Entrevista ao
Diário Liberdade
por Miguel Urbano Rodrigues
Durante a sua visita à Galiza para participar nas
XVI Jornadas Independentistas Galegas
, que decorrêrom em Compostela há umha semana, o
Diário Liberdade
nom deixou passar a ocasiom de entrevistar o veterano jornalista e
militante comunista Miguel Urbano Rodrigues.
Profissional do jornalismo e deputado do PCP durante duas legislaturas, viveu
durante anos, além de no seu Portugal natal, em países como Cuba
e o Brasil, percorrendo outros muitos do continente americano e do resto do
mundo. Aos seus 86 anos, Miguel Urbano Rodrigues visitou a capital da Galiza
para intervir nas Jornadas Independentistas Galegas organizadas por Primeira
Linha, sendo a sua intervenção entusiasticamente acolhida pelo
numeroso público, segundo pudemos comprovar diretamente. Além de
partilhar experiências e conhecimento da sua trajetória militante,
afirmou a sua solidariedade com o povo galego e o apoio à unidade
linguística galego-portuguesa, assim como a necessidade de aprofundar
nos relacionamentos entre ambos povos, Portugal e Galiza, a todos os
níveis.
Oferecemos a seguir, para as leitoras e leitores do
Diário Liberdade,
a
transcrição da nossa conversa com o camarada português
Miguel Urbano Rodrigues, que a partir deste momento passa também a fazer
parte dos colaboradores da seçom de Opinião Própria do
nosso portal.
Diário Liberdade
- O primeiro que devemos perguntar é se já
tinhas estado na Galiza anteriormente.
Miguel Urbano Rodrigues - Já. Estive várias vezes na Galiza em
encontros internacionais em Vigo e Ponte Vedra. Também estive de
férias para visitar Compostela e as rias, porque adoro a Galiza.
DL - Como militante, para além de teres uma atividade e uma
produção muito intensa e continuada, também viajas muito
para participar em eventos como este aqui na Galiza. Qual é a
importância que dás a este tipo de encontros, aos debates e
às discussões públicas como a que hoje ocorreu em
Compostela?
Miguel Urbano - Foi a vida que me permitiu correr um pouco pelo mundo. Estive
exilado do fascismo durante 17 anos na América Latina e mais tarde,
quando terminei a vida pública, vivi 8 anos em Cuba, o que me permitiu
circular por todo o continente americano e sentir como meus os processos de
luta dos diferentes povos.
A minha condição passada de deputado pelo meu partido permitiu-me
também correr muito não só pela Europa, como pela
Ásia e pela África. A compreensão da diversidade das
culturas dos povos teve uma grande influência na evolução
do meu pensamento, porque a terra é a pátria comum do ser humano.
Quanto aos eventos, tenho participado em eventos muito diferentes uns dos
outros mas, sem pretender ser agradável, devo dizer que foi extremamente
gratificante para mim estar aqui com os camaradas e amigos galegos, porque por
vezes, em grandes congressos e seminários internacionais, assistes a uma
exibição de vaidades mas aqui, na Galiza, há uma
preocupação verdadeira pela reflexão sobre o nosso tempo,
sobre os grandes problemas que enfrentamos, sobre a crise da humanidade, etc.
Aqui os discursos foram simples e acessíveis e as perguntas
inteligentes, de maneira que foi muito gratificante para mim estar aqui neste
encontro.
DL - Nem toda a esquerda portuguesa, nem sequer a revolucionária,
entende bem as causas das nações oprimidas, como a Galiza, a
Catalunha ou o País Basco. Qual é a tua opinião sobre o
assunto?
Miguel Urbano - Há pouco eu disse que já não emprego a
palavra 'esquerda' devido à perversão. O que é em Portugal
a esquerda? Na realidade, se excetuarmos um pequeno número de
personalidades independentes, a esquerda exige hoje uma definição
clara de ser anticapitalista, mas há forças que se dizem de
esquerda que não são contra o capital ou, então, querem
reformar o capitalismo, mas não desejam como alternativa o socialismo.
