por Miguel Urbano Rodrigues
Não conhecia o Norte do México. Estive em algumas das suas
cidades no inicio de Março a convite do Partido dos Comunistas daquele
país. Foi uma viagem pelo inesperado. Fez-me pensar na jornada de
Leopold Bloom no Ulisses de Joyce. Com uma diferença: quase tudo era
desconhecido para mim.
Monterrey surgiu-me como cidade não imaginada. A capital do Estado de
Nuevo Leon é o pólo da grande indústria mexicana. O
primeiro choque aconteceu no aeroporto, ultra moderno, funcional. Caminhando
entre mármores ofuscantes, numa atmosfera de luxo, senti-me fora da
América Latina.
Monterrey, com quase 6 milhões de habitantes, é uma estranha
vitrina do México desenvolvido, uma ilha de riqueza num país onde
dezenas milhões vivem abaixo do nível da pobreza não
obstante a nação possuir enormes recursos naturais.
Uma burguesia arrogante vive, actua e fala ali como se fosse estadunidense.
Não o confessa, mas desenvolveu uma mentalidade anexionista. Gostaria
que Monterrey fosse parte do grande pais vizinho.
O urbanismo reflecte esse sentimento.
A modernidade não gera por si só harmonia e beleza. A Macroplaza
impressiona pela vastidão. É uma das mais gigantescas
praças do Continente. Mas, desumanizada, carece de personalidade. As
estatuas dos pais da Independência, Hidalgo e Morelos, de Juarez e do
general que fuzilou o imperador Maximiliano, destoam de um projecto
anti-popular. Os heróis tutelares estão ali para enganar. O
centro administrativo e financeiro, emoldurado por edifícios imponentes
mas feios, foi concebido como núcleo isolado. Amplas avenidas de acesso
isolam-no do corpo vivo da cidade. Alguém me informou de que facilitam
a repressão policial em caso de necessidade.
Monterrey é o paraíso mexicano das transnacionais. Os grandes
senhores de Nuevo Leon alguns descendentes de imigrantes europeus,
sobretudo franceses, que chegaram ao país no final do século XIX
proclamam obviamente que a adesão do México ao Tratado de
Livre Comercio da América do Norte beneficiou o pais. Mentem. O TLCAN
arruinou a agricultura e a indústria nacionais, liquidou praticamente o
sector empresarial do Estado e abriu as portas à absorção
quase total da banca nacional pela estrangeira. A terra onde nasceu o milho
importa hoje mais de seis milhões de toneladas daquele cereal.
As políticas neoliberais desnacionalizadoras, aplicadas por sucessivos
governos no quadro do TLCAN, permitiram o enriquecimento galopante de uma
minoria, empobrecendo a maioria. Economistas como Arturo Huerta, professor da
UNAM, iluminaram bem a profundidade do desastre.
No México o neoliberalismo supostamente modernizador está na
origem de situações de contornos surrealistas. O desaparecimento
dos caminhos de ferro, por exemplo. Os comboios de passageiros acabaram num
país onde uma extensa rede ferroviária desempenhou um papel
fundamental no desenvolvimento. O presidente Zedillo, pressionado pelas
transnacionais do automóvel, decidiu extinguir essa rede e
vendê-la à Union Pacific dos EUA. Esta manteve somente o
tráfego de mercadorias. Semanas depois de terminar o mandato, Zedillo
foi nomeado para um alto cargo de direcção na Union Pacific
Em Monterrey não é transparente a miséria que tanto
impressiona os estrangeiros na Cidade do México, a maior cidade do mundo
com quase 20 milhões de habitantes. Mas a pobreza exibe-se no casario
dos cerros da periferia. A sociedade de classes tenta cobrir com uma capa de
verniz as chagas do sistema, mas não consegue ocultá-las.
A atmosfera em Saltillo, a capital do Estado de Coahuila, a uma centena de
quilómetros, muda. A cidade, que ronda os 800 mil habitantes, é
também um centro industrial, mas ali a burguesia ostenta menos a sua
riqueza.
A região, como grande parte do Nordeste, é semi árida, o
que torna a pobre agricultura local dependente da escassa água
disponível. Menos de 15% do território mexicano é
cultivável, mas como o país tem o quádruplo da
superfície da Espanha, poderia ser um grande exportador de alimentos se
outra fosse a política da classe dominante. A conquista do governo
central pela direita acentuou, porem, a subordinação servil dos
interesses nacionais aos dos EUA. O presidente Fox, ex-presidente da Coca Cola
mexicana, administra o país como dócil instrumento da
potência imperial. Neste final de mandato o seu grande objectivo
é a abertura com a cumplicidade do Partido Revolucionário
Institucional, o velho PRI do sector energético ao capital
privado, ou seja a privatização do petróleo e da
electricidade, o que resta praticamente do outrora mais importante conjunto de
empresas publicas da América Latina.
