por Miguel Urbano Rodrigues
Escrevendo sobre a II República espanhola, Ehrenburg exagerou o negativo
e não captou o positivo. A II Republica fracassou, mas Ehrenburg
não soube compreender os milhões de espanhóis que a
tornaram possível e lutaram para a defender do assalto fascista.
Ilyá Ehrenburg chegou a Espanha em 1931, pouco depois da
proclamação da República. A visita foi breve, alguns
meses. Mas o choque emocional e estético foi tão forte que tentou
transmiti-lo num livro,
España, Republica de Trabajadores,
publicado em 1932 pela Editora Cenit, de Madrid, reeditado pela Critica, de
Barcelona em 1976.
Contrariamente ao que o título sugere, o autor não elogia, sequer
defende a jovem república. Aquilo que viu decepcionou-o.
Conhecer a Espanha era uma aspiração sua desde a
adolescência. Admirava os seus grandes pintores, a sua música; Don
Quijote de Cervantes fascinava-o.
Mas o que observou (e o que sentiu) não correspondeu ao que esperava.
Tinha então 40 anos.
Deceção? Não encontro a palavra.
"Este livro - escreveu no prólogo - foi escrito por um russo e para
russos". O seu povo, como esclarece "tem outras montanhas,
outras necessidades, outro riso". Mas o abismo que separa os
espanhóis dos russos não o impediu de imprimir ao seu livro
"um tom apaixonado".
Creio que ele não conseguiu superar tudo o que dificultava a um
intelectual soviético, comunista, a compreensão do
espetáculo caótico da Espanha no ano 31 do seculo passado.
Em dois meses correu muito pelo país. Esteve em Madrid, Barcelona,
Valencia, Sevilha, Córdoba, Granada, Cádis e mais cidades.
Deambulou pelas planícies da Andaluzia, conheceu as vinhas e olivais de
Jerez, as minas das Astúrias, os estaleiros e tabernas de Bilbau, as
rias galegas, a meseta desolada das duas Castelas, as huertas e os laranjais de
Murcia, as aldeias misérrimas de Las Hurdes. Muita terra, muita gente em
tempo mínimo.
Ehrenburg escreve maravilhosamente. O estilo que o celebrizou em romances,
ensaios, nas memórias, e em reportagens como correspondente de guerra,
é identificável neste livro amargo e apaixonado.
As páginas onde recorre à ironia para caracterizar a desordem, as
contradições, o burlesco, o épico da Espanha que renegara
a monarquia dos Bourbons destilam amargura.
A República somente no nome adotado oficialmente era de trabalhadores.
Nas fábricas, nos campos, nas minas, nos portos, na função
pública os trabalhadores continuavam a ser desprezados e explorados.
Os grandes senhores, intocáveis, mantinham os seus privilégios;
os novos ministros, os governadores, os alcaides da Republica exibiam uma
atitude de classe; os cardeais, os bispos, os curas de aldeia comportavam-se
como o clero da época da Inquisição; a mulher continuava a
ser tratada como fêmea que servia para o prazer e gerar filhos.
Na Espanha tradicionalista, estagnada economicamente, o exército, a
Guardia Civil e a Policia permaneciam, como antes, ao serviço dos
poderosos, vocacionados para a repressão.
É através de breves estórias de párias, de pessoas
vencidas, sem passado e sem futuro, que esboça o mapa humano de uma
República que enterrava a esperança, afundada no imobilismo.
Exagera nas generalizações. O desfile de preguiçosos, de
bêbedos, de políticos incompetentes e corruptos, é
ininterrupto. Choca.
Satiriza a Espanha folclórica, das procissões, dos leques e
peinetas. Condena o mundo cruel das corridas de touros; acha que o trabalho do
toureiro quase não "oferece perigo", porque "os touros
são animais pacíficos".
Mas nem tudo lhe pareceu negativo. A admiração do escritor vai
para a minoria dos inconformados, respeita e elogia os rebeldes, os grevistas,
os trabalhadores revolucionários.
Ecos deturpados da grande revolução que mudou a vida na URSS
chegavam à Espanha da Republica. O país dos sovietes inspirava
admiração aos oprimidos, ódio e medo aos opressores. Mas a
ideia do que ali se passa é confusa.
Ehrenburg gostaria de ter encontrado comunistas responsáveis,
organizados, mobilizados para a transformação da vida. E
não os encontrou. Paradoxalmente é generoso nas referências
aos anarquistas, à FAI. Elogia Durruti, enxerga nele um
revolucionário quase comunista.
Os governos da Republica burguesa de 1931 e 1932 eram - como o escritor afirmou
- profundamente reacionários. Mas ele extrapola, envolve na
crítica a totalidade do aparelho de Estado e a maioria do povo.
Na contra capa do livro, o editor escreve: "O tempo demonstraria a lucidez
com que o escritor russo analisa a realidade daquela república burguesa
que se auto-intitulou com um sarcasmo involuntário
"república de trabalhadores".
Discordo dessa opinião. O escritor exagerou o negativo e não
captou o positivo.
A II Republica fracassou, mas Ehrenburg não soube compreender os
milhões de espanhóis que a tornaram possível e lutaram
para a defender do assalto fascista.
Vila Nova de Gaia, Março de 2015
O original encontra-se em
http://www.odiario.info/?p=3653
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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