A base social do Partido Comunista Português é verdadeiramente
revolucionária e põe como alternativa o modelo socialista.
Quanto ao que se passa aqui na Galiza, nós temos um sistema
mediático tão perverso e péssimo quanto o espanhol. Eu
quando era jovem iniciei-me nas atividades políticas como
repórter, mas hoje o jornalismo ainda é pior que no tempo do
fascismo. Naquela altura, o combate ao fascismo obrigava a um certo respeito
pela ética, mas hoje o jornalismo tornou-se muito mercenário com
os media controlados pelo grande capital.
Eu venho agora do Brasil, onde estive justamente no aniversário do
Partido Comunista Brasileiro no qual eu militei na juventude e no
Brasil ainda há uma certa, não direi liberdade, mas uma certa
abertura ou uma certa possibilidade de serem expressas opiniões
contrárias e incompatíveis com as direções e os
proprietários dos jornais do sistema.
Em Portugal, a base das redações é constituída por
mercenários controlados pelas chefias que ditam os interesses e desviam
as atenções sobre assuntos absolutamente irrelevantes com a
omissão total ou parcial de grandes acontecimentos ou problemas de luta
que não lhes interessa divulgar. Hoje aqui falou-se muito da
Síria, mas no mundo fala-se pouquíssimo. São apenas
três ou quatro linhas nos crimes do império norte-americano. O que
está a acontecer no Afeganistão, que é uma guerra perdida,
merece quatro ou cinco linhas e aqui creem que é a mesma coisa.
As pessoas só se podem interessar quando há um acesso ao
conhecimento. Em Portugal, quem fala da Galiza é o turista que a foi
visitar e gosta da catedral e da parte histórica de Santiago de
Compostela, e acontece a mesma coisa em relação aos problemas da
Catalunha ou do País Basco.
Recentemente houve em Portugal um movimento liderado por Saramago que defendia
a integração de Portugal no Estado espanhol. Chegou a dizer
até que como região autónoma tal como a Andaluzia ou as
Astúrias. Aquilo motivou reações de várias pessoas
como eu e outras perante tal disparate. Se o Estado espanhol depois de
séculos de opressão não conseguiu resolver os problemas da
Galiza, da Catalunha ou do País Basco, como é que ia resolver os
problemas dos portugueses? Evidentemente que isso é um absurdo completo,
mas seria necessário que nós tivéssemos um sistema
mediático diferente do atual para que se falasse e que as massas fossem
sensibilizadas com acesso ao conhecimento que hoje não têm.
DL - Mas na nossa pergunta anterior estávamos a falar inclusive das
pessoas conscientes e mais politizadas.
Miguel Urbano - Eu não quero entrar em problemas de estratégia do
meu partido, já que não estou aqui a título
partidário. Só posso é registar o facto de que se
dá pouca atenção a esses problemas, embora individualmente
haja quadros e intelectuais que escrevem, particularmente, sobre a
questão basca, mais do que sobre a galega. Da Galiza há quem
escreva, mas acho que é um assunto pouco tratado.
DL - Como militante revolucionário português, achas que a Galiza
devia ocupar um lugar especial no relacionamento futuro com Portugal na
perspectiva de uma reestruturação da Península
Ibérica com base na soberania dos povos? Achas que essa história
comum que nos une devia também projetar-se no futuro num relacionamento
especial entre os dois povos?
Miguel Urbano - Acho que sim. Portugal é filho da Galiza, quer no
idioma, quer na história. Ainda hoje é impressionante chegar aqui
e ver as afinidades. Tirando as mínimas diferenças entre uma
determinada maneira de falar e de escrever, há afinidades enormes.
Nessas afinidades culturais, há um espaço de cultura
galaico-portuguesa que transcende os dois povos.
