
radical, por qualquer meio (repressivo ou não) que 'a ordem
constitucional' estabelecida tenha à sua disposição".
[3]
Esta reflexão de Mészaros ajuda a compreender a atitude agressiva
de todos os governos dos EUA perante qualquer processo revolucionário
que no último meio século tenha fixado como objectivo a
introdução de
mudanças estruturais radicais.
O projecto transformador da Unidade Popular no Chile era inaceitável por
ameaçar o capitalismo. A Revolução Portuguesa de Abril
também foi encarada como ameaça ao sistema. O imperialismo
estadunidense e a social-democracia europeia uniram então
esforços para a travar. Nesse caso não foi necessário
recorrer ao golpe para impedir o seu avanço porque o Partido Socialista
de Mário Soares desempenhou o papel que lhe atribuíram,
contribuindo decisivamente para a ruptura da unidade entre a vanguarda militar
do Movimento das Forças Armadas e o movimento popular, o que mudou a
relação de forças em benefício da direita.
Hoje, Washington não esconde a sua satisfação perante o
rumo adoptado no Brasil pelo governo Lula, e não demonstra também
inquietação pela política de Kirchner na Argentina. Em
ambos os casos, a "ordem social" preexistente não é
posta em causa pelas políticas de dirigentes que se desviaram dos
compromissos assumidos.
O grande medo provocado pela Venezuela resulta precisamente do facto de a
Revolução Bolivariana muito embora Hugo Chavez tenha
evitado sempre fixar o socialismo como meta ser identificada pela
Administração Bush como uma ameaça directa ao sistema
capitalista. O projecto está orientado para
uma mudança estrutural radical.
Não alimentemos ilusões, companheiros. O desafio venezuelano
é considerado intolerável pela potência hegemónica.
Novas conspirações e manobras golpistas serão estimuladas
pelo imperialismo.
É significativo igualmente que semanas antes das eleições
no Uruguai, destacadas personalidades estadunidenses tenham advertido, como
forma de pressão, que a vitoria de Tabaré Vasquez seria recebida
como potencial ameaça à ordem social vigente na Republica
Oriental.
Em contraposição o que ocorre na União Europeia é
tranquilizador para o sistema.
Volto a citar Mészaros:
"O quadro da orientação estratégica da
social-democracia ocidental apresenta um fatídico nó cego
ideológico. As insuperáveis limitações da
política parlamentarista como tal para obter o domínio das
forças controladoras do metabolismo social capitalista jamais
serão sequer consideradas e muito menos contestadas seriamente a partir
das mudanças em curso e das novas possibilidades emergentes, e em
resposta a elas. Ao contrário, em consequência da sua
carcaça institucional paralisadora, a teoria social-democrata é
transformada num
exercício manipulador de relações publicas
com o objectivo de ser eleito ou de permanecer no cargo. Deste modo a classe
trabalhadora, como agente social da alternativa socialista, torna-se
supérflua e, na verdade, por causa das suas aspirações
radicais, totalmente embaraçosa para o partido parlamentarista. Por
esta razão deve ser ideologicamente diluída até se tornar
irreconhecível" (...)
Mészaros chama a atenção para uma evidência
esquecida: durante décadas de permanência no poder os partidos
social-democratas escandinavos, tal como os da França, da Alemanha e da
Grã-Bretanha não conseguiram (nem pretenderam) realizar
mudanças estruturais da ordem económica capitalista.
Comportaram-se como administradores dóceis do sistema.
UMA NOVA DINÂMICA DE SOLIDARIEDADE
A tarefa principal das organizações e partidos
revolucionários que lutam contra o capitalismo globalizado deveria
consistir hoje em trabalhar pelo fortalecimento e ampliação das
forças que rejeitam o imperialismo, hegemonizado pelo sistema de poder
neo-nazi dos EUA.
As condições objectivas são favoráveis no momento
em que o povo do Iraque, numa resistência que assume as
proporções de levantamento nacional contra os invasores, surge
como herói colectivo, batendo-se pela humanidade inteira.
São, entretanto, enormes o que leva as maiorias ao desalento
as dificuldades a superar para que os povos tomem consciência de
que a defesa do planeta se tornou uma questão de sobrevivência e
depende como nunca da sua solidariedade com as vitimas das agressões
imperiais.
Aos efeitos de uma manipulação mediática permanente,
concebida cientificamente, somam-se as consequências paralisantes da
acção do reformismo social-democrata.
A solidariedade internacional somente pode funcionar com eficácia no
âmbito de uma nova concepção estratégica da luta,
orientada para uma articulação de acções ambiciosas
da classe trabalhadora, favorecidas pelo agravamento da crise estrutural do
capitalismo.
Se admitirmos que para o imperialismo estadunidense a frente prioritária
se localiza actualmente na Ásia, área onde o malogro da sua
estratégia mais contribui para aprofundar a crise global do sistema,
impõe-se uma conclusão: dinamizar a luta contra a guerra passou a
ser a tarefa primeira das forças progressistas em todo o mundo.
