Algumas palavras sobre
Enquanto a Memória Responde,
de Miguel Urbano Rodrigues
Este livro surge diz-nos o Miguel para preencher o "vazio
doloroso" nele gerado pela desistência de escrever uma novela sobre
a Reforma Agrária na Margem Esquerda do Guadiana. É pena que
tenha desistido dessa novela, mas ainda bem que escreveu este livro.
Segundo o Miguel, este livro "terá algo de ensaio sem o ser".
É possível. Mas eu vejo nele um discorrer fascinante de
memórias; de registos breves de factos e de acontecimentos vividos pelo
autor nas suas viagens e estadias pelo mundo; de relembranças do vasto
conjunto de pessoas que marcaram a sua vida; de análise a acontecimentos
e situações em vários países, aí
incluído Portugal e é um livro onde a memória da
infância alentejana do autor e a memória do Alentejo têm
lugar de destaque.
Contudo, este livro é também um despertar da nossa memória
a memória da vasta obra produzida pelo Miguel, designadamente
sobre a Ásia Central e a América Latina que ele conhece
como ninguém e onde, no que me toca, aprendi muito.
Vem a propósito, lembrar que soube da existência do Miguel em
finais da década de sessenta do século passado, através de
um livro que me chegou às mãos, vindo do Brasil, que abordava o
tema da luta de guerrilhas na América Latina. Foi um livro marcante para
o jovem acabado de sair da prisão que eu era e que me levou a pensar
que, a partir dali, seria leitor de tudo o que aquele autor escrevesse. E fui.
Voltando à obra que aqui nos trouxe: este
Enquanto a Memória Responde
fez-me lembrar, também, a obra de ficção do Miguel
os admiráveis romances
Alva
e
Etna no Vendaval da Perestroika
(este escrito em parceria com a Ana Catarina), romances que a crítica
dominante silenciou absolutamente, ela lá saberá
porquê
e muitos outros textos do autor: os editoriais de
o diário
, os muitos artigos publicados no
Avante!,
os artigos do blogue
odiário.info
, as intervenções produzidas em dezenas de conferências e
fóruns internacionais sempre escritos de análise profunda
da realidade, sempre escritos de resistência e de combate.
Não quero deixar de sublinhar, ainda, a importância de uma outra
vertente da actividade do Miguel: os Encontros de Serpa, de que ele tem sido o
grande dinamizador e organizador e que constituem das mais relevantes
iniciativas realizadas no nosso País, trazendo junto de nós,
vindos de todo o mundo, alguns dos maiores pensadores marxistas da actualidade.
Enfim, o Miguel é um homem que tem corrido o mundo a observá-lo,
a analisá-lo e a produzir um conjunto de textos notáveis que
fazem dele um dos grandes pensadores portugueses do nosso tempo.
Neste livro, o autor convida-nos a conhecer e acompanhar o percurso de um
conjunto de personalidades; fala-nos da amizade e do amor; fala-nos da luta dos
trabalhadores e dos povos e das dificuldades que se apresentam a quem se bate
pela transformação do mundo fala-nos, por isso, da coragem
necessária para lutar e convoca-nos à reflexão
sobre o tempo que vivemos.
Em meia dúzia de páginas, caracteriza o parlamento burguês,
a partir da sua própria experiência como deputado comunista, e
denuncia a farsa representada pelos deputados da burguesia enquanto
avalizadores das decisões do poder executivo, imprimindo uma fachada
democrática a um regime que é, de facto, uma ditadura de classe,
a ditadura do grande capital.
Noutra meia dúzia de páginas reduz o personagem Mário
Soares à sua verdadeira dimensão e identifica cirurgicamente a
desprezível criatura como o principal responsável pela
contra-revolução.
E por aí afora.
Para o Miguel, a amizade é um valor intrínseco à sua
condição de ser humano. Por isso nos fala das suas amizades
das muitas que fez ao longo da vida a começar pelo
"primeiro amigo", o irmão Urbano, passando pelo grande
revolucionário e escritor chileno Volodia Teitelboim, pelo general Vasco
Gonçalves, figura maior da história do nosso País (de quem
o Miguel confessa ter perdido dezenas de cartas que por ele lhe foram enviadas
para Havana dezenas de cartas, cada uma com várias páginas
cheias de uma letra miudinha, certamente falando da Revolução de
Abril e da contra-revolução que se lhe seguiu; e assim se perdeu
um precioso contributo para a história de Portugal nas últimas
mais de três décadas. Enfim, uma falha sem desculpa
possível
); e a amizade com Marla Muñoz, a maravilhosa
camarada cubana (que é também, permitam que aqui o confesse, a
minha muito querida amiga Marla), que já esteve aqui connosco, uma vez,
na Festa do Avante.
E o Pires Jorge, com o seu sorriso que "irradiava uma alegria que o
tornava inconfundível, o sorriso de um homem que amava cada instante da
vida", um homem que "não precisou de ler Demócrito e
Epicuro para saber que procura da felicidade possível é a suprema
aspiração do homem", um homem para o qual "a
Revolução é indissociável do desafio de transformar
o mundo com alegria e amor, fruindo a beleza do acto de viver"
Como não podia deixar de ser, o Miguel fala-nos também de Cuba e
faz a valorização da heróica resistência do povo
cubano à longa, implacável e criminosa ofensiva do imperialismo
norte-americano uma resistência sem a qual, diz-nos o autor, a
revolução bolivariana não seria hoje uma realidade, sem a
qual Evo Morales e Rafael Correa não seriam presidentes da
Bolívia e do Equador; uma resistência a confirmar que
sim, é possível
resistir e travar o colosso imperialista. E expressa
preocupações com as dificuldades e os problemas que pesam sobre
os comunistas e o povo cubano mas também a esperança e a
confiança em que essas dificuldades e problemas possam ser superados.
A fechar o livro, o Miguel fala-nos, é claro, do amor da sua
companheira, a Caty, a Ana Catarina naquelas que são, a meu ver,
as mais belas páginas deste livro.
Duas últimas observações:
Quando, nos anos sessenta, o Miguel aderiu ao PCP, fê-lo muito à
sua maneira: dirigiu-se ao responsável do Partido no Brasil,
comunicou-lhe a adesão e fez questão de acrescentar: "Vou
lutar com os comunistas pelo tempo adiante. Podem contar comigo para
sempre".
E o Partido contou e conta com ele para sempre.
A dada altura, diz-nos o Miguel neste seu livro: "Sei que continuarei a
escrever até ao fim da vida útil, enquanto for aquele em que,
mudando, me reconheço".
Quer isto dizer que vamos ter escritos do Miguel durante muito tempo. E ainda
bem,
[*]
Director do
Avante!.
Apresentação realizada em 8 de Setembro na Festa do Avante/2012
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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