Eu recordo que o José Velo Mosqueira, que participou na tomada do
Santa Maria
e de quem eu fui muito amigo e que era um revolucionário
romântico e um ser humano maravilhoso...
DL - ...e partidário da independência da Galiza.
Miguel Urbano - Pois é. Quando ele chegou ao Brasil depois da
ação do Santa Maria em que também eu participei, ele
começou a chorar nas ruas ao ver as lojas. Ele dizia: 'Estou a ver as
coisas escritas na minha língua...' e ficou comovido. Em Portugal,
há agora a campanha de uns intelectuais, eu diria presunçosos, a
quererem derrubar o Acordo Ortográfico. Eu acho que a ortografia comum
é uma questão demorada no tempo, mas que é útil.
Nas organizações internacionais, os países que usam o
castelhano como língua conseguiram adotar uma ortografia comum
independente de que no México ou no Peru a oralidade seja diferente.
Eu fui deputado nalgumas organizações internacionais e recordo da
burrice de alguns deputados portugueses, que não queriam as
traduções brasileiras. Isso é uma estupidez completa,
filha da ignorância. As camadas cultas brasileiras falam um
português do século XVIII que até é mais puro do que
o português de Portugal.
Nós temos que ter uma ortografia comum, embora os angolanos, os
moçambicanos, os guineenses ou os timorenses falem doutra maneira.
Por agora, há um domínio político até negativo
dessa comunidade de Estados de língua portuguesa ou galaico-portuguesa,
mas penso que há que aprofundar nas relações, e isso
é importante.
Do ponto de vista da idiossincrasia, do olhar sobre a vida, do sentir...
há mais afinidade entre um galego e um português do que entre um
galego e um cidadão de Valência ou de Granada.
Há que acabar com as campanhas estúpidas contra o Acordo
Ortográfico. Eu chego ao Brasil e sinto-me brasileiro e se chego aqui,
as lutas do povo galego são as minhas lutas.
Como dizia o grande escritor português António Sérgio, a
minha pátria, se eu estou em um país, é a minha
identificação com as lutas desse povo. Aqui eu sou galego.
DL - Indo agora para Portugal, como vês a evolução dos
acontecimentos na crise atual, tendo em conta que Portugal, juntamente com a
Grécia, talvez seja o povo que mais está a sofrer a
degradação que está a experimentar o capitalismo no
continente europeu? A Grécia está a dar uma batalha muito forte e
intensa com greves e mobilizações sucessivas, mas Portugal nem
tanto. Dá a impressão de que exista uma certa passividade.
Corresponde isto com a realidade? Como vês a evolução da
crise no teu país?
Miguel Urbano - Não é fácil responder a esta pergunta. Eu
hoje falei aqui das condições da Grécia. As
condições objetivas em Portugal, como na Irlanda ou no Estado
espanhol têm muitas afinidades, mas as condições subjetivas
é que são diferentes.
A Grécia tem uma história de sofrimento e de heroísmo
através dos séculos, da colonização, da
ocupação... Basta dizer que é o único país
dos Balcãs que conseguiu preservar a sua língua. Os gregos
resistiram a toda agressão de culturas estranhas. Todo isto facilitou a
luta da independência nacional, facilitou a resistência aos
alemães, facilitou a insurreição afogada em sangue pelo
exército britânico.
Em Portugal não há essas condições mas em Portugal;
houve sim uma revolução muito profunda e que também
é muito mal conhecida, porque depois da Comuna de Paris não houve
na Europa ocidental uma revolução que realizasse num
período de tempo mínimo conquistas tão profundas como a
revolução portuguesa.
Mesmo a reforma agrária mais importante que se fez em toda a Europa foi
a reforma agrária portuguesa, essencialmente na minha província,
nos campos do Alentejo. Os camponeses coletivizaram as terras e chegaram a ter
empresas modelo, algumas chegaram a receber prémios na altura da CEE.
Essa revolução realizou conquistas que explicam também a
ferocidade da contraofensiva da burguesia.
