Uma leitura crítica da recente edição brasileira de
"Luta de Classes - Uma História Política e
Filosófica" de Domenico Losurdo. Obra oportuna e
actualíssima numa época de confusão ideológica
promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao
serviço do capitalismo. A sua leitura abre espaço ao debate e
à controvérsia, como é próprio da obra de um
verdadeiro marxista.
Dececionado pelo defunto PCI e por Rifondazione Comunista, aderiu ao jovem
Partido dos Comunistas Italianos.
Rejeita qualquer modalidade de dogmatismo e revisionismo. Fiel aos ensinamentos
de Marx e Lenin, distancia se do reformismo e do dogmatismo subjetivista (bem
caracterizado por Gyorgy Lukács) que durante décadas atingiu
muitos partidos comunistas que, afirmando ser marxistas-leninistas, negavam na
praxis a opção ideológica.
A editora brasileira Boitempo lançou em 2015 o seu último livro,
A Luta de Classes Uma História Política e
Filosófica
[1]
.
É um ensaio difícil, árido, por vezes pesado, mas
fascinante pela lucidez e criatividade.
O discurso de Losurdo sobre a luta de classes é oportuno e
atualíssimo numa época de confusão ideológica
promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao
serviço do capitalismo
DO MANIFESTO À ESCRAVATURA
Na introdução, o autor recorda que
O Manifesto Comunista
logo na abertura afirmava que "A história de todas as
sociedades até hoje existentes é a história da luta de
classes". Enunciou uma evidência que a burguesia negava.
Losurdo comenta no Capitulo I o quadro europeu e mundial de
exploração do homem que deu origem ao Manifesto Comunista e
à reflexão de Marx que desembocou na teoria da luta de classes. O
choque entre opressores e oprimidos tornaria inevitável uma luta de
classes para a emancipação das vítimas.
A Revolução de1848 contribuiu para que "em vez de se
apresentar imediatamente como económica, a luta de classes assumisse as
formas politicas mais variadas (revoltas operárias e populares,
insurreições nacionais, repressão desencadeada pela
reação interna e internacional, recorrendo a instrumentos
militares e económicos) em vez de desaparecer tornou-se mais dura".
Da Europa o autor salta para os Estados Unidos. Marx no primeiro livro do
Capital qualifica a Guerra de Secessão como "o único
acontecimento grandioso da história contemporânea". Somente
anos mais tarde, o grande revolucionário compreendeu que a
condição dos negros na sociedade norte-americana, dominada por
uma oligarquia racista, mudaria muito menos do que ele esperava e desejava.
Meditando sobre o malogro da Revolução de 1848, Marx e Engels
não desistem de incentivar o proletariado das potências
industrializadas a rebelar-se, sublinhando que na Inglaterra, na França,
na Alemanha os operários são afinal "escravos modernos".
Mas não esquecem que há outro tipo de "escravos
modernos": as nações oprimidas por estados poderosos e os
povos das colónias africanas e asiáticas. Na Europa citam a
Irlanda e a Polónia. A luta pela independência é nelas uma
modalidade da luta de classes.
Para Losurdo a Guerra de 1914/18 é também expressão da
luta de classes, mas em sentido triplo. O conflito, segundo ele, remete para a
luta das grandes potências capitalistas pela hegemonia mundial; nas
metrópoles a classe dominante reduz a combatividade do proletariado
através da prova de força no plano internacional; e, ao ampliar a
exploração colonial, transforma a questão nacional numa
questão social que configura uma luta de classes.
AVANÇOS E RECUOS DA REVOLUÇÃO
A transição do capitalismo para o socialismo e a
extinção gradual do Estado são temas tratados
exaustivamente do Capitulo III ao XII, sempre no contexto da luta de classes,
exacerbada após a vitória de Outubro de 17.
A Nova Politica Económica NEP foi criada na URSS após o
malogro da política do comunismo de guerra. A fome assolava o
país, invadido pelas potências da Entente e devastado pelos
exércitos dos generais brancos.
Lenin ao concebê-la sabia que ela ia impor um recuo da
Revolução, mas que era indispensável para a salvar.
"A classe operaria escreveu em 1920, ainda durante o comunismo de
guerra detém o poder estatal, mas é obrigada a aguentar
grandes sacrifícios, morrer e a passar fome".
O paradoxo, salienta Losurdo, tornou-se mais evidente com a
imposição da NEP: "Agora quem vive em
condições económicas ostensivamente melhores do que a
classe politicamente dominante é uma classe, ou setores de uma classe,
que foi derrubada porque era exploradora".
