Sobre A Metamorfose de Efigénia

por Luís Alves de Fraga [*]

. A obra que hoje está disponível para todos dela podermos usufruir constitui mais um passo na escrita do Miguel Urbano Rodrigues. E um passo que não é pequeno, pois aqui está plasmada toda a experiência de uma vida, com a sensibilidade e a sabedoria de quem é capaz de olhar para o passado e dele extrair as melhores recordações e as mais avisadas lições para as deixar aos contemporâneos e aos vindouros. E neste acto o autor assemelha-se, em tudo, ao bom semeador, que prodigamente atira ao solo as sementes na esperança de que a terra as acarinhe e as transforme na planta e no fruto que alimenta.

O livro que tendes entre mãos é, como o autor diz, um somatório de treze estórias e cinco perfis. Há, depois, uma estória — para usar a terminologia do Miguel — que se deve à escrita da sua companheira, a sensível Ana Catarina. Dessa estória ocupar-me-ei depois de falar dos escritos do Miguel.

Um livro, independentemente da sua natureza, é sempre um produto da sensibilidade, ou seja, do sentimento que o autor tem perante a vida. Contudo, é mais do que isso, pois fala-nos sempre da personalidade de quem o escreve; da sua capacidade de interpretar os acontecimentos e de os transmitir. Ora, acontece que o Miguel tem uma vida riquíssima, cheia de experiências e de memórias guardadas com a precisão de um cioso e cauteloso notário. Muitas dessas vivências e recordações tem-nas, nos últimos anos, deixadas escritas com uma limpidez e uma correcção inultrapassáveis. E este livro vem juntar-se a outros com o mesmo perfil memorialista, mas com a particularidade de, mais uma vez, a capacidade de grande escritor surgir em paralelo e com uma marcada beleza da escrita. Uma escrita que não faz concessões à verdade dos factos, mas que lhes dá uma auréola de bom gosto, de sensibilidade, de beleza e, acima de tudo, de inteligência.

É claro que para se falar da escrita de Miguel Urbano Rodrigues é necessário falar da sua personalidade, acima de tudo, marcada por uma incrível coragem física e por uma inultrapassável frontalidade. As suas personagens — reais, como ele próprio tem o cuidado de referir — estão marcadas por estas características que lhe são intrínsecas: são corajosas e frontais. As que o não são aparecem desmascaradas ou pelo narrador ou por uma outra personagem das diferentes tramas que compõem o livro.

Mas nem só de coragem e de frontalidade esta obra nos fala; ela vai muito mais além, porque nas suas páginas está a cultura política e humanística do Miguel Urbano Rodrigues as quais nada ficam a dever à sua coragem e à sua frontalidade. Arrisco-me, mesmo, a dizer que a cultura política e humanística são o magnífico invólucro das qualidades anteriores, acabando por servir de cadinho onde o autor coloca todos os ingredientes que dão sentido e fazem de cada uma das estórias um caso único como produto narrativo. Contudo, estariam mal debuxados os limites desta obra se não acrescentasse mais dois elementos que reputo fundamentais para a sua compreensão: a fina argúcia do olhar do autor, que vê para além do acontecimento, e o sentido crítico, com uma delicada capa de diáfano verniz, das situações ridículas. Quer dizer, o Miguel, armado de uma escrita límpida, directa, singela, mas carregada de beleza, e escudado nas suas características pessoais, dá-nos retratos da realidade que vão do delicado humor, como acontece na crónica que dá o nome ao livro, ao descrever o prazer e o desprazer sexual de um marido distante das grandes questões da cultura romanesca e poética, até à delicadeza, ternura — quase diria — que coloca na estória da menina de Serpa. Aliás, é nesta estória que ressalta uma outra faceta de Miguel Urbano Rodrigues: a de um Homem carregado de ternura, a ternura que todos nós esperámos, ou esperamos, de um avô que conta estórias de encantar.

Um outro toque, que não posso deixar passar em claro, é o cuidado muito especial que o autor coloca na descrição das personagens femininas e no modo como relata os discursos inteligentes e cultos que proferem. Fá-lo de uma maneira que o leitor visualiza essas mulheres, quase sempre belas, inteligentes, argutas, tornando-as personagens que convivem, em boa harmonia, connosco enquanto dura o relato da crónica. E recordo aqui a belíssima Helga de um encontro fugidio em Berlim. Isto quer simplesmente dizer uma coisa: Miguel Urbano Rodrigues sabe olhar e descrever as mulheres. Conhece-as e, ao conhecê-las, não faz delas bonecas inscritas nas linhas do papel, mas seres reais, delicados, mas, também, suficientemente lúcidos para saberem olhar a realidade que as cerca. Saberem, até, como conviver com este narrador charmoso, inteligentemente charmoso.