A burguesia portuguesa, com plena aprovação do imperialismo, tem
destruído extraordinárias conquistas da Revolução.
Basta dizer que, em determinado momento, o serviço de saúde
português era o quinto ou o sexto melhor do mundo e isto era uma
conquista da Revolução de Abril. Houve conquistas dos
trabalhadores no controlo operário durante períodos curtos que
foram muito importantes. Ficaram as sementes, mas agora, como é que elas
vão desabrochar? Isto insere-se nos problemas que foram aqui discutidos
e que o Jorge Beinstein, particularmente, colocou muito bem sobre o problema da
insurreição.
Eu não gosto de fazer futurologia, mas creio que é um tema que
não foi hoje aqui abordado e que exige reflexão. A
reação do povo norte-americano contra a guerra do Vietnam
apressou o fim da guerra. Na Argélia foi também, no fundo, a
rejeição da guerra colonial que a França mantinha que fez
com que um milhão de franceses abandonasse a Argélia e
regressasse à França. Uma guerra colonial que era uma
monstruosidade.
Acho que é possível e acredito que é muito provável
que nos Estados Unidos ocorram num prazo de tempo não muito distante
movimentos que se ampliem.
Não vamos dizer se é os indignados se é Occupy Wall Street
ou o que for... mas são sintomas do que está a acontecer, embora
inorgânicos, embora marcados pelo espontaneísmo, não levam
à vitória, mas aquilo é como uma maré que enche.
Ela pode
baixar em parte, mas acredito que não vai ser possível conter a
rejeição de um sistema em que toda a política deste
governo, da mão dos presidentes que mais ameaçam a humanidade
pela sua política, como o presidente Obama, que só favorece o
grande capital financeiro e as grandes transnacionais.
O povo, vítima da crise, não percebe quaisquer benefícios.
Acho que vai continuar a fermentar essa área de resistência nos
Estados unidos e haverá convergências como disse o Beinstein, e
lutas que se inserem umas nas outras.
O capitalismo está condenado. É impossível a sua
sobrevivência. À medida que a crise nos Estados unidos aprofunde
uma rejeição cada vez maior das massas, na Europa poderão
explodir outras crises que vão convergir e isso pode ser fatal para o
sistema de poder imperial.
DL - Precisamente queríamos perguntar pelo movimento Occupy Wall Street,
que teve seu precedente inicial não no Estado espanhol, como se diz, mas
em Portugal, com a geração à rasca. Foi em Portugal que
surgiu primeiro esse movimento de indignação espontânea com
muita participação juvenil. Que opinião tens do papel que
a juventude está a jogar nesse movimento?
Miguel Urbano - Na altura escrevi um texto, quando começou o movimento
dos indignados, recusando certa atitude simplista de dizer com um ar quase de
desprezo que não conduzia a nada.
Eu acho que aqueles jovens não foram capazes de definir o que é
que querem nem para onde vão, mas foi extremamente importante a
rejeição e a tendência para aquela consciência de
rebeldia contra o sistema. Uma percentagem ponderável dessa juventude
irá evoluir para uma consciência de classe e uma consciência
social. É uma questão de tempo.
É evidente que não podemos subestimar o imperialismo que, muito a
tempo, impõe um controlo e uma realidade virtual. Como é
possível que, num país como França, estejam empatados
neste momento Sarkozy e Hollande?
Não é que o Hollande seja qualquer coisa a não ser um
capitalista, mas pior que o Sarkozy é impossível, porque é
um neofascista e um racista. Não obstante, está empatado, depois
de meses atrás ter popularidade baixíssima.
A perversão do sistema e de falsificação da
história permite situações como esta.
Eu estava em França quando a citada lei do primeiro emprego, que na
verdade era uma lei para promover o desemprego, propiciou uma
reação violenta dos estudantes da Sorbonne de Paris.
