por Miguel Urbano Rodrigues
A Delegação de Paz das FARC divulgou em Havana, sede dos
Diálogos, um primeiro balanço sobre "o estado das
conversações". De 200 propostas mínimas para resolver
problemas do campo e da participação politica que apresentaram,
somente foi possível chegar a 25 acordos parciais com o governo de Juan
Manuel Santos.
Não é de admirar: o governo colombiano participa nos
Diálogos porque não teve condições políticas
para o recusar. Mas a sua aposta permanece na guerra, não na paz: o
orçamento de estado da Colômbia para 2014 inclui para as
Forças Armadas (isto é, para o financiamento da guerra contra as
Farc) a verba astronómica de 274 biliões de pesos, o equivalente
a 14 717 mil milhões de dólares.
Os diálogos para a Paz entre o Governo de Bogotá e as
Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia-Exercito do Povo,
iniciados em 2012 em Havana, dificilmente conduzirão ao desfecho
positivo desejado pela esmagadora maioria do povo colombiano.
Foi possível, por mérito exclusivo da Delegação das
FARC, chegar-se a um acordo sobre a necessidade de uma a Reforma Agraria
profunda, o primeiro ponto da agenda. Mas, tal como se esperava, o Governo de
Juan Manuel Santos manobra para sabotar o processo negocial.
O BALANÇO DAS FARC-EP
No dia 3 de Outubro, a Delegação de Paz das FARC divulgou em
Havana, sede dos Diálogos, um primeiro balanço sobre "o
estado das conversações".
Apos "catorze ciclos de reuniões", as FARC informaram que
apresentaram 200 propostas mínimas para resolver problemas do campo e da
participação politica. O resultado foi modesto: somente foi
possível chegar a 25 acordos parciais.
Na mesa de Diálogo chocam-se duas visões da Historia: uma
ultraneoliberal, que privilegia os interesses das transnacionais e da
oligarquia, e a outra que assume as reivindicações das grandes
maiorias. Sob a pressão da contestação das massas, o
governo comprometeu-se a atribuir títulos de propriedade a camponeses
que cultivam terras que segundo a lei não lhes pertencem (48%).
No segundo ponto da agenda, sobre a participação politica,
tem-se avançado pouco porque os representantes do governo recusam um
acordo prévio sobre a convocação de uma Assembleia
Constituinte, exigência das FARC.
A delegação do governo evita também um debate sério
sobre a reparação às vítimas da guerra que
restabeleça a verdade histórica de um conflito que dura há
sessenta anos. Insiste na sua proposta de um referendo sobre um eventual acordo
final, proposta que as FARC não consideram adequada em
consequência do controlo absoluto que o governo tem dos meios de
comunicação social.
A GUERRA CONTINUA
A guerra, entretanto, prossegue. A luta armada não foi suspensa porque o
governo se opôs a um cessar-fogo, cedendo à pressão do
exército.
Ano após ano ficou transparente que não há
solução militar para o conflito. As Forças Armadas
são as mais numerosas e bem equipadas da América Latina (mais de
400 mil militares). Mas a guerrilha é indestrutível. Nos
últimos meses, as FARC, realizando em média três
operações diárias, infligiram severas perdas ao
exército e à polícia. Recentemente colunas suas derrubaram
um helicóptero no Putumayo e dois aviões militares, um dos quais
do Caquetá.
Nas Forças Armadas o mal-estar é, aliás,
inocultável, com as chefias envolvidas em escândalos financeiros e
crimes de guerra.
A contestação popular tem aumentado torrencialmente. A Marcha
para a Paz e as iniciativas do movimento Colombianos para a Paz mobilizaram
centenas de milhares de pessoas
A Igreja católica, o Partido Comunista, os sindicatos e as
universidades multiplicam os protestos contra a política dita de
segurança democrática que é, na prática, uma
política de terrorismo de estado. 87% dos colombianos desejam a paz.
O êxito da greve nacional agrária obrigou o Presidente a recuar e
fazer concessões. Mas o seu Pacto Nacional Agrário é um
projeto oco, uma manobra concebida para desmobilizar os camponeses em luta.
O bombardeamento do Congresso com tomates expressou o descontentamento do mundo
rural.
O nível da corrupção, os escândalos financeiros e
os crimes atingiram tal magnitude que não foi possível a Santos
proteger altas personalidades que durante anos contaram sempre com a
confiança do governo.
Desde 2011 foram demitidos seis embaixadores:
- o embaixador na Republica Dominicana, general Jorge Montoya, ex-comandante
chefe do Exército, por participação comprovada em crimes
de guerra.
- O embaixador no Peru, Jorge Visbal Montero, ex-presidente da
associação Nacional de Ganaderos, patrocinadora do
paramilitaríssimo.