Mas não se julgue que o autor se limita, ou limita as suas narrativas, aos sentimentos de homens ou mulheres de quem descreve as estórias. Não. Ele, fiel aos seus princípios ideológicos, não perde a oportunidade de nos dar lições sobre o modo mais justo de se distribuir a riqueza, de se chegar à sociedade pacífica, equilibrada e equitativa. É o marxista que nos pega na mão e, sem nos amarfanhar com a sua vastíssima cultura política, nos ajuda a compreender a injustiça de uma sociedade mal construída. E faz isto com grande subtileza, com esmero, sem pretender afrontar, mais do que o necessário, as convicções dos leitores. Isso mesmo acontece na estória que intitulou «Aisha» ou na outra a que deu o nome de «Vena, uma mulher nova» quando o autor, usando as palavras de um narrador, se refere à jovem comunista que viveu a revolução chilena. Atrevo-me a transcrever um pedaço da prosa de Miguel Urbano Rodrigues para que esta audiência possa, desde já, compreender aquilo que lhe pretendo transmitir: Aqui vai a transcrição: «Vena fascinava os auditórios porque conseguia condensar uma mensagem simultaneamente ideológica e humanista num discurso de assimilação fácil, directo, de frases breves, substantivo. Sem recorrer a citações, combatia, sempre serena, o nacionalismo patrioteiro, levando os trabalhadores e a juventude a descer pela história do Chile e a sentirem-se parte dela».

Acreditem que, por momentos, ao ler esta estória, senti vontade de recuar trinta e tal anos e ir até ao Chile de Allende para conhecer esta jovem, esta revolucionária, esta mulher que nos faz acreditar em futuros esperançosos. Foi quando acabei de ler a crónica que percebi o fenómeno: não era Vena, essa bela revolucionária, quem me despertara o sentimento. Não. Quem o fez foi a escrita de Miguel Urbano Rodrigues que deu vida e cara e força à jovem Vena! São assim os escritores que descrevem realidades, que rebuscam sentimentos, que colocam a nu perante o leitor as formas harmoniosas do espírito humano. O Miguel sabe fazê-lo como só os grandes mestres o conseguem. E, para isso, não precisa de grandes artifícios de linguagem; basta-lhe saber mostrar os sentimentos reais de homens e mulheres comuns que sofrem e vivem dramas, também eles, comuns.

Seria demorado estar aqui e agora a analisar uma por uma as estórias deste livro. Todavia, não resisto a fazer somente uma pequena referência à crónica intitulada «Marco Pólo».

Na leitura que fiz de todo o livro de Miguel Urbano Rodrigues nesta estória ele supera-se no humor e na capacidade de descrição da, arrisco a dizer, superficialidade ou estupidez humana. Aqui, o Miguel, descreve-nos, com a sua usual frontalidade, mas com a crueza e profissionalismo de um médico legista, a futilidade de uma mulher que se entusiasma pela parte, julgando que está na posse do todo; uma mulher que, ao contrário de usufruir a possibilidade de apreciar as mais fantásticas manifestações da arte, se fica pelo frívolo prazer de escrever postais ilustrados para enviar às amigas, comprovando a sua presença em Veneza, habitando um hotel que, supostamente, tinha sido residência da família de Marco Pólo. Confesso que o Miguel Urbano Rodrigues conseguiu arrancar-me uma ou duas gargalhadas com a narrativa que faz.

Claro que não sou capaz de esquecer a formidável figura da macaense Li Tang Soares de Albergaria aquém o Miguel dedica excelentes páginas que põem em confronto a grande ingenuidade com o grande sentido de oportunismo que pode habitar no Homem. Uma vez mais, o autor dá-nos a medida de como a paixão ofusca a razão.

Nos cinco perfis biográficos que o Miguel traça nesta obra está fixada a sua imensa capacidade de admiração pelos valores que marcam homens que souberam compreender, cada um à sua maneira, a problemática política do nosso tempo. Um tempo em que a ânsia do lucro, da riqueza, da abastança, submergiu a necessidade de justiça social. É nesses cinco perfis que se descobre a forma como o autor cultiva e sabe cultivar a amizade e a admiração.

Julgo que terei dado uma visão do livro que espera a vossa atenta leitura e, também, uma panorâmica da escrita do Miguel, no entanto, falta abordar a última crónica, cuja autoria é da Ana Catarina. E compreende-se que seja, pois trata-se de uma estória de amor, quase poderia dizer, impossível.

O título — «Anos roubados» — é expressivo, embora esconda um drama aflitivo de intolerância cultural. É uma narrativa que nos empolga logo nas primeiras linhas, mas que, quanto mais se avança, mais se percebe um fim trágico, ou quase. Só a sensibilidade de uma mulher poderia abarcar a amplitude de um amor contrariado por razões que não há qualquer razão que expliquem; só alguém que tenha estudado numa universidade da antiga União Soviética, onde se cruzavam alunos de todas as nacionalidades e de todas as culturas, consegue descrever as encruzilhadas de amores que vão ao arrepio das tradições. E a Ana Catarina fá-lo de um modo carinhoso ao mesmo tempo que real e doloroso. É uma estória que nos dá vontade, no final, de perguntar: — Como foi possível? — E, depois, concluir que a força dos grandes amores ainda transpõe barreiras, muros e obstáculos de um modo lindo, de uma maneira cheia de esperança para todos quantos acreditam na força dos sentimentos.

Fui longo. Demasiado longo, mas o livro que se apresenta é uma obra para ser lida longamente, para ser meditada e, acima de tudo, para ser sentida, porque é uma excelente peça de literatura. É isso que, no meu entender, merecem os seus autores.

  • A Metamorfose de Efigénia, Coimbra, Calendário das Letras , 2010, 227 pgs., ISBN 978-972-8985-45-5.

    [*] Historiador. Apresentação efectuada na Livraria Buchholz, em Lisboa, a 23/Junho/2010.


    Este texto encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 025/Jun/10