Algumas palavras sobre Enquanto a Memória Responde, de Miguel Urbano Rodrigues

por José Casanova [*]

Este livro surge – diz-nos o Miguel – para preencher o "vazio doloroso" nele gerado pela desistência de escrever uma novela sobre a Reforma Agrária na Margem Esquerda do Guadiana. É pena que tenha desistido dessa novela, mas ainda bem que escreveu este livro.

Segundo o Miguel, este livro "terá algo de ensaio sem o ser". É possível. Mas eu vejo nele um discorrer fascinante de memórias; de registos breves de factos e de acontecimentos vividos pelo autor nas suas viagens e estadias pelo mundo; de relembranças do vasto conjunto de pessoas que marcaram a sua vida; de análise a acontecimentos e situações em vários países, aí incluído Portugal – e é um livro onde a memória da infância alentejana do autor e a memória do Alentejo têm lugar de destaque.

Contudo, este livro é também um despertar da nossa memória – a memória da vasta obra produzida pelo Miguel, designadamente sobre a Ásia Central e a América Latina – que ele conhece como ninguém e onde, no que me toca, aprendi muito.

Vem a propósito, lembrar que soube da existência do Miguel em finais da década de sessenta do século passado, através de um livro que me chegou às mãos, vindo do Brasil, que abordava o tema da luta de guerrilhas na América Latina. Foi um livro marcante para o jovem acabado de sair da prisão que eu era e que me levou a pensar que, a partir dali, seria leitor de tudo o que aquele autor escrevesse. E fui.

Voltando à obra que aqui nos trouxe: este Enquanto a Memória Responde fez-me lembrar, também, a obra de ficção do Miguel – os admiráveis romances Alva e Etna no Vendaval da Perestroika (este escrito em parceria com a Ana Catarina), romances que a crítica dominante silenciou absolutamente, ela lá saberá porquê… – e muitos outros textos do autor: os editoriais de o diário , os muitos artigos publicados no Avante!, os artigos do blogue odiário.info , as intervenções produzidas em dezenas de conferências e fóruns internacionais – sempre escritos de análise profunda da realidade, sempre escritos de resistência e de combate.

Não quero deixar de sublinhar, ainda, a importância de uma outra vertente da actividade do Miguel: os Encontros de Serpa, de que ele tem sido o grande dinamizador e organizador e que constituem das mais relevantes iniciativas realizadas no nosso País, trazendo junto de nós, vindos de todo o mundo, alguns dos maiores pensadores marxistas da actualidade.

Enfim, o Miguel é um homem que tem corrido o mundo a observá-lo, a analisá-lo e a produzir um conjunto de textos notáveis que fazem dele um dos grandes pensadores portugueses do nosso tempo.

Neste livro, o autor convida-nos a conhecer e acompanhar o percurso de um conjunto de personalidades; fala-nos da amizade e do amor; fala-nos da luta dos trabalhadores e dos povos e das dificuldades que se apresentam a quem se bate pela transformação do mundo – fala-nos, por isso, da coragem necessária para lutar – e convoca-nos à reflexão sobre o tempo que vivemos.

Em meia dúzia de páginas, caracteriza o parlamento burguês, a partir da sua própria experiência como deputado comunista, e denuncia a farsa representada pelos deputados da burguesia enquanto avalizadores das decisões do poder executivo, imprimindo uma fachada democrática a um regime que é, de facto, uma ditadura de classe, a ditadura do grande capital.

Noutra meia dúzia de páginas reduz o personagem Mário Soares à sua verdadeira dimensão e identifica cirurgicamente a desprezível criatura como o principal responsável pela contra-revolução.

E por aí afora.

Para o Miguel, a amizade é um valor intrínseco à sua condição de ser humano. Por isso nos fala das suas amizades – das muitas que fez ao longo da vida – a começar pelo "primeiro amigo", o irmão Urbano, passando pelo grande revolucionário e escritor chileno Volodia Teitelboim, pelo general Vasco Gonçalves, figura maior da história do nosso País (de quem o Miguel confessa ter perdido dezenas de cartas que por ele lhe foram enviadas para Havana – dezenas de cartas, cada uma com várias páginas cheias de uma letra miudinha, certamente falando da Revolução de Abril e da contra-revolução que se lhe seguiu; e assim se perdeu um precioso contributo para a história de Portugal nas últimas mais de três décadas. Enfim, uma falha sem desculpa possível…); e a amizade com Marla Muñoz, a maravilhosa camarada cubana (que é também, permitam que aqui o confesse, a minha muito querida amiga Marla), que já esteve aqui connosco, uma vez, na Festa do Avante.

E o Pires Jorge, com o seu sorriso que "irradiava uma alegria que o tornava inconfundível, o sorriso de um homem que amava cada instante da vida", um homem que "não precisou de ler Demócrito e Epicuro para saber que procura da felicidade possível é a suprema aspiração do homem", um homem para o qual "a Revolução é indissociável do desafio de transformar o mundo com alegria e amor, fruindo a beleza do acto de viver"

Como não podia deixar de ser, o Miguel fala-nos também de Cuba e faz a valorização da heróica resistência do povo cubano à longa, implacável e criminosa ofensiva do imperialismo norte-americano – uma resistência sem a qual, diz-nos o autor, a revolução bolivariana não seria hoje uma realidade, sem a qual Evo Morales e Rafael Correa não seriam presidentes da Bolívia e do Equador; uma resistência a confirmar que sim, é possível resistir e travar o colosso imperialista. E expressa preocupações com as dificuldades e os problemas que pesam sobre os comunistas e o povo cubano – mas também a esperança e a confiança em que essas dificuldades e problemas possam ser superados.

A fechar o livro, o Miguel fala-nos, é claro, do amor – da sua companheira, a Caty, a Ana Catarina – naquelas que são, a meu ver, as mais belas páginas deste livro.

Duas últimas observações:

Quando, nos anos sessenta, o Miguel aderiu ao PCP, fê-lo muito à sua maneira: dirigiu-se ao responsável do Partido no Brasil, comunicou-lhe a adesão e fez questão de acrescentar: "Vou lutar com os comunistas pelo tempo adiante. Podem contar comigo para sempre".

E o Partido contou – e conta – com ele para sempre.

A dada altura, diz-nos o Miguel neste seu livro: "Sei que continuarei a escrever até ao fim da vida útil, enquanto for aquele em que, mudando, me reconheço".
Quer isto dizer que vamos ter escritos do Miguel durante muito tempo. E ainda bem,

[*] Director do Avante!. Apresentação realizada em 8 de Setembro na Festa do Avante/2012

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
14/Set/12