- O embaixador na Venezuela, José Fernando Bautista, envolvido no
escândalo do "carrossel dos contratos".
- O embaixador nos Estados Unidos, Carlos Urrutia, envolvido no
escândalo da apropriação ilegal de baldios.
- O embaixador na Rússia, Rafael Amador, que atribuía bolsas
universitárias a troco de sexo com homens.
- O embaixador na Áustria, general Padilla Leon, comprovadamente
responsável pela prática de crimes de guerra.
Nesse painel de embaixadores temos a imagem do serviço
diplomático colombiano.
A ESTRATÉGIA SINUOSA DE JUAN MANUEL SANTOS
Juan Manuel Santos distanciou-se da estratégia neofascista de Uribe.
Normalizou as relações com a Venezuela e o Equador e abriu o
diálogo com as FARC.
Mas a Colômbia continua a ser uma semi-colónia. Tão
transparente é a sua submissão a todas as exigências de
Washington que os Estados Unidos instalaram mais seis bases militares no
país. Para Obama é o mais firme aliado na América Latina e
uma democracia que deveria inspirar outras no Continente. O seu apreço
pelo governo de Bogotá é demonstrado pela gigantesca "ajuda
financeira" a maior após a concedida a Israel
destinada quase exclusivamente a combater as FARC-EP e o ELN.
As bruscas mudanças de tática do governo nas
conversações de Paz refletem o temor que o Presidente tem de
Uribe, o presidente anterior (ao qual serviu dedicadamente como ministro), da
ultra direita das forças armadas e da oligarquia agrária.
Uribe rompeu com ele e agora ataca-o publicamente. Acontece que Juan Manuel
Santos pretende reeleger-se e o seu discurso pacifista, sobretudo nas visitas
à Europa e a organizações internacionais é
inseparável da sua ambição eleitoral.
As possibilidades de reeleição são, porém,
escassas. Uma sondagem recente atribuía-lhe uma percentagem de votos
pouco superior a 20%.
Numa entrevista recente aos membros da delegação das FARC em
Havana, o jornalista colombiano Hernando Ospina residente em Paris
chamou a atenção para o facto de na Mesa de
conversações elas defenderem sobretudo reformas que modernizem o
Estado, o que "pode parecer contraditório numa guerrilha comunista,
marxista-leninista".
O comandante Ivan Marquez, o chefe da Delegação, confirmou que
não estão exigindo mudanças radicais nas estruturas
políticas económicas do Estado.
Ivan Marquez esclareceu que na Mesa de Diálogo as FARC não falam
de socialismo nem de comunismo. "O que procuramos afirmou
é criar condições para se chegar a um entendimento com o
governo. Um espaço onde encontremos as diferentes visões. Sabemos
que por isso algumas organizações de esquerda, não somente
colombianas, dizem que nos transformamos numa guerrilha reformista."
Cabe recordar que já Lénine dizia que devemos distinguir as
reformas cosméticas da burguesia de reformas de conteúdo
revolucionário que abalam o poder da classe dominante.
Combatendo a tendência ao pessimismo do entrevistador quanto ao desfecho
das Conversações, o comandante Pablo Catatumbo, outro membro da
Delegação, lembrou que a Historia segue com frequência
rumos inesperados.
"Não esqueça sublinhou que as
condições políticas na América Latina mudaram. Quem
imaginava o que ocorreu na Venezuela e na Bolívia com a chegada de
Chávez e de Evo? Quem podia imaginar que na América Latina
surgiriam outros governos para exigir aos EUA respeito pela soberania? E o fim
da União Soviética?
O arrastar das conversações de Paz em Havana e a
convicção de que um acordo global sobre os seus pontos da Agenda
é inaceitável para o sistema de poder colombiano contribui para a
multiplicação de análises e previsões pessimistas.
Não creio que esses exercícios especulativos, mesmo quando da
iniciativa de amigos das FARC-EP, sejam úteis.
Mas é inegável que a abertura da Mesa de Diálogo
proporcionou às FARC a possibilidade de arrancarem a mascara a um
governo de matizes neofascistas e de levarem a milhões de pessoas em
dezenas de países um conhecimento aprofundado do seu programa, da sua
luta revolucionaria em prol de uma Colômbia independente,
democrática e progressista.
A verdade sobre uma heroica guerrilha partido comunista atravessou
fronteiras, chega hoje aos mais remotos lugares da Terra.
Vila Nova de Gaia, 9 de Outubro de 2013
Ver também:
http://www.pazfarc-ep.org/
, Sítio da delegação das FARC-EP às conversações de paz em Havana.
O original encontra-se em
http://www.odiario.info/?p=3063
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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