por Miguel Urbano Rodrigues
O mais recente livro do escritor cubano Leonardo Padura tem sido largamente
promovido, com numerosas edições em castelhano, português e
outras línguas. O jornal
Público
consagrou três
páginas ao livro e ao autor. O livro tem valor literário. Mas o
que obviamente justifica este entusiasmo é que o autor abomina
é a palavra - o socialismo e o comunismo. Embora não o afirme
explicitamente nos seus livros, põe os seus personagens a falar por si.
Uma mensagem eletrónica de Alberto Dines empurrou-me para a leitura,
muito lenta, de
O homem que gostava de cães
[1]
, de Leonardo Padura.
Tinha lido algumas das suas novelas policiais. Admirava o escritor, mas o
cidadão não me inspirava simpatia.
Interrogava-me. Que livro seria aquele recebido com entusiasmo pela
crítica em França, em Portugal, em Espanha (10
edições), no Brasil?
O suplemento cultural do diário Publico, de Lisboa, dedicou há
dias três páginas ao escritor.
Depois percebi. Creio não ter lido nos últimos anos um romance
sobre o qual me é tão difícil transmitir aquilo que senti.
O livro tem na versão portuguesa mais de 600 páginas. A
dificuldade resulta de a opinião ter mudado à medida que
avançava na leitura. O romance é uma caixa de surpresas que
semeia perguntas sem resposta.
Na primeira parte o talento literário do autor impressionou-me muito.
Mas à medida que prosseguia, a admiração foi acompanhada
por um grande mal-estar.
Como explicar a contradição aparente?
Duas personagens prendem o leitor: Trotsky e o catalão que o assassinou
em 1940, Ramon Mercader, o "herói" do romance.
Padura recorre no seu livro a uma técnica nele inovadora. Um dos
narradores, Ivan Cárdenas, é um cubano, escritor frustrado que,
numa praia a leste de Havana, ouviu a estória do crime contada por um
amigo de Mercader, que na realidade é o próprio Mercader.
Padura, numa arquitetura ficcional complexa, inspirou-se na história
real e na estória escutada para construir um romance já traduzido
em muitas línguas.
As narrativas são paralelas, mas duas surgem interligadas: a vida
trágica de Trotsky desde a sua deportação em 1928 para o
Cazaquistão ao assassínio no México em 1940; e a lenta
metamorfose de Ramon Mercader, o catalão de origem aristocrática
que, de combatente na batalha de Madrid sem formação
ideológica evoluiu num processo traumático para o fanático
operacional da NKVD (precursora do KGB) que matou Trotsky com uma picareta.
Ivan, o narrador cubano, não esconde, ao refletir sobre a vida, o seu
distanciamento da Revolução. Não somente a desaprova, como
anseia pelo fim do socialismo, de um regime que considera responsável
pela pobreza, pelo atraso, pela corrupção que alastram pela Ilha.
Destila aversão pelo comunismo.
A meditação é de Ivan, mas para o leitor é
transparente que as suas ideias, criticas e aspirações são
de Padura.
O escritor, como a grande maioria dos jovens da sua geração,
apoiou a Revolução nos primeiros anos. Mas o funcionamento do
Partido, o sectarismo e o voluntarismo dos dirigentes cansaram-no,
desiludiram-no.
Conheci em Cuba intelectuais que percorreram a estrada que os conduziu da
adesão à desilusão.
Não condeno todos aqueles que renunciaram à militância
revolucionária. O homem é um ser em mudança permanente.
Mas as transformações ideológicas não são
uniformes; diferem muito.
O romance de Padura fez-me recordar Lisandro Otero, um grande escritor. De
revolucionário inflamado, disciplinado, que exerceu
funções diplomáticas na Europa e n a América
Latina, deslizou lentamente para um ceticismo que se tornou transparente em
artigos publicados no Monde Diplomatique.
Ao ler o seu romance El Arbol de la Vida procurei-o em sua casa para tentar
compreender aquilo que o levara da apologia à crítica.
A resposta, confusa, titubeante, não me esclareceu.
A mensagem do seu romance, pessimista, é transparente: sucessivas
gerações passaram em Cuba, desde a época colonial, da
rebelião ao conformismo, à rutura com a moral e a ética.
Porquê? Porque todas as revoluções, na sua opinião,
acabam por devorar aqueles que desafiam a ordem preexistente.
Mas, nos últimos anos da sua vida, Lisandro Otero, naturalizado
mexicano, inverteu surpreendentemente o rumo, retomou a defesa da
Revolução e foi-lhe atribuído o Premio Nacional de
Literatura.
Danton, ao contrário de Lisandro, não recuperou a
esperança depois de a perder. Tinha sepultado a ideia de
revolução. Surge na História como a antítese de
Robespierre.
O percurso de Trotsky é sinuoso, em certos trechos, quase
incompreensível, mas morreu acreditando na revolução
mundial como meta ao alcance do homem.
O ENIGMÁTICO PADURA
Padura (o governo de Rajoy atribuiu-lhe a nacionalidade espanhola) desconcerta
o leitor.
