por Miguel Urbano Rodrigues
A nomeação por George Bush de Karen Hughes para
subsecretária de Estado da Diplomacia Pública passou quase
despercebida. Essa senhora, sua grande amiga e assessora política,
é uma militante da extrema-direita. Foi-lhe confiada uma tarefa
antecipadamente destinada a fracassar: mudar a imagem dos EUA no mundo.
No momento em que personalidades portuguesas como Mário Soares e o
actual ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, aderiram
apressadamente à campanha de marketing que sugere uma viragem na
estratégia de dominação planetária do sistema de
poder dos EUA julgo útil esclarecer que "o novo estilo" da
política exterior dos EUA, trombeteado como grande acontecimento pelos
média, é ficcional, integrando-se numa campanha mistificadora.
A Administração republicana estava consciente de que o
prestígio dos EUA no mundo caiu para um nível baixíssimo
em consequência das guerras de agressão empreendidas à
revelia do Conselho de Segurança da ONU e dos crimes nelas cometidos.
Daí a necessidade urgente de tomar iniciativas para melhorar a imagem do
sistema e do seu funcionamento.
Condoleeza Rice, a Condy de Bush, deu o sinal da "mudança".
Apareceu nas capitais europeias, distribuindo abraços. O discurso
truculento sobre a "velha Europa" decadente, foi substituído
pelo discurso sobre "a aliança perpetua e indivisível"
e a nova era da cooperação. A tese das acções
militares unilaterais foi de momento engavetada. O secretário da Defesa
Rumsfeld trocou o seu esgar por sorrisos e apresenta agora a Europa como o
primeiro parceiro de Washington.
Thomas Friedman o ex assessor da senhora Madeleine Albright
utiliza a sua coluna no
New York Times
para entoar cânticos ao novo e revolucionário papel dos EUA no
mundo.
Cabe perguntar: o que mudou de fundamental?
Nada, com excepção do palavreado.
O sociólogo estadunidense James Petras e a escritora canadiana Naomi
Klein, duas figuras cimeiras da
intelligentsia
mundial, em artigos publicados respectivamente no diário mexicano
La Jornada
e no jornal
The Nation,
desmontaram bem a ofensiva de
marketing
da Administração Bush. Ela só "engana" aqueles
que a esperavam, como os colunistas da imprensa portuguesa, para fazer dela um
instrumento de desinformação.
Os falcões do Presidente permanecem firmes. Rumsfeld, Paul Wolfowitz
agora indicado pela Casa Branca para a presidência do Banco
Mundial e Feith os três arquitectos das agressões
contra o Afeganistão e o Iraque continuam a por e dispor no
Pentágono, gozando da confiança total de Bush. Não
escondem que planeiam novas guerras. A jovem falcoa Condoleeza alinha com
eles, multiplicando ameaças dirigidas ao Irão, à Coreia do
Norte e a Cuba. O ultimato à Síria demonstrou com clareza
meridiana que Washington pretende recolonizar o Líbano, transformando
aquele país num protectorado.
O novo chefe da Segurança pátria é agora Michael Chertoff,
um sionista militante responsável, após o 11 de Setembro, pelas
detenções maciças de imigrantes muçulmanos sobre os
quais não incidia qualquer acusação. Chertoff foi,
aliás, o autor da famosa
Lei Patriótica,
que legalizou prisões arbitrarias e estimulou a
discriminação racial e a tortura nas prisões.
O subsecretário de Estado para os Assuntos da América Latina
continua a ser Marc Grossman, um anti-chavista fanático que concebeu e
dinamizou campanhas contra a Venezuela Bolivariana.
Alberto Gonzalez, que fez a defesa da tortura no Iraque em nome da
"razão de Estado", foi promovido a Procurador Geral da
União, um dos mais altos cargos da Administração.
John Bolton, outro criminoso, falcão assumido, é o novo
embaixador de Washington na ONU.
O actual director da CIA, Porter Goss, recentemente nomeado, foi em Miami o
promotor de operações clandestinas terroristas da máfia
cubana contra a Cuba revolucionária.
Petras não exagera ao afirmar que "a ofensiva do encanto" de
Bush é «uma fachada provocadora e deliberada para dividir e
conquistar os líderes europeus a fim de que apoiem antigas e novas
guerras".
Alegam os epígonos de serviço que Bush & Condy, em súbita
reviravolta, não falam já em iniciar uma guerra contra o
Irão. Agora agitam o espantalho dos incentivos a Teerão e dizem
confiar nos aliados europeus, como mediadores, para que o governo iraniano
renuncie ao seu programa nuclear.
Santa hipocrisia! O presidente Katami aproveitou o seu encontro com Hugo
Chavez para desmascarar a manobra de Washington. O Irão denunciou como
envenenados os "incentivos" com que lhe acenavam em troca da
renúncia ao seu direito de utilizar a energia nuclear para fins
pacíficos.
O objectivo de George Bush e seus falcões é claro. Conscientes
de que a "mediação" europeia fracassará,
retomarão, na altura própria a linguagem da guerra. Gostariam
então de substituir a cenoura pelo cacete, no caso o arsenal
bélico.