Eu na altura estava num hotel em frente mesmo da Sorbonne, bloqueada pelas
forças da repressão, e as manifestações
começaram a sair à rua com centenas de milhares. Ocuparam a
Sorbonne, depois foram expulsos e espancados pela polícia. A seguir,
centenas de milhares de pessoas, depois um milhão, dois milhões...
Com a opressão das massas aconteceu algo que era incomum. O parlamento
francês, que tinham ocupado e que tinha aprovado a lei do primeiro
emprego, e o presidente Chirac que a tinha promulgado foi obrigado a revogar a
lei. A movimentação das massas teve a força do poder num
Estado capitalista.
Isto demonstra as potencialidades que há nas lutas quando ela é
prioridade, enquanto a luta de massas for encarada como um complemento das
lutas no parlamento, isso será muito difícil e isso é o
que está a acontecer.
DL - Nos últimos anos dá a impressão de que as lutas de
massas no Estado espanhol estão a acompanhar as alternâncias de
poder em cada eleição, não sei como é em Portugal
ou na França. Os governos mudam, mas as políticas não.
Parece que não é nos parlamentos que se vai resolver a
situação...
Miguel Urbano - Não é, mas é muito difícil
também traduzir as palavras de que a prioridade é para a luta de
massas numa ação concreta e eu citei hoje o caso da
Grécia. Na Grécia a mobilização não
pára. Faz uma mobilização de 200.000 pessoas, depois de
300.000 pessoas... em Portugal saíram 120.000 professores à rua
para protestar contra as leis que atingiam aos professores. Houve
manifestações constantes, houve greves, mas também
há refluxo.
A grande lição da Grécia é que tudo está
articulado em lutas permanentes. Esta luta permanente é a que
dará então à mobilização das massas um
carácter que pode conduzir para uma situação
pré-revolucionária que depois desemboca, por sua vez, na
insurreição sob a qual o Lenine escreveu o seu famoso ensaio 'A
arte da revolução'.
Mas eu hoje chamei a atenção aqui para um problema que acontece
com frequência. Fala-se da alternativa, mas a alternativa tem que ter
propostas concretas. Nós dizemos que a alternativa é o
socialismo, mas não temos ainda uma teoria que seja gratificante para as
massas.
O resultado do que se passou na união de toda a Europa ocidental
é a ausência de uma teoria de transição do
capitalismo para o socialismo. Como é que depois, quando se toma o poder
se constrói socialismo? Isto é muito complicado e temos o exemplo
de Cuba.
Cuba fez uma revolução heróica, continua a ser uma
revolução que é uma grande contribuição para a
história da humanidade mas permanece o problema da
construção do socialismo devido ao bloqueio. Todo o povo
cubano foi privado das condições mínimas que permitiam
construí-lo.
Não há socialismo verdadeiro sem uma participação
intensa da massa. É o povo, que é o sujeito da história,
que tem que desempenhar o papel fundamental na construção do
socialismo. Quando há um socialismo encarado como resultado de medidas
por melhores que sejam, mas que é de cima para baixo, que é
outorgado, o resultado é negativo.
Eu vivi na América Latina, no Brasil, Chile e Peru. Acompanhei o
processo da unidade popular e o processo do general Velasco Alvarado. Ao
contrário do que muita gente pensa, por exemplo no Estado espanhol, no
Peru fizeram-se conquistas muito mais importantes do que no Chile. Não
no plano político, não no económico, mas no Peru
praticamente socializou-se tudo, mesmo a imprensa que não foi
estatizada, mas socializada. Velasco expropriou os jornais, entregou um
à juventude, outro à reforma agrária, outro às
comunidades industriais, outro à pesca, outro à cultura, outro
aos jornalistas...
Fizeram a reforma agrária mais importante que se fez na América
Latina, mais que a mexicana, só que os camponeses com a cultura do
incário e com toda aquela ingenuidade revolucionária, entre
aspas, de querer transplantar a revolução cubana, não a
souberam defender. Eu recordo que havia comunidades riquíssimas e, em
vez de investirem, iam comprar prédios em Lima ou então as
índias iam fazer cesarianas porque as senhoras faziam cesariana...