Destoa do perfil do anticomunista tradicional. Para convencer, utiliza um
processo que o distância dos historiadores anti-soviéticos como o
americano Robert Conquest, ou de escritores como o russo Soljenitsin que para
condenar o socialismo não hesita em atribuir à
Revolução Francesa de l789 a origem de todos os males que
culminaram, segundo ele, na Revolução bolchevique de Outubro de
17.
Padura esforçou-se por envolver o seu livro no manto de seriedade que
conferiu prestigio ao romance histórico, de Walter Scott e Victor Hugo a
Tolstoi.
Preparou-se durante muitos anos para escrever, de 2006 a 2009, a sua obra
definitiva.
Estudou marxismo. Conhece a Historia das Revoluções Russas, leu
muito sobre a geração de revolucionários profissionais que
acompanharam Lenin na grande arrancada de 17. Quase todos (Kamenev, Zinoviev,
Rikov, Smirnov, Preobrajensky, Piatakov, Radek, Rakovsky, entre outros) foram
acusados nos processos de 36, 37 e 38 de trair a Revolução e -
com a exceção de Radek fuzilados.
Padura reuniu uma Documentação volumosa. Consultou os Arquivos
Russos após a desagregação da URSS. Deixa transparecer
intimidade com a cidade de Moscovo.
Registei que algumas citações reproduzem os originais.
Esse rigor aparente na montagem do livro contribui para incutir
confiança ao leitor e persuadi-lo com habilidade de que este regresso a
Trotsky recria numa obra de ficção o revolucionário e o
homem.
Essa eventual conclusão desrespeita a História.
O Trotsky de Padura é uma personagem muito diferente do Trotsky real.
O escritor é fiel no relato ao itinerário do exilado, erigido por
Stalin em inimigo número um. Acompanha-o no exilio, na Turquia, em
França, na Noruega e, nos anos finais, em Coyoacan, no México.
Alberto Dines, ao manifestar-me o seu apreço pelo talento de Padura,
salienta o "extraordinário trabalho de pesquisa e
armação literária".
O comentário é pertinente. Mas Padura não é um
historiador. Deforma Trotsky. Abusando da liberdade de ficcionista, atribui ao
revolucionário exilado, nas suas meditações sobre o
passado, arrependimentos e dúvidas incompatíveis com a sua
personalidade e mundividência.
Padura transcreve passagens do documento, um testamento político, em que
Trotsky transmitiu as suas últimas vontades. "Morrerei
afirmava sendo um revolucionário proletário, um marxista,
um materialista dialéctico".
Mas insinua que Trotsky estaria arrependido da sua responsabilidade na
repressão dos marinheiros de Kronstadt em l921 e de falta de firmeza na
defesa dos sindicatos durante o debate sobre o tema no Comité Central.
Na realidade, Trotsky foi então um dos principais defensores da
implacável repressão dos amotinados de Kronstadt e Lénine
criticou-o por haver tomado a iniciativa da militarização dos
sindicatos ferroviários durante a guerra civil.
Num dos capítulos do livro o escritor sugere que Trotsky, repensando o
passado, era assaltado por dúvidas angustiantes sobre a própria
validade do projeto comunista.
Padura atribui-lhe pensamentos como este: "seria o marxismo apenas mais
uma ideologia, uma espécie de falsa consciência que
levava as classes oprimidas e os seus partidos a acreditar que lutavam pelos
seus próprios fins, quando na realidade estavam a beneficiar os
interesses de uma nova classe governante?"(pág. 417).
AMBIÇÃO DESMESURADA
Padura dedicou mais de três anos à escrita do seu romance. Mas
concebeu o projeto muito antes.
Terá corrido pelo mundo, de Barcelona ao México, passando por
Moscovo e Paris, em busca de inspiração, para se impregnar da
atmosfera dos cenários onde Mercader-Mornard se tinha preparado para a
sua entrada na História.
Tinha uma ambição desmesurada. Acreditou que iria construir uma
catedral da literatura. Esperava elevar-se ao nível de Tolstoi.
Não atingiu a meta. Escritor muito talentoso, não conseguiu criar
uma grande obra.
O romance prende pela técnica, por um suspense que lembra o de John Le
Carré. As personagens principais, de Ramon Mercader (mascarado de
Mornard-Jacson), à sua mãe Caridad Mercader e ao russo Kotov,
Tom, Grigoriev, Roberts, Eifingon (o responsável pela
operação Canard, concebida para o crime de Coyoacan, mudava com
frequência de nome) são muito trabalhadas. Mas Sylvia Ageloff, a
trotsquista amante de Ramon Mercader, uma mulher inteligente, surge como figura
caricatural.
As referências a Frida Kahlo, que era companheira de Ribera, e à
breve relação amorosa-sexual que a grande pintora manteve com
Trotsky têm algo de telenovela.
O Trotsky do romance não convence; os agentes secretos soviéticos
que desfilam pelo livro também não.
Padura exagera tanto na diabolização da NKVD (sucessora da
Tcheka) que não atinge o objetivo.
