A indignação popular e o coro do medo
por Miguel Urbano Rodrigues
A revolta torrencial das massas contra a política do Governo
Passos-Portas, fenómeno social altamente positivo, colocou este na
defensiva. Mas, recordando outra vez ensinamentos de Lénine, torna-se
indispensável tomar consciência que é dever
indeclinável de um partido revolucionário organizar as massas,
assumir na luta o papel de vanguarda. Só a organização e a
persistente continuidade farão com que acções como as
grandes manifestações de protesto dos últimos dias possam
configurar uma ameaça concreta ao sistema de poder vigente.
De repente, uma faixa importante das forças políticas que
apoiaram as políticas neoliberais dos governos do PS e do PSD-CDS mudou,
na aparência, de campo.
Apercebendo-se da iminência do naufrágio, destacadas
personalidades desses partidos passaram a atacar a estratégia do
binómio Passos Portas.
Por inesperada, chama a atenção a condenação e a
linguagem que a traduz. É uma metamorfose que não lhes melhora a
imagem. Rescende a hipocrisia. Afirmam hoje aquilo que negavam ontem.
Nos seus escritos e em intervenções na TV e na Rádio uma
minoria dos críticos afirmou discordar das "medidas" do
governo por "patriotismo", alguns justificam a crítica
invocando argumentos económicos e financeiros, outros dizem desaprovar
as alterações da Taxa Social Única propostas porque, santa
hipocrisia, esmagariam os trabalhadores e somente beneficiariam o capital.
No coro de lamentações participou gente muito diferente: Pacheco
Pereira, Mário Soares, Alberto João Jardim, Bagão
Félix, Manuela Ferreira Leite, Belmiro de Azevedo, os dirigentes da CIP,
da CAP e da Confederação do Comércio, e uma legião
de economistas e sociólogos da burguesia.
O discurso e os objectivos desses críticos divergem.
Pacheco, o mais talentoso, apresenta-se agora como "velho
esquerdista" (
Público,
22/9/2012). É muito descaramento de quem foi durante anos no Parlamento
porta-voz qualificado e entusiasta das políticas do governo de Cavaco.
De Mário Soares, o camaleão do PS, veterano
contra-revolucionário, tudo se pode esperar. Exige agora a
demissão do Governo e fustiga como incompetente o primeiro-ministro que
meses atrás elogiava; nele via então um político
"inteligente e simpático".
Seria interessante reunir num livro o que escrevem e declaram hoje e, ao lado,
o que escreveram e afirmaram ontem estas personagens que pelas suas piruetas
parecem arrancadas de peças de teatro de absurdo.
A tribo do PS foi especialmente ruidosa na campanha contra as
"soluções" propostas pelo ministro Vitor Gaspar e o seu
chefe.
O ex-deputado socialista Artur Penedos escreveu no
Público
(22/Set/2012): "Ninguém, no seu perfeito juízo, pode
aceitar a insensatez e o desvario do governo de Passos-Portas e, muito menos,
permitir que ambos atirem os portugueses para a mais profunda calamidade dos
últimos 70 anos".
A indignação é oportuna e legítima. Mas porventura
o ex-parlamentar alguma vez ergueu a voz ou usou a pena para denunciar a
destruidora ofensiva de Mário Soares-Barreto contra a Reforma
Agrária ou a política de submissão ao capital de
José Sócrates que lançou centenas de milhares de
trabalhadores no desemprego e na miséria? Que eu saiba não. Como
assessor para "assuntos sociais" do seu camarada e amigo, aprovou-lhe
a estratégia e defendeu-a.
Era de esperar que a reunião do Conselho de Estado convocada pelo
Presidente da Republica para debater a crise fosse uma comédia. E isso
aconteceu.
O comunicado divulgado confirma que tudo foi encenado previamente na fidelidade
à máxima de Lampedusa, o autor de "O Leopardo": Mudar
alguma coisa para que tudo fique na mesma.
A satisfação da maioria dos conselheiros, com Seguro à
cabeça, não oculta uma evidência: a anunciada
"modulação" da TSU (na pratica engavetamento) é
um embuste concebido para que o governo possa prosseguir com a política
que continua a arruinar o país.
