O artigo derradeiro de Miguel Urbano Rodrigues (02/08/1925 -
27/05/2017)
Orhan Pamuk e as duas Turquias
por Miguel Urbano Rodrigues
O primeiro livro de Orhan Pamuk, escrito aos 30 anos, é simultaneamente
uma etapa na aprendizagem do ofício de escrever, uma ambiciosa
reflexão sobre o povo turco, objecto e sujeito de mudanças
revolucionárias, e uma meditação sobre a aventura humana.
Anuncia o grande escritor que veio a ser, o mais universal dos escritores
turcos.
Das dezenas de países que conheci há muitos onde não
gostaria de viver.
Na Turquia, apesar da barreira da língua, se ali fixasse
residência a adaptação seria fácil. Senti isso em
três breves visitas a Istambul, a ultima recente, transcorridos mais de
sessenta anos da primeira.
O país, a antiga capital e o seu povo, a fusão inacabada entre
Ocidente-Oriente exercem sobre mim um estranho fascínio.
Confirmei isso ao ler
Cevdet Bei e os seus filhos,
de Orhan Pamuk.
[1]
O mais universal dos seus escritores, Prémio Nobel de literatura, tem
contribuído para revelar ao mundo uma Turquia desconhecida e inimaginada.
Fui envolvido por um mar de surpresas durante os dias em que mergulhei neste
livro, o seu primeiro romance, escrito aos 30 anos.
O talento de Pamuk já era transparente nesta obra que é
simultaneamente uma etapa na aprendizagem do ofício de escrever, uma
ambiciosa reflexão sobre o povo turco, objeto e sujeito de
mudanças revolucionárias, e uma meditação sobre a
aventura humana.
O título encaminha os leitores para o tema.
Pamuk utiliza a estória de uma família ao longo de três
gerações - aquilo a que os franceses chamam un roman fleuve -
para esboçar um painel da complexidade da Turquia no seculo XX, um pais
milenário em metamorfose ininterrupta, complexa e de rumo
imprevisível.
O patriarca da família, Cevdet Bei é um comerciante de origem
modesta, inteligente, que construiu uma fortuna. Pelo casamento com a filha de
um paxá, em 1905, mudou de classe social. É um tradicionalista,
bom muçulmano, respeitador do Ramadan e das festas religiosas, mas que
não observa as cinco orações diárias prescritas
pelo Alcorão. Adaptou-se às grandes mudanças sociais en
curso, sem refletir muito sobre elas e sem as entender.
O irmão, Nusret, é um médico militar, tuberculoso em fase
terminal. Viveu muitos anos em França e anseia pela
europeização da Turquia. Assume-se como revolucionário.
Odeia o Califado e as tradições islâmicas, mas para ele o
modelo republicano passará pela violência, pela guilhotina, pela
fidelidade aos ideais sintetizados na Marseillaise. Despreza o irmão, um
comerciante ignorante que somente pensa em dinheiro.
Cevdet tem três filhos, Osman, Refik e Ayse, que vivem com os pais na
grande mansão que construiu num bairro da grande burguesia.
Refik, o mais inteligente, é engenheiro, mas trabalha com Osman na
empresa paterna; quando Cedvet morre no início dos anos 30 entra numa
crise existencial profunda. Detesta o comércio, as
tradições, a rotina do clã familiar. É rico,
agnóstico, casado com uma jovem belíssima, Perihan, mas
não existe diálogo entre ele e a mulher.
Devora autores famosos, tem paixão por Rousseau e Voltaire. Leu Balzac,
Dostoievsky, Tolstoi, a poesia persa clássica, Cervantes, Anatole
France. Mas essa desordenada absorção de conhecimento não
lhe trás as respostas que persegue. Aumenta a sua
perturbação.
Em busca de um sentido para a vida, viaja para uma região remota da
Anatólia onde um amigo e companheiro de faculdade, Omer, participa na
construção de uma nova linha de caminho-de-ferro.
Então lê Holderlin, medita muito sobre a Turquia, escreve um
diário e textos que mais tarde reúne em livro. Racionalista, mas
ingénuo, adquire a convicção de que a
modernização da Turquia somente será possível
através de uma reforma agrária drástica que,
através do desenvolvimento rural, faça do campesinato o
instrumento da mudança.
Em Ankara, ao procurar apoio para a sua tese, encontra-se com um reformador que
admira, mas este desilude-o e ridiculariza a sua tese. Alto funcionário,
ex-marxista, diz-lhe que as reformas revolucionárias viáveis
são as de Ataturk para quem o único motor da
transformação da vida na Turquia é o Estado, apoiado pelo
exército, mesmo mediante o recurso à violência.