Isto demonstra que aquilo que é oferecido de cima para baixo, e
não é conquistado em luta pela classe trabalhadora, não
tem base para se sustentar. Bastou um presidente traidor, Morales Bermudes,
para destruir tudo em pouco tempo e converter o governo num dos mais
reacionários da América.
DL - Portanto avalias as experiências socialistas no século XX
como insuficientes ou insatisfatórias.
Miguel Urbano - É. Mesmo na Europa oriental, onde eu conheci todos esses
países menos a Albânia, que aliás não era um
país socialista.
DL - Não era?
Miguel Urbano - Não, nunca foi. A Albânia nunca chegou a ser um
país socialista, mas uma caricatura. Não é que fosse
influenciada pelo maoísmo... toda a teoria do Enver Hoxha... aquilo
não era sério.
Qualquer desses países todos diferentes e não se deve
generalizar, herdeiros de culturas muito diferentes e situações
históricas diferentes, em todos foi a presença do exército
vermelho ao libertar esses países que permitiu que os partidos ocupassem
o poder, embora alguns com alianças da burguesia progressista, mas
não foi conquistado pelo povo, de maneira que não havia solidez
nesses regimes para sobreviver.
Conheci o general Jaruzelski, que era um grande patriota, uma pessoa das que eu
admiro, mas conheci por exemplo na Hungria o diretor e membro da
comissão política do
Népszava,
o jornal que era órgão oficial do partido. Durante a guerra das
Malvinas, eu estava em Budapeste e queira conhecer os telegramas do dia e ele
disse-me: "não sei porque é que você está
interessado por esta guerra entre o imperialismo britânico e uma ditadura
primária, porque eu estou longe disso, mas apesar de tudo prefiro os
ingleses, que são um povo civilizado". Isto mostra o que era a
ficção do socialismo em que um dirigente político diz uma
coisa destas, marcadas de racismo profundo.
Quanto à União Soviética, o partido grego [KKE] talvez
seja o partido que tem os estudos mais profundos sobre as causas do fim da
desagregação da União Soviética e da
reimplantação do capitalismo.
Também Charles Bettelheim, economista e sociólogo francês,
comenta que as causas principais foram a falta de uma teoria e que a luta de
classes prolongou-se dentro do partido, isto é o que ele chama as
guerras civis. Mas há outros dizem que foi o Vigésimo Congresso.
Então os responsáveis seria o Trotsky, seria o Stálin,
seria o Khrushchov... um absurdo, não se pode ver uma crise tão
profunda como a que levou à reimplantação do capitalismo
atribuindo ou a uma personalidade ou a uma única causa, É todo
uma soma de fatores que ao longo do tempo se vão acumulando e que
produzem esse efeito, e nós temos que perder esta tendência
sectária de personalizar as crises e atribuir a este ou àquele,
porque isso é um absurdo completo. No caso de Stálin ou Trotsky,
ou tudo foi perfeito ou tudo foi errado, e não foi, nem num nem no
outro. Foram o que foram, seres humanos com acertos e com erros e que ao longo
da vida tiveram posições muito diferentes. Há uma
tendência dominante que não ajuda à compreensão da
complexidade da história.
DL - Apesar do insatisfatório destas experiências socialistas do
século XX, e apesar também do grau de fragmentação
e desintegração das organizações
revolucionárias, do estado atual de certo antipoliticismo,
antipartidismo e uma defesa abstrata dos movimentos sociais... Todo este
panorama que se apresenta permite-te ser otimista ainda, apesar de tudo, de
cara a este novo século que vivemos?
Miguel Urbano - Eu sou otimista desde a minha idade. Nós vemos que logo
após a reimplantação do capitalismo na União
Soviética, e ainda antes, começaram a surgir uma série de
obras, entre elas aquela obra daquele funcionário do Departamento de
Estado, Francis Fukuyama sobre o fim da história, que dizia que o
neoliberalismo ia ser a ideologia definitiva e que o marxismo era obsoleto.