O aparecimento do
nepman,
rico, corrupto e arrogante, indignava os trabalhadores e suscitou
críticas de muitos militantes do Partido que chamavam à NEP a
"Nova Extorsão do Proletariado". Destacados dirigentes como
Alexandra Kollontai e o seu ex-amante Shlyapnikov aderiram então
à chamada Oposição Operária.
Losurdo dedica páginas à formação da
consciência de classe. Cita Gramsci mas, atento ao lado positivo do
dirigente comunista italiano, não menciona sequer as ambíguas
teses gramscianas em que o eurocomunismo, deturpando-as, se inspirou. E invoca
opiniões de Mao Tse quando advertiu que a expropriação
económica da burguesia não implicara o seu desaparecimento como
classe quando o Partido Comunista conquistou o poder.
A Revolução Chinesa merece-lhe alias uma atenção
especial. Losurdo esteve próximo do maoismo e isso é
percetível na sua obra. No seu livro sobre a luta de classes transparece
uma visão quase romântica do rumo que a China tomou apos as
grandes reformas de Deng Xiaoping. É inegável que elas foram
decisivas para a rápida transformação de um país
atrasado, semicolonial, que cresceu num ritmo inédito, e tem hoje a
segunda economia do mundo. Não cabe neste artigo uma reflexão
mesmo superficial sobre a complexa experiencia chinesa. Mas julgo útil
esclarecer que uma académica marxista francesa, Myléne Gaulard,
afirma na sua tese de doutoramento, "Marx à Pékin", que
a China continua a ser um país capitalista.
A TEMATICA DO NIVELAMENTO UNIVERSAL
No capítulo II Losurdo aborda a temática do "nivelamento
universal".
Rebatendo a falsidade da tese de Alexis de Tocqueville um escritor
venerado pela burguesia francesa no seu livro
A Democracia na América,
segundo a qual já não existiam praticamente classes sociais na
Europa em meados do seculo XIX, o filósofo italiano afirma tratar-se de
um enorme disparate reacionário
Para o liberal francês, principiou desde o seculo X no Ocidente "uma
revolução nas condições de vida" dos povos que
conduzira progressivamente a um "nivelamento universal". A nobreza
recuara na escala social e a plebe avançara. Em breve estariam lado a
lado.
Viveu porem o suficiente faleceu em 1859 para verificar,
consternado, que a revolução industrial inglesa fizera ruir a sua
absurda teoria. Tocquevlle aliás reconhecera que o
"nivelamento" não impedia a existência de
desníveis abissais entre os europeus e os africanos e asiáticos.
Losurdo sublinha que, no seu deslumbramento americano, Tocqueville simula
esquecer a existência de milhões de escravos negros na
pátria de Washington e Jefferson.
Com o seu desprezo pela "raça amarela" o autor
da Democracia na América
desconhece também que ainda em 1820 cabiam à China 32% do PIB
mundial e à India 15%. O imperialismo britânico arruinou
rapidamente os dois países.
O MITO DA PAZ UNIVERSAL DE STUART MILL A ARENDT E HABERMAS
No mesmo capítulo II e no capítulo XI, Losurdo evoca debates
sobre o mito da paz universal e comenta posições de Hannah Arendt
e de Jurgen Habermas relacionadas com uma imaginária nova ordem mundial
que inviabilizaria novas guerras.
Lembra que o liberal Stuart Mill identificara no Imperio Britânico o
prólogo a uma futura comunidade universal e à
cooperação e à paz entre os povos. Para ele nenhum outro
povo encarnava como o britânico a causa da liberdade e da moralidade
internacional. E pretende justificar essa monstruosa opinião afirmando
que as populações atrasadas têm o maior interesse em se
integrarem nesse império para evitar a absorção por
qualquer outro estado colonizador.
Conclusão: as guerras seriam em breve uma quase impossibilidade.
Losurdo obviamente ridiculariza e pulveriza o discurso imperialista de Stuart
Mill.
Diferentes, mas igualmente aberrantes são as opiniões sobre a
transformação do mundo de Arendt e do filósofo Habermas.
A sionista americana qualifica a luta de classes de "pesadelo". Para
ela a ciência e a tecnologia estão a contribuir para o advento de
uma nova ordem mundial.