Um alto funcionário dos EUA em declarações à
Agencia Reuters abriu o jogo: "Se em Junho não se tiver chegado a
um resultado nas negociações declarou os europeus
concordarão em levar a questão ao Conselho de Segurança da
ONU". E admitiu que, então, chegaria o momento de desencadear
"um ataque preventivo" como no Iraque, "para implantar a
democracia" no país.
Os projectos da Casa Branca e do Pentágono deixam, entretanto,
transparecer a insuficiência cultural do Presidente e dos seus
colaboradores mais íntimos.
Em primeiro lugar subestimam as contradições entre Washington e
os aliados europeus. Sem excepção estes encaram como
acontecimento calamitoso uma nova guerra norte-americana no Oriente
Médio.
Em segundo lugar, os EUA não estão em condições de
invadir o Irão. Atolados no Iraque, onde a guerra está perdida,
não dispõem de homens nem de recursos financeiros (os
défices comercial, fiscal e de conta corrente, astronómicos,
continuam a aumentar, bem como a divida externa, a maior do mundo) para se
envolverem num conflito de proporções muito maiores.
A quase totalidade do seu actual exército profissional uns 250
mil soldados preparados para utilizar armas de alta tecnologia
encontra-se no Iraque, na Coreia e em bases militares de grande
importância estratégica.
Os generais mais sensatos do Pentágono não desconhecem,
aliás, que uma invasão do Irão colocaria problemas
insolúveis. O país, com 1 650 000 quilómetros quadrados,
é quatro vezes maior do que o Iraque, tem 70 milhões de
habitantes, praticamente uma única religião e o seu povo assume
com orgulho a herança de uma das culturas a Persa que mais
decisivamente contribuiu para o progresso da humanidade.
Washington poderia é uma hipótese optar não
por um ataque global de grande envergadura, mas por um bombardeamento de
instalações nucleares, recorrendo eventualmente a Israel, o
aliado fidelíssimo. Mas o resultado dessa variante reconhece a
própria imprensa estadunidense seria pífio, apenas
contribuindo para estimular a vaga de anti-americanismo no mundo islâmico.
O que preocupa a Casa Branca e motiva a campanha anti-iraniana não
é aliás o programa nuclear da pátria de Omar Kayan. O
projecto iraniano de criar uma Bolsa de Valores em Teerão na qual o
petróleo será cotizado em euros alarmou Washington. Segundo o
organograma aprovado essa Bolsa começará a funcionar no
início de 2006. O director do projecto, Mohamad Javad Asempour, admite
que a iniciativa do seu país poderá atrair operadores de outros
estados da OPEP e da área do Cáspio.
No Iraque as coisas também correm mal para os EUA.
Naomi Klein lembra-nos que o namoro curdo está a custar caro aos EUA.
O ex-proconsul Paul Bremer concebeu uma mascarada eleitoral que garantiu
àquela minoria étnica 27% dos lugares da Assembleia Nacional
não obstante ela representar apenas 15% da população
iraquiana. Como a Constituição imposta por Washington exige
maiorias altíssimas para decisões importantes, "os curdos
mantêm agora o pais sequestrado".
"O seu objectivo principal escreve Naomi é controlar
Kirkuk; se o alcançarem e depois decidirem proclamar a
independência o Curdistão iraquiano incluirá os grandes
campos petrolíferos do norte".
Conclusão: a aliança de Washington com os curdos iraquianos
entregou a estes na prática um poder de veto sobre o futuro do Estado
fantoche instalado em Bagdad. É compreensível que o governo da
Turquia país onde vivem mais de 15 milhões de curdos
encare com muita apreensão o desenvolvimento da
situação criada na sua fronteira do sudeste.
O panorama na Região é sombrio. Aponta para o malogro
inevitável da missão confiada à subsecretária de
Estado da Diplomacia Publica.
Na própria Casa Branca o cepticismo quanto à melhora da imagem
dos EUA é tão forte que George Bush mantem intacta a sua
confiança na Diplomacia Secreta, bem enraizada na tradição
nacional. A nomeação de John Negroponte para chefe da
recém criada Agencia Nacional de Inteligência expressa a dualidade
de políticas na aparência antagónicas. Negroponte que foi
o sucessor de Bremer em Bagdad é um veterano de operações
encobertas. Orgulha-se de ter iniciado a sua carreira política como
organizador dos esquadrões da morte nas Honduras e do apoio clandestino
aos contra nicaraguenses. Maus leitores de Clausewitz, tanto ele como o seu
Presidente acreditam que o recurso ao "poder duro" (a guerra
preventiva) é o desfecho natural do "poder brando" (a
diplomacia).
Reflectindo sobre a complexidade da conjuntura, James Petras lançou um
alerta: "Os dirigentes da Europa terão de optar entre tomar um
rumo divergente do poder global através do comércio, da
diplomacia e da pressão diplomática, ou capitular perante um
regime dominado por civis militaristas, extremistas, movidos pelo desejo
irracional de um confronto militar com a China, de intervirem na Venezuela, de
destruírem os adversários de Israel no Médio Oriente, e de
provocarem a Rússia".
O discurso do jovem governo socrático de Portugal demonstra que essa
evidencia não está a ser captada pelo Partido Socialista.
Serpa, 17/Março/2005
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