A proximidade dos grandes desertos do Norte terá sido o motivo da
criação em Saltillo do Museu do Deserto. Não imaginava a
existência de algo semelhante. Num país que faz da museologia uma
arte (o Museu de Antropologia da capital é um dos mais belos do mundo),
a instituição do Estado de Coahuila abre aos visitantes os
portões para uma viagem científica fascinante pelo universo
desconhecido dos desertos desde a pré historia à actualidade.
As secas duram em certas épocas dez anos. Mas a capacidade de
adaptação das plantas e da fauna é tamanha que a vida
animal e vegetal nunca morre naquelas solidões onde cactos gigantescos
brotam de solos lunares.
Saltillo é muito mais mexicana do que Monterrey. A influência
material e cultural dos EUA transparece na organização da vida,
na fúria consumista , nos comportamentos individuais. Símbolos
do poder imperial aparecem até no vestuário. Mas o humor crioulo
responde com imaginação. Em lojas de roupas de marca vi nas
montras camisolas com os emblemas do FBI e da CIA. Com uma peculiaridade. No
circulo envolvente das três letras do primeiro estava estampada uma
definição: Fanáticos Borrachos Irrecuperables. Algo
parecido para a Cia.
No centro histórico de Saltillo sobreviveram belos edifícios da
época colonial. Foi num desses antigos palácios que tive a
oportunidade, em encontro promovido pelo Partido dos Comunistas do
México, de falar sobre a crise global do mundo contemporâneo,
desenvolvendo o tema "Socialismo ou Barbárie". Tal como na
véspera em Monterrey aí na sede de um Sindicato o
debate durou mais de duas horas. Foi gratificante o contacto com companheiros
de luta que, em condições muito desfavoráveis, não
somente mantém uma combatividade exemplar como revelam um conhecimento
invulgar dos clássicos do marxismo e um interesse absorvente pela marcha
das ideias na Europa e na totalidade da América Latina.
No México os programas dos visitantes desconhecem as distâncias.
No dia seguinte pela manhã estava na vertente do Pacifico. À
tarde, após uma correria de 250 km através de dois estados
Jalisco e Nayarit fui recebido fraternalmente pelos camaradas
do Partido de los Comunistas na cidade de Tepic.
Um encontro com a juventude foi o prólogo de uma palestra na Biblioteca
Marx-Lenine em sessão presidida pela sua directora, uma jovem, filha de
Alejandro Gascon, o líder histórico do Partido, falecido semanas
antes.
Poderia concluir-se que o Partido de los Comunistas tem uma forte
implantação nacional e uma bancada no Congresso. Seria,
entretanto, uma conclusão errada. Não obstante contar com 10
mil filiados, não conseguiu até hoje obter sequer o registo como
organização partidária, sem o qual não pode
disputar qualquer eleição. A engrenagem perversa do sistema
político mexicano permite absurdos como esse.
Em Tepic, durante quase três horas o debate incidiu prioritariamente
sobre as guerras asiáticas do sistema de dominação
imperial e as lutas em curso no Continente Americano nomeadamente na
Venezuela bolivariana e na Colômbia, bem como o combate ao projecto
anexionista da ALCA. A quantidade e qualidade das intervenções
reforçou a minha convicção de que a América Latina
é neste início do século um laboratório social onde
fermenta a vontade de resistência de povos impacientes para assumirem o
papel de sujeito transformador da historia. Sentira isso também dias
antes ao falar sobre Bolívar na Faculdade de Ciências Sociais da
Universidade do México, a convite do núcleo de apoio às
Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (FARC-EP).
Em Tepic fui espontâneo ao expressar no final a minha
admiração pelo povo do México, filho de dolorosas
fusões cuja síntese inacabada tornou possível a mais bela
e profunda cultura das Américas.
A juventude comunista acompanhou-me até ao aeroporto de Tepic, numa
despedida que me emocionou. Na manhã seguinte, rumo a Lisboa, voando
sobre o Atlântico, repassando imagens e palavras das jornadas
mexicanas, subiu em mim um sentimento de confiança na humanidade.
Acredito que ela vai sobreviver ao desafio do sistema de poder exterminista de
um capitalismo condenado a desaparecer.
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