Regressa à empresa, sempre inquieto, angustiado. Afasta-se, funda uma
editora, que vai à falência. O casamento dois filhos
acaba em divórcio; a mulher não o suporta mais.
Osman, o primogénito, herdou do pai a vocação do
comércio. Dirige a empresa. Casa. É feliz à sua maneira.
Mas para fugir à monotonia tem uma amante. A mulher, Nermin, uma senhora
convencional, também encontra um amante. Mas ambos escondem o
adultério.
A terceira filha de Cevdet, Ayse, tenta na adolescência enfrentar as
tradições mas, enviada para a Suíça, desiste e
integra-se no espirito clanico da família.
Dois engenheiros, Muhittin e Omer, ambos ex-colegas de Refik e seus amigos
íntimos, merecem atenção especial de Pamuk como
personagens representativas da nascente burguesia da Turquia em
transição acelerada.
Muhittin é um jovem poeta medíocre, frustrado, que aspira
à fama e à glória. Inseguro, agressivo, adere ao
ultranacionalismo turco na esperança de encontrar na política o
que a literatura lhe negou. Acaba deputado, integrado no sistema.
Omer não esconde desde a juventude uma ambição ilimitada.
O seu herói é Rastignac, o aventureiro de Balzac. Exibe-se como
um Conquistador predestinado a um grande futuro. Tem fome de poder e riqueza.
Mas os anos passam e não consegue abrir as portas do amanhã
sonhado. Decide viajar para o leste do país como engenheiro. Rompe o
noivado com a filha de um parlamentar influente. Acumula uma fortuna. Mas acaba
por perceber que o futuro radioso era miragem. Casa com uma mulher banal e
envelhece como latifundiário.
AHMET E A NOVA TURQUIA
A narrativa é retomada décadas depois em 1970.
Istambul mudou muito. A mansão da família de Cevdet Bei foi
demolida e no bairro surgiram grandes prédios de apartamentos.
Num desses belos edifícios vivem em andares diferentes Nigan Hanim, a
viúva do patriarca do clã, e Osman e Nermin. Nas águas
furtadas instalou-se Ahmet, o filho de Refik.
É pintor e o único descendente de Cevdet que vive na fronteira da
pobreza. Estudou arte em Paris e do pai herdou a inquietação
permanente, a dúvida sobre as suas capacidades,
interrogações sem resposta sobre a vida.
Mas é filho de uma Turquia transformada por Ataturk. Mantem
relações de intimidade com a família, mas difere
profundamente da avó, dos tios, da irmã, dos primos.
A sua interlocutora, a pessoa com quem pode abrir-se, que caminha no seu mundo,
é llknur, a namorada.
O romance finda com a morte de Nigan.
Ahmet, à janela do seu estúdio, contempla Istambul adormecida,
escuta os ruídos da noite.
" ;Olhou para o céu - assim termina o livro - que estava sereno e sem
nuvens. Voltou para dentro e começou a trabalhar" ;.
TECNICA E ESTILO
Cevdet Bei e seus filhos
repito foi o primeiro romance de Orhan Pamuk.
A crítica viu nele um livro experimental.
São alias transparentes as insuficiências formais, o excesso de
repetições nos diálogos, alguma monotonia na narrativa.
Mas assalta-me uma dúvida: não seria porventura intencional
aquilo que é repetitivo, para caracterizar bem a primeira
geração nascida na república, mas marcada pela
herança otomana?
A inovação está na importância do que se não
diz. Pensei em
Miss Daloway,
de Virginia Woolf, no " ;fluxo do pensamento" ;.
Enquanto falam, as pessoas não revelam muitas vezes o que pensam. E no
livro o fluir das ideias, das sensações, aparece entre aspas. A
interioridade é mais importante, mais esclarecedora do que o discurso
que esconde o mundo oculto da pessoa.
Cevdet Bei e seus filhos é um livro difícil, uma obra aberta,
suscitável de múltiplas interpretações,
anunciatória de um grande escritor.
Vila Nova de Gaia, 18 de Março de 2017
[1]
Orhan Pamuk,
Cevdet Bei e os seus filhos
, Editorial Presença, 766 páginas, Lisboa, Março de 2017.
O original encontra-se em
www.odiario.info/orphan-pamuk-e-as-duas-turquias/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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