A Historia desmente essa esperança. Losurdo cita dois exemplos. A
introdução no Sul dos Estados Unidos da máquina de
descaroçamento do algodão não afetou minimamente segundo
ele o trabalho escravo. Em 1790 o total de escravos não atingia 697
mil;em 1861, em vésperas da guerra da Secessão, ultrapassava 4
milhões.
Na India, o governador-geral, em 1864, definia como catástrofe social a
introdução da maquinaria algodoeira. Arruinou milhões de
tecelões hindus. "Dificilmente uma tal miséria
escreveu encontra paralelo na história do comércio".
Ao contrapor os benefícios da tecnologia aos males da luta de classes,
Arendt esboça um panorama otimista do futuro. O filósofo Habermas
considera a luta de classes obsoleta e desnecessária. Segundo ele o
estado social apos a II Guerra mundial conduzira a uma
pacificação dos trabalhadores, tanto sob governos
social-democratas como conservadores.
Essa ingénua convicção carecia de base científica.
A brutal ofensiva do neoliberalismo, inspirado nas teses reacionárias do
austríaco Friedrich Hayek, destruiu as bases do chamado estado social em
toda a Europa.
O POPULISMO E A LUTA DE CLASSES
O último capítulo do livro, o XII, incide sobre "a luta de
classes entre o marxismo e o populismo".
O autor cita repetidamente Simone Weil.
Para Marx a luta de classes é o motor do processo histórico e
social; para Weil "é um momento moralmente privilegiado na
história e na vida dos homens". A francesa é uma
crítica severa da modernidade, da indústria, das novas
tecnologias. O seu populismo tem afinidades com o pacifismo de Gandhi e com
ideias do senegalês Senghor e inclusive com o projeto de Proudhon de
ajuda aos pobres.
Losurdo acha que o populismo, sobretudo o de esquerda, "estimula uma
visão da luta de classes que exclui do seu raio de ação
acontecimentos decisivos da história mundial".
Acrescentarei que um destacado populista de esquerda, o talentoso vice
presidente da Bolívia Garcia Linera, exibindo uma máscara
marxista, tem desempenhado um papel nocivo ao influenciar prestigiados
intelectuais progressistas da América Latina.
A EXTINÇÃO DO ESTADO
São poucas as páginas em que Losurdo retoma no seu livro a
problemática da extinção do Estado. Não
conheço outro pensador comunista que tenha abordado com tamanha coragem
e lucidez essa questão fulcral. Repete agora aquilo que noutros ensaios
afirmou ao considerar romântica a tese marxiana da extinção
gradual do estado. O autor do Capital via como desnecessário o Estado na
futura sociedade comunista porque, desaparecidas as classes sociais nas
sociedades socialistas adultas, o Estado seria nelas uma
instituição supérflua, sem função.
Marx faleceu muito antes de que o rumo da História demonstrasse na
primeira sociedade socialista a ingenuidade da teoria marxiana da
extinção do Estado. Lenin tinha-a defendido no seu famoso livro
O Estado e a Revolução,
escrito nas vésperas de Outubro de 17. Mas teve de rever a sua
posição. O Estado soviético em vez de caminhar para a
extinção fortaleceu-se cada vez mais. Por motivos muito
diferentes ocorreram processos similares na China, no Vietnam, em Cuba, nas
democracias populares da Europa oriental.
Marx não podia adivinhar as respostas que a História daria
à sua ousada previsão. Nem Lenin, nem Mao, nem Fidel e o Che
podiam antecipar que o mítico homem novo imaginado por
gerações de comunistas tardará muito a surgir. Ora, sem
ele a transição do socialismo para o comunismo é
impossível. A tendência para reconstituição gradual
das classes sociais torna o Estado imprescindível.
Uma nota pessoal para findar este texto sobre o importante e polémico
livro de Domenico Losurdo sobre a Luta de Classes.
O professor da Universidade de Urbino acumulou uma prodigiosa
erudição. A sua cultura, que abarca múltiplos ramos do
conhecimento, sobretudo nas áreas da filosofia, da história e da
sociologia, contribui paradoxalmente para dificultar a leitura de alguns
capítulos. Porquê? Pela rapidez das transposições.
Muda inesperadamente de um tema para outro, de um autor para um acontecimento,
de um tema económico para um exemplo, da análise de uma crise
para uma citação que surpreende, da reflexão sobre as
causas da desagregação da URSS para o mito do homem novo.
Losurdo é permanentemente imprevisível. Discordo de algumas
posições suas. Mas a discordância não afeta a grande
admiração que sinto pela obra e pelo homem.