Começaram primeiro por atacar o Stálin, deste passaram ao Marx,
deste ao Lenine... e a seguir era uma ofensiva permanente e pensou-se que tudo
tinha acabado.
Porém, nos últimos anos estamos a assistir a um fenómeno
que é contraditório, sobretudo na Europa ocidental, nos lugares
onde os partidos comunistas não foram destruídos ou
socialdemocratizados. No caso de França ou de Itália, foram
destruídos e noutros são partidos que tiveram uma
traição de intelectuais que se diziam marxistas e com muitos
atravessaram para o outro lado do rio.
No entanto, assiste-se a um renascimento da intelectualidade brilhante que
está a produzir obras que exigem... e citei já aqui alguns como o
Domenico Losurdo em Itália, Georges Labica e Georges Gastaud em
França ou Jean Salem, que recomendo particularmente aqui aos amigos
galegos e que tem um pequenino livro que nós traduzimos para o
português que se chama:
Lenine e a revolução.
É um livro que foi traduzido no Brasil e em Portugal e que em menos de
100 páginas apresenta seis teses de Lenine e mostra a plena atualidade
do pensamento de Lenine para compreendermos a crise do nosso tempo. É um
ensaio luminoso, brilhante e numa linguagem facílima.
Estou a citar estes casos para nós entendermos os processos da
América Latina, que se tratou hoje aqui permanentemente. Às vezes
há um bairrismo na América Latina, Europa, Ásia. Na
Venezuela vi recentemente alguns intelectuais, até amigos e de respeito,
a dizerem que a Europa está decadente. Nós não podemos ver
as coisas dessa maneira. Temos que ver é quais são as
posições e que tipo de atitudes e olhares da crise
contemporânea se têm e extrair de cada lado o melhor que há.
Hoje falou-se muito aqui do socialismo do século XXI. Eu considero
absolutamente negativo que num país que desempenha um papel
absolutamente fundamental na América Latina hoje como é a
Venezuela e do povo venezuelano e todo esse processo revolucionário em
andamento, contraditório... considero, como digo, absolutamente negativa
essa ideia de agora de que vamos descobrir o socialismo perfeito que é o
socialismo do século XXI. Isto é um disparate e não ajuda
nada, devemos dar muito combate a este sectarismo.
DL - Então dá para sermos otimistas?
Miguel Urbano - Eu sou apesar de tudo otimista e tendo a meu favor o facto de
ter 86 anos. O meu tempo de vida útil é muito breve, mas como eu
aqui hoje dizia, não tenho compromissos com o calendário, o meu
compromisso é com as ideias pelas quais vivi, pelas quais lutei e nas
quais eu acredito. Nesse sentido, eu acredito na humanidade, que padeceu
incontáveis crises desde o começo das primeiras
civilizações do Mediterrâneo oriental e do Médio
Oriente e que sempre conseguiu encontrar saídas e que vai encontrar
novamente as saídas.
A história não são 10 ou 15 anos. A rapidez com que os
Estados Unidos perderam esta ideia de que queriam conquistar o domínio
perpétuo e universal sobre a humanidade... estes mitos estão a
ser destruídos pelo andamento da história e a luta dos povos.
DL - Umas palavras finais para os galegos e as galegas que vão ler esta
entrevista no
Diário Liberdade
?
Miguel Urbano - Quero repetir a minha grande alegria por estar aqui. Portugal
é filho da Galiza e a nossa língua nasceu aqui. Eu sou,
evidentemente, profundamente solidário com a luta do povo da Galiza
contra a opressão secular de que tem sido vítima e espero que
encontre a saída, que seja a mais progressista e a que responda
particularmente aos comunistas galegos na sua luta corajosa.
DL - Obrigado, camarada Miguel!
30/Abril/2012
O original encontra-se em
www.diarioliberdade.org/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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