O artificio da transferência do brutal aumento da taxa da TSU que
incidiria sobre o trabalho para reduções reais nos
salários e rendimentos dos trabalhadores e das pensões dos
reformados através de um aumento do IRS foi ideado para
simular um recuo do grande capital, confundir as vítimas e atenuar a
tensão social.
Os mal chamados "parceiros sociais" desempenharam na grande farsa um
papel fundamental, com destaque para o ainda secretário-geral da UGT,
figura cimeira do sindicalismo amarelo, que se comportou na televisão
como porta-voz oficioso do patronato.
A fala de Passos, ao informar que o governo vai repor parcialmente o corte dos
subsídios de Natal e de férias (porque a medida fora considerada
inconstitucional), foi mais uma vez um amontoado de frases sem nexo,
dificilmente inteligível.
O Conselho da "Concertação Social", instrumento do
patronato, apressou-se a transformar a indignação simulada em
colaboração concreta com o capital. O secretário-geral da
UGT, comentando a manobra do governo para camuflar o aumento dos impostos, teve
o despudor de qualificar de positivas algumas das medidas da
"alternativa" que o executivo Passos-Portas prepara.
Temo que o desmascaramento dessa manobra pelo Partido Comunista e pela CGTP
não seja suficiente para evitar os seus efeitos desmobilizadores numa
parcela importante das muitas centenas de milhares de portugueses que
saíram às ruas na manifestação convocada
através das redes sociais.
O nível da consciência política e de classe da maioria
desses "indignados" é baixo. A revolta popular
"espontânea" sobe e desce como as marés. Foi
extraordinariamente importante a tempestuosa jornada do dia 15 deste mês.
Ela trouxe à memória a lição permanente da
advertência de Lénine sobre a morte dos sistemas políticos
quando "os de baixo já não querem e os de cima já
não podem".
A maioria do povo português sabe hoje o que repudia e exige uma
mudança de rumo. Mas uma enorme percentagem dos que saem à rua
expressando a sua indignação não responsabiliza
directamente o sistema.
A contestação abrange camadas sociais muito diferentes.
Não foi somente gente progressista que saiu às ruas. Milhares de
pessoas afirmaram ter participado pela primeira vez em
manifestações. Muitas delas sem qualquer tendência
partidária. E as pedradas, petardos e tentativas isoladas para provocar
distúrbios permitem concluir que anarquistas e provocadores se
esforçaram por criar situações que apenas beneficiariam o
Governo. Não é por acaso que nestes dias os analistas de
serviço formadores de opinião e alguns jornalistas multiplicam na
imprensa e na TV ataques generalizados aos partidos (como se fossem todos
iguais) atribuindo-lhes a responsabilidade pelos males do presente. Essa
campanha coincide com uma paradoxal apologia da contestação
espontaneísta. Até Cavaco reconhece que é preciso ouvir o
povo.
Obviamente, a revolta torrencial das massas contra a política do Governo
Passos -Portas, fenómeno social altamente positivo, colocou este na
defensiva. Mas, recordando outra vez ensinamentos de Lénine, torna-se
indispensável tomar consciência que é dever
indeclinável de um partido revolucionário organizar as massas,
assumir na luta o papel de vanguarda. Acções como as grandes
manifestações de protesto dos últimos dias somente podem
configurar uma ameaça concreta ao sistema de poder vigente se adquirirem
um carácter permanente, com organicidade. Essa é uma tarefa que,
a meu ver, cabe ao PCP e à CGTP assumir.
As forças do capital estão alarmadas. Dai o coro hipócrita
de críticas que desembocou no show do Conselho de Estado.
Conter a avalanche da indignação, desmobilizar as massas, impedir
a sua luta organizada é o objectivo imediato das manobras que, superando
divergências, unem agora numa frente anti-popular Cavaco, o governo, os
partidos que assinaram o memorando com a troika, os falsos parceiros sociais e
o grande capital.
É dramaticamente necessário compreender que a classe dominante (e
aqueles que a servem) tenta com farisaísmo enganar a classe
trabalhadora, anunciando medidas cosméticas de um falso recuo que lhe
permita prosseguir a ofensiva contra ela que empurra Portugal para a bancarrota
e o caos.
V.N. de Gaia, 25/Setembro/2012
O original encontra-se em
http://www.odiario.info/?p=2625
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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