Desconheço a estória das viagens do escritor para se documentar e
inspirar. Mas é tão minucioso nas referências a cidades
como Barcelona, Madrid, Moscovo, Paris, Nova York e México que o leitor
tende a acreditar que Padura conheceu intimamente os bairros, os parques, as
ruas, os hotéis, os cafés, os restaurantes por onde andou o seu
"herói", candidato a assassino.
Na cidade do México tive a oportunidade de visitar em Coyoacan a Casa
Azul de Frida Kahlo e a casa fortaleza onde Trotsky foi abatido. Recordei
pormenores de ambas ao ler as páginas em que Padura descreve com vagares
a maneira como Mercader fendeu o crâneo de Trotsky com a picareta de
alpinista que levava na gabardina. Fui invadido por um sentimento de repulsa,
náusea e mal-estar.
UM FINAL FOLHETINESCO
O romance perde qualidade como obra literária na terceira e ultima
parte, O APOCALIPSE.
Ramon Mercader afirmou à Policia secreta e ao tribunal que a iniciativa
do crime fora exclusivamente sua. Não falou sob tortura. Nos três
presídios por onde passou insistiu sempre em afirmar ser o belga Jacques
Mornard, embora a justiça mexicana soubesse que era o catalão
Ramon Mercader.
Cumpridos os 20 anos de prisão a que foi condenado, viajou para Moscovo
onde lhe foi atribuída por Krutschov a Ordem de Lenine e guindado a
Herói da União Soviética. Passou a chamar-se então
Ramón Pavlovitch.
Quando lhe foi diagnosticado um cancro incurável, pediu a Fidel que lhe
permitisse acabar os seus dias em Cuba e o pedido foi atendido (faleceu em
Havana em l978). A sua larga permanência na Ilha terá
contribuído para despertar o interesse de Padura.
Não há indícios de que tenha abdicado das suas
convicções. Mas Padura submete Mercader a uma inesperada
metamorfose politica após a sua instalação na União
Soviética.
Quando em l968 reencontra em Moscovo Eifingon, seu antigo tutor, Mercader
que gozava então de privilégios excepcionais , o
agente secreto que dedicara a vida à URSS e a Stalin, mantem com o
ex-quadro da NKVD sempre segundo Padura diálogos que
desconcertam o leitor.
Eifingon conta que, após a queda de Beria, passou quinze anos na
prisão. E confessa ao companheiro que lhe mentiu. Diz-lhe que Stalin
desejava que ele fosse morto pela segurança de Trotsky após o
crime, porque vivo seria muito incómodo. Temia que falasse.
Mercader e ele, na evocação de episódios
históricos, não falam como desiludidos; expressam-se com o rancor
de vítimas de uma engrenagem trituradora que os teria utlizado como
meros instrumentos.
Transcrevo duas reflexões de Mercader: "a confissão de que
não só tinha sido usado para efetuar uma vingança, como
fora considerado uma peça mais do que prescindível, fez
afundar-se a ultima tábua de salvação que tinha à
passagem daqueles anos cheios de desenganos e de descobertas dolorosas
(pág. 567).
"Sentia o desengano a corroê-lo por dentro e a deixá-lo
vazio. Os vestígios do orgulho a que, apesar das dúvidas e da
marginalização ,se tinha há muito agarrado com unhas e
dentes, iam-se evaporando com o calor de verdades demasiado
cínicas".
É a linguagem de alguém que já rompera com o comunismo.
Fica porem transparente para mim que quem fala por ambos é afinal
Leonardo Padura, o escritor cubano que abomina é a palavra
o socialismo e o comunismo, embora não o afirme nos seus livros.
De um amigo cubano, comentando os que emigram e os que ficam na ilha mas
criticam o socialismo, recebi uma carta da qual transcrevo estas linhas:
"uma boa parte crítica porque isso é o caminho da fama, seja
esta merecida ou não (
) por vezes é também a via
para a melhora económica (
) Uma situação que
dá muitos dividendos é caminhar pelo
border line
".
A qualidade literária do romance cai aliás muito no último
capítulo, quando Padura regressa ao narrador Ivan.
Um esclarecimento pessoal:
Desaprovei desde a juventude a trajetória de Trotsky. Mais tarde li
muitos dos seus livros e critiquei em artigos e conferências o seu
pensamento político, o seu frenético anti-sovietismo e a
criação da IV Internacional. Mas condenei sempre a feroz
perseguição de que foi alvo, o apagamento do seu nome da Historia
e as acusações absurdas de cumplicidade com o nazismo.
Os erros, a intolerância, a arrogância de Trotsky não me
impedem, contudo, de reconhecer que foi um revolucionário que se assumiu
ate ao fim como marxista e comunista.
Acrescentarei que os métodos, erros e crimes de Stalin não podem
apagar que foi um revolucionário que viveu para a causa do comunismo e
desempenhou um papel decisivo na derrota do Reich hitleriano, na vitória
da guerra que salvou a humanidade do horror do fascismo.
Vila Nova de Gaia, 15 de Abril de 2015
[1]
Leonardo Padura,
O homem que gostava de cães
, Porto Editora, 2011, 624 p., ISBN: 978-972-0-04550-8
O original encontra-se em
www.odiario.info/?p=3627
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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