Trata-se de uma luta em que podem participar dezenas de milhões de
pessoas com mundividências muito diferentes luta que deve ser
articulada com acções concretas de âmbito nacional, na
Europa e na América Latina, sobretudo, que contribuam para inviabilizar
projectos do imperialismo e das burguesias dele dependentes.
A maré da contestação assumiu proporções
gigantescas em Fevereiro e Março de 2003, quando mais de 20
milhões de pessoas saíram às ruas em grandes cidades para
condenar a guerra. Entretanto, depois de ocupado o Iraque, o protesto caiu
bruscamente. As massas não perceberam então que a
ocupação de Bagdad ficaria a assinalar o começo de uma
longa guerra de libertação.
É indispensável que a maré do protesto volte a subir. E o
momento, neste final do ano 2004, é muito propício para isso. A
resistência do povo iraquiano, bem como a tenacidade da palestiniana e o
caos afegão desorientaram Washington. O sistema passou à
defensiva no plano político e sofre duros revezes no terreno militar.
Na Europa estremecem os alicerces de uma União Europeia cujos governos
não obstante as contradições de interesses existentes
actuam, no fundamental, como cúmplices do imperialismo.
Na América Latina emocionantes lutas se perfilam no horizonte.
Companheiros
A alternativa Socialismo ou Barbárie é, por si só,
definidora de uma época simultaneamente trágica e fascinante. Se
conseguirmos deter a marcha para a catástrofe, o homem poderá
finalmente caminhar pelas grandes alamedas de acesso a um mundo que responda
às aspirações ao bem-estar que as conquistas da
ciência e da técnica colocam ao seu alcance. Mas o desfecho
é, por ora, uma incógnita. Dependerá muito das actuais
gerações que enfrentam um desafio gigantesco: derrotar um
sistema de dominação monstruoso que encarna a ameaça
à própria vida: um VI Reich em formação.
Nessa batalha planetária a participação de
organizações e partidos revolucionários de novo tipo
desempenhará um papel decisivo para a mobilização dos
povos. Mas onde estão eles? pergunta-se com fundamento. Admito
que muitos vão definir-se e crescer no próprio processo de luta.
Ao reunirmo-nos na Venezuela para Defender a Humanidade não podemos
esquecer que o povo deste país se tornou protagonista de uma epopeia ao
passar da fase do espontaneísmo à da luta organizada em defesa
da sua revolução.
O consenso em volta de um projecto de sociedade futura congregando povos e
forças políticas distanciados por ideologias e culturas muito
diferentes, quando não antagónicas, é neste limiar do
século XXI não me canso de repetir essa evidencia
uma impossibilidade. Insistir nessa utopia é esbanjar energias e tempo.
Mas mobilizar os povos para acções de luta de cidadãos com
ideologias e culturas diferenciadas isso é possível, como
já ficou demonstrado no ensaio geral de Fevereiro de 2003 contra a
guerra de agressão ao Iraque. Levar muito mais longe essas
acções, multiplicá-las, ampliar-lhes os objectivos no
decurso da luta e inclui-las numa plataforma comum cada vez mais ambiciosa
eis o desafio maior que enfrentam hoje revolucionários de todas
as nacionalidades.
A história da humanidade está indissoluvelmente ligada a desafios
que, na aparência, se apresentavam como insuperáveis. A
Revolução Francesa de 1789 irrompeu como um desses desafios. O
mesmo aconteceu com a Revolução Russa de Outubro de 17. E ambas
venceram.
Ninguém acreditava que nos anos 60 o Vietnam obrigaria os EUA a dobrarem
os joelhos e retirarem-se, derrotados. E isso ocorreu.
No ano passado a ideia de um levantamento armado de proporções
nacionais no Iraque era comentada como sonho. Hoje a resistência
iraquiana está a desmoralizar o aparelho militar mais poderoso do mundo.
Sou optimista. A vitória contra as forças que ameaçam a
humanidade está ao nosso alcance. Nesta Venezuela bolivariana onde a
esperança nasce da luta do seu povo, a atmosfera que nos envolve
fortalece a confiança no amanhã. A luta contra o sistema de
opressão mundial não visa somente a mudar a vida. Hoje, como nos
lembra George Gastaud, é para salvar a vida que se torna
indispensável abolir a exploração do homem.
_______
NOTAS
1- John Holloway,
Cambiar el Mundo sin tomar el Poder.
Ed. da revista argentina
Herramienta,
Buenos Aires, e da Universidade Autonoma de Puebla, Mexico, 2001.
2- George Gastaud,
Mondialisation Capitaliste et Projet Communiste,
Ed. Le Temps des Cerises, Paris, 1997
3- István Mészaros,
The Power of Ideology,
Harvester Wheatshea, Londres, 1989. Editado no Brasil por Ed. Boitempo, São
Paulo, 2004
Serpa, 16 de